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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

ANJO DO LÚMEN


16h55. Sábado, uma festa de 15 anos me espera, uma que não estava esperando, e enquanto o momento de ir não se faz, não tenho absolutamente nada para fazer. O único recanto onde me sinto acolhido e me reconheço é aqui. Blanka disse que só vai se comunicar hoje à noite comigo. Se o fizer. E, caso faça, creio que vai ser rápido, pois final de semana é para curtir com os amigos. Ou ir para inesperadas festas de 15 anos. Minha vontade é dormir, mas estou tomando café, faltam umas duas xícaras para acabar, quando der cabo delas, vou me deitar nem que seja para ficar protrado sem colocar arreios na mente, no geladinho do quarto-ilha. Ouvindo um som e me deixando levar pela existência rumo ao meu fim. A mim me soa como um imenso desperdício de precioso tempo, mas me faltam alternativas ou não tenho motivação para criá-las ou implementá-las. Meu novo post no blog de bonecos não está tendo a resposta esperada, mas isso não me incomoda. Muito. Estou fumando demais hoje, a vontade já se faz presente de novo. Não me incomoda isso também. Há de se viver com satisfação para que a existência seja válida e estou muito satisfeito com o que tenho e posso. Blanka, caso não me abandone, caso se acomode a estar na minha vida, me fará, como já faz, um bem enorme. Quero-a nua, é algo tão belo de se ver, preciso disso, me fará extremamente bem tocar e beijar a sua nudez. Tão jovem e tão de acordo com os meus gostos, com as minhas predileções estéticas.

17h22. Ainda bem que só faltava uma xícara. A ideia de me deitar e me deixar deitado repousando me agrada bastante. Ficarei, como diz o popular, “bostejando”. Eu posso, eu quero, eu faço. Não faço mal a ninguém. Interfiro o mínimo possível na existência. Nada me alcança e muito pouco parte de mim. A materialidade, afora a das ondas sonoras que emanam em música, será secundária e a parcela que usufruo dela, o lençol, a cama e o travesseiro são como carinhos da existência. Minha mãe despertou, espero que isso não atrapalhe os meus planos agora que acabei de tomar a última xícara de café. Acho que vou fumar um último cigarro antes de me deitar e repartir com mamãe tal intenção para que ela não me incomode. Acredito que ainda há tempo bastante para a festa, uma hora, hora e meia que me deite não atrapalhará a logística do evento.

0h e alguma coisa, via e-mail:

“Eu tendo a escapar de momentos emocionantes que não me emocionam. Tenho o cigarro como parceiro e justificativa das minhas fugas. Estão no clímax da festa, a aniversariante debuta, a valsa vai se iniciar depois da entrada da estrela da noite acompanhada de suas amigas mais amigas e de várias declarações de amor. Enquanto tudo isso se dá eu estou do lado de fora, na calçada a digitar sobre minha frigidez em relação aos ritos sociais de passagem. Eita, agora os parabéns, talvez o momento mais insuportável, mais constrangedor, mais difícil para mim. Odeio e não sei de onde vem essa repulsa. Vou voltar lá para dentro, preciso de Coca para acompanhar o próximo cigarro. Vou me enviar isso.”




1h50. Estou de volta ao meu quarto-ilha, ao friozinho, aos pijamas, a Björk, às palavras. Desativar o click pad. Estou a fim de esticar as ideias. Sinto saudade de Blanka.

-x-x-x-x-

14h24. Comi e dormi, não tive disposição para mais nada. Acordei hoje com uma alegre surpresa, um filhote de yorkshire da minha irmã PE e sua ilustre presença em minha casa. Cachorros jovens me trazem muita alegria e simpatia, cachorros velhos me deprimem principalmente se os conheci à época de suas efêmeras juventudes. São a prova mais clara da degradação física da velhice aos meus olhos. Sou tomado de piedade e certa negação por cachorros velhos, sou tomado de alegria por cachorros jovens, mais do que por crianças, parece que eu mesmo rejuvenesço na presença dos bichinhos e geralmente tenho uma relação fácil com eles, o que não se dá com pequenos humanos.

14h47. Acabei de descobrir que entrei há 8 anos no Facebook. 16 de dezembro. Uma vida. De cachorro. Queria esticar as ideias, mas não há como. Vou divulgar o post anterior nos grupos.

14h57. Divulgar o post no Facebook com a internet lenta como está é um exercício de paciência e persistência, saco. Escrevo aqui enquanto a nova página carrega...

15h30. Finalmente consegui publicar em todos os grupos. Saco. Parece que a internet ganhou um pouco mais de gás na parte final do processo. Quem está sem gás sou eu. Hoje é o dia que Blanka passa com Dande, logo dificilmente terei notícias suas. Um momento.

15h48. Hoje é um dia em que não sei o que fazer da vida, a vontade é deitar e me deixar estar. Não o farei por ora... fui tentar navegar um pouco na rede mundial de computadores e foi impossível na velocidade em que a conexão está. Close To Me rolando. Marasmo total. Talvez o Switch. Me parece melhor do que ficar aqui a divagar sobre a minha apatia.

17h02. Joguei um pouco de Inside, cheguei numa parte que não sei como superar, sem paciência, coloquei uma Coca e liguei o ar. Decidi me deitar. Praticamente sem internet ou com ela na velocidade da internet discada com os complexos conteúdos atuais não dá para mim. Vou tomar mais um copo de Coca e fumar um cigarro e bostejar. Ah, e colocar um som.

19h31. Acabei de bostejar e estava no mesmo (baixo) astral de antes até que vi a internet funcionando de forma decente, fui fumar para celebrar e falei com o meu amado irmão US o que me transmitiu uma energia tão boa que me sinto agora feliz. Aparentemente, ele vai trazer mais bonecos do que eu previa o que é a melhor notícia que poderia me dar. Duvido que consiga, entretanto, então não vou criar grandes expectativas. Droga, as expectativas já cresceram. Mas vou tentar reduzi-las novamente.

19h53. Fui fumar um cigarro sonhando com a minha Red Sonja Queen of the Scavengers. Acho que essa certamente virá, é a primeira da lista. Esse post está inútil tal como está, não vou nem divulgar. O que quero é mergulhar no mundo dos bonecos.

22h51. Mergulhei no maravilhoso mundo dos bonecos e voltarei para lá, mas não agora, agora quero me deixar aqui. Coloque The Hanging Garden. I feel the urge to write to my statues blog. Let’s see where it goes.

-x-x-x-x-

13h02. Não foi muito longe ou foi longe demais em muito pouco tempo, daí senti a fome dos remédios, comi como um cavalo e fui tomado pelo sono. Improdutivo. Blanka me mandou mensagens, mas eu estava dormindo. Fui ver e responder agora. Meu padrasto quer obrigar a minha mãe a delegar tarefas burocráticas a mim que odeio e pouco entendo de burocracia.

13h44. Não estou com disposição de nada hoje, aliás, isso já vem desde a sexta ou sábado. Tudo corre bem em minha vida, o que não corre caminha até direitinho que é a minha relação com Blanka. Percalços e poréns não faltam se entrepondo entre nós e não fazem menção de diminuir. É aprender a conviver e administrar.

13h56. Nossa, hoje está muito abafado. Graças à existência que me pôs nestas condições, eu tenho ar condicionado no meu quarto. Encontrei uma boa motivação para ir a Ju, o anjo do Lúmen. Se trocaria Blanka por ela? Com Blanka eu já tenho uma construção, um vínculo, com ela nada tenho. Acho que tentaria conciliar as duas e então decidir, se fosse me dada a oportunidade, o que não ocorrerá. Descartar pessoas também não é das minhas qualidades, acho extremamente difícil e doloroso. Talvez para Blanka a vida fosse melhor e mais fácil sem mim. Certamente seria, tudo voltaria ao equilíbrio anterior e custaria menos esforço para ser levada. Eu sou algo de novo e que precisa de espaço, que demanda uma reorganização de sua rotina para me acolher. Eu tenho que valer a pena tal esforço aos olhos dela. Estou fazendo o meu melhor e o que tiver de ser será. Não gostaria de voltar às paixões platônicas. A mais nova, o anjo do Lúmen. Penso em deixar um bilhete para ela com o meu endereço de Facebook. E meu WhatsApp. Vou ver se a coragem desabrocha para que faça isso. Eu poderia digitar e imprimir, eis o que vou escrever:

“Olá anjo do Lúmen,

Não sei nem o seu nome, sei apenas que é dos seres mais lindos com o qual tive oportunidade de cruzar e que sua existência torna a minha mais encantada, por isso a ousadia desse bilhete. A vida às vezes dá oportunidades, mas na maioria das vezes somos nós que temos que criá-las. Bem, esta é a minha tentativa. O não, o nunca, é o que tenho antes dessas palavras, não sei se elas serão capazes de mudar a atual situação, mas custa tão pouco tentar. Bem, nem tão pouco assim, pois ter a bravura de lhe entregar tais palavras exige um esforço ao qual estou completamente desacostumado e despreparado. Pode ser que nem aceite o bilhete. Tudo pode ser. Descobriremos. Esteticamente e como se coloca no mundo me agrada sobremaneira. Sei que a recíproca não é verdadeira, não sou nenhum expoente de beleza masculina, entretanto é no conteúdo que duas almas encontram verdadeiramente se há material para uma construção sólida a dois, mesmo que uma amizade, embora confesso que tenho expectativas mais românticas a seu respeito. Pois é, sou dessa espécie em extinção, inveteradamente romântico. O resto você descobrirá (ou não) me adicionando (ou não) em uma das redes sociais abaixo.  

WhatsApp
Facebook
Instagram

Bom, anjo do Lúmen, pelo menos tentei criar a oportunidade e oferecer o espaço para nos desvendarmos. Considere com carinho. Se for comprometida, desconsidere tudo o que escrevi. Ou não. :)



Mário.”

15h12. Bom acabei de imprimir duas vias, uma para o anjo, outra para Ju. Preciso me arrumar e chegar lá cedo se quiser cruzar com ela. Espero ter coragem para entregar o bilhete. Não vai dar em nada, mas gosto dessas trelas, dessas cutucadas que dou na existência, fazendo o papel de acaso-destino para outra pessoa. Surpreendendo. Quem sabe não seja eu também surpreendido? Vou lá. Na volta conto.

17h57. Entreguei o bilhete. Acho que ela é psicóloga do lugar, não vai dar em nada, pelo menos mal não fiz, devo ter no mínimo acariciado o seu ego. Estou preocupado é com a festa de Natal dos Barros, de não saber tratar Blanka como namorada, já lhe escrevi pedindo ajuda. Espero que me responda e me acalme. Deve ainda estar na cidade. Mais no próximo post. Será que Blanka ficaria com ciúme de eu ter entregado o bilhete? Sinceramente não sei.

sábado, 5 de maio de 2018

CARTA À GAROTA DA NOITE


3h09. Cheguei de uma noite ótima, com amigos e amigas queridos e debatemos muito sobre relacionamentos e sobre como seduzir uma garota. E como pôr tudo a perder. Isso me inspirou a escrever para você. É um passatempo divertido que me faz esquecer um pouco dos meus dilemas existenciais, que é sobre o que mais escrevo. É bom dar uma variada. Sobre como botar tudo a perder, entendi que tudo o que lhe enviei até agora foi perda de tempo. Não que isto também não seja. Mas como disse, passatempo. E escrever é o grande barato da minha vida. Empatado com amar (e ser amado, obviamente). Obviamente também não poderíamos estar mais distantes disso. Sou um sonhador realista. Hahaha. Talvez você me tenha por algum tipo de weirdo, o que não está muito distante da verdade. Um cara que passa os dias escrevendo e tendo extremo prazer com isso é algo sui generis. Mais sui generis ainda um cara que mal conhece você, ficar se dando ao trabalho de lhe escrever asneiras, quando já ficou claro que você, embora leia, não dê o mínimo valor ou ache ridículo e até estranho. Para tornar-me ainda mais weirdo, eu tenho um histórico de abuso de drogas. De toda forma, creio que poucos homens na sua vida se dispuseram a tanto recebendo em troca tão pouco. Como disse, me diverte escrever para uma pessoa que acho encantadora e que eu acredito que tenha algo na cabeça. Não é apenas um patricinha desmiolada. Mas uma coisa eu aprendi hoje, e que foi muito ressaltada, é que não devo colocar você – ou mulher nenhuma por quem venha me interessar – em um pedestal. Você come, anda e caga como eu. E pensa, apesar de aparentemente bem diferente de mim. De toda sorte, somos dois seres humanos adultos, logo bastante semelhantes. Estranho seria eu me encantar por uma mariposa, o que de fato aconteceu hoje no final do dia, pensando que ela não possuía as neuroses dos homens e ainda podia voar. É um ser interessante. E seres interessantes, bem, me interessam. Considero você um ser interessante. Acho um espécime belo de homo sapiens e tenho muita curiosidade em saber o que se passa na sua cabeça. Se há pontos de interesse semelhantes, quais as suas expectativas, seus sonhos, seus desejos, seus erros, até seus defeitos me interessam. Tenho curiosidade que não sei bem como surgiu, acho que foi de lhe olhar existindo num show de Os Caetanos. Aquilo me pareceu superiormente interessante e, desde então, periodicamente, quando me dá no tino, weirdo que sou, escrevo para você. Não vejo possibilidade de você me encarar com seriedade e mesmo assim é um gostoso passatempo lhe passar algumas palavras. Porque desejo você, mas acho desejo muito pouco, é algo meramente estético e sexual. Que aparentemente é o que você procura no lidar com os homens. Não critico, cada um tem seus gostos. Eu gosto de intimidade, acho uma commodity rara nos dias de hoje e, para mim, weirdo, uma das mais preciosas. Gostaria de construir intimidade com você, já me reparti bastante contigo, então você já possui certa intimidade comigo. A recíproca não é verdadeira nem nunca será provavelmente, tendo em vista o nosso histórico, que aponta para você não querer coabitar o mesmo espaço que eu, que dirá bater um papo. Não me resta alternativa, que novamente digo ser muito divertida, senão fazer monólogos e enviar os links para você. É um desperdício de palavras, mas tenho palavras de sobra para gastar, não me farão falta. Você teria gostado do encontro de hoje, a maioria era de psicólogos(as). É sempre curioso e informativo debater com eles sobre a natureza humana. Outra coisa que disseram é para não ser muito pegajoso, o que acho que você deve achar que eu sou. Mas está redondamente enganada. Eu gosto da minha privacidade e gosto de ter meu tempo só para mim. Prezo isso tanto quando arrumar uma companheira legal para construir uma relação. Eu – e isso admito – tenho dificuldade de largar o osso. Eu já deveria ter mandado você à merda e partido para outra. Fato é que não vi presença feminina mais interessante que a sua. E o fato de praticamente fazermos parte do mesmo círculo social, é uma coisa que tem um sabor de infundada esperança de que possamos interagir algum dia desse, nalguma night dessas em que nossos destinos resolverem se cruzar. Ah, outra coisa que aprendi hoje sobre jogos de sedução é que se a garota rejeita dois convites, é melhor dispensá-la. Eu só fiz um e acho que não farei o próximo. Nossa, como me acho ridículo escrevendo isso para você. A palavra “babaca” solapa a minha consciência. Que seja babaca, faço porque quero. Ninguém está me obrigando a escrever para você. Eu o faço de livre e espontânea vontade, por mais que saiba que não tirarei proveito disso a não ser o prazer da escrita em si. Que seja. Mas até pensei no seu presente de aniversário, que não sei quando é, mas o Facebook me alertará. E quando ele o fizer eu desfarei a nossa amizade na dita rede social, lhe livrando de mim de uma vez por todas. Para que não fique ciberneticamente chato para você, eu mesmo faço, não se preocupe, sei que lhe trará alívio. Você deixará de ser um divertido passatempo para virar passado. Mais uma lição da noite de hoje foi descobrir que eu sou um homem interessante, diferenciado. Mas de nada adianta para olhos que não querem ver. Ou ver além do estético. Sei que nessa parte fico devendo ao meu amigo cervejeiro e ao meu amigo bonitão, mas não se pode ter tudo, não é? Pelo menos não tenho nenhuma deformidade e algumas vezes posso ser formidável. Há mais uma lição que aprendi, que mulher não gosta de homem romântico num primeiro momento. Gosta depois. Eu que nada entendo de relacionamentos, aceitei a regra como uma revelação divina e, por isso, o tom deste texto. Para falar a verdade, pouco se me dá a sua reação a ele. Sei que ele não mudará em nada a postura distante e evitativa que você tem em relação a mim. Que me ignore, que me evite, que fuja de qualquer lugar onde estejamos. Não me incomoda. Você é um passatempo. Poderia ser muito mais que isso. Mas não depende de mim. Eu já botei as minhas cartas todas na mesa. Não há muito mais que possa fazer. Você sabe do meu interesse, sabe da minha vida. Ah, há uma novidade, escrevi um livro. Só não tenho certeza de que vou publicá-lo. Há várias pessoas interessadas em lê-lo, o que não deixa de ser surpreendente. Já está sendo revisado. Não sei se darei o grande passo de publicá-lo. Se for, lhe convido. Será o meu último convite. Chama-se “Diário do Manicômio”, um título que eu acho bastante autoexplicativo. É isso. Que você tenha uma vida, boa, honesta, próspera e feliz.  

sexta-feira, 9 de março de 2018

TERAPIA III E HULK!


Foto mais brega do mundo, dono feliz ao lado do seu brinquedo.



13h27. Eu uso muito a dimensão racional, deixando de lado a dimensão afetiva e a dimensão corporal. Ju sente que há algo desencaixado em mim. Em quem eu sou, eu preciso me perceber e me definir melhor, definir qual é o papel desse ser que não é só mente, é também carnes, ossos, veias, coração. Estar mais atento aos sinais do meu corpo. Falei que a cola andava me rondando, mas ela conseguiu espantá-la. Nós conseguimos espantá-la. Graças. Não quero nem falar desse assunto para não o trazer aos holofotes do meu ser. Como me sinto? Com obrigações e não gosto delas. Aliás com uma obrigação, andar. Não sei se vou andar. Não daqui até segunda, dia da nossa quarta sessão. Disse que me sinto infantilóide por ter 40 anos e não ter emprego, mulher, filhos, carro. E a verdade é que não quero nada disso. Estou com sono. Falamos até do Hulk. Por sinal cadê o cara da DHL que iria ligar para mim? Da última vez ele ligou por volta das 14h30, são 13h53. Vou pegar Coca, estou meio sem cérebro, acho que é a falta de cafeína. Estou sem confiança em mim mesmo, acho que é nisso que sou mais infantil. Adultos são seres mais autoconfiantes. Houve um momento em que me disse em estado de mania, mas fiquei em dúvida se era estado de mania mesmo ou se eu era uma pessoa mais sociável mesmo. Acreditei mais na segunda hipótese. Foi o episódio da minha primeira viagem a Munique, quando escrevi uma carta de despedida para todos os moradores do prédio da minha irmã e coloquei nas caixas postais deles. Não faria nunca isso hoje em dia. Acho inclusive que foi um tanto excessivo da minha parte, por isso suspeitei da mania. Ju, disse que estar em mania ou não faria toda a diferença sobre a sua ótica em relação ao episódio, eu disse que achava que não estava, mas não tinha certeza. 14h21. Se a DHL não ligar até as 14h38, eu ligo para eles. Melhor ligar logo, né? Acabar com o suspense.

14h24. “Esse número que você ligou não recebe chamadas ou não existe”, ou seja, estou na dependência de eles me ligarem. O suspense continua. Enquanto isso, que posso dizer mais sobre a terapia? Falei da agonia profunda que me deu quando fui pegar o elevador para ir à casa do meu primo. Falei da parte da troca com o outro, que achava que havia me doado mais nessa última saída, mas nem sei se isso se deu mesmo. Acho que sim. Mas muito pouco ainda. Sempre fui mais de assimilar e indagar do que me proferir.





16h16. O Hulk está aqui! Chegou há mais ou menos uma hora, esse tempo todo passei a admirá-lo. Consegui botar no lugar da impressora e dos CDs, que estão no chão à espera da fantástica faxineira. É uma peça gigantesca e impactante, as outras empalidecem em comparação. Eu não poderia estar mais feliz. A pintura está decente e realmente acrescenta profundidade e vida ao busto. A base não é feia. Eu não consigo parar de olhar. Até o cheiro é bom. Para mim é de longe a melhor escultura do Hulk já feita. Há algumas falhas pequenas no molde, na parte das costas, mas nada de gritante. Para os que reclamavam de que ele não era verde o suficiente, ele parece bem verde para mim. É a realização de um sonho. A escultura atinge o perfeito equilíbrio entre o hiper-realismo e o visual de HQ. É simplesmente fantástico. Será um prazer imenso escrever aqui e poder olhar para ele todos os dias. Com esse acontecimento, a terapia meio que foi para o espaço. Eu só posso imaginar o trabalho que deu esculpir cada poro, cada marca da pele. É um trabalho de escultura estupendo. E feito à mão. Adoro peças feitas à mão, embora tenha algumas modeladas por computador. O Hulk rouba a atenção de qualquer um que entre no quarto. Impossível não notar a enorme presença da peça. E logo na entrada assim. Será a minha carranca. Me protegerá das forças do mal que porventura quiserem se arriscar a entrar no meu quarto. Hahaha. Foi muito melhor tê-lo tirado já da caixa e expô-lo. A caixa tomaria um espaço enorme do meu quarto. E não poderia ficar olhando para ele, como posso agora. Mandei até para o WhatsApp da minha família materna. E para o meu primo urbano. E para o meu primo-irmão. E para os meus irmãos. E para o meu cunhado. E acabei de mandar para a minha tia-mãe, agora que estava revisando. Não adianta, eu escrevo uma frase e fico olhando para ele. Nem acredito que está aqui no meu quarto-ilha ao meu lado. À medida que a luz diminui, já são 17h11, os contrastes de verde vão se perdendo, curioso isso. Mamãe quase paga duas vezes a tributação absurda da figura. Foi por pouco. Estou que nem pinto no lixo. Espero nunca me acostumar com a visão do gigante esmeralda.





17h33. Postei no grupo de bonecos que frequento as fotos que aqui publico. Precisava provar ao maravilhoso mundo dos bonecos que eu sou um colecionador. Sempre houve essa dúvida em relação à minha pessoa, pois nunca postei nada da minha coleção. E nada como um busto em tamanho real do Hulk para provar isso de maneira grandiosa. Estou achando interessantíssimo como a falta de luz priva primeiro a visão das cores e só depois das formas. Nunca tinha me apercebido disso até o Hulk.

17h54. Agora que anoiteceu, estou o olhando sob a luz do teto. Muito melhor com a luz natural. Mesmo assim, eu simplesmente amo essa estátua. É, dos poucos bens que eu tenho, um dos mais preciosos e queridos, desde já. Desde que o vi quando o cara da DHL abriu a caixa. Os tons de verde se diluem nessa luz amarelada do meu quarto. Não consigo tirar foto que faça jus a imagem. Desisto. Vou publicar só as três mesmo. Acho meio babaca tirar foto junto com o boneco, mas não resisti. Vou tentar me focar aqui. Acho que vou revisar o outro post.

19h40. Revisei e postei. Agora vou comprar Coca.

20h15. Voltei da Coca e estava a admirar o Hulk. Como mais novo membro da minha plateia, ele será iniciado em Björk agora. “Utopia” nele.

20h19. Está difícil escrever hoje, estou enamorado do busto do Hulk. As linhas em alguns momentos quase geométricas me encantam. Ainda é difícil acreditar que ele esteja aqui na minha bancada. Sua cabeça é consideravelmente maior que a minha. Ele é tudo o que esperava. E esperava muito dessa peça. Foi o melhor presente que poderia ter me dado. Não consigo pensar em coisa outra que me cause tamanho agrado. Tamanho encantamento. Só uma namorada mesmo. Olhar para ele me faz esquecer quaisquer problemas, quaisquer dilemas. A fantástica faxineira vai achar horrível, até porque ela não gosta do Hulk. Hahaha. Mas eu consigo ver beleza na besta. Eu considero uma obra de pop arte. Uma obra-prima. Dificilmente o escultor terá o mesmo sucesso uma vez mais. Vi que ele está fazendo um busto do Wolverine, mas já se repete nos padrões e esses não cabem tão bem quanto no Hulk. O Hulk é único, incomparável, está para os bonecos como o Super Mario Odyssey está para os games, ou seja, são os suprassumos de cada área. E fiquei surpreso com a pintura. Está longe de ser perfeita, mas está boa, muito melhor do que eu esperava. Pena que na luz amarelada os tons de verde se misturem. Se me for possível vou querer iluminação branca para ele. Nossa, como gostei do Hulk. Olhar para ele me causa profundo bem-estar. A existência tem dessas coisas maravilhosas e sou profundamente grato por isso. E grato à minha mãe que levou com serenidade todo o processo.

20h50. Meu padrasto aparentemente chegou. Mas não consigo tirar os meus olhos e meu pensamento do Hulk. A melhor definição já foi dada, estou enamorado da estátua. Eita, publicaram o meu feedback na página da estátua no site da Sideshow. Coroou o meu dia. Nem esperava por essa. Agora estou ainda mais feliz. Felicidade que custou caro, mas que vale cada centavo. Como citava meu pai, “a thing of beauty is a joy forever”. É uma peça que parece custar o quanto custa, na minha opinião. Menos os impostos, digo. Não parece overpriced como algumas outras que circulam por aí. Embora muitas pessoas achariam um absurdo pagar o que paguei por ela, elas entenderiam, o que não se dá com as estátuas de 1/4. Já estou bocejando de sono. Acho que porque acordei às 10h00. Mas vou tentar voltar um pouco a terapia. Ju disse que existe algo desencaixado em mim, ela não nomeou o que era, embora eu suspeite que ela saiba. Se eu conseguisse me lembrar, perguntaria qual era o seu palpite, onde estava o desencaixe. Porém sei que daqui para lá terei esquecido isso, o que é uma pena. Ou não, esse é o fluxo da minha vida. Se for realmente relevante para mim, eu hei de me lembrar. Descobrirei. Pode ser que ela mesma toque no assunto. Falando da dimensão do afeto, eu me acho ao mesmo tempo extremamente carente e esvaziado de afeto, como se a falta fosse tanta que tivesse me deixado dormente, é a melhor descrição da minha dimensão afetiva, dormente de tanta carência. Sobre a dimensão do corpo, dou a ele todo o conforto que precisa e nenhum exercício. O que corrobora para a teoria de Ju que eu só cuido da dimensão mental. Pela forma que ela falou, eu acho que ela pensa como eu em relação às ideias, que todas já existem, falta apenas alguém com as qualidades e características certas no tempo certo para apreendê-las. Mas isso sou eu colocando palavras na boca dela, ela não verbalizou isso. Disse que tudo estava no ar, por aí. No éter. Aí olho para o Hulk e penso que essa criação só poderia ser feita por esse escultor por causa do estilo dele, acho que essa coisa de estilo, que cada pessoa tem um traço diferente, como tem uma caligrafia diferente, é inerente da pessoa não é apreendido de algum lugar é nato. Outra pessoa pode até imitar e imitar bem, mas aí estará reprimindo o próprio estilo, a própria voz. O que nos traz até a escrita, especificamente a escrita deste blog, será que eu tenho uma voz própria? Eu não a reconheço, apenas uso as palavras que estão aí disponíveis para todo mundo. Não consigo perceber um estilo meu, algo que diferencie o meu texto dos demais. Isso me frustra um pouco. Por mais que escreva e escreva eu não acho que me diferencie em nada de qualquer outro joão ninguém que tenta também um lugar ao sol. Por isso mesmo nunca conseguirei o meu lugar ao sol. Aliás, já tenho o meu lugar ao sol, este aqui, pena que o sol, a luz do olhar dos leitores não recaia sobre mim, mas tenho um espaço meu, um espaço querido e nutrido com o que de melhor tenho a oferecer. Se não é suficiente, não há muito mais o que possa fazer. Voltando à terapia, como desenvolver a parte do afeto? O físico eu sei, começar a andar e fazer uns marinheiros. Mas não encontro motivação para isso no momento. Quando a garota da noite se me afigurava como uma distante possibilidade, eu sentia motivação para tais coisas. Agora que ela está a anos-luz de distância é apenas um ponto brilhante no firmamento do meu ser, fica mais difícil. Como me reaproximar dela? Certamente não publicando uma foto minha com um boneco. Hahaha. Amanhã vou fazer uma coisa pelo meu corpo, a barba, quando a fantástica faxineira vier arrumar o meu quarto. Vou fumar um cigarro de verdade.

22h28. Fumei. Cruzei com a minha tia-vizinha e ela me falou que a minha prima de Natal abandonou o emprego e vai cursar Teologia. Sem dúvida uma guinada inusitada na sua vida. Acho ela meio maluquete, mas ao mesmo tempo muito dona se si e de suas vontades. Não sei se gostaria de ser como ela, mas pelo menos um pouquinho eu gostaria, de dar a cara a tapa, não só no âmbito desses textos, mas na vida de fato, na vida com as demais pessoas. Tal atitude até me motivou, mas já desmotivou pela falta do que dizer, a escrever a carta para a garota da noite. Vou ensaiar aí embaixo para ver no que é que dá.

Garota da noite, é como lhe chamo no meu blog – e você aparece nele com uma frequência inesperada até para mim – venho por meio desta não sei bem nem o quê. Talvez me repartir um pouco mais com você. Por que, se só cruzei com você três vezes na minha vida e você só me dirigiu meia frase quando lhe perguntei porque você trabalhava num hospital e você só começou a responder até que um amigo seu lhe chamou a atenção e você se desconectou completamente de mim. Não sei se errei na abordagem, não sei muito dos relacionamentos modernos, sou meio romântico, sabe, essa coisa fora de moda e arcaica. Mas sou assim. Pelo menos não vejo você como um cabide de buceta, um objeto a ser consumido, nessa época em que até as relações são consumistas e superficiais. É o sexo pelo sexo e um abraço. Ou pelo menos é assim que percebo. Não é o que busco. O que busco é algo muito mais precioso, na minha romântica e talvez equivocada visão, que é intimidade, companheirismo, cumplicidade. Claro que busco paixão também, mas bem sei que a paixão é um fogo ardente que não dura muito, mas também sei que o que vem depois, embora mais brando, é igualmente encantador. O tempo passa e eu continuo só, por conta da timidez e uma escassez de autoconfiança. Fato é que, por alguma razão que me escapa a razão, todas as projeções que faço de um relacionamento – essa palavra tão temida nos dias de hoje – é você quem aparece como protagonista ao meu lado. Esse texto está ficando uma grande bosta, mas estou escrevendo de coração e algo me impele a continuar, talvez seja a falta de senso de ridículo, talvez seja porque vi em você uma pessoa especial que me calou fundo à alma. Não acredito em alma, é só um recurso linguístico que às vezes gosto de usar por me parecer poético. Me perdi nos pensamentos. Mas acho que a razão desse texto é dizer que estou disponível para você e que se você quiser aproveitar e experimentar algo diferente do que vem experimentando, se quiser me conhecer mais a fundo e descobrir se é possível ou não construirmos uma relação, basta estender a mão, me chamar, pelo Facebook mesmo, e podemos nos aventurar nisso juntos. Pode não dar em nada, pode ser que descubramos não ter nada a ver um com o outro. Talvez você já tenha um preconceito em relação à minha pessoa depois de tudo o que contei do meu passado negro como a asa da graúna. Mas os tempos mudam, as pessoas mudam e conseguem superar adversidades. Eu acho que me enquadro nesse grupo. Neuróticos acredito que nós seremos até o final da vida, o que não faz muita diferença, é só administrar tais neuroses. Ah, o final da vida, como com a passagem do tempo ele se aproxima em galopada cada vez mais veloz. Um ano para mim hoje me parece durar um trimestre. E isso me assusta, ver o tempo passando e eu repleto de solidão. Sinto falta de trocar carinhos, confidências de ter uma saudade boa, que é a saudade que tem data e hora para acabar. As saudades sem dono, sem destinatário, são saudades tristes. Tenho o meu quinhão delas. De pessoas que partiram para nunca mais. Mas trato aqui da saudade dos enamorados. Sei que não faço o tipo atraente. Não sou o nosso amigo bonitão ou o nosso amigo cervejeiro, mas acho que tenho guardado em algum recôndito do ser algo muito bonito para lhe oferecer. Só sei que com a timidez quase patológica que me aflige nesses dias em que vivo, eu preciso da sua ajuda, para me resgatar e reacender o brilho que trago em meu peito. Não sei se isso faz sentido para você, mas gostaria que você considerasse com carinho essa proposta que lhe faço. Eu sei que sou um sujeito estranho, sui generis até, mas acredito que nessa época de experimentação das pessoas, você ainda não experimentou nenhuma com o meu sabor. Como café sem açúcar ou bons vinhos é um gosto adquirido, mas que acho que vale a pena ser provado. Estou de mãos vazias e talvez continue assim, a não ser que você entrelace as suas entre os meus dedos. Não sei mais o que dizer. E acho que não repartirei isso com você. É ridículo demais. Mas, como diz o poeta, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Embora o que tenha por você não seja amor. Amor, amor é uma construção a dois. Que só pode existir com o consenso das duas partes. Espero ao menos que não fuja de mim como da última vez em Olinda. Você nem deve lembrar, mas o frio na espinha e o nó no estômago que senti ao ver você não me deixam esquecer. Bom, saiba que você povoa os meus pensamentos com uma persistência que eu mesmo não compreendo. E se quiser povoar a minha vida com sua graça estou à disposição. Você é minha primeira e única opção. Tá bom. Chega.

23h44. O Hulk ainda me impressiona e ainda é difícil de acreditar que a estátua que mais desejei está na minha bancada e aí ficará se possível enquanto eu habitar o meu quarto-ilha. E o levarei depois para onde quer que o destino resolver me colocar. Não sei como, mas alguma maneira há de haver.

0h28. Vou me retirar. Amanhã continuo ou não. Publico só isso mesmo.

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13h36. O bate-estacas da construção em frente à varanda do meu prédio martela incansavelmente. A fantástica faxineira odiou o Hulk, disse que não dormia nunca num quarto com a figura e que pagaria para não tê-la em casa. Hahaha. Eu, por outro lado, me deleito com a visão. A luz natural realmente revela todos os tons de verde do busto. Hoje é o Dia Internacional da Mulher, essa que é a manifestação mais incrível do universo para um ser humano do sexo masculino como eu. Mas me privo de fazer elogios porque posso soar machista, as mulheres de hoje têm uma tolerância muito baixa. Deixo a imagem que a minha amiga mais anti-machista que eu conheço publicou no grupo em referência ao dia de hoje.





É com mensagens de empoderamento do sexo oposto como essas que me fazem sentir anacrônico. Será que até o romantismo das flores é uma atitude machista? Se pensarmos que geralmente flores são tradicionalmente dadas a mulheres, nunca ouvi de homens recebendo flores, então pode ser visto como um ato sexista, advindo de uma cultura machista. Mas será que as mulheres empoderadas desgostam de receber flores? Sinceramente, não sei. E novamente tocar nesse delicado assunto, tão mais delicado hoje em dia em que as mulheres estão supersensíveis em relação ao machismo, me parece ser algo temerário e corro o risco de ofender sentimentalidades femininas. Eu, como homem, diante dessa mulher do século XXI me sinto perdido, não sei o que falar, acho que posso ofendê-las inadvertidamente. Ainda tem mais essa para me distanciar da possibilidade de namorar. Não sei nem se na carta que ensaiei para a garota da noite fui machista em algum momento. Eu como homem, me confesso inseguro perto da mulher empoderada do século XXI, temendo ofendê-las de forma que nem concebo como ofensa, talvez porque tenha a cultura machista tão arraigada na minha vida. Até flores... onde vamos parar com isso?

14h43. Publiquei a foto do Hulk no grupo Nintendo Switch, onde estão meu primo urbano, meu amigo jurista, meu amigo cineasta e eu. Só a nata das minhas relações. Ficou só de fora o meu primo-irmão. Eles piraram na figura e meu amigo cineasta me pediu para filmar eu desencaixotando o bicho, mas a caixa já foi para o lixo, então não posso mais simular isso. Nem teria coragem, admito. Fiquei feliz com a recepção calorosa do Hulk pelo grupo Nintendo Switch.

15h19. A fantástica faxineira está aqui arrumando e me pergunta o que fazer com frequência, já que a presença do Hulk, pediu uma reformulada na organização do meu quarto.

15h54. A fantástica faxineira operou sua mágica no meu quarto e mamãe agora tem uma impressora à sua disposição. Me livrei de algumas coisas que acumulava sem razão. Como isso.





15h57. Não sei porque guardava esse gancho de porta, não lembro nem de onde era. Talvez da casa do meu pai. Mas dele já guardo os óculos, sem falar das cinzas, que precisam ser jogadas na maré de Macau, como foi desejo dele verbalizado várias vezes. À medida que a minha idade avança, me vejo mais parecido com o meu pai. Com a parte ruim dele. Isso me incomoda e não sei escapar disso. Outro tema para ser tratado na terapia que novamente me esquecerei de tratar.

16h03. Incrível o impacto da cafeína no meu humor. Me sinto muito bem tendo tomado uma garrafa de café. E pedi mais à fantástica faxineira. Muitas coisas há no meu quarto que precisarei me desfazer de forma a caber todas as minhas figuras aqui. Mas depois do Hulk todas as outras figuras me parecem secundárias, menos relevantes. Mas olho para elas e suas caixas e sei que não poderia ficar sem. Se eu fosse meu primo urbano, da próxima vez que viesse aqui pelas Ubaias tentaria captar os sons da construção para criar um percussão pesada e rica na sua fábrica de sons. Mandei a sugestão para ele. É o que posso fazer. Ouxe, me bateu um súbito baixo-astral agora. Xô, estou bem, feliz com o meu quarto limpinho e organizado, com a portentosa presença do Hulk, o meu xodó. Os verdes já vão se diluindo uns nos outros devido à diminuição da claridade. O som do bate-estacas abafa a música, mas isso não me incomoda, ouço-o como música da cidade e, como disse, é um som rico, há barulho de correntes, do motor e da colisão do peso com o ferro da estaca. E é um som que ecoa, o que dá uma dimensão maior a ele. É curioso e não durará para sempre, então o absorvo enquanto a existência movida pelas engrenagens do capitalismo irresponsável me proporciona. Irresponsável porque a construtora está pouco se lixando para o impacto social que mais gente e mais carros vai causar no bairro, temo que com a afluência dos novos moradores, quando e se a obra for concluída, a área em que moro ficará praticamente intransitável. Ainda bem que não dirijo. O que faço, faço a pé. E não faço muito. Cabeleireiro, terapia, Coca. Tudo pertinho. Acho que ouvi o chiar da chaleira. Mais café a caminho. Confesso que estou com o estômago meio embrulhado de tanto café e, por isso, vou beber um copo de água com gelo. Dar uma lavada e diluída no líquido no meu estômago.

16h25. Dei uma cotovelada no Hulk sem querer, não estou acostumado ainda com o espaço que ocupa no meu quarto. Gosto do Hulk sob a luz desse horário, percebe-se ainda os contrastes de verde, mas eles não são tão gritantes, ficam mais harmônicos. Tirei uma nova foto, me perdoem por tantas imagens do boneco e saibam, que nenhuma faz jus a estátua ao vivo. Acho a câmera do meu celular inteligente até demais, ela ressaltou, deixou mais vivos os verdes do Hulk, mais do que a realidade de fato é. Curioso isso. Não sei se fica melhor assim, gosto da cor que vejo com meus olhos, mais do que as captadas pela lente. Tomei dois copos d’água. Acho que já posso voltar em breve para o café. A ostensiva presença do Hulk nesse texto é uma amostra do meu contentamento e admiração pela peça. Vi no post que publiquei no grupo de bonecos que outro brasileiro tem a peça. Achei massa isso. Deveria ter respondido a ele, em vez de só ter botado o coraçãozinho. Talvez o faça mais tarde. Por mais que perceba que tudo o que deixo para mais tarde não faço. Meu primo pediu para eu gravar o som do bate-estacas. Se recomeçar, eu gravo. Achei um dispositivo chamado “Gravador de Voz” que acho que deve fazer o serviço. O fato de dormir e não reler o que escrevi no dia anterior, me faz repetir certo temas. É a vida, só releio quando vou revisar. E geralmente não elimino as repetições. Impressionante, é a melhor palavra para definir o Hulk. Ele certamente causa impressão em qualquer pessoa que entrar no meu quarto. O cheiro dele ainda invade as minhas narinas, não deveria perder esse cheiro nunca. Cheiro de boneco novo. Bem que o bate-estacas poderia recomeçar para eu gravar para o meu primo urbano. Espero que nos reaproximemos de fato. Já me sinto mais próximo dele, como há tempos não me sentia e é uma sensação muito boa. Não consigo parar de olhar o Hulk. Hahaha. Que coisa. Hahaha. Valeu cada um dos muitos centavos que paguei por ele. O resto da minha plateia deve até estar com ciúme. Gosto de todos, mas infelizmente, galera, o Hulk é o meu xodó. Foi muito feliz já tê-lo posto em seu lugar desde a chegada, foi até o cara da DHL que colocou. Os caras chaparam no boneco. Não tem como não ficar impassível diante da visão. Um deles falou que na Nagem do Shopping Recife vende-se bonecos. Devem ser os bonecos das edições de colecionador dos games. Certamente não deve ter nenhum Sideshow exposto lá. Pode ser até que tenha algum da Hot Toys, mas até isso acho difícil, pelos valores que o bróder da DHL comentou. Sei que falo grego para quem não coleciona. Finalizarei dizendo que mandei uma mensagem de felicitação para o brasileiro que também possui o busto do Hulk. Que coisa, quando meu primo me pede para gravar o som, ele para. Talvez recomece amanhã. Nossa, amanhã já é sexta, o que me enche de dedos. Já começo a sentir ansiedade pela possibilidade de socialização. Mas preciso desenvolver a minha dimensão afetiva e isso só é possível de duas formas, a meu ver, tendo afeto por mim mesmo e interagindo com pessoas por quem nutro afeto. As duas são muito difíceis para quem eu sou/estou agora, mas a primeira se prova ainda mais difícil. Por incrível que pareça, o Hulk teve um impacto positivo na minha autoestima, não sei precisar porque, é como se fosse uma reafirmação categórica do meu universo particular manifestado de forma concreta. É uma realização pessoal para mim. Por mais ridículo que isso soe aos demais. Mas de mim para mim mesmo me gera um profundo contentamento. Acho que tomei café demais, não está mais me descendo e o pior que a fantástica faxineira fez um monte de café. Vou tomar um copo de Coca com muito gelo que essa última xícara me desceu quadrada.

Outra foto do Hulk só porque posso tirar outra foto do Hulk. Hahaha.


17h34. Voltando à dimensão dos afetos. Não sei como ser mais afetuoso com os meus amigos sem parecer falso, nem sei se preciso se mais afetuoso do que eu consigo ser, sei que a minha vontade é de não sair, mas essa vontade não me desviará da saída se esta houver. Não posso me enclausurar no meu quarto-ilha mais do que já fico, tenho que aproveitar toda e qualquer oportunidade de ver o mundo bem acompanhado. Nossa, não consigo parar de olhar o Hulk e imaginar se devo ou não colocá-lo mais alto que a altura em que está quando da reforma do quarto. Mas acho que já falei sobre isso ontem. E deveria estar tratando da dimensão do afeto. A grande revolução para a dita dimensão seria sem dúvida uma namorada. E a única pessoa possível e passível de ser minha namorada é a garota da noite. E acho que estou viajando aqui, pois ela não vai querer nada comigo, a não ser que eu revolucione a mim mesmo antes. Em todas as três dimensões de que tratamos na terapia. Ou seja, baixar o lombo, me amar e me respeitar mais. Aceitar que sou uma pessoa tão válida quanto qualquer outra, apesar da minha condição civil única entre os meus amigos. Eu tenho que botar na cabeça que não cheguei a tal condição por oportunismo ou por acaso, que eu tentei o máximo que pude, que cheguei muito perto da morte tentando me enquadrar numa coisa que não me cabia. Que cometi abusos comigo mesmo a fim de amenizar o sofrimento existencial profundo em que me encontrava. Queria incorporar com mais seriedade que sou um escritor, visto que escrevo compulsivamente, mas não consigo por ora, pois acho que para ser escritor é necessário algum reconhecimento. Não de mim, mas da obra. Acho que preciso vê-la posta em papel. A única coisa que tenho que teria possibilidade de se tornar um livro é o diário da minha internação no Manicômio. Mas não encontro nesses dias que passam o menor estímulo para digitar o restante dos escritos. Preciso colocar isso como meta e digitar um pouquinho a cada dia. Devagar eu chego lá. Sem fazer movimento nenhum é que não vou ter isso nunca. Quero pelo menos ter a obra revisada pela Consultexto, a empresa que revisava o material da agência em que trabalhava e que é aqui pertinho, na rua do CAPS. Se tiver a obra digitada e revisada, eu talvez me anime em enviá-la para alguma editora. Ou editoras. Vai que alguma se interesse. Acho que o medo do fracasso me faz retroceder. Mas é um sonho ter uma obra pelo menos revisada. Com todo o meu mal português corrigido. Só isso já me deixaria mais realizado. Isso deve custar caro, mas não é necessário imediatismo, principalmente depois da lapada do Hulk. Não sei porque o Word reconhece Wolverine como válido, mas não reconhece Hulk. Curioso e irritante. Bem, poderia parar de escrever agora e ir digitar os meus cadernos. Estou sentindo uma pulsão para fazer isso. Acho que o que escrevi acabou me motivando. Vou fazer isso. 18h07.

21h18. Acabei de digitar um caderno. Falta o terceiro, que não digitei inteiro e não sei por onde anda. Mexeu comigo. Negativamente. Que alguma força maior me ajude. Estou praticamente recaído. Estou recaído. Não queria ser internado de novo. Isso serve apenas como medida punitiva, não tem nada de terapêutico. Passar três dias para desintoxicar acho até válido, mas mais do que isso é castigo, não é auxílio. Espero que uma boa noite de sono me coloque de volta nos eixos. É uma merda ser viciado. Mas vai passar e eu apagarei esse parágrafo do meu texto. Maldita hora em que inventei de digitar o diário, foi logo o trecho da fissura. Rememorar tudo aquilo me fez tremendamente mal. Estou fragilizadíssimo para dizer o mínimo. A um sopro da recaída. Será que trairei a confiança de todos os que confiam em mim? Minha mãe, minha terapeuta, meu padrasto? Quem viver, verá.

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14h33. Graças aos céus e a uma boa noite de sono o terror passou. Não estou mais com os pensamentos que me atormentavam ontem. Meu deus, ainda bem. Iria causar um estrago sem tamanho na minha vida. Não quero falar mais sobre isso senão pode atrair e isso é a última coisa que quero. Encontrei uma boa razão para despertar, ver o Hulk sob luz natural que infelizmente a câmera do celular não capta com fidedignidade, ela estoura os verdes. Fica legal, mas eu prefiro do modo natural. Nossa, que alívio eu estou sentindo, vocês não têm ideia. O pior que eu não sei se no outro caderno, se porventura achá-lo, insista no mesmo tema. Não sei nem se é uma narrativa válida para ser publicada. Mas queria muito vê-la revisada, como já disse. E mandar para editoras, como já disse. Se fosse publicada, aí sim, poderia falar com plenitude do ser, sou escritor. Enquanto isso, sigo escrevendo o meu blog. Hoje é sexta-feira, talvez tenha saída, talvez não. Eu estou mais para o talvez não. Não há nada que queira ver no mundo, mas também acabei de acordar, meu humor embora bom, após duas xícaras de café e um copo de Coca, não está ainda disposto para enfrentar uma night. Olho para o Hulk e duvido que outra peça me encante mais do que ele. Não consigo conceber qual seria. Um busto, ainda mais do Hulk, é uma peça imponente e impactante. Não consigo vislumbrar outra peça como iguais qualidades tão exacerbadas. Gosto das linhas mestras meio geométricas dele, gosto de tudo nele. Seria o pertence que escolheria salvar num incêndio. Até porque somando-se tudo, é o bem mais caro que possuo. Se pudesse, levaria também minha mochila com o computador e o Switch. Mas em só havendo uma opção seria o Hulk. Que negócio mais besta ficar imaginando asneiras. Improdutivo e sem nexo. Acho que quero de todas as formas demonstrar como o Hulk me é caro. Ainda sinto o cheiro de boneco novo dele. Muito bom. Daqui a pouco vou ter que colocar o gelo na máquina de mamãe. Gravei o bate-estacas para o meu primo urbano, dois segmentos de um minuto mais ou menos, para ele brincar nos seus equipamentos. Captei com o microfone do computador mesmo, não sei se vai ficar com qualidade para utilizar, mas foi uma tentativa. A segunda gravação ficou mais sincopada que a primeira. Espero que ele goste. Ou não. Foi uma contribuição que achei válida, mas a validade quem dará é ele.

15h31. Coloquei lá a máquina com gelo para a minha mãe. Vou pegar Coca.

15h34. Vi que vai rolar o encontro mais louco da política mundial, Trump e o ditador da Coréia do Norte. Será um evento curioso e assustador. Se bem que tudo pode acontecer. Até algo bom sair daí. Torçamos. Tenho tanto medo do móvel onde o Hulk está apoiado arrear com o peso, seria um desastre. Não tenho meios de conseguir outro. Mas ele não é tão pesado quando aparenta. No site diz que pesa 9kg, mas acho que pesa menos. Em teoria dentro de duas horas terei que repetir o procedimento em mamãe. É a vida. Queria botar Björk para ouvir embora todo o quarto esteja preenchido pelos sons da construção. E minha mãe queira que eu fique com a porta aberta não sei por quê. Acho que vou revisar e postar esse texto e partir para um novo. Rever o momento de fragilidade em que me encontrei ontem. Ainda bem que se deu à noite. Hoje nem quero saber de cola. Isso me deixa muito, muito, muito, muito aliviado.  

17h07. Acabei de revisar. Aproveitei para procurar o terceiro caderno do diário do Manicômio sem sucesso. Tive até um longo papo de WhatsApp com minha tia-mãe a respeito do Hulk. Foi divertido. Quem sabe não a encontre hoje se o meu primo se aventurar pela noite recifense. Vi no arquivo em que estou digitando o diário que narro o que fazia nas minhas saídas de final de semana. Não sei se é um conteúdo interessante e talvez o suprima do texto final. Nossa, como queria achar o terceiro caderno. Vou dar mais uma olhada. O leitor pode achar que estou brincando com fogo ao lidar com essas lembranças de novo, mas pelo que vi do resto do arquivo, a fissura também passou lá. Vou dar mais uma procurada.

17h15. Achei! Mas não estou com vontade de digitar agora, basta-me essa conquista de ter enfim a terceira e última parte da narrativa em mãos. Terei ainda um bom trabalho até concluir a digitação. Muitas páginas me esperam. Bom, vou publicar isso.


A última parte da minha obra a ser transcrita. Haja saco para digitar tudo.



quinta-feira, 25 de maio de 2017

O GRANDE ENCONTRO (SEM QUESTIONAMENTOS FIOLOSÓFICOS HOJE)




A usuária que acho mais gata atualmente no CAPS veio falar comigo por causa da minha camisa da Marvel e puxou papo para além da camisa e disse que eu desenho muito bem. Não sei de onde ela tirou essa conclusão pois desde que ela entrou no serviço eu não desenhei nada de mais elaborado que eu lembre. De qualquer forma, foi muito bom despertar sua atenção. Fez muito bem para o meu ego. Queria ter uma conversa mais aprofundada sobre o conteúdo que ela trouxe no grupo de arteterapia. Eu poderia criar essa possibilidade, mas resolvi fumar. Quem sabe na hora do almoço, mas estou tão antissocial que não acho que serei capaz de tal empreitada. Gosto muito da turma com que ela fica. É o pessoal com quem tenho mais afinidade, os jovens, porque não me intimidam e são pessoas legais, apesar de seus sofrimentos existenciais. Mas todos aqui têm sofrimentos existenciais. É por isso que estão aqui afinal. Por que estou aqui? Porque minha mãe acha que é uma ocupação, tanto é que num ato falho quando estava saindo para cá na segunda, ela desejou “bom trabalho”. Ela não pode conceber que eu não tenha obrigações e não consegue ver a minha escrita como o meu verdadeiro ofício. Se bem que preciso do CAPS por questões de socialização e terapêutica, visto que não faço terapia individual e, não posso negar, eu também tenho questões existenciais a serem tratadas. Além disso, gosto de vir, de estar aqui. 12h27. Meu amigo do cachorro acredita que minha mãe pode mudar de ideia. Mas acabei de convencê-lo do contrário. Minha mãe foi irredutível. On the other hand, minha mãe ficou superfeliz com o meu amigo que mora em São Paulo. Ele me mandou um Whatsapp dizendo que nossas amigas podem ir desde que o encontro seja nas Graças, perto das casas delas. Ele perguntou se eu poderia ir com ele e sem titubear disse que sim. Vou ligar para mamãe pedindo que deixe o dinheiro para a saída, caso ela saia. Vou ligar agora.

13h18. Ela não atendeu. Espero que esteja em casa quando chegar. Vou tentar uma vez mais, pois o grupo já vai começar.

13h23. Falei com ela. Ela parece que está num surto paranoico, quer falar com meu amigo antes. Que saco. Depois diz que acredita no meu tratamento, na minha recuperação. Sei. Isso me irrita, acho invasivo e despropositado.

15h49. Já estou em casa e vi mensagem do meu amigo de Sampa dizendo que quer marcar o encontro para as 16h. Obviamente não cumprirei esse prazo, visto que minha mãe ainda está dormindo. Mandei um WhatsApp para ele avisando da minha situação. Vamos ver o que ele responde.

15h59. Ele disse que as meninas preferiram que o encontro fosse às 17h. Sorte danada. Disse que liga quando estiver pronto. É bom que já acordo e passo para mamãe falar com ele. Quando voltar, tenho uma conversa com ela, como combinei com as psicólogas hoje no grupo. Meu desenho foi um enorme olho me vigiando para eu não sair da linha. Obviamente o olho representava a minha mãe e a linha era ela quem traçava. E chegamos à conclusão no grupo que não pode ser assim, é muito invasivo e muito castrador o comportamento da minha mãe em relação a mim. E piorou de súbito. De ontem para hoje. Não sei o que se deu. O que se passou para esse excesso de desconfiança. Vai ver que ela é muito sugestionável e que ao ler a frase que trouxe para casa do grupo da segunda, “meus familiares não acreditam em minha mudança, em meu tratamento”, ela tenha introjetado isso, muito embora ela tenha dito que acredita na minha mudança e no meu tratamento, algum retetéu deu-se em sua cabeça e ela está sem confiança alguma em mim. Então é o momento de sentar e conversar. Vai ser muito chato fazer isso, mas vou ter que fazer, pois assim me prontifiquei com as psicólogas. Ficou decidido lá que eu devo impor limites à minha mãe, como é que não sei, mas vou tentar ser o mais assertivo possível com ela.

16h22. Minha mãe estava acordada e falei com ela. Ela quer falar com o meu amigo de São Paulo. Eu fiz cara feia já indicando o meu descontentamento. Assim dando brecha para um diálogo. Ela me questionou o que foi, em relação à minha cara feia. Eu respondi nada. Não devia ter dito isso, deveria ter dito, a gente conversa. Mas foi o que me saiu na hora e pronto. 

16h44. Nada do meu amigo. Minha mãe está resolvendo algo do seu remédio de tratamento contra o câncer ao telefone. Parece que meu amigo não prima pela pontualidade, ainda bem. Acho que estou com o espírito preparado para esse encontro. Não de todo, devido ao meu isolamento social, mas o melhor que posso no momento. São pessoas muito amadas que encontrarei, então acho que vai ser tranquilo.

20h19. Tenho tanto que queria contar e tão pouca memória na cabeça. Vai o que vier. Fazia tempo que não via o meu amigo de São Paulo. Anos. Ele guarda uma memória muito forte de mim, de um personagem que criou de mim, aliás, e que realmente não sou. Se eu fosse um décimo do que ele julga que eu seja, eu seria uma pessoa bem melhor e mais contente comigo. Ele agora atua na área de cinema e me convidou para uma empreitada que me deixou boquiaberto: retratar um ano da minha vida. Retratar de filmar mesmo. Todo o resto que ocorreu empalidece diante desse fato. Fiquei realmente surpreso e inenarravelmente honrado com o convite e aceitei prontamente o projeto, ególatra que sou. Não me passa pela cabeça o que há na minha rotina que valha ser captado, visto que esta é muito repetitiva e estéril. A maior parte do tempo sou eu e o meu computador e música. De qualquer forma, aceitei o desafio e resta saber os detalhes no nosso próximo e último encontro em terras pernambucanas. Isso me deixou bastante excitado. Não sei em que bicho vai dar, mas se ele tem essa vontade e eu tenho essa disponibilidade, fiat lux. O resto vamos descobrindo no caminho. No mais o encontro de nós quatro foi agradabilíssimo, as meninas tiveram dificuldade de se desvencilhar dos papéis de mães e de educadoras, mas acredito que em algum ponto houve esse desligamento, especialmente quando o meu amigo de Sampa sugeriu que Jesus podia nunca ter existido, fosse uma coletânea de pessoas ou meramente uma ficção. Isso gerou um debate interessante. Para tornar tudo ainda mais agradável no local tocava baixinho só músicas da nossa juventude, de Ace Of Base a New Order, passando por When In Rome e Depeche Mode. Só clássicos de discoteca de nossa época. Isso deu um sabor ainda mais especial ao nosso raríssimo grande encontro. Pouco falei, como sempre e muito ouvi. Do passeio multidisciplinar que o colégio em que as meninas trabalham vai promover, da trágica história de um casal que perdeu o bebê no nono mês de gestação o que descambou para uma conversa sobre a perda de entes queridos, que descambou nas hilárias histórias de família de uma de nossas amigas. E por aí seguiu até reminiscências das nossas juventudes. Vieram os três me deixar em casa, o que foi ótimo. Lembrei que preciso ouvir “Chico Buarque Song” do Fellini na voz de Céu. Ligarei o Spotify assim que minha mãe chegar em casa. Meu padrasto ficou enfurecido porque minha mãe disse que iria sozinha para o hospital fazer a radioterapia, disse que minha responsabilidade era cuidar dela, não ficar brincando, no entanto não foi com ela se o fato dela ir sozinha lhe causava tanta preocupação. Não sei se discutiram sobre o assunto e brigaram, não sei. Só sei que vou permanecer aqui na surdina, com a luz do quarto apagada e sem som para não despertar a atenção do meu padrasto e ele vir me dar esporro. Mas não quero pensar nisso agora, aguardarei as consequências. Não vou deixar que esse possível esporro me roube a mágica tarde e início de noite que tive. Não esperava nunca que meu amigo de Sampa conseguisse reunir nossas duas amigas realmente, mas isso se deu. E foi muito bom. São pessoas maravilhosas, boas, sãs, que eu tenho o privilégio de conhecer, todos os três. Bem, sobre o meu amigo não posso dizer que esteja com juízo muito direito querendo fazer um documentário sobre alguém que só faz escrever. E que se basta no mais das vezes em si mesmo. 21h19. Mamãe está demorando muito. Geralmente chegamos por volta das 20h30. Curioso, estou vestindo uma camisa mais velha que a minha amizade que tenho com as duas, de 1996 e, segundo a minha amiga, nos conhecemos em 2000. Confio nas anotações do diário dela e faltou um pouco para dizer-lhe que o que faço hoje é um grande querido diário da minha vida. Não sei porque me contive. Acho que por vergonha de ter como ofício escrever os meus dias. Tão miúdos e insignificantes para os demais. Antes de sair ainda tive uma rápida conversa com a minha mãe sobre sua paranoia e acho que ter falado com meu amigo ao telefone aliviou um pouco os seus receios. Depois ele veio aqui dar um abraço nela e compartilhar um pouco de sua história de vida, sobre o que o trouxe aqui a Recife e daqui ao sertão de Pernambuco. Um filme que pretende fazer baseado num livro de vários séculos atrás em que as personagens peregrinam até um certo local religioso e o narrador lhe pede para que cada um conte uma história de vida ou assim entendi. Ele pretende fazer uma versão sertaneja dessa mesma narrativa, com um grupo de pessoas que sai do sertão pernambucano em peregrinação a Juazeiro do Norte, eu acho, onde fica o templo de Padre Cícero. Algo assim, confesso que na hora estava meio apreensivo de o meu padrasto irromper aos berros do quarto me ordenando a desistir do programa com meus amigos e acompanhar minha mãe, por isso não me concentrei devidamente nos detalhes da história. Ou minha memória está muito ruim mesmo. Lembro da apreensão, não lembro direito do projeto do meu amigo. Apreensão esta que sinto agora. Queria que minha mãe chegasse logo, até porque está tarde demais, já são 21h36 e nada dela. 21h40. Acabei de ligar e ela não atendeu. Deve estar no trânsito. Assim espero.

21h44. Liguei de novo e ela não atendeu. Começo a me sentir culpado. Quero crer que ela brigou com o meu padrasto e resolveu dar um passeio no shopping depois do hospital. Ou então foi a chuva que congestionou o caminho. Sei lá. Só espero que ela esteja sã e salva.

21h46. Queria muito ligar o som agora. Ouvir a bendita música de Céu e ir para Infected Mushroom. Queria também pegar Coca na cozinha e que minha mãe chegasse. E continuo muito empolgado com a história do documentário que acho que tem tudo para nunca sair das nossas imaginações. Veremos. Queria muito que houvesse o documentário e que isso servisse de propaganda para alavancar os acessos do meu blog. Mas, pensando bem agora, com a cabeça um pouco mais fria, acho que nada disso vai rolar. Queria muito estar enganado, mas acho difícil. Seria quase como se a vida me presenteasse com o que sempre quis. Não sei se está registrado aqui, mas já me inscrevi duas vezes para o Big Brother Brasil. Ou seja, eu tenho uma certa fome de câmera, de exposição. Por isso o blog. Se essa proposta do meu amigo me faz sentir especial? Sim. E é um sentimento bom esse. Embora reitere que não seja quem ele pensa que eu sou. Sou egoísta e manipulador. Sou um canalha que um dia já teve o seu lado bom, mas que o perdeu. Será que sou assim mesmo? Um fruto podre? Eu prefiro achar que eu sou o fruto da árvore envenenada. Hahahahaha. Imagine quando eu contar sobre essa história de filme lá no CAPS. Meu deus, nem sei qual vai ser a reação do povo. Hahahahaha. Eu ainda não acredito. Mas eu nunca acredito. É um traço meu. Em que eu acredito? Na Singularidade Tecnológica. Acredito no amor. Acredito que não consigo mais conviver em sociedade normalmente, naturalmente. Acredito que me gosto um pouco mais hoje do que me gostava no passado. Acredito que alguns fantasmas estão sendo finalmente exorcizados. Acredito que serei um viciado em cola e crack até o final da minha vida. Acredito que unificar minha coleção de bonecos em algum lugar será um problema talvez insolúvel. Acredito que vou morrer de câncer, provavelmente de garganta. Acredito que meu irmão e Maria de Buria são pessoas que são boas sem precisar fazer esforço, de natureza mesmo. Acredito que coloco a palavra acredito sem ter nem mais em que acreditar.

22h18. Falei com mamãe agora, ela estava fazendo compras no supermercado. Que alívio. Às vezes minhas profecias chegam bem perto da realidade. Hahahahaha. Estou botando “Hahahas” demais no texto, acho que isso é sintoma de que estou feliz. Ou superiormente feliz do que o normal. Meu amigo quer simular um aniversário fake para mim para começar e terminar com o meu aniversário o ano de documentário. Isso é muita onda. E não sei se gosto da ideia. Gostaria muito mais que o documentário começasse no dia 27 de algum mês, pois gosto desse número. Três pessoas do Facebook curtiram minha publicação hoje. Nunca aconteceu antes. Será que aos poucos eu vou amealhando leitores? Que decepção terão com este post que não contém questões filosóficas. Mas elas logo acabarão. E só terei isso mesmo para escrever. E é com isso que vão ter que se contentar. Ou ficarem descontentes, tanto faz. Aliás faz muita diferença ser lido do que não ser. Quando meu post alcança mais de 50 visualizações eu fico supercontente. Será que com a atualização de ontem o Word começou a aceitar palavras antes hifenizadas e agora sem hífen? Deixa eu testar: supernatural, superlegal, não, nem todas, o superlegal já foi marcada como grafia errada. Eu escrevo e fico pensando no documentário no fundo da minha cabeça. 22h35. Mamãe chegou. Vai pedir que pegue as compras no carro.

23h20. Peguei as compras no carro, desempacotei, organizei os produtos por categorias e guardei o que eu sabia onde guardar e deixei o carrinho lá embaixo de novo. Saudades dos meus amigos já.

Ouvi Céu, “Chico Buarque Song” (lembrou a primeira do disco “Moon Shaped Pool” do Radiohead, não sei por quê) e um pouquinho mais, “A Menina e o Monstro” e outra lá que me levou a “Abraçaço” de Caetano, que meu amigo que mora em Sampa disse que era o melhor da trilogia com a banda Cê, que é o que estou ouvindo agora. As melodias parecem com as do disco anterior. Ou vai ver que já ouvi esse disco e não me lembro. Não quero mais escrever isso, por ora. 23h48.

0h15. Estava complementando um projeto paralelo que eu acho que nunca verá a luz do dia. É um projeto de longa duração, mas pontual. Não é nem de perto tão frequente como esse blog. É realmente estritamente pontual e pessoal. A excitação com o documentário está mais branda, a realidade de que isso não vai acontecer se torna mais e mais clara. Meu amigo que mora em Sampa, lembrou de um conselho que eu dei sobre a partida do seu pai, mas realmente não me recordo disso, se ele fizer o documentário poderá contar para o espectador, pois não consegui nem memorizar o que disse, pareceu uma coisa sensata a se dizer, pelo menos essa foi a sensação que me ficou. Posso estar enganado, entretanto.

0h30. Eu fico oscilando entre a possibilidade e a impossibilidade desse documentário acontecer. E já começo a ficar acanhado para ele, por outro lado, bastante excitado com a possibilidade do resultado. É melhor focar que não vai acontecer. Como o meu amigo que mora em Sampa vai poder me filmar? Vai me filmar apenas escrevendo? Bom ele disse que vai me contar os pormenores antes de voltar para a terra da garoa. Estou com sono. Acho que vou experimentar uns cookies que mamãe comprou com um creme de avelã com cacau.

1h00. O creme não é ruim. Os cookies em que passei eles é que não são lá grandes coisas. Acho que estou desgostando de cookies. Estou acostumado a responder aquelas questões filosóficas, então sinto meio que falta. Como dizem, o hábito faz o monge. A verdade é que estou muito cansado. Dormi muito pouco para os meus padrões, cinco horas e meia. Mas estou sem vontade de me deitar. Eu não sei o que quero fazer.  


1h12. Gostaria que um encontro como o de hoje acontecesse pelo menos uma vez por mês. Sonhar não custa nada. Nem que fosse apenas com as meninas. Novamente, sonhar não custa nada. Sei que isso não vai acontecer por causa da rotina atribulada que ambas levam, com filhos e duas profissões, no colégio e no consultório. Tive um déjà vu agora e tenho a sensação muito vívida que tive outro muito semelhante da outra vez que encontrei com uma dessas minhas amigas. Acho déjà vus bugs curiosos do cérebro. Não tem utilidade nenhuma, são ilusões que nada acrescentam à minha vida, mas é uma sensação estranha e diria até prazerosa tê-los. Duram pouquíssimos segundos, pelo menos comigo. Mas a sensação de familiaridade com o momento é muito real. Só sei que não é uma micropremonição porque não acredito nisso e porque o que se passa no déjà vu é sempre irrelevante. Como foi? Eu inclinei a cadeira para trás e olhei para o grampeador enquanto lembrava de uma das minhas amigas e todo esse acontecimento me pareceu completamente familiar, como se já o tivesse experimentado. Estou aqui bocejando. Vou me deitar. Amanhã reviso e posto. 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

CURIOSIDADE, RATO E GATINHA

A vida é muito curiosa se você tiver curiosidade. Eu não sou um cara excepcionalmente curioso, aliás tendo mais para o acomodado do que para o curioso, mesmo assim coisas curiosas acontecem ou cruzam o meu caminho. Coisas que eu considero curiosas, quero dizer. Coisas ou acontecimentos curiosos podem o ser para o bem ou para o mal. Sim, certas coisas negativas eu considero curiosas. O estranho é sempre curioso. Esta é a principal característica do que é estranho, diria eu. Pois o conhecido não gera curiosidade, mas o estranho é a fonte de toda a curiosidade. Um exemplo idiota, talvez negativo, mas certamente estranho para mim foi me deparar com um cadáver de rato na calçada. O observei lá, imóvel, na plenitude eterna de sua morte e tanta curiosidade eu tive pelo animal que cheguei a fotografá-lo (a principal função do meu celular é o de câmera, gosto de fotografar coisas que julgo curiosas, belas ou feias, isso me diverte deveras [obviamente a segunda função é o inescapável WhatsApp]).

A curiosidade matou o rato.



Mas cansei de falar de curiosidade, fui vaporizar e quando voltei achei de uma inutilidade despropositada. Se bem que também não sei que propósito outro eu poderia trazer. Deixe-me ver... Hoje comentei no grupo de sonhos que havia finalmente, depois de longo interregno, tinha me lembrado de um sonho. Sonhava que minha ex havia tido um filho e que estava muito bem casada com outro cara (tanto é que haviam decidido se reproduzir). Contei que o impacto de tal imagem foi tão forte, de que a havia perdido, que despertei. Achei pertinente que a psicóloga tenha atentado para o fato da criança e do papel maternal que minha ex estava desempenhando. A ficha caiu na hora: por que não sonhei apenas com ela bem casada? Por que o filho me chocou tanto a ponto de me despertar? Por que mantenho com ela uma relação com fortes traços maternais. Talvez nossa relação sempre tenha sido assim. Por mais que eu fosse o provedor material à época, ela cuidava de mim, era meu grilo-falante (tem hífen?), meu porto seguro, meu freio, meu limite, minha amante, amiga e companheira certamente, mas que desempenhava um forte papel maternal na minha vida. E continuou sendo assim mesmo depois de terminado o relacionamento. Vê-la com filho foi como se ficasse repentinamente órfão dela, uma coisa para a qual eu não estou aparentemente preparado e não sei se algum dia vou estar porque esta relação se configurou e se solidificou assim há mais de uma década, eu acho. Espero, do fundo do meu coração que esta relação permaneça imutável mesmo que porventura ela tenha ou adote uma criança. É bom ter uma mãe compreensiva, amiga e, ao mesmo tempo, dura quando se faz necessário, sem nunca perder a ternura, entretanto. Bem, quase nunca perder a ternura. Ela me conhece tão profundamente que é capaz de me orientar nas situações mais cavernosas. Me conhece tanto quanto a minha própria mãe, mas de uma maneira diferente. Pois mesmo tendo esta postura maternal, ela foi minha mulher e é minha amiga, companheira de mesa de bar, de viagens e sonhos. Ela tem acesso a um eu mais irrestrito, menos recalcado que o que minha mãe lida. Recalcado por diversas razões, a principal delas, o respeito que um filho deve aos pais. E também a diferença de personalidade e as similaridades assombrosas existentes entre eu e minha mãe. Ela é uma pessoa toda outra, da minha geração, minha cúmplice (quando acha certo sê-lo, é bom ressaltar). Ela é minha amiga, não minha mãe, em suma. A grande companheira que a vida me deu de presente. Ela tem essa faceta maternal, mas esta é apenas uma faceta da nossa relação que emergiu do meu subconsciente, sabe-se lá por quê. Embora, lembre a psicóloga, o sonho pode ter várias interpretações, está longe de ser uma ciência, quanto mais exata. Mas é certo que me identifiquei e vi o quanto minha relação com minha ex é maternal. Como ela está lá sempre para quebrar o galho ou me tirar de alguma enrascada ou, antes, evitar que me meta em uma. Ela é a amiga completa que todo cara (com o mínimo de sensibilidade) gostaria de ter. Eu a amo incondicionalmente de uma forma indefinível e arrancá-la da minha vida é arrancar um pedaço da minha alma. Devo muito a ela, muito mais do que jamais poderei retribuir. Ela é responsável por três ou quatro anos dos mais felizes da minha vida. E continua presente, mesmo que um tanto ausente ultimamente, pois é mulher independente, cheia de trabalho, com laços renovados com a família e mora longe para caralho. Tipo Zona Norte, Zona Sul. Bom, talvez isso que saiu de um sonho tenha se transformado numa maneira de tentar descrever o tamanho do bem querer e da importância que você tem na minha vida, gatinha. :)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A beleza está nos olhos de quem vê... (além do que se vê)

 
 
Gabi,
Você é uma das manifestações da natureza mais belas e encantadoras que já vi. Tanto quanto o Rio de Janeiro. Tanto quando as noites enluaradas e cristalinas com incontáveis estrelas da praia de Barreiras, que perdia horas observando na infância. Tanto quanto o nascer do sol à beira-mar. Tanto quanto Brooke Shields em “Lagoa Azul” (este é velho, hein?) ou Natalie Portman em “Closer”. Tanto quanto a poesia de Fernando Pessoa e Chico Buarque. Tanto quanto “Dom Casmurro” de Machado de Assis e sua perfeita descrição de um amor que nasce. Tanto quanto um tigre albino, o animal mais lindo que vi a olhos nus. Tanto quanto uma borboleta com asas idênticas a folhas secas que um dia encontrei pousada na janela do sítio de uma amiga (obviamente não era a mais bela e colorida das borboletas, mas seu encanto estava na mágica com que a natureza havia a presenteado para sobreviver, a perfeição dos detalhes, até o recorte das asas parecia imitar uma parte corroída da “folha” e outra parte era igual ao talo que prendia a “folha” ao galho da árvore). Enfim, você é de uma beleza quase sobrenatural, sublime, etérea, encantada. Eu precisava repartir isso com você e tinha de fazê-lo através da palavra escrita, pois sou muito tímido e embaralhado com a palavra falada, ainda mais para alguém que me desperta tanto a alma.
Sei que garotas tão bonitas quanto você têm geralmente a cabeça oca e acham que vivem em cima de um pedestal dourado (embora haja exceções, como há para todo o resto). Se você for uma dessas exceções, o que acredito ser possível, pois você tem um semblante bastante inteligente e talvez o desejo de não ser apenas mais um rosto bonito (embora isso baste para a maioria das belas, infelizmente), podemos bater um papo para nos conhecermos melhor. De mim, posso dizer que não bebo nem uso nenhum outro tipo de droga, só, infelizmente, o cigarro. E Coca-Cola (mas a nutricionista, na dieta que está elaborando para eu perder a barriga, vai eliminar qualquer refrigerante, seja zero ou não. [Estou aproveitando enquanto é tempo])! Bom, não sou nem quero ser um cara pegador/garanhão, só “fiquei” uma vez na vida, quando reencontrei uma amiga de infância aos 18 anos e a gente não resistiu e “ficou” por cerca de uma semana, dez dias, até ela voltar a Campinas (SP), nossa terra natal. No mais tive apenas quatro namoradas, às quais amei profunda e completamente, até o momento em que a chama se apagou para um de nós ou a incompatibilidade se fez mais forte que a intimidade. Não desejo “ficar” com você. Desejo lhe conhecer melhor, descobrir afinidades, sonhos, mostrar o que há dentro de mim e ter a oportunidade de desvendar o que há dentro de você, quem você realmente é, quer e espera ser. Se houver pontos em comum o suficiente, cabe ao destino revelá-los e, quem sabe, a partir daí, possamos nos dar a oportunidade de cultivar a intimidade e o bem querer um do outro. Pode me chamar de bobo romântico, que tais sentimentos estão fora de moda, que relacionamentos estão fora de moda. Tudo isso é verdade e nada disso me tira o orgulho de ser como eu sou e de amar da forma que amo. Gostaria muito de aprender a amar você e que a recíproca fosse verdadeira. Deixo, entretanto, que você dê o próximo passo. Afinal, você pode ser de fato uma cabeça oca que não quer descer do pedestal por causa de mim e de minhas palavras vãs, embora sinceras. Caso este seja o caso, restar-me-á, se reencontrá-la, olhar de longe e admirar sua exuberante beleza exterior como quem observa um lindo crepúsculo.
É isso. O mais sincera e honestamente possível,
Mário Barros.
P.S.: não tenho celular (por opção!) o telefone da minha casa é 3442-5544, moro pertinho da Praça de Casa Forte. O meu e-mail é botodegatas@gmail.com (trocadilho infame com Gato de Botas – que já estava registrado :P). 
Um beijo e um ótimo carnaval (ou quem sabe um ótimo começo de um relacionamento que nem eu nem você sabemos onde vai dar... depende agora de você, pois sou meio totalmente tímido).


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sim, te levo para sempre, Clementine...


Oficina de “Não-sei-o-quê” Visual
 
 
 

Quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014.

Novamente, outra oficina do CAPS que teve repercussão na minha vida, embora não saiba e talvez nunca venha a saber (espero que, no mínimo nenhuma, pelo menos nenhuma negativa e, no máximo, que o maior sonho da minha vida, junto com a curatela, se realize!).

Gosto muito da Oficina de Arte Terapia com Moa e fiquei em dúvida até o último instante entre participar dela ou da nova Oficina Visual que começava no mesmo horário. Chguei a jogar cara e coroa com a minha sandália havaiana para decidir (sugestão do outro Mário do CAPS) e o resultado do sorteio foi ir para a Oficina de Moa mesmo. Cheguei a entrar e me sentar, mas uma intuição, ou uma vontade mais verdadeira se alevantou (ou uma vontade que eu já sentia e fingi ignorar), me levou a ir experimentar a nova oficina (tão nova que ainda não decorei o nome).

Bom, chegando lá havia um círculo que almofadas e, à frente destas, uma série de imagens recortadas, no centro, uma vela dentro de uma frasco, este também com imagens recortadas e coladas sobre sua superfície. Escolhi aleatoriamente um almofada e, ao sentar, dei de cara com uma imagem em preto e branco que me parecia uma cena de tortura, ou uma mulher mexendo num cadáver mutilado com vários pinos grossos de ferro enfiados nele. A imagem se destacou tanto que, mesmo sem saber qual seria a proposta do grupo, decidi que ela seria a minha imagem de trabalho. Ao pegar e examinar mais de perto a imagem, percebi que não se tratava de um cadáver ou de tortura, mas sim, de uma mulher esculpindo uma figura de outra mulher e que os pinos não era instrumentos de tortura mas serviam de sustentação (esqueleto) para a obra, pois sua postura era inclinada com o tronco pendendo para a direita, o que lhe roubava totalmente o centro de equilíbrio. Fosse o que fosse, a escolha da imagem já havia sido feita e era definitiva.

- Primeira parte da oficina: passou-se um slide show com várias imagens, todas belas, em sua maioria edificantes, com uma música bem zen (o que é uma constante nas oficinas do Rizoma).

- Segunda parte da oficina: nos colocamos o mais confortáveis possível, fechamos os olhos e a psicóloga pediu que ouvíssemos atentamente ao texto que ela iria ler e tentasse imaginar o que era pedido. O texto tratava de pessoas e lugares, de perguntas sobre pessoas e lugares, por exemplo: “quais a cinco pessoas que você mais ama?”, “qual o seu lugar preferido?”, “quem é o avô ou avó que você mais gosta/se identifica? Que conselhos ele lhe daria se fosse o seu guia?”, “para quem você gostaria de ligar para conversar?”, “Que duas pessoas famosas você admira e gostaria de conversar e aprender mais com elas?” e por aí foi.

- Terceira parte da oficina: foi pedido que escolhêssemos uma das pessoas ou lugares que havíamos imaginado, escolhêssemos de uma a três imagens que você achasse que remetiam àquela pessoa ou lugar, fizesse um cartão com a(s) imagem(ns) e, no verso, escrevesse uma carta para ela.

A pessoa que apareceu mais nas minhas respostas mentais às questões foi Clementine (três vezes), por isso a escolhi com destinatária do cartão. Como já havia escolhido a imagem e me determinado a utilizá-la independentemente de qual fosse a proposta do grupo, me vi meio encurralado em como relacioná-la com Clementine de uma forma que ainda fosse sincera e verdadeira. Escolhi ainda a imagem de um relógio para colocar atrás do cartão (um relógio, pois o tempo é um fator especial, no que tange à pessoa escolhida). Enfim, consegui um resultado que foi sincero e libertador. Dei voz ao meu sentimento (platônico) por Clementine e as dores e prazeres de trazer por tanto tempo aquele sentimento comigo. Finalizei com a frase que sempre quis dizer com meus próprios lábios e minha própria voz para ela: “Te amo.”

Parte final da oficina: quem se sentisse à vontade poderia ler a carta para o grupo e nos foi facultado entregar ou não aquela criação ao seu destinatário. Acabada esta parte (alguns calaram suas criações para si e não repartiram no grupo, o que é muito natural e até esperado, posto que é uma constante), fizemos o “ritual” de finalização do grupo e saí de lá com uma enorme interrogação na cabeça: entregar ou não entregar aquele cartão e aquelas palavras a Clementine? Racionalmente eu tinha certeza de que não deveria fazê-lo, que aquilo só ia remexer em sentimentos desagradáveis nela e talvez aumentar a repulsa e evitação que ela tem por mim, que nos últimos meses, desde que saí da internação e me mantive abstêmio, estava pouco a pouco, milimetricamente, diminuindo. Essa pequena construção, que não sei nem como se eregiu, seria definitivamente posta abaixo com a entrega do cartão e voltaria à estaca zero (ou menos cem) na relação de amizade sadia que ameaçava despontar. O lado emocional, entretanto, gritava a plenos pulmões para entregar, para dizer o que estava guardado, mesmo que escrito às pressas e sem o esmero necessário (principalmente pela falta de tempo e sem o auxílio luxuoso do Word), com minha letra feia e verde (algo que só percebi quando reli o cartão à luz do dia, pois a sala da oficina estava na penumbra, tanto que nem mesmo eu consegui entender direito o que tinha escrito quando li a carta para o grupo).

Fiquei no dilema. Busquei o conselho de dois amigos (uma amiga e um amigo) do CAPS sobre o que fazer. Eles alimentaram meu lado emocional dizendo que, se ela tivesse um mínimo de sensibilidade, iria gostar de receber o cartão. Mas aquilo não me convenceu (até porque eles não sabem de todos os episódios pregressos e ridículos pelos quais este amor me fez passar e, por conseguinte ela também). Fiz adendos à caneta, reforcei uma ou outra palavra mais ilegível e permaneci com a dúvida. Como era dia de psicólogo, levei o cartão para a terapia em busca de uma opinião. Ele me deixou com a dúvida, o que julgo ter sido o mais acertado, e que eu decidisse por mim mesmo qual lado eu deveria deixar prevalecer: o racional ou o emocional.

Enfim, voltei para casa, cheguei em casa e a dúvida permaneceu até o momento em que mamãe me “pediu-obrigou” a ir dormir. Fui fumar meu último cigarro da noite no hall do elevador de serviço e, por coincidência, Clementine calhou de sair de casa (para alguma balada, eu acho), naquele mesmo instante. Meio de sobressalto, meio achando que era um sinal, meio um bando de sentimentos e pensamentos que passam tão rápido que não dá tempo de apreender, expliquei a ela sobre a oficina e o meu dilema. Ela me pediu, alegre, o cartão. Entreguei e pedi por tudo que ela não ficasse com raiva de mim. O que passou com ela, se é que o cartão teve alguma relevância para ela, não sei e, como disse no início do post, provavelmente nunca saberei. E é isso. Mas foi muito, muito bom, no final das contas, saber que ela leu o “Te amo”, mesmo que isso vá dá sempre em no mesmo: nada ou algo pior.

Isso me lembra uma canção do Cure em que Robert diz: “You couldn’t ever love me more”. Simplesmente porque incapaz de nutrir esse sentimento por mim. Até porque para ela pesam as palavras de Bono em One: “One Love, one blood, you gotta do what you should”. Por mais que quando revelei pela primeira vez meu sentimento a (ex?) mulher do francês há muito tempo atrás, mais de década, ela disse que isso não era problema, que havia vários casos semelhantes no clã. Talvez ela tivesse bebido vinho branco doce demais, não sei.

Xapralá. Aliás, que tem que “xapralá” sou eu. Eu bem que tento. Há tempos. Mas esse sentimento é maior que eu. Pelo menos do tamanho da minha alma.

Mas não pensem vocês que esse amor me impedirá de continuar colocando minhas asinhas de fora em relação a outras garotas. Minha ex sabia que eu a amava, mas que também amava Clementine e isso não interferiu em nada a nossa relação. Até porque construímos uma bela e forte relação que se bastava em si. Mas havia uma foto de Clementine em nossa casa e ela, minha ex, nem tchunz para isso, pois sabia do impossível da situação. Até ela sabia o que eu insisto em não saber. O que eu insisto em não negar. Porque acho puro, lindo e virtuoso. Porque me sinto meritório do sim. Porque amo. É isso. Por mais que vá sair hoje com meu primo-irmão para um bloco e tentarei paquerar por lá. Eu amo Clementine e acho que isso é para sempre. Para o bem ou para o mal. Para os dois, dependo das condições climáticas e emocionais.

-X-X-X-

Adendo 18 de fevereiro de 2014.

Contei do ocorrido para o meu primo-irmão durante nossa ida ao bloco e ele disse que, no máximo, ela, no máximo, se sentiria lisonjeada e que, provavelmente, iria me evitar de novo, por medo de alimentar qualquer expectativa ou por repulsa ao sentimento, por achá-lo errado ou coisa do gênero.

Aparentemente, pelo menos em relação à parte final, ele está certo, posto que estive em casa de Clementine recentemente e ela nem sequer olhou para mim, que dirá me dar um “oi”.

Infelizmente, nada posso fazer, o que não tem solução, solucionado está. Por alguma razão que me foge à compreensão, Clementine foi – e, pelo visto, sempre será – a “escolhida”. Por mais que já tenha cruzado com garotas que julgasse mais lindas que ela, Clementine faz parte de mim como os meus ossos e músculos, como os meus olhos e lábios, como minha pele.

Se acredito que isso um dia possa mudar, que eu a consiga extirpar de mim como quem tira um tumor ou sinal benigno ou maligno? Sinceramente não sei. Nem se maligno ou benigno. Nem se extirpável.

Só queria que ela não ficasse com raiva de mim (como lhe pedi reiteradamente ao dar o bendito cartão). Mas acho que ela não foi capaz, como não é capaz de me amar. Acho que para ela eu sou apenas um cara velho, viciado e fracassado. O que, venhamos e convenhamos, não é nada atraente ou encantador. Um velho, viciado e fracassado cada vez mais ousado (já coleciono, em apenas um mês, cerca de 8 foras. Estatisticamente falando, a cada novo não, me aproximo devagarinho da possibilidade de um sim! Hahahahahahahahaha!).