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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

INSTAGRAM



11h58. Depois de um longo hiato, produtivo hiato, em que escrevi o meu segundo livro (bem, quase todo, falta o capítulo de fechamento), estou de volta ao lugar primeiro das minhas palavras. Me impressiona como a vida, mesmo a minha, é dinâmica. Várias coisas aconteceram. Uma delas foi que conheci a garota do Instagram e, entre trancos e barrancos, pois ela demora séculos para me responder, temos construído um diálogo. Fazia muito tempo, nem sei quanto, que não conversava tanto com uma garota que me interessasse afetivamente. Desde a portuguesinha. Mas a portuguesinha veio me revelar depois que namorava e que morava com ele. Agora, talvez tolamente, vejo a garota do Instagram como a luz no fim do túnel da minha solidão e queria me tornar a luz de sua vida. Por sinal, ela está conversando comigo agora. Entre trancos e barrancos. O meu teclado está com um problema de espaçamentos duplos, a tecla de espaço está com defeito. Aqui nesse post é mais fácil consertar, mas no livro, decidi que vou mantê-los, para acrescentar uma camada extra de autenticidade à narrativa. Como conheci a garota do Instagram? Ela começou a me seguir no aplicativo, eu a achei bonitinha e não sabia se a conhecia, então, tendo descoberto que o Instagram tem chat, iniciei um papo com ela para ver se me lembrava de quem se tratava. Não nos conhecíamos. Estamos no quarto dia desde o primeiro contato. Já nos conhecemos um pouco.

12h40. Fui fumar e nada da resposta dela. É assim. Espera sofrida, que a mim demonstra a falta de interesse dela pela minha pessoa e que finjo não ver dessa forma. No mais, mandei a versão revisada do Diário do Manicômio para o meu tio intermediar com as editoras e mandei também para o pai da Vila Edna – pois é, criei coragem para voltar lá depois de mais de ano, creio – e temo pela receptividade que o texto terá para uma família tão querida. É o primeiro teste de fogo da reação do público. Espero não macular a relação. Se macular foi uma escolha consciente que eu fiz. Quero me reconhecer escritor de fato, não de blog. Segurar o objeto livro contendo as minhas palavras nele. Ainda estou na dúvida se o meu tio fará a parte dele, mas me agarro nessa esperança. Deixei o capítulo final do novo livro, que intitulei de Eu Sou Assim e Ninguém Tem Nada Com Isso Ou Mário Odyssey, para depois, pois abri todos esses arcos e acho que deixá-los sem conclusão é um desserviço com o hipotético leitor. Sigo à espera de uma sugestão de música maravilhosa por parte da garota do Instagram. Estou curioso para conhecer os seus gostos musicais. Estou um pouco cansado da lista 6, vou colocar a discografia de Björk para tocar em modo aleatório. Aliás não vou. Vou continuar ouvindo a seleção de Björk da lista 6, tem o Utopia que sempre me relaxa.

13h37. O meu amigo da piscina está fazendo um pão e me chamou para experimentar quando estiver pronto. A garota do Instagram não deu mais sinal de vida, estou começando a me acostumar com seus longos silêncios. Ficava ansiosíssimo, não mais. Se é assim que a existência se mostra para mim, tenho que relaxar e aproveitar. Melhor tê-la dessa forma fugidia em minha vida que ser jogado de volta à solidão. Contei a ela que voltei a escrever o blog e que poderia mandar o link caso estivesse interessada. Minha mãe está com alguma doença, gripe, virose, sei lá, que ataca a garganta e a deixa mole. Está descansando no quarto. Creio que não seja nada de grave, embora ela já fale em pneumonia. Ela descobriu que eu compro cigarros por fora e cortou os Marlboros que me dava dia sim, dia não.

14h17. Ainda nenhuma resposta da garota do Instagram. Mamãe entrou aqui no quarto para me alertar que, quando a voz melhorar, vai querer ter uma conversa comigo. Tal comunicado me deixa com um desconforto interior porque ela tem uma cabeça muito diferente da minha. Ah, no processo de composição do novo livro passei por uma profunda transformação existencial. O título do livro reflete e sintetiza isso. Saí da sombra do meu pai e do meu irmão, deixei de me comparar aos outros, me meço por mim mesmo,  aceito os meus defeitos,  os acolho e  tento mudar os que consigo, os que me incomodam.

15h41. Estive com o meu amigo da piscina e seu contundente bolsonarismo. Acabei de mandar uma mensagem para a garota do Instagram. Achei que mandei bem. A mensagem foi dada em quatro partes, cada uma visando criar uma emoção diferente, me surgiu de um impulso e do tempo que tenho para pensar cada mensagem. A princípio pensei em colocar apenas “seu silêncio é eloquente...”, então concluí que tinha que seguir adiante e o complemento foi pipocando na minha cabeça, inclusive o emoticon de fechamento. Pois bem, crio o drama com a primeira frase, curiosidade com a segunda (“Sabe o que ele diz?”), com  a terceira apresento um fato inegável (“Que eu não pertenço às suas prioridades cibernéticas”). E no final a alegre surpresa: “Ainda.” com um emoticon muito contente de si, muito tranquilo e muito confiante. Que é como me sinto no momento. Acho que a minha mãe está deprimida, não está gostando de existir, não acha que está levando uma vida feliz, como se tivesse dado um “cansou” nela. A vontade que tem é ficar em casa descansando da vida inteira de trabalho e a impossibilidade disso a está deixando doente. Isso pode ter aflorado porque eu parei de dar “trabalho” e ela teve oportunidade de olhar para si e seus conflitos emergiram. A idade também tem lhe pesado muito e sido muito severa. Eu e meu amigo da piscina tivemos divergências ideológicas a respeito do bolsonarismo.

[15:44, 9/28/2018] Mário Barros: Não percamos a amizade por questões ideológicas, apenas discordamos em alguns aspectos. Ademais a minha opinião é baseada em muito pouco conhecimento (que não pretendo expandir).

16h20. Estou pensando na garota do Instagram. Isso tem alguns traços de paixão, mas não é paixão ainda, não é hora, não está nem perto. Sabe o que eu projeto, que não sei se conseguiria aplicar realmente, por ser ousado demais? Que, caso nos encontrássemos na passeata, eu pudesse andar de mãos dadas com ela por alguns momentos. Há quantos anos não sonho em andar de mãos dadas com uma garota? Uma garota pela qual eu tenha sincero interesse? Nossa, nem sei. Quem ainda me dá algum carinho é a Gatinha. Bom, nada disso vai acontecer, é só ficção. Outra ficção que criei enquanto fumava era dar a um dos alunos da minha mãe a ideia de organizar um evento surpresa de despedida, quando da sua aposentadoria, com todos os alunos dela e os professores no auditório e coquetel depois. Fazia uma quotinha no departamento para que todos contribuíssem para a consecução do evento, que não seria caro, a estrutura está toda lá. O auditório tem inclusive o nome do meu pai. Seria massa se meu padrasto terminasse o discurso com: “...e além disso é o amor da minha vida”. Eu estaria presente, claro. FIM. Acho que não tenho coragem de jogar a ideia para o aluno. Mas acho que mamãe gostaria dessa manifestação da existência. Talvez gostasse de saber que eu fui o mentor. Vou pensar no caso. Sei lá, pegar o e-mail do cara, ou mesmo falar com o meu padrasto. Será que consigo? Seria uma atitude positiva da minha parte. Acho que poderiam até ex-alunos virem. Tive uma ideia! Vou mandar um e-mail com esse trecho do texto para o meu padrasto.

16h52. Mandei. Cutuquei a existência. Não sei no que isso vai resultar. Espero que em nada negativo. Agora fiquei apreensivo.

16h59. Fiz, está feito, não há volta. A vida não tem ctrl + Z. Por isso não me arrependo de tentar o meu máximo para conquistar a garota do Instagram. Demorou tanto para eu achar uma garota que merecesse ser a minha namorada, nos meus seletivos critérios, e o acaso/destino me apresenta a garota do Instagram. Uma garota encantadora pelo que tudo indica por dentro e por fora. Uma garota que posso conhecer com calma, para que a nossa relação se construa aos poucos para que eu vá me acostumando e me preparando para mudança que é ter uma parceira para encarar e usufruir a vida. Que possa dormir ao meu lado. Nossa, como sinto falta disso. Ter o ser amado ali confiando o seu sono a mim, acordar no meio da noite e ter alegria de vê-la. É uma existência provida de mais sentido, de mais alegria, de mais intimidade, mais cumplicidade, mais afeto, de mais admiração. Claro, morro de medo de isso vir a acontecer de fato. Seria uma mudança muito radical do status quo que agora impera em minha, por mais que positivo, radical. Eu precisaria readequar a minha vida para comportar uma nova pessoa, minha vida social seria mais agitada, mas respeitando os meus limites. Muitos programas ela poderia fazer sozinha, eu suponho, pois os faz hoje. Eita, outra ficção! Estou ficcional hoje. Hahaha. Vou fumar e encher o refil de Coca Zero.

17h23. Minha mãe e meu pai, parece que o meu padrasto veio depois, junto com outros professores agora decanos, fundaram o DQF da UFPE, fizeram a revolução e evolução do ensino de química da universidade, tenho muito orgulho dessa conquista deles.

17h28. O ar estava me deixando com frio. Desliguei. E pensar que até a semana passada eu nem sabia que Instagram tinha chat. Realmente a vida tem cada uma. Tenho que me conscientizar que nunca vou namorar a garota do Instagram. Mas essa ficha ainda não caiu.  Ainda há uma renitente esperança em meu peito. E vou insistir até que se prove inviável. Ou que outro milagre desses aconteça. Não tenho nada a perder, ela me diverte quando resolve falar, o que se prova extremamente raro (ela falar, digo). Estou aprendendo a relaxar com isso. Confesso que sou um aprendiz medíocre e ansioso. Eu não sei jogar o jogo de seduzir, eu só consigo ser eu mesmo. Vou postar como imagem deste post o quadro que pintei e recebeu uma quantidade razoável de elogios no Instagram. Pois é, estou assíduo do programa como jamais fui. Por que será? E além da garota do Instagram há o anjo do Tinder, que me serve de conselheira. Em verdade a encontrei primeiro e ela me levou à outra, por me fazer ver o Instagram, este me informar de que uma nova garota havia começado a me seguir e eu decidir investigar quem era. O acaso/destino agiu de uma forma muito singular. Sobre o anjo do Tinder? É uma garota lindíssima que entrou no aplicativo só para tirar onda, me pegou e tentou me fazer de otário, mas a desmascarei. Passei-lhe um sermão e nos tornamos amigos de Instagram, por assim dizer. Sempre quer saber em que pé anda a minha interação com a garota do Instagram. Nossa, estou cansado de escrever a palavra Instagram. Acho que esse vai ser o título do post.


17h54. A terceira página está quase acabando. E nada de resposta da garota. Até o anjo do Tinder já veio falar nesse ínterim, perguntar como andavam as coisas. Acho que a minha mensagem para a garota do Instagram ficou redonda, mas quando publicar isso vou postar o link do Profeta para ela. E daí me segurarei até que ela fale, senão tento amanhã de novo. Entre ficar só escrevendo aqui e ouvindo música, me comunicar em pílulas com a garota do Instagram é uma ótima adição à minha rotina, se eu não ficar com ansiedade. Seria uma  história para contar aos nossos  netinhos que nos encontramos pela primeira vez  numa passeata histórica, de um momento histórico do país, mostraria que tínhamos ideais políticos e poderíamos explicar contra o que lutávamos: contra a militarização do país, a favor das minorias e da  base da pirâmide social, pelos direitos constitucionais invioláveis, pelos  direitos  humanos como um todo, para prevenir que alguém completamente despreparado assuma o controle do Brasil e com o apoio dos militares sabe-se lá engendrar o quê. É muito perigoso um homem incompetente, reacionário, que incita o ódio no poder. Enfim, seria legal, bem legal que nos encontrássemos lá. Sua presença valorizaria muito mais a pessoa que é para mim por estar demonstrando que ela se valoriza e se mobiliza como mulher e cidadã num momento tão extremo. Eita, entrei na quarta página, vou revisar e postar.

domingo, 6 de maio de 2018

SÁBADO


15h51. Adoro esses números que são iguais de trás para frente e vice-versa. Houve uma coincidência incrível ontem quando pegamos o Uber, meu primo-irmão começou do nada a falar de uns OVAs (desenhos animados japoneses mais adultos) que passavam na extinta TV Manchete nas noites da sexta, eu acho, no programa US Manga. Ou seja, um assunto super de nicho. E não é que o motorista do Uber, na faixa dos cinquenta anos, era fã do programa e de animes em geral? E não era conversa mole dele não, ele contou detalhes dos OVAs que não deixaram dúvida de que realmente os assistia. Se disse um apaixonado pelo gênero. Foram então os dois conversando sobre o tema até o Bar Central, o nosso destino da noite. Aniversário de um amigo nosso. Achei esta conversa dos OVAs uma em um milhão, um virtuosismo da existência que fez convergir uma série improvável de fatores para gerar aquele diálogo. Primeiro, ter batido não sei por que cargas d’água o saudosismo do meu primo de ver os tais desenhos essa semana. Segundo, ser o tema que trouxe à conversa, terceiro pegarmos um Uber no momento certo, do lugar certo para irmos com um coroa que viu e curtia tais animes. A probabilidade disso acontecer é muito pequena e, no entanto, eu a presenciei. Aposto que o motorista do Uber deve ter ficado tão impressionado como nós. Disse que era a última corrida que faria na noite, já estava trabalhando há 13 horas. Fechou com chave de ouro, pois acho difícil que tenha com quem falar sobre um assunto tão específico. Se bem que com grupos de Facebook e WhatsApp, tudo é possível. De toda sorte, não é todo passageiro que fala dos OVAs que a TV Manchete passava. É uma pequena loteria dessas que a vida nos apresenta. Como disse, uma manifestação mais requintada, peculiar e particular da existência. Algo como um solo na sinfonia de átomos do universo. Sobre o encontro que sucedeu esse memorável encontro? Foi ótimo, conversamos bastante e é muito bom conversar. Eu inevitavelmente, com a boca grande que tenho, tinha que falar do meu livro. A líder com a sagacidade feminina que lhe é peculiar aproveitou os peitos grandes porque lactante e os destacou com um ousado decote. Bela visão. Espero não ter dado muita bandeira apreciando esse detalhe. A parte mais interessante foi quando tratamos de relacionamentos e porque os três homens que restavam na mesa – o aniversariante, meu primo-irmão e eu – estavam solteiros, ouvi atentamente os conselhos da líder. Nós três nos admitimos românticos e com tendência a colocar as mulheres num pedestal, duas falhas críticas, segundo a líder, na abordagem de desconhecidas. Sei que findei minha noite cometendo a insanidade que foi o post anterior, uma carta para a coisa mais próxima de uma paquera que eu tenho. Não vai dar em nada só em mais um papel de bobo que faço, mas pouco se me dá. O “não” já tenho e continuarei o possuindo depois da carta, então nada mudou na minha vida, exceto que me diverti escrevendo para ela e me divertir é algo válido nessa estrada que vai do nada ao nada. Não alimento esperanças em relação à Garota da Noite. Ela deve me ter por um maníaco ou coisa que valha. Hahaha. Eu disse a ela que não sou pegajoso, mas demoro para largar o osso e... ah, se quiser, você lê aqui http://jornaldoprofeta.blogspot.com.br/2018/05/carta-garota-da-noite.html .

16h23. Meu amigo da piscina mostra a sua nova conquista sexual, uma moça bonita, que parece ser boa gente. É uma mãe dedicada, aparentemente, pela orgulhosa foto que tirou com a feliz filha de cerca de 10 anos de idade. Meu amigo é meio malandro, mas é gente boa. Provavelmente nos encontremos hoje na piscina para conversar sobre a vida. Acho que foi para ele que contei dos eletrochoques, não mencionei essa parte com detalhes no livro. Talvez valha detalhar um pouco mais, acrescentar umas três a cinco linhas sobre o tema. Nada de muito grande. O porquê, o como, o onde, o com quem, o quando (que não me recordo, talvez mamãe saiba). Basta isso e a sensação gostosa da anestesia. Como se a consciência fosse se esvaziando como areia passando por uma ampulheta rumo à inconsciência. Era rápida e interessante a sensação, despertava algum prazer. Mas não darei detalhes que podem entrar no livro. Não aguento mais falar desse assunto parece que tudo o que sou é o livro. E o pior que com o meu bocão fico espalhando para todo mundo, pois percebi que é algo que agrega valor à minha pessoa, mesmo quando digo o nome do livro, que revela sua deplorável temática, parece que as pessoas se atém mais à palavra livro que ao resto e parece que ter a ousadia ou a capacidade de escrever um livro é algo muito bem visto socialmente. De posse dessa percepção, querendo me valorizar um pouco, se me perguntam se tenho alguma novidade, eu digo que escrevi um livro. E que já está na revisão e que mandei para Seu Raimundo. Por sinal, a turma me acalmou muito em relação a esse assunto que estava me assombrando. Disseram que poderia levar meses para ter uma resposta, pois ele é um cara muito ocupado. E que se a sua reação fosse negativa, não desanimasse. Acreditasse no conteúdo. Fiquei reconfortado com pontos de vista menos ansiosos que o meu. A incrível revisora também me aconselhou ter paciência em relação ao assunto. E realmente é tudo o que posso fazer. Aguardar. Se vier, veio, senão um abraço. Confio na minha revisora e sei que ela fará o seu máximo para transformar o livro num texto melhor, extrair do que eu escrevi o melhor. Queria que o livro fosse interessante até o final, mas não sei se consegui ou se ela vai conseguir tal intento. O ápice da narrativa, a meu ver, se dá no primeiro quarto do livro, mas não posso ferir a cronologia dos acontecimentos e botá-lo para o final, não faria sentido algum e aí estaria fantasiando o que de fato aconteceu e não quero isso. Quero que a sinceridade seja o grande diferencial desse livro. É o único que possui. Fora que mudar o ápice para o final seria completamente incoerente. E nem sei se há ápice de fato no livro. Para mim, que estava vivendo lá, foi o acontecimento mais marcante, mas pode ser que para o leitor não seja. Sei lá, mas acho que vai ser. Uma hora e meia para me encontrar com meu amigo da piscina. Confesso que não queria mas vou lá. Será bom no final das contas. Melhor do que ficar aqui escrevendo. Ou tão bom quanto. Acho que a incrível revisora vai ficar cheia de dedos de ser citada aqui no blog, mas só trato dela em relação ao livro, não comento de sua pessoa e se o faço é para louvar suas qualidades, que foram o que me fizeram optar por ela. A admiro como pessoa e como profissional. Sei que pode acrescentar muito à obra e conto com isso. E não acho que estou tendo expectativas exageradas quanto ao seu trabalho. Acho que é exatamente o que fará, lapidar a pedra bruta. E principalmente ajeitar a loucura com os números no texto, não sei usar numerais nos textos, sou completamente analfabeto nisso. Acho que fiz tudo errado, cabe a nossa intrépida caçadora de erros achar e consertar todos os meus vacilos numéricos. Estava querendo mandar um e-mail para Seu Raimundo pedindo desculpas pelo e-mail anterior depois que meus amigos me aliviaram a alma. Seria assim:

“Seu Raimundo,

Me desculpe pela afobação do e-mail anterior, meus amigos, que ficaram muito felizes com o prospecto de o senhor emitir opinião sobre o meu livro, disseram que o senhor é muito ocupado, que poderia levar meses para receber uma resposta e que independentemente da resposta que viesse, eu deveria acreditar no meu material. Mesmo assim, continuo achando que suas opiniões ou conselhos ou críticas não têm preço e são fundamentais para ajudar a lapidar a pedra bruta que lhe enviei.

Eu lhe disse que escrevia para além desse livro. Bem, eu escrevo um blog. É a minha ocupação, meu ofício de fé, o que faço com o maior prazer. Sou lido por muito poucos, vinte, quarenta pessoas no máximo, mas isso é o que menos me interessa, interessa a liberdade de poder me dizer. Caso o senhor queira dar uma olhada, o endereço é http://jornaldoprofeta.blogspot.com.br/ .

Novamente peço desculpas pelo e-mail anterior. Como tenho todo o tempo do mundo para escrever, tendo a achar que os demais têm a mesma disponibilidade que eu, o que não poderia estar mais distante da realidade. Ainda mais em se tratando do senhor.

Grande abraço e obrigado por ter acolhido a obra da minha vida,

Mário Barros.”

17h20. Não sei se mandarei esse e-mail, me parece pertinente frente ao que meus amigos me disseram ontem.

17h40. Ainda não sei se mande. Queria a opinião de mais alguém, mas não sei a quem perguntar. O meu amigo da piscina, o mais disponível, não me parece o mais adequado. Adequada seria a líder ou a incrível revisora. Mas não tenho cara de aperreá-las. O negócio é relaxar e decidir depois do encontro com o meu amigo da piscina, que se dará em menos de uma hora. Acho que vou levar o computador hoje. Quero escrever lá embaixo. Espero que não esteja chovendo. Tenho que olhar do hall da área de serviço. Se estiver molhado, mas tiver estiado, eu me arrisco e levo. Senão, escrevo no celular mesmo.

17h55. Agora, passado um tempo, acho besteira mandar o e-mail para Seu Raimundo, pelo menos da forma caudalosa como o escrevi. Poderia ser mais sucinto:

“Seu Raimundo, desculpe pelo e-mail anterior, estava numa afobação danada. Meus amigos me tranquilizaram (e ficaram muito felizes com a notícia). Grande abraço e obrigado por acolher a minha única e última obra. Mário.”

18h00. Esse me parece mais adequado. Sobre qual e-mail mandar, eu posso perguntar ao meu amigo da piscina. Ou até à minha mãe. Aos dois, talvez. Ou a nenhum visto que já me decidi pelo segundo. Vou mandar logo. Não, não vou. Vou esperar.

18h26. Estou aqui na piscina à espera do meu amigo da piscina. Por isso o apelido, porque é aqui que geralmente nos encontramos.

18h46. Cancelar o boneco do Evolve. De novo.

19h03. Será que a incrível revisora depois de saber de sua alcunha e participação neste espaço vai ler o post do dia em que estava particularmente neurótico e ansioso? A figura que sou agora não se reconhece naquela. Muitas coisas mudaram desde então. Meu amigo da piscina sugeriu que eu instalasse o Tinder e correlatos, mas não é a minha vibe. Talvez tenha medo de relacionamentos reais e certamente não quero relacionamentos com mulheres da minha idade. No máximo até os 30. Como é o caso da Garota da Noite, conteúdo do blog anterior, coincidentemente. Mas estou hoje mais a brincar com ela, usá-la como uma forma de diversão, na qual os dois se divertem, eu creio. Mas tem data para acabar. No dia no aniversário dela. Será o meu presente deixar de ser seu amigo no Facebook.

19h15. Estávamos a olhar fotos e conversar sobre Björk. Meu amigo da piscina me perguntou se era pessoal o assunto que tratava e disse-lhe que era público, mas em verdade é pessoal que torno público. Como se este fosse o palco onde atuo, onde sou mais eu. Estamos ouvindo “Bastards”, por isso o diálogo e pesquisa sobre Björk, me achei muito mais bem informado do que imaginava sobre ela. Estou achando esse “Bastards” absolutamente genial.

19h29. Vi meu amigo da piscina sendo pai. Ele me pareceu um bom pai. A menina se sentiu superfeliz com o carinho dele. O menino já respondeu mais reciprocamente. Foi uma experiência social bonita. Gostei de observar. Está valendo muito a pena estar aqui. Com o meu amigo da piscina. Me desconcentrei do som, mas quando volto é sempre muito novo e original, uma reinvenção das músicas do “Biophilia”.

19h38. Vamos ver como as coisas me saem agora. Pensei em ir para o Vate, mas vou ficar por aqui. Para quem eu poderia dizer que estou ouvindo “Bastards” de Björk? Mexer no celular para mandar o link dos OVAs para o meu amigo da piscina me fez entrar em contato com o WhatsApp e me deu essa vontade de usar o aplicativo para divulgar meus gostos à revelia da disponibilidade dos meus contatos. Discutimos sobre Bombril agora, foi interessante pensar num Bombril é uma coisa na qual peguei poucas vezes na vida, achei sua textura interessante, já peguei em Bombril se esfarelando, ou pelo menos tenho essa lembrança de senti-lo esfarelando, minhas memórias de Bombril são vagas devido às pouquíssimas interações e ao enorme tempo que me separa delas. Que pena, acho que mamãe não compra Bombril, mas vou dar uma olhada na despensa. Primo urbano, eu mostrei sua última música ao meu amigo da piscina e ele pensou que era para o filme e me imaginou numa cena de costas andando, ou seja foi uma visão bastante pictórica da música para ele. É curioso, qualquer um que perceba de uma forma, acho isso interessante na sua música, por ser inclassificável, cada um pode dar o seu significado, quase como um quadro abstrato. Meu amigo da piscina sentiu falta de um elemento que se repita na música, algo como um refrão melódico, eu creio, como creio que não seja a intenção do meu primo urbano tornar sua música mais fácil e acessível, acho que a viagem dele é liberdade criativa total. Aplicar os conhecimentos e equipamentos que possui da forma que bem entender, inclusive desconstruindo regras, como sobrepor sons em andamentos diferentes.

20h00. “É uma coisa, que... num sei nem dizer...”, foi a frase de conclusão do meu amigo da piscina sobre o fato que acabou de me narrar, qual seja, foram na casa matar o cara e, como este não estava, mataram (ou matou, não sei quantos foram) o tio e uma criança de dois anos. Imagine o que se passa na cabeça de um homem que não hesita em disparar contra a cabeça de uma criança de dois anos. É uma completa aberração social, até mais que eu. E há um lugar que fabrica homens desses, pois homens como esse há, para quem a vida humana perdeu completamente o seu valor, o seu sentido. É uma homem que tem um distanciamento do todo, que vê os que não sejam do seu grupo como possíveis vítimas. Se o viciado não tem, matam a criança de dois anos, o que talvez seja até uma punição maior se a pessoa amava a filha, e isso é ficção desde que sugeri que o cara era viciado em crack, se era, amou mais a droga, se tornou o animal insano e esqueceu a família e até a própria filha para ficar em boca de fumo, pegava dinheiro do tio, e traficava para saciar o vício, vacilou, perdeu a filha, quando a sanidade voltar, se não for morto logo adiante, a culpa desse homem vai ser tão grande que ele vai chegar a pensar que perder a própria vida seria menos doloroso do que conviver com aquela constatação de que o seu vício levou sua filha a levar um tiro na cabeça, estourando um dos seus olhos. Aquele ser tão puro que lhe amava incondicionalmente. Botei o som bem alto agora que meu amigo da piscina subiu para que a galera da outra mesa ouça, se chegar lá, não sei. Me parece alto o suficiente. Estou com essa sanha de divulgar o “Bastards” de Björk... se você tiver Spotify se dê uma chance e ouça atentamente o disco e pense que são remixes do álbum “Biophilia” que descontroem e reconstroem a música de uma forma nova e muito fresca, muito o som do futuro mesmo, acho que foi a melhor definição que vi do som da cantora islandesa, dizer Björk como uma desbravadora das fronteiras da música (e não só da música). Esse disco de remixes é muito invocado, acho que é um para se ouvir como se ouvisse Coltrane. Não faço mais isso mas entendo muito bem. A cena da criança morta me veio muito claramente e não foi uma visão nada bonita, vejo o homem agarrando violentamente a cabeça da menina para junto da arma e dando um tiro. Talvez nem tenha olhado para o bebê na hora, preferindo não ver a cara da morte de uma criança, por temer se comover. Quem sabe o que vai no coração dos homens? Obviamente ele não teria essa percepção conscientemente, mas talvez inconscientemente. Ele de cabelo quase Bombril.

20h32. Quis me distanciar daquele papo de assassinato, isso rende na minha cabeça esse mergulho nas possibilidades, um imaginar e supor hipóteses sobre o caso, visto que a informação é só que, na ausência do cara procurado mataram o tio e uma criança de dois anos, o resto é pura fantasia. Se você ouvir enquanto lê isso o “Bastards” de Björk, você estará muito próximo do que estou passando agora. Vou botar a música próxima música porque esta está mais ou menos. Bom vou dizer o nome da música que eu vou botar que daí vocês vão ter a mesma experiência sonora que eu com uma diferença de segundos. “Thunderbird (Death Grips Remix)”. Vou botar agora, vocês já estão prontos? É só apertar? Agora. Pronto é isso que eu estou ouvindo nesse exato no momento nas caixas Bang & Olufsen do meu notebook, numa mesa redonda de mármore encerado, numa cadeira de vime e metal, rodeado de outras cadeiras semelhantes, em número de quatro ao redor da mesa, cinco com a minha. Na que está à minha esquerda está a minha mochila preta que me acompanha em todas as viagens, pois sempre levo o meu computador. Não queria lembrar da viagem que terei que fazer, que saco. Acima de mim há um grande toldo segurado por um braço de ferro. O Toldo é verde escuro. As partes de metais e as cadeiras são marrons escuras, o reflexo das plantas no metal do tronco principal, de onde protubera o braço, dá uma esverdeada no marrom.

20h49. À minha esquerda, continuando o meu exercício de descrição, estão a Coca (copo e garrafa) e o celular Galax S8 Plus, de 64 giga, não é o de 128. Atrás de mim está o balde de gelo branco, sem gelo, ao lado deste o copo do meu amigo, próximo à cadeira em que estava sentado, que por sinal está afastada da mesa. Há folhas amareladas de mangueira caídas pelo chão de pedra, ao redor há um agradável “muro verde”. À minha frente, junto de mim, o meu computador e ao longe o poste de luz com um design muito interessante iluminando toda a cena. É um momento muito salutar da existência. Meu amigo me deixou com a criança morta para pensar e subiu. Ah, também me deixou com a lembrança da satisfação de ser pai, que não sei se sentiria, acho que não sou capaz desse sentimento, tão egoísta que sou. Culpar o egoísmo, um egoísmo tão grande que supera a necessidade natural, o impulso animal de procriar é de uma sinceridade dura. Desejo de procriar para o qual viemos naturalmente programados e que a sociedade ela mesma programa para a continuação da raça humana. Me vem à cabeça a imagens de fetos de meninas jogados pelas sarjetas da China. Fetos bem desenvolvidos, a ponto de se saber o sexo. Sexo, uma palavra que não me seduz também. Me masturbo e tal, mas não diariamente, não sou dependente do orgasmo para viver, sou muito mais viciado em Coca e café do que em sexo. Em cigarro do que em sexo. Sem dúvida. Escrever eu já talvez trocasse por sexo, o fato é que sexo não me interessa. Começou a chover ao redor de mim. Está molhando as minhas pernas.


A prova que uma imagem vale mais do que mil palavras.






21h06. A chuva deu uma cessada, era para eu me arrumar e vazar antes que venha de novo, mas ainda chove um pouco, engrossou de novo. O negócio é dar um tempo aqui até passar. Está respingando inclusive. Dei pausa no som para ouvir o barulho da chuva, que está alto e interessante, me envolve 360 graus, é massa, mais do que 5.1. Um inseto, um tipo de besouro verde eu diria, ou uma mistura de gafanhoto com esperança do tamanho da palavra não que acabei de escrever, bem, talvez um pouco menor talvez ião. Agora sim do tamanho certo. A chuva está molhando a minha máquina, se não diminuir, vou guardar. Ela não foi criada para suportar água. Que ozzy, vou fazer isso, mas parou mais, só a umidade do ar é que deve estar alta, principalmente para padrões americanos de onde vem o computador. Mas deve ser feito na China e projetado para aguentar o clima de qualquer país do mundo. É uma incrível rede de distribuição desses produtos. É uma pena o Brasil não ter uma supermarca como sei, lá, LG. Já pensou ter a marca Google? Para mim, a marca mais cara do mercado. Embora saiba que Apple é mais valiosa. O besouro apareceu novamente parece que gostou da minha tela. Uma companhia peculiar, a chuva praticamente acabou, vou embora antes que comece de novo. Continuo lá em cima. 21h15

21h41. Estou devidamente instalado no meu quarto-ilha. Deixei a chuva para lá. É bom estar aqui. Eu gosto daqui, eu gosto meu velho e vasto estranho reino. Coloquei “Bastards” para rolar novamente. E troquei a bermuda por outra bem velhinha, que antigamente era uma calça, mas que, de tão velha, rasgou no joelho e daí eu cortei as pernas e transformei numa bermuda, então imagine como o tecido está amaciado. Ela só está um pouco apertada. Estivesse cinco quilos mais magro, me caberia mais confortavelmente, perfeitamente confortável, mas estacionei no meu peso. Agora preciso lutar para reverter, estou comendo menos, eu acho, e mais proteína. Ouvi um menino na piscina dizer que para quebrar proteína em energia gasta-se mais energia do que é gerada, logo, quebrar proteínas emagrece, então me foco nas proteínas e venho, vez ou outra, comendo a salada do Mário. Que está bastante diferente do que eu vejo como a salada que eu quero. A minha consiste apenas em abacaxi, cebola, tomate, pepino e kani; nada de coentro – e bote coentro nisso – e cenoura ralada, embora a cenoura desça, mas o centro tem um sabor muito ativo, muito forte que rouba o sabor dos demais ingredientes, e o caule tem um sabor estranho. Logo, vou pedir que se quiserem fazer a salada com coentro para meu padrasto e minha mãe que façam. A minha eu quero sem coentro e com kani. E o abacaxi deve ter o dobro da quantidade dos demais componentes. Ou seja, coloca-se 2x de abacaxi e x de cada um dos demais ingredientes. Mando ou não mando o e-mail para Seu Raimundo?

21h56. Mandei o e-mail. O mais sucinto. Seja o que Deus quiser. Também não mando mais nenhum. Mas não queria me ocupar disso agora, como não queria estar tomando Coca choca e quase quente. Virei o copo. Estou muito mais de ações e percepções do que de pensamentos ou é impressão minha? Ou tudo são pensamentos, tudo que manifesto são pensamentos, pensamentos sobre situações e coisas, mas pensamentos, é o meu cérebro recebendo e processando todos os estímulos que o ambiente me dá e decidindo o que fazer de posse dessas informações. A consciência decide se dá atenção a eles ou não. Por exemplo, estou achando que o ar que bate frio do ar condicionado em meu braço talvez se torne em breve, frio demais e me faça desligar momentaneamente o aparelho. Talvez quando trouxer o próximo copo cheio de gelo isso se dê. Nossa, agora que lembrei, tive um desempenho social pífio agora há pouco, quando vinha para a casa ao chamar o elevador rosa. Pois é, elevador rosa. Devido a substituição ou modernização do elevador de serviço, o social que é novinho, recém-instalado, foi recoberto por tapume rosa numa clara homenagem às moradoras do sexo feminino do prédio, embora muitos digam que gênero não tem cor, o rosa é associado pela maioria das pessoas ao feminino, é culturalmente assim. A Barbie talvez seja a maior difusora global dessa cultura. Todos os brinquedos da Barbie são rosa, de um rosa específico. Ou era assim quando eu era criança. Então pelo inconsciente coletivo, como se dá hoje, há a orientação para a percepção do rosa como cor feminina, o elevador seria uma homenagem a esse sexo que em diversas coisas é diminuído na sociedade machista, que é machista desde os primórdios, salvo raras exceções, e que cada vez mais abre os braços e acolhe a mulher como uma igual socialmente, mas sem exageros por favor, ou o processo de sedução pode ficar bastante difícil e vai acabar um preconceito feminino em relação ao homem, como, em vez de companheiro para todas as lutas, fosse o inimigo a ser derrotado. Só a necessidade de maternidade poderia mudar esse sentimento, ou então usariam os homens só como reprodutores. Fui longe agora. Caramba. Mas estou de volta ao quarto-ilha. E vou desligar o ar um pouquinho e pegar uma Coca Cola. A Coca sem gás me desanima um pouco, mas vou detoná-la e abrir uma nova.

22h18. Detonei, mas não abri a nova, acho que o livro de Clarice Lispector citado pelo meu primo-irmão em que ela, pelo que entendi descreve os atos corriqueiros do seu cotidiano, me pegou agora e me vem a vontade de contar acontecimentos. Fui pegar uns biscoitos Tortinha de Limão para comer na despensa e me deparo com quê? Bombril. E ele tem mesmo essa característica farinhenta e solta resíduos de si mesmo nos dedos, é uma palha bem fina e esquisita. Pelo menos satisfiz minha curiosidade táctil sobre Bombril. Uso muito “pelo menos”. E aspas. Hahaha. Já estou ficando sem muito entusiasmo de escrever. Nessa hora vêm a minha nova paixão, o tão falado livro. Botar para a minha amiga, a incrível revisora, revisar dá uma visibilidade que pode chegar a pessoas que não quero que chegue. Eu pensei em lançar um post no Facebook que se todos continuarem meus amigos depois de saberem do meu segredo mais secreto, eu lanço. Eu acho o Andarilho mais culpado do que eu em relação a um fato que rolou no Manicômio. Mas eu tenho a minha parcela de culpa, fui cúmplice. Só não fui o mentor e o que organizou todo o esquema. Mas paguei o justo. Não sei se o justo. Mas mais do que imaginei que iria pagar. Não quero pagar a severa pena que, imagino, vai decorrer do livro. Bom, a incrível revisora vai me dizer se devo ou não publicar. E decidirei a partir daí. A sinceridade absoluta para mim tem um custo muito alto.

22h47. Fui comer mais Tortinha de Limão e comi também um iogurte de frutas vermelhas, muito bom. Coloquei um copo de Coca Nova para mim e estou com vontade de fumar um cigarro.

22h56. Fumei e pensei que o primeiro disco dos Los Hermanos é quase de hardcore melódico, em sua maior porção. Mas extremante melódico e com uma batida instigante, foi uma combinação muito feliz. É o disco mais vigoroso da discografia deles. Bom, “Bastards” acabou. Vou ouvir o bom e não tão velho novo disco do U2. Não, vou ouvir o primeiro do Los Hermanos. Coloquei. Estou sem muito assunto.

23h08. Minha amiga líder, gostou do texto que fiz para a Garota da Noite. Fiquei muito feliz.

23h16. Obviamente recobriram o elevador social de tapume para protegê-lo dos serviços pesados a que vai ser submetido com o elevador de serviço sendo substituído e desligado. Mas gostaria que a mulheres e sentissem prestigiadas num lugar por onde inevitavelmente passam todos os dias. Que bobagem a minha.

Mas olha como ficou curioso:





Estava pensando em algo, mas me escapuliu. Vi agora que mandei o e-mail para Seu Raimundo e começo a achar que a emenda saiu pior que soneto. Novamente não dá para desmandar. Agora já foi. Resta esperar.

23h52. Coloquei U2 de novo. E jantei. E o sono está batendo.

23h57. Estou sem assunto. Falei com o meu amigo da piscina para nos encontrarmos amanhã de novo. O que se passa na minha alma? Sinto calor e chove lá fora. Aqui, U2 toca. Vou ligar o ar uma vez mais. Estou sem cabeça para escrever. Isso é tão chato. Se bem que as ideias fluíram bem hoje, acho que a colheita foi farta e variada, o que apreendi da realidade foi muito válido. E aprendi também. Mas não vou botar Tinder no meu celular, nunca deu certo comigo. Abri na página para instalar o aplicativo agora, mas retrocedi. Acho que prefiro viver de platonismos irrealizáveis. É a forma menos dolorosa que divisei de amar. Eu carrego o sentimento amor dentro de mim, mas a quem é destinado não poderia estar mais distante. E distante do real. Mas nada me incomoda, pois nutro o sentimento e não sofro por causa dele. Também não recebo o bem maior que é a troca, as experiências juntos. Vamos ver se a Garota da Noite me dá notícia de vida. Mas acho improvável. Estou pensando em ir dormir. De ontem para hoje dormi pouco para os meus padrões, cerca de sete horas. Quero ver se durmo 11 ou 12 agora. Vou trocar de roupa mais uma vez e colocar a mais confortável de todas, já que todos foram dormir, meu calção do pijama e a camisa que um esquizofrênico gordão me deu num surto. O tecido da camisa esticou ao longo dos anos e hoje a camisa bate nos meus joelhos, é praticamente dormir de camisola. E é confortabilíssima, assim com o calção de pijama que mamãe comprou com o tema de Star Wars, cheio de capacetes de Darth Vader. Acho que passeei hoje por diversas searas e fui particularmente descritivo. Não acho o conteúdo mais interessante par se ler, mas me senti inclinado a isso. Me divertiu. Foi um bom passatempo. Espero que você tenha pelo menos em parte sentido os sentimentos que experimentei. Sim falar do desempenho social pífio. Não o contei. Eu estava a esperar o elevador rosa, quando dois vagamente conhecidos meus chegaram para a festa de aniversário do vizinho do 20, ambos superlegais, mas com os quais tenho intimidade mínima, quase um sopro. Quando pensei em subir o elevador com o casal me deu um mal-estar pelo silêncio que se faria. A moça eu desconhecia. O silêncio se fez pesado e constrangedor à espera do elevador. Fiquei muito envergonhado com aquela espera. Foi então que chegou mais um casal que também do homem, ou jovem adulto, compartia da mesma frágil intimidade. O elevador parou no 15. Torci para ser o meu amigo da piscina para me salvar do constrangimento de subir no elevador com os dois casais. E não é que foi ele, meu amigo da piscina que saiu do elevador, o peguei a qualquer pretexto para conversar e disse aos meninos que estavam dentro do elevador à minha espera que podiam subir, que eu ainda tinha algo a conversar com o meu amigo da piscina, o rapaz insistiu, dizendo que esperaria que a conversa acabasse e que caberia tranquilamente dentro do elevador, eu redargui que não precisava, que podiam subir pois eu tinha coisas a tratar com o meu amigo, mesmo sem conseguir balbuciar assunto qualquer com ele. O rapaz se deu por vencido e entrou no elevador. Quando o elevador subiu contei toda a história ao meu amigo e até que batemos um papo legal enquanto o elevador subia e descia todos os vinte andares. Talvez, tivera eu entrado no elevador, me chamassem para casa do aniversariante, para onde acho que iria com o maior prazer. Mas amarelei feio. Ia ser socialmente estranho. Se bem que podia interfonar agora para a casa do aniversariante e perguntar se podia passar lá. Mas não vou, é quase 1h00, minha mãe vai querer que eu durma cedo, por mais que, pela receptividade do rapaz acho que seria bem-vindo e me sentiria acolhido lá. Nossa, me veio a viagem para a Europa agora e me encheu de insegurança. Queria ficar em casa o dia todo escrevendo, se for possível com as crianças maiores, tomara que sim. Tomara que haja um cantinho isolado para eu escrever. Algum lugar onde possa me sentar e escrever, com o meu computador. É tudo que eu quero. Nossa, já vai na nona página, melhor ficar por aqui.

1h39. Meu amigo da piscina disse que caiu outra vez da moto, dessa vez devido à chuva. Eu digo que andar nessas coisas é perigoso, ela não me ouve. Sem mais mensagens no WhatsApp. Ou estão desfrutando o final de semana ou já se retiraram. A julgar pelos meus contatos, estão todos ou quase todos a dormir. Hora de eu bater em retirada também.

-x-x-x-x-

14h11. Mandei um e-mail pedindo para cancelar o boneco do Evolve, assim que acordei hoje e antes de revisar essa porqueira que ficou o post de hoje.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

À ESPERA


Mamãe ficou chateada com a mensagem que mandei. Qual seja,

“Mãe, me acorde amanhã de 9h30 com uma garrafa de café já pronta. Eu me levantarei. Faça isso todos os dias, que adequarei o meu sono de acordo. Só não venha me monitorar à noite, é desgastante para nós dois. Deixe eu administrar o meu sono. Há dias que quererei dormir mais cedo, noutros mais tarde. É um direito que me assiste. Me acorde todo dia às 9h30 com uma jarra de café pronta. Vamos ver se isso não vai funcionar. E aí você me terá de manhã como anseia. Kisses. Good night. :*”

Espero que ela respeite ao menos. Quem sabe não faça as tais garrafas de café? Hoje foi a faxineira fantástica que fez. Não recebi nenhum dos e-mails que tanto anseio e o som e o computador não estão se entendendo para variar. Teria que reiniciar o notebook, mas não estou com disposição de fazê-lo agora que comecei a escrever, às 10h46 dessa quinta coberta por fina garoa. A espera, a espera... a espera por algo esperado, muito ansiado gera-me muita ansiedade. E com ela pensamentos disfuncionais, de que tudo deu para trás. Tomara que não. Minha mãe acha que eu não devo cobrar os dados da incrível revisora, eu também acho que não. Dei a solução a incrível revisora e ela não se mexeu. Fiz o pedido, mais do que isso fica chato. Se já não está. Deixar a vida e suas estranhas curvas e surpresas se desenrolar. Está fora do meu alcance fazer alguma coisa. Se Seu Raimundo não me respondeu em quatro dias, só pode significar duas coisas, ou não vai responder ou vai me mandar uma resposta massa. Como não acredito na resposta massa, tendo a crer que ele não vai responder. Mamãe disse que vai ligar para o Cassi para ver se não consegue com a ligação um comprovante de residência, embora tenha se comprometido a procurar por um aqui em casa. Com cafeína a vida é outra coisa, ela é o espanta-tédio da minha vida. Não fora o café, sinto que agora estaria profundamente entediado. A falta de som é uma das coisas que me entedia, acho que dentro em breve reiniciarei a máquina. Antes posso colocar o “Homogenic” que está no toca-CDs para ouvir, embora ache que não vá rolar também. Vou tentar.

11h00. Pelo menos começou tocando. E pulando a primeira faixa, o que me decepciona. Não sei é falha do som ou do disco. Qualquer um dos dois é frustrante, pois só tenho esse CD do “Homogenice” e esse som. Que não pule na versão 5.1 que está em formato DVD no verso do disco que agora toca. Até agora está rolando “Joga”. Acho que publicarei o meu texto hoje, no final do dia, o de ontem. Tem umas partes que nem parece que sou eu que escrevo. Achei isso legal, ter emergido essa outra voz que não me é familiar, mas na qual me reconheço. Queria que emergisse de novo, trazia um lirismo que não me é peculiar. Não sei que danado eu fiz para ela surgir. Agora me lembro, tentei fazer um poema, por assim dizer, e fui tomado por um pouco de poesia. Não acredito que consiga produzir outro poema agora que acabei de acordar e Tico e Teco ainda se espreguiçam, mas vou tentar.

Corpo meu
Lar do meu eu
Somos indissociáveis
Não gosto do teu aspecto
Mas gosto da tua obediência
E resistência
Não as trocaria por corpo mais belo
E mais frágil
Podias ser mais gracioso
De movimentos menos brutos
Mas me contento contigo
Que é me contentar comigo
Pois eu emano de ti
E é através de ti que sinto e percebo
É graças a ti que sou
Findando tu, findo eu
Então um brinde à tua saúde
Que é a minha saúde
Ao teu riso
Que é meu riso
Que venha mais e venha solto
Sei mais não corpo meu
Sei que é meu único bem inalienável
Agora que a escravidão foi abolida
Sou escravo apenas das palavras
E tu, como canal para materializá-las
Também o é
Sei que preferias que te levasse a se exercitar
Mas sou mais de pequenos exercícios intelectuais
Com este que faço em teu nome
Sobre ti e mim
Essa relação que já foi mais conflituosa
E que hoje serenou mais
O que é bom para ambos
Se não cuido de ti
Também não te faço muito mal
Aparte alguns cigarros
Não parta agora corpo meu
Ainda há muito a ser dito
E um tanto a ser visto

11h18. Que besteirada. Apenas escrevi o que poderia ser um texto e o quebrei em linhas, não vi poesia ou lirismo em nada do que disse. Mas está dito, assim ficará. Mostrar o meu ridículo nem me apoquenta mais, o faço tão cotidianamente que me tornei inerte à vergonha de me mostrar de todas as maneiras. Ou quase todas.

11h23. Fui pegar mais uma xícara de café. Estou sem cigarros e acho difícil minha mãe me dar uma carteira hoje, mas vou tentar. Quando a vontade bater forte, depois do almoço, se conseguir almoçar com ela. Fazendo ela feliz com a minha companhia e por comer na hora, pode ser que libere a carteira. Isso é um jogo de manipulação, típico de um adicto. E eu estou sem cigarro nenhum e sou adicto do cigarro. Pode ser que não funcione. Pode ser até que me dê o cigarro sem que almoce com ela. Almoçaria se fosse uma farofa do resto da picanha.

11h29. Fui dar a ideia de uma farofa de picanha, mas mamãe a fritará fatiada com cebolas. Meio que me comprometi a almoçar com ela. Bifes de picanha são um prospecto que me agrada, pode ser que coma. Só não sei sobre o cigarro, mas estou otimista. Pode ser que me negue, a probabilidade é de 50%, é o acaso que vai decidir. Espero que a meu favor. Da mesma forma em relação a Seu Raimundo e a incrível revisora. Pelo visto vai ser mais um e-mail remoendo a espera da comunicação dessas duas pessoas que não têm a mesma urgência que eu em relação à minha obra. O negócio é relaxar e ver se achamos comprovantes de residência meus, recentes, aqui em casa, para que eu possa enviar o texto para o concurso. Tenho ainda menos esperança disso. Vou ligar um pouco o ar, estou com calor, acho que por conta do café quente.

11h49. Uma amiga com quem tentei puxar conversa ontem me respondeu enfim e batemos um papo. Pessoa superlegal. Muito feminista, mas com as devidas justificativas na ponta da língua, e com namorado, então é uma feminista de bom tamanho. Não é inimiga dos homens. Mas acha a sociedade, tal qual se organiza, injusta com a mulher. Também acho.

12h20. Estava até agora conversando com Nina. Ela aparentemente está bem. Tem tudo sob relativo controle o que é ótimo, afinal ninguém tem tudo sobre controle. E para ela a questão do controle é bem mais complexa que para os demais mortais. A vi bem, feliz, sentindo-se mais madura, afinal a experiência que vivemos amadurece, não tem como não amadurecer, ainda mais ela que começou nessa vida de internamento aos 19 anos, se não me engano. É muito cedo para começar nessa Via Crúcis de internamentos. Tenho até pena de ter ocorrido dessa forma, mas se ela acha que agregou algum valor a quem ela é hoje, tanto melhor. Ela é uma pessoa boa, obviamente possui todas as máculas e malandragens adquiridas nos internamentos como eu mesmo as carrego.

12h40. A questão do boleto – comprovante de residência – foi esclarecida, porém não solucionada. Ainda, ao menos. O pagamento do meu plano de saúde é feito através de débito em conta, então não enviam boletos, a moça que nos atendeu, disse que repassou o meu pedido de comprovante de residência para o setor responsável e repassou meu e-mail. Se houver solução, é essa. Só me resta esperar. Quatro e-mails em espera, plano de saúde, Seu Raimundo, incrível revisora e o ateliê de pintura. Nada me resta senão esperar. Mas já estou meio desiludido de que Seu Raimundo vá me responder. Segunda que vem, mando um e-mail perguntando, caso ele não me responda antes.

12h53. Nossa, já estou na terceira página de hoje! Nem senti. Hahaha. Mamãe me deu o cigarro, mesmo antes do almoço, julgou ser o dia válido. Ótimo, o prazo para recebimento da outra carteira era o que esperava mesmo. É o justo, é um com o qual consigo conviver sem precisar comprar cigarros extras. O problema é o meu amigo da piscina, que sempre me pede cigarros e isso dilapida a carteira. Tenho uma contramedida para isso que é levar apenas quatro cigarros, dois para mim, dois para ele. Mesmo assim, são quatro cigarros do universo de 20, por mais que dois quem fuma sou eu. Não os fumaria se estivesse aqui no quarto-ilha a digitar. Bem, que seja. É a vida e gosto da companhia do meu amigo da piscina. Se bem que não estou disposto a me encontrar com ele nesse sábado. Estou sem disposição de deixar o meu quarto-ilha. Um dia o Word vai se tornar tão esperto que quando eu começar a digitar quarto-ilha, ele vai me sugerir o complemento. Acho que o Swiftkey, o teclado do meu celular é assim já, embora não reconheça gramática, é um teclado com assistente bem mais inteligente que o do Word. Não sei se o Word em modo touch tem a opção de sugestão de palavras, nunca tentei. Nem me inclino a fazê-lo.

13h03. Agora que vi poque está com tantas páginas, escrevi uma baboseira em forma de poema, nem lembro o que disse no dito. Mas está lá, fica.

13h05. O que falar, se os acontecimentos da minha vida hoje dependem muito mais de terceiros que de mim mesmo? E assim será, essa espera, até que receba as devidas respostas. Será que a incrível revisora não está se comunicando comigo porque a menciono aqui? Acho que não. Eu queria saber o que danado é que não me enviou os dados para pagamento ainda. Isso me deixa supernoiado. De que ela vá dar para trás. Mas não vou cobrar, só depois que receber resposta do escritor. Ou seja, não sei quando. Espero que ele replique o e-mail que o mandarei na segunda, se até segunda não receber notícias suas. Bem que hoje poderia ser o dia das respostas, né? A vontade que tenho é a de pedir uma intervenção divina, mas não o faço nunca a meu favor e manterei esse protocolo. Até porque não acredito Nele. Seria desrespeitoso demais da minha parte e de um egoísmo sem tamanho. O livro nada mais é que um exercício de egocentrismo, então dispensável, por mais que seja um dos dois maiores sonhos da minha vida. Que seja. Ou que não seja. Já me encontro meio sem esperanças. Por mais que julgue estar sendo catastrófico. Talvez a minha amiga revisora apenas tenha esquecido de mandar ou só queira receber quando de fato puser a mão na massa, pode ser um detalhe pequeno circunstancial. Sobre o escritor, eu realmente não sei. A minha suposição catastrófica ou realista, sabe-se lá, é que achou uma grande porcaria e que para não me magoar se privou de comentar. Numa hipótese iluminada, ele gostou do material e está dando uma remodelada nele para torná-lo mais palatável. Só acho extremamente difícil acreditar nisso. A existência estaria conspirando muito a meu favor caso isso se desse, não acho que mereça tanto. Até porque acho o texto uma bosta hoje em dia. Acho que aí estou o rebaixando demais, mas acho que não se enquadra na forma de dizer que se espera de um livro. Não sei. Quem me dera o escritor achasse que a minha voz fosse diferente, o que não acho que seja o caso, mas, sei lá, com as minhas metalinguagens isso não torne a escrita um tanto diferenciada. Mas acho que seja um recurso batido, usado por muitos. Para mim a mais óbvia razão para não ter recebido um e-mail de seu Raimundo é porque ele simplesmente achou uma porcaria e não teve coragem de me dizer isso, prefere que eu quebre a cara de outra forma, se eximindo de me dar a triste notícia. Estou me coçando para mandar um e-mail para ele hoje. Mas vou segurar a minha ansiedade, exercer o meu autocontrole e só importuná-lo na segunda mesmo.

13h43. Tem hora em que o assunto me falta. Está tudo bem, desde que não me falte café. O café faz desaparecer quase que por completo o tédio, é uma verdadeira poção mágica para mim. Estivera sem ele, já estaria angustiado com o vazio que a existência agora se me afigura.

13h45. Vazios existenciais. É, minha vida, não fora a escrita, seria um enorme vazio. Ou quem sabe jogasse videogame? Hahaha. Sei que prefiro escrever a quase qualquer coisa. Acho que vou fumar um cigarro para ver se algum assunto se alevanta. Senão vou ficar remoendo sobre as respostas dos e-mails que espero receber.

13h54. Bom, espero que pelo menos o plano de saúde me mande alguma notícia mesmo que negativa. Queria que todos me respondessem mesmo que negativamente, para que eu possa tomar uma atitude. Ou deixar de tomá-la, sei lá. Mas a minha esperança torce por um final feliz. Acho que vou aproveitar essa falta de assunto para reiniciar o meu computador e ver se o som e ele se entendem. Não ainda, acabei de botar “Homogenic” de Björk para tocar novamente. E dessa vez começou da primeira, “Hunter”, que gosto. O clipe é invocado e fofo ao mesmo tempo. Fofo é uma palavra tão feminina, me sinto afeminado quando a uso. Não que me incomode, mas estranho. Espero que pelo menos o plano de saúde me contate e quiçá resolva o meu problema de comprovante de residência, mas duvido que o faça na hora do almoço. Nossa, como revolvo sobre esse assunto de e-mail, encheu, já. Vou parar de falar sobre isso mesmo que para isso seja preciso calar. Só falarei se receber algum. Isso mereceria honrosa menção aqui. Acho que vou divulgar o meu novo post.

14h34. Faltou luz por alguns segundos e meu computador desligou. Se perdi texto não foi muito nem interessante. Pelo menos agora o som e o notebook se entenderam e “Songs of Experience” volta a dominar as ondas sonoras do meu quarto. Experiência, é uma coisa que me falta. Senão não já teria dominado melhor a minha ansiedade. E olha que não me considero um cara ansioso, mas percebo que quando é algo que quero muito e dependo de terceiros, me torno altamente ansioso. Como criança à espera do dia de abrir os presentes de Natal. É ridículo isso e inevitável também. O negócio é relaxar o bigode, como dizem, e esperar. Como a minha prima crente disso, tudo a seu tempo, tudo no tempo Dele. Vamos ver o que “Ele” se ele vai viabilizar a minha obra ou não. Talvez...

15h40. A fantástica faxineira me pediu para sair do quarto para que pudesse arrumar. O que ia dizer é que talvez “Ele” ache que seja melhor que essa obra nunca veja a luz do dia. Ou será que sou eu que penso isso? Eu estou em cima do muro, mas a vontade de ver publicado é maior que o medo da rebordosa social que receberei. Sobre paciência, percebo que a minha anda curta para várias coisas. Para muitas coisas, coisas demais para o meu gosto. Estou muito focado no meu mundinho. Na minha escrita, nesse tempo imediato entre pensamento e sua manifestação em palavras. E estou sem paciência para situações que me ponham passivo, como assistir algo ou ler. Só se for algo de absoluto interesse para mim, o que é raro.

15h47. Meu amigo corretor está aqui no prédio, ou voltará para o prédio, está almoçando aqui perto. Posso encontrá-lo na piscina quando voltar. Mandei a mensagem sugerindo isso. Pelo menos é um evento para desanuviar daqui. E eu agora estou com o cacoete de olhar para a caixa de entrada do e-mail de dez em dez minutos praticamente, toda vez que me distancio do texto. Mas disse que não trataria mais disso aqui. Tratemos do meu amigo corretor. Acalentou por muito tempo o sonho de ser jogador de futebol, mas não conseguiu por motivos que ignoro, pois era o melhor jogador das peladas que fazíamos aqui no prédio. De toda sorte, a vida o fez corretor de imóveis e como o mercado está ruim por causa da crise, está de mudança para Portugal, tentar a sorte lá. Espero que seja bem-aventurado. É alguém por quem rezar, então, ó, mestre(a) do universo faça com que as coisas deem certo para o meu amigo em Portugal. Que tenha sustento honesto e digno e viva bem. Pronto, está pedido. Estou queimando muitos pedidos ultimamente. Mas acho que esse vale a pena, meu amigo precisa se encontrar na vida e talvez seja este caminho intercontinental a via para isso. Eu me encontrei na vida, graças. Se a minha vida não mudar, exceto pelos meus dois sonhos, eu estarei exatamente onde quero estar, fazendo exatamente o que quero fazer. Não estou num dos momentos mais inspirados, com a mente convoluta pela expectativa e espera, mas não trocaria de lugar com ninguém. Bem, talvez com Bono cantando para um estádio lotado. Isso demonstra a minha grandiosidade. Hahaha. Talvez trocasse de lugar com o eu que já recebeu os benditos e-mails. Esse eu que me aguarda sei lá quando. Mas não vou tratar disso. O cheiro de limpeza e seus produtos me é agradável e emprestam frescor ao ambiente. O meu quarto é tão caótico que, mesmo que se arrume, fica desorganizado, como se faltasse lugar para tantas coisas. Aliás, falta. Se reforma houver, a arquiteta vai pegar um baita pepino. Aparentemente só mando pepinos para que me presta serviços ultimamente. Hahaha. Quem aceitou que se vire para resolvê-los. Cansei de alertar e pagarei o preço combinado pela solução.

16h07. Nenhuma resposta do meu amigo corretor. Queria que meu amigo da piscina também arrumasse um caminho profissional para a sua vida. Peço só mais isso, ó, ser maior de todos os seres. Só mais uma coisinha que a casa da minha irmã role mesmo. Pronto, é só. Não peço mais nada esse ano. Ou espero não pedir. Que coisa mais idiota, eu a rogar para um ser que não acredito que exista. Mas a fé é algo meio irracional, embora abstrata, o que é contraditório, visto que abstrações são coisas que só seres racionais são capazes de conjurar, até onde sei. E sei muito pouco. Talvez a fé seja a forma de abstração primeira, pois as religiões existem desde que o homem é homem. Estou a me colocar em papel ridículo querendo opinar sobre um tema em relação ao qual não tenho o menor domínio. Sei que quando peço por alguém eu sinto fé, experimento a fé de que eu vou ser atendido no meu pedido, o que é deveras curioso, pois racionalmente eu sei que sou apenas eu falando comigo mesmo e não acredito que esse diálogo interior possa operar mudanças como as que rogo. Bom, as preces estão feitas para os meus dois amigos e minha irmã. Com esses, são quatro os pedidos que fiz esse ano. Está demais até. Não acho justo, ainda mais sendo pessoas do mesmo extrato social que eu, ou seja, da elite, por quem intercedo. Por outro lado, vendo-os perdidos e à deriva me sinto impelido a ajudar, nem que seja na forma de uma prece ateia. Hahaha. Estou trocando todas as bolas agora. Por falar nisso, preciso trocar de parágrafo pois já voltei do encontro com o meu amigo corretor.

17h17. Cheguei há alguns minutos do encontro com o meu amigo corretor. Tivemos um papo profundo onde chegamos até a debater qual o sentido da vida. Ele me pareceu bem mais maduro e cheio de conteúdos interessantes do que poderia julgar. Fez o melhor e o pior de si ao mesmo tempo, mas acredito ou espero que o saldo seja positivo. Me pareceu dessa forma. Realmente fiquei impressionado com sua mentalidade e a profundidade de seus pensamentos. Vê Recife como provinciana, com traços de uma sociedade do interior onde todos se conhecem e todos falam da vida um do outro. E mais, uma sociedade que tem o hábito de falar mal das pessoas pelas costas, o que me causou ainda mais temor em relação ao meu livro e reverberação social negativa que este terá. Mas não quero falar desse bendito livro agora. Já lhe enchi de palavras, já lhe dei uma cara que de nenhuma forma pode ser encarada com a final, mas é a que me preenche a cabeça agora. Já mandei para Seu Raimundo e para a incrível revisora. Só me resta esperar. E isso tem sido uma tarefa chata e difícil. Estou quase mandando um e-mail para a incrível revisora. Mas tenho que me conter e disse que não tocaria mais nesse assunto. Mas faz um tempo que não me apodero dele. Mas tentemos evitá-lo. Meu amigo quer um lar temporário para o seu cachorro. O plano final é leva-lo para a Europa e ele viver na casa dos pais da ex dele no sul da França. Ele não quer se desfazer do cão, mas não tem como levá-lo agora, então não quer doar para um dono novo. Quer que ele fique em algum lugar. Sugeri a Vila Edna ou a Granja. Ele aparentemente gostou das sugestões. Vai tentar botar as engrenagens para girar nesse sentido. Me vi pelo reflexo no elevador e realmente estou ficando corcunda de tanto escrever. É uma visão triste de um ser que, pela postura, parece ser ainda mais velho do que é, mas é preço pequeno a se pagar visto que estou fadado à solidão e amo a escrita. Não queria, entretanto, ter esta postura encurvada, não gosto dela.

17h42. Migrei do café para a Coca atendendo a pedidos e ordens da fantástica faxineira e da minha mãe respectivamente. Tanto melhor. Espero que as Cocas durem para hoje. Nossa, Coca com muito gelo é algo muito delicioso para mim. É um prazer quase que de um beijo de língua. É bom assim. Muito embora, nem sei se ainda sei beijar. Hahaha. Como disse, o celibato aqui impera. E do jeito que as coisas caminham, ou melhor, não caminham, esse celibato não tem hora para acabar. Minha vontade é mandar e-mails para Seu Raimundo e minha amiga revisora, mas tenho que me controlar. Tenho que me conscientizar que os dias são muito mais longos para mim do que para eles, quem tem urgência sou eu, que eles não têm pressa nenhuma. É difícil enfiar isso na cabeça e relaxar. Quando quero uma coisa, quero para agora. Coisa de adicto, eu acho. Pois vou ter que lidar com essa ansiedade e esperar. O plano é o mesmo, esperar até segunda à noite e então mandar um e-mail para Seu Raimundo. Em recebendo a resposta dele, contatar a minha amiga revisora. Eu vou acabar mandando os e-mails hoje. Estou me coçando todo para isso, mas tenho que focar em outra coisa, preciso ir no oculista. Fazer novos óculos, já vejo as linhas do texto curvas e a minha armação soltou uma lasca, o que me dá aparência de desleixo, que é muito real, mas que não precisa ficar estampada na minha cara. Meu amigo corretor disse que as mulheres reparam nisso. O que reparei das mulheres ultimamente é que acho que algumas amigas do meu primo-irmão não vão com a minha cara, especificamente duas que foram para a Casa Astral. “Landlady” toca. É uma bela música, se você tem Spotify deveria ouvir uma vez, sem preconceito. É a minha canção de liberdade. É realmente uma canção importante para mim. Quando tive uma ou duas horas de liberdade entre a escravidão do vício e o cárcere do Manicômio. E meu iPod morreu naquele fatídico dia sabe-se lá por quê. Muita energia negativa, talvez. Embora, se não acredito em Deus, nisso é que não acredito mesmo. Mas acho minha energia carregada e melancólica, sem vida, sem vivacidade, fechada, que impõe barreiras às pessoas, exceto às que deixo penetrar. Que cada vez são mais poucas e raras. Mas não acredito em energias, acredito em postura, como a pessoa se põe no mundo e me coloco de modo muito indisponível. Minha postura, o meu silêncio, o meu posicionamento, tudo evoca distanciamento, reclusão em mim mesmo. Preciso mudar a forma que me coloco no mundo, embora não haja interesse sincero para isso. Me interesso pouco pelo mundo, pela sua camada superficial que é onde geralmente orbito, visto que emudeço e não posso me aprofundar nas pessoas com quem estou convivendo. É um beco meio sem saída. Resta ter coragem de dar meia volta e sair deste beco e tentar novas vias. Coragem que me falta. Preguiça de ser diferente. Me sinto tão bem, seguro e acolhido com as palavras que me aceitam do jeito que eu sou e são do jeito que eu sou, pois elas são manifestação de quem deveras sou, que me basto nelas. Se saio à procura de uma namorada, estou me enganando, pois saio já certo de que não a encontrarei. Estou me isolando do mundo, estou indisposto para as pessoas, desinteressado delas. Ou talvez esteja interagindo com as pessoas erradas. Há pessoas cuja a companhia me desperta prazer. Mas é bom esse movimento de isolamento, pois, no caso de o livro ser publicado, o ostracismo será a única escapatória da crucificação social. O pior que omitir o tal fato do livro é roubar metade dele, não posso e não farei. Que me tachem do que quiserem. Quero a minha obra completa e completamente honesta. Pensar que a minha família paterna vai ler me deixa de cabelos em pé. Qualquer um que ler em verdade. A minha verdade é muito feia para os olhos do público. E há esse detalhe do meu maior segredo que vai ser o prego definitivo no meu caixão. Nossa, como queria que Seu Raimundo me respondesse. Queria tanto que ele gostasse da obra, mas parece não ser o caso. Só consigo ver essa publicação como uma atitude de um surtado em mania. Que não mede as consequências dos seus próprios atos. Um irresponsável que só faz se prejudicar a si mesmo. Porque grandes sonhos têm que ser tão caros? Estou quase mandando um e-mail para os dois que estão em posse do livro. Que agonia eu estou. Queria saber qual é logo a real. A espera me dilacera a alma. A resposta de Seu Raimundo pode nunca vir, por isso mereço cutucá-lo. A minha amiga revisora ficou de passar os dados na terça à noite e já é quinta. Só quinta. Faz muito pouco tempo. Eu estou sendo ansioso demais. Relaxe, homem. Se segure até segunda. São só mais quatro dias. Quatro enormemente longos dias. Mas é melhor que aperreio. Afobação não leva a nada e apressado come cru. Tudo a seu tempo. Ou tudo perda de tempo. Essa é que é minha grande dúvida se uma coisa ou outra e a queria esclarecida agora, já. Me aliviaria tanto mandar os e-mails hoje. Pelo menos o de Seu Raimundo, em verdade os dois. O plano de saúde também não respondeu, tampouco o ateliê de pintura dos bonecos. Ninguém tem todo o tempo do mundo como você, Mário. Tente relaxar, deixar as coisas fluírem com naturalidade, de acordo com o movimento universal. Seu Raimundo pode e deve ser um homem muito ocupado para dar atenção a um detalhe besta como a sua obra. Se for tirar pelo meu tio, todos irão dar para trás. Estou tão, mas tão ansioso que nem sei. Só faz quatro dias desde que você enviou a obra para Seu Raimundo, com um feriado no meio. Só faz dois dias que você pediu os dados para depósito da sua amiga revisora. Só ontem você mandou o e-mail para o ateliê. Já o plano de saúde deveria ter me respondido. Bom tudo no seu tempo, se esse tempo não chegar, o que fazer então? Esquecer né?

18h56. Fui fumar um cigarro. Mas continuo com essa agonia na alma. Que coisa chata. Tenho que esperar. E não consigo. Vou acabar mandando os e-mails hoje mesmo. Parece até fissura de droga, esse imediatismo todo. Essa agonia, essa impulsividade. Autocontrole, autocontrole, autocontrole. A recuperação é arte de se contrariar. O que poderia fazer para me desvencilhar disso? Ir para o Desabafos do Vate. Revisar o que escrevi ontem, acrescentar algo lá. É isso. Desfocar do danado do livro. Pode ser que as respostas estejam para chegar.

19h20. Que onda, acabei a última frase do Desabafos com “chegar” também. Embora falando de assunto completamente diverso do daqui. Eu não sei mais sobre o que falar e não quero escrever no Desabafos do Vate agora.

19h29. Outro post chatésimo que não vai nem vem. Fica neste estica e encolhe. Eu deveria mandar os e-mails e me ver livre dessa angústia ou trocá-la por nova angústia decorrente da resposta dos novos e-mails. Estou meio sem saída. Escrever os e-mails agora é trocar seis por meia-dúzia. Tenho que esperar até segunda. Quatro dias, o que são quatro dias diante da possibilidade de ter o meu livro analisado por um premiado escritor? O que são quatro dias de espera para perguntar a minha amiga revisora se está havendo algum problema? Tomara que eu faça algo diferente de escrever nesse final de semana. Talvez amanhã haja saída, quem sabe.

19h36. A sensação que me dá é que tudo são sonhos, minha amiga não vai revisar, tampouco o escritor vai dar sua opinião sincera sobre o texto. Será que vale a pena esse sofrimento existencial todo, essa ansiedade toda, se posso mandar dois e-mails e me sentir mais relaxado, como se estivesse tomando alguma atitude?

19h56. Estou muito mais aliviado agora, mandei os e-mails e que se dane se pareço afobado ou apressado. Parece que levantei o bico da panela de pressão. Nossa, como me sinto mais tranquilo. Mesmo que sejam notícias ruins, que venham logo. Quem me dera receber as respostas ainda hoje. Mas não mereço tanto do universo.

20h05. Já me sinto envergonhado pela mensagem que mandei para Seu Raimundo. Mas a vergonha não me causa a sufocante ansiedade que me tomava. Estou acostumado a passar vergonha. Como também posso estar jogando uma pá de cal na possibilidade de ele ler o livro. Sei lá. Sei que não aguentei. Eu não sei é de mais nada, minha mãe achou um equívoco mandar a mensagem ao escritor. Eu ajo com sinceridade e transparência e não estava suportando a espera sem tomar uma atitude. Pressionar um sujeito tão importante que deve ter vários afazeres, mas ele anda, come e caga como eu. Dane-se. Mandei, ele ache o que quiser. Só queria uma resposta. Acho que me deixei levar pela conversa da minha tia que eu escrevia bem, mas em verdade sou uma farsa. A mais sincera farsa. Ele deve ter achado uma merda muito grande. Só posso pensar que foi por isso que não me respondeu. Quanto à minha amiga, realmente não sei qual foi a dela. Tudo converge para um desastre. Qual seja, não receber resposta de Seu Raimundo e minha amiga dizer que desistiu do projeto. Sei lá, não sei de nada, sei que meu peito voltou a ficar calmo com as mensagens enviadas. As expectativas agora são pequenas quase nulas. A esperança praticamente morreu. Acho que o Anexo II é pesado demais para a maioria das pessoas. Indigesto e imoral demais. Sei lá. Só queria respostas. A pior que poderia receber é o silêncio de ambos. A segunda pior seria minha amiga me dizer que me deve uma carteira de Marlboro e Seu Raimundo dizer que é um texto ruim e primário que não merece ser publicado. A melhores que poderia receber é que Seu Raimundo vai ler o texto no fim de semana e segunda me dá o retorno e os dados da minha amiga para efetuar o pagamento. O meio-termo, não sei. Que o escritor está sem tempo para olhar o meu texto até sei lá quando, e minha amiga dizer que pegou um trabalho urgente para revisar e não acha certo receber sem ter começado o trabalho. Sei lá. Só queria respostas ao invés dessa espera. Será que o meu texto é tão ruim assim, tão desprovido de mérito? Novamente, sei lá. Foi o melhor que pude fazer. Nem sempre o melhor de alguém é o suficiente. Me dei conta disso relativamente cedo quando num exercício de natação, para ver quem fazia mais piscinas, eu fui além dos meus limites e ainda cheguei em segundo lugar. Foi a primeira grande decepção que tive em minha vida, descobrir que o meu melhor nem sempre é o suficiente. Talvez este seja outro caso. Se for, pelo menos eu fiz o meu máximo. E fui até além, com esses e-mails talvez insensatos. Isso já está muito grande. Vou parar por aqui e me lamentar no Vate, que não tem limite de texto. 

23h00. Minha amiga revisora já começou a revisar o meu livro e me mandou os dados para o pagamento! Um e-mail já se revelou um bom investimento. O de Seu Raimundo, por outro lado, pode se mostrar um grande vacilo da minha parte. O tempo dirá. Precisava acrescentar isso. Metade do meu aperreio já sumiu. Que ótimas notícias. Minha incrível revisora é para se torar.

-x-x-x-x-

12h26. A minha amiga da Asuka também respondeu e mandou fotos da produção! Só falta Seu Raimundo. E o meu plano de saúde. Mas desses estou desacreditado. Vou revisar e publicar esse monstrinho.






quinta-feira, 3 de maio de 2018

LABUTA


13h29. De volta à labuta. Não posso encarar isso como labuta senão perco todo o tesão de fazê-lo. Vi um texto muito mais curto que o meu postado no Facebook e não tive paciência para ler, imagina ler um do tamanho dos meus. Realmente é um grande desperdício de palavras. Mas desperdiçar palavras é o que faço de melhor então continuarei seguindo essa trilha peculiar que se afigurou como cerne da minha vida. A incrível revisora ainda não me mandou os seus dados e nada posso fazer em relação a isso. A não ser a boa e velha espera. Não vou cobrar porque acho chato. Será que ela já pegou no meu material? Acho difícil. Não sei o que a impede se não o fez ainda. Será que está à espera da resposta de Seu Raimundo, resposta esta que pode nem vir? Sei lá, só me resta esperar. Torcendo sempre pelo melhor. Vou beber água para poupar Coca. Ou vou fazer o café. É acho que vou. Meu post anterior, pelo título, não vai angariar muitos leitores. A não ser pela pergunta que lancei sobre a capa. Talvez isso estimule alguém a ler ou pelo menos ver a imagem da capa.

14h05. Fiz o café, mas desastradamente, melei tudo e tive que limpar, um saco. Mas está feito, pouparei Coca e terei a cafeína necessária para me manter no estado de ânimo que tanto me apetece e que acredito ser derivado dos níveis de cafeína no meu sangue. Já me sinto mais animado com a primeira xícara já sorvida, isso é bom. Vou ligar o ar que o café me esquentou o corpo.

14h12. Fui trocar a camisa – a do Imperador da Casqueira –, pois estava toda melada de pó de café devido à minha completa falta de destreza em fazer o negro líquido. É complicado equilibrar o filtro num funil redondo enfiado na garrafa térmica! Hahaha. Pelo menos para mim se mostrou um desafio no qual não obtive o êxito que esperava, na minha empáfia de que seria uma tarefa fácil. Hahaha. Bom, estou de volta e assuntos não me vêm. Reparti com o meu amigo da piscina o post anterior onde narro o seu acidente de moto logo no início, mas ele não me deu resposta. Dentro em breve a bateria do meu celular arreará e ficarei pelo menos duas horas incomunicável pelo WhatsApp. O que não é ruim, mas confesso que já estou meio condicionado a ficar conectado ao aplicativo pelo meu computador. Bom, minha amiga revisora pode me acessar pelo Facebook e pelo e-mail, não há problema. Se resposta vier de Seu Raimundo também se dará por e-mail. Só ficarei incomunicável com o meu amigo da piscina. Bom, é a vida e só recarrego o meu celular quando ele arreia completamente a bateria e só o coloco na tomada desligado, até que a luzinha se torne verde, para poupar a vida útil da bateria. Sei que quase mais ninguém faz isso, mas sou um dinossauro. Tirei ontem uma foto do painel de botões do elevador de serviço que serve ao prédio há cerca de 25 anos e que será trocado por algo que suponho pior, menos robusto e resistente que o que foi fotografado. Como ele será interditado amanhã, quis guardar uma recordação para posteridade. E por que não, imortalizá-lo na Google postando a foto aqui? É uma ideia boba, mas que me apraz.

Adivinha em que andar eu moro. :P



14h25. É sensível a diferença de humor com ou sem café. Agora me sinto bem, feliz. Sou dependente da cafeína, não me resta dúvida. Não sei onde mamãe está, onde foi. Ela falou comigo ao me dar o remédio matinal, mas não lembro de nada que me disse, sonolento que estava. Só da reclamação de que havia percebido meu movimento de cinco da manhã, quando fui fazer xixi e, como sempre, fazer uma boquinha na cozinha. Não consigo emagrecer. Parece que finquei o pé nos 95 quilos e não saio daí, oscilo um quilo a mais ou a menos, mas disso não passo. E estou cada vez ligando menos para isso. Por mais que seja extremamente exigente esteticamente em relação a possíveis paqueras. Dizem que mulher liga menos para isso, mas tenho lá as minhas dúvidas. A obsessão pelo corpo, ostensivamente divulgada pela mídia, torna todos observadores neuróticos dos atributos estéticos do possível pretendente, sejam homens ou mulheres. Não caibo em academias, entretanto. Prefiro ficar com o meu bucho e com as minhas palavras. Minha mãe se preocupa à toa que só faça isso da vida. E mais, se preocupa em vão, pois não pretendo mudar a minha rotina se é assim que me alegra mais viver. “Landlady” passa no som. Música que só me remete à liberdade de ser e estar aqui no meu quarto-ilha, devidamente “cafeinado” a escrever. É um modo de me colocar no mundo que me agrada muito, é a forma que aprendi ou desenvolvi para encarar a existência com o máximo de prazer que me é possível. Mas percebo que a cafeína é essencial. Nossa, que diferença para a apatia de ontem, verdadeiro marasmo emocional. Com café me sinto mais vivo, mais desperto e mais alegre, de bem com a vida. Sem ele, me sinto desmotivado, entediado, desanimado. É uma diferença substancial. Ainda bem que não tornaram a bebida ilegal. Hahaha. Mas com essa mania de politicamente correto nem sei, mas duvido. Para os politicamente corretos há o descafeinado. Acho que isso é o suficiente. Além do que o café é uma tradição e até uma arte em diversas partes do mundo. Talvez seja tão ou mais consumido que álcool. Não tenho dados para aferir isso, é só uma especulação. Embora em quantidade de litros duvido. O café é mais pontual e bebido em menores quantidades que as bebidas alcoólicas. Deixa de falar asneira, Mário! Falar do que não sabe. É mesmo superego hipercrítico, você tem razão. Vou falar de uma coisa que entendo muito bem, eu adoro o meu busto do Hulk iluminado pela luz do dia, é a luz que mais revela sua estupenda presença. A mim não me impressiona mais, se tornou o meu companheirão, mas percebo que aos demais é bastante impactante. Acho uma delícia apreciar a reação das pessoas quando o veem. E coloquei ele do ângulo que acho mais invocado, como se olhasse para a janela. Ele visto totalmente de frente não é tão interessante é bom um pouco de lado do jeitinho que está agora. Vou tentar tirar uma foto, por mais que fotos nunca façam jus a figura em pessoa e distorça suas proporções.

14h52. Vamos ver se os 2% de bateria aguentam o envio do Hulk por e-mail. Ele aparece muito nesse blog, mas é uma parte importante da minha vida. Olho muito tempo para ele por dia, especialmente durante o dia e a tarde quando suas cores ficam mais vivas e salientes os contrastes. Imagine você passar o dia escrevendo com essa figura ao seu lado, ela clama por atenção. E eu dou. Vou pegar uma xícara de café.

Continua sendo mais legal ao vivo!



14h56. Hoje não estou produzindo nada de interessante, mas isso não me incomoda como incomodava ontem. Ao contrário, não poderia estar menos preocupado com tal fato. Se ninguém ler, ninguém leu, hoje escrevo para mim. E isso é uma delícia, queria poder tratar todos os assuntos que passam na minha cabeça, mas meu superego, pertinentemente me proíbe. Que seja, posso transformar isso num tratado sobre o Hulk, pouco se me dá. O que vier – e for permitido pelo superego – eu coloco aqui. Só deixo o superego de lado quando no Desabafos do Vate e no “Diário do Manicômio”. Lá, naquele confinamento, foi onde me senti mais livre do superego para escrever. E por isso temo tanto o conteúdo do texto, pois me revelo completo, com todos os meus defeitos de caráter e atos imorais colocados abertamente. E, mais, não é uma crítica ao sistema manicomial, o que vai torcer ainda mais narizes, é minha experiência de vida tentando mais que sobreviver, aproveitar o que o lugar tinha a me oferecer. Foi lá que se consolidou o meu hábito compulsivo por escrever. Se bem que acho que isso já vinha desde a internação anterior, mas não gosto do texto da outra internação, por isso decidi não publicá-lo. Embora ache que o tenha digitado. Mas não acrescenta muito e o meu estilo é ainda mais pobre do que o que agora ostento. Em uma palavra, ficou uma grande porcaria. Mas foi o embrião da minha compulsão pela escrita este da Clínica de Drogados. Mas eu acho que ela – a compulsão pela escrita – só se confirmou na minha quarta, eu acho, internação no Manicômio, que foi a que documentei mais incansavelmente. E desde que saí, escrevo. Em aviões, salas de espera, em saídas com os meus amigos e, claro, principalmente no meu quarto-ilha. De onde não saio senão por uma boa razão. Aqui é o meu reino. Aqui eu sou o rei. As leis são minhas (com intromissões do reino da minha mãe na legislação), meu quarto-ilha é como a Irlanda na Grã-Bretanha que é esse apartamento. Minha mãe é a primeira-ministra. Hahaha. Que viagem troncha do caramba. Não sei se essa reforma no meu quarto-ilha, se houver, virá para o bem ou para o mal, tão acostumado estou com como ele é agora. Mas acredito na possibilidade de que o ambiente venha a se tornar menos caótico e especialmente que todos os meus bonecos e bonecas fiquem expostos. E há muitos. Há muitas coisas no meu quarto. A arquiteta terá que operar um verdadeiro milagre para que todas caibam. Talvez tenha que me desfazer da maioria dos livros, visto que não tenho real interesse em lê-los. São mais reminiscências de papai que guardo. Como o são as cinzas no armário. Mas as cinzas são algo macabro e espero que consigamos, eu e meu irmão, jogá-las na maré de Macau. É um assunto que é recorrente de uns posts para cá. Acho que porque digitei o Diário. Não me lembro se faço menção desse fato lá, porque sinceramente não lembro se já havia sido cremado à época, mas menciono muito Areias que é colada no meu coração à Macau. São uma entidade única e indissociável na minha memória.

15h29. Perdi o fio da meada conversando com o meu amigo da piscina agora. E tanto faz. Pensei em tirar uma foto de onde os restos do meu pai estão guardados, o que é bem macabro e bastante irônico. Tirei a foto e o celular arreou. Sei que estará carregado antes que me dê por satisfeito de escrever isso.

Ironia. Cinzas de um morto  numa caixa de Natal.



15h37. Coloquei o celular para carregar. Vamos ver quanto tempo demora para atingir 100% uma vez mais. Se bem que não vou ficar pastorando celular para saber quanto tempo dura a recarga. Não tenho disponibilidade para isso, não. Sei que carrega bem mais rápido que o anterior. E a bateria, na minha opinião, dura mais, mas a do outro tinha anos de uso, é normal que a bateria vá perdendo sua capacidade de armazenamento com as recargas. Por isso mesmo uso desse expediente de só carregar quando o telefone desliga sem energia. Dizem que dura mais assim e eu, que a cada dia sou mais afeito a superstições, acredito nessas superstições do mundo moderno, no esoterismo das tecnologias que não compreendemos completamente. Eu sou uma completa negação com o celular. Uso o básico e olhe lá. A quantidade de aplicativos e funcionalidades que possui me é acachapante. A mim me serve de WhatsApp, Uber, telefone e câmera. Graças a meu primo urbano, eu uso o WhatsApp conectado pelo computador, o que é uma mão na roda, ou melhor, duas mãos no teclado, o que torna muito mais fácil a comunicação pelo aplicativo que afora o Google talvez seja o software mais usado no planeta. Outra especulação sem fundamento da minha cabeça.

16h13. Abri a janela para ventilar e a claridade sem o filtro que coloquei na janela ressalta ainda mais o Hulk. Meu amigo da piscina disse que talvez passe aqui no sábado. Se eu não tiver nenhum programa, é claro que irei ter com ele. Mas preciso sair, ver o mundo. Faz uma ou duas semanas que não saio. Minto, fui à casa da minha tia-mãe para o aniversário da minha prima e só. Vamos ver se mamãe chega com disposição para procurar o comprovante de residência, único empecilho para que mande o “Diário do Manicômio” para o concurso de literatura. Obviamente não terei chance alguma, visto que não tenho talento, minha história é tediosa e não aborda brasilidades, além de que é um concurso nacional. E não há restrições à inscrição de escritores experientes no concurso. Ou seja, Seu Raimundo, se quiser, pode mandar sua obra para concorrer, que chance tenho eu? Ou até figuras menos cultuadas, mas com muito maior domínio da técnica da escrita que eu podem se inscrever só por causa do prêmio de 20 mil reais. O negócio é que tenho tudo pronto para participar, só me falta o bendito comprovante de residência. Acho que mamãe vai chegar e ir direto para o seu cochilo. Talvez à noite me ajude a procurar. Talvez. Bom, se não participar, é a vida. E continua bela, pois há pessoas belas e amadas nela. Por enquanto, pessoas que também me amam, mas que, se publicar mesmo o livro e lhes cair em mãos, irão me renegar. Esse pensamento não me sai da cabeça, mas estou disposto a enfrentar uma realidade socialmente hostil se Seu Raimundo disser que o texto é relevante. Se ele der o aval, farei o que puder para publicar. Mas isso são só ilusões por enquanto. Pode ser que não leia e não responda. Meu estilo pode ser demasiado pobre, demasiado genérico, frouxo, vago, chato, repetitivo, sei lá. Queria contar a meu amigo Marinheiro que acabei de digitar o texto e que este foi para a revisão.

16h37. Mandei pelo Facebook a mensagem. Se ele algum dia acessar novamente, saberá. Ele que achava que eu nunca teria coragem de digitar, estava quase certo. Mas botei uma cenoura na frente do nariz e ela me motivou a seguir até o fim. Ainda revisei umas cinco vezes. Cinco vezes e meia para ser mais preciso. Parei depois de mandar para a minha amiga a incrível revisora. Que até agora não mandou os seus dados. Não sei o que ocorre. Também mamãe não está em casa, de nada adiantaria. Mas gostaria muito que me mandasse hoje, detesto dívidas. Fica aquela luzinha piscando na minha cabeça. É um saco. Queria me livrar logo disso. Da primeira parcela da revisão, visto que, pelo número de páginas, ficou pesado de uma vez só. Ou minha mãe assim achou. Então que seja em duas vezes, mas que eu me livre da primeira. A outra será só quando ela me entregar sei lá que tipo de revisão. Aí fico mais relaxado. E ela talvez fique mais comprometida com o trabalho. Talvez esteja esperando a opinião de Seu Raimundo. Sei que chamar a pessoa de Seu Raimundo é estranho, mas não quero causar uma avalanche de e-mails com obras na caixa de correio dele. Seria sacanagem com o bom velhinho. Será que ele começou a ler a minha obra? Não faço a mínima ideia, mas a possibilidade certamente me empolga, me enche de infantil excitação. Há um ponto da minha vida que se tornou um divisor de águas e nunca me esqueço, quando fiz uma redação que a minha professora achou tão excepcional que me chamou no final da aula para me congratular e estimular. Ainda me lembro, era para construir o texto com frases curtas. Ela ficou de tal forma surpresa com aquilo e eu de tal forma impressionado com a sua reação que nunca me esqueci desse dia, há mais de trinta anos. Até hoje me move acreditar que o traço de brilho que minhas palavras tinham ainda resplandeça de alguma forma aqui e agora. Fora que elas são as minhas melhores amigas. Ou escravas. Mas não gosto de pensá-las de forma tão dominadora. Em vez de me ver como dono delas, como tendo posse das palavras, prefiro vê-las como parceiras do meu cotidiano, me emprestando as ferramentas para que possa me dizer desse jeito torto e desajeitado que me ponho. Raras são as vezes em que vejo beleza no que escrevo, mas também são raras as vezes que tento impor tal beleza. Poesia. Careço de poesia e não me convém a poesia. É mais difícil dizer uma coisa de forma bela do que simplesmente dizê-la nua e crua. E eu prefiro a nudez. Mas poderia pensar num poema para colocar aqui. De novo isso? Estou sem inspiração nenhuma. Mas vou tentar. O que sair fica.

O mundo é confusão
O formigueiro humano semeia o caos
E tenta extrair dele alguma ordem
E cria leis e se pune
E quer o do outro
Pois não se contenta com o seu
O mundo é confusão
De sons, barulhos e apitos
De falas, choros e canções
Cada vez menos canções
Cada vez menos poesia
O ser humano deixou para trás
Eu deixei para trás
Um belo cisne chora
Perdido no meio da confusão
Dos homens e leis dos homens
A manada segue
Cada vez mais insensível
Às chibatadas
Minha mãe chega
Graça que é a desgraça de outros tantos
Tenho sorte de ter uma mãe
Que valha o peso da palavra
A sua imensidão
Ajudo-a e o farei como puder
Metidos que estamos nessa confusão
Que é o mundo

17h09. Minha mãe chegou e tive que ir ajudá-la com as compras. Vai precisar se operar do joelho, se é a solução, que seja e que venha. Mas só o fará depois da viagem. Essa viagem que ainda está a uma distância segura de mim, então não me põe desesperado. Quem me conhece sabe que não gosto de viagens e espero que, com o joelho melhor, mamãe possa fazê-las sozinha. Mas se se fizer mister acompanhá-la, não tenho outra alternativa. Como disse no poema. Se é que aquilo acima é um poema eu que nada sei das letras e suas nomenclaturas. Sou bicho-solto na escrita e isso me agrada muito. Estivera eu atado a fôrmas e fórmulas, a categorias e normas, não estaria escrevendo. Prefiro ser livre e dizer meu verbo como me vem, como quero ser dito, sem complementos nominais ou adjuntos adverbiais, que para mim são outra língua diferente da que exerço. Escrevo por instinto e pelo pouco de leitura que tive na vida. Deus me agraciou com uma boa educação e eu, aluno mediano, aprendi com ela o meu quinhão. Pouco lembro do que me foi ensinado, mas pelas palavras pode se medir o quanto eu aprendi tanto quanto a minha ignorância. Elas não o meu espelho, ou, metáfora ainda melhor, a tela em que me pinto, meu autorretrato. Pois o espelho revela apenas o aspecto e a pintura revela a alma. Ou assim me parecia quando pintava, pintava de dentro para fora. Meu braço uma extensão da minha alma. Como aqui minhas mãos a representam, bem ou mal, com português pouco e miúdo, mas sinto que me representam. Gosto de dizer-me e de dizer-me é o que mais gosto. Parece que a poesia se impregnou um pouco em mim. Que seja. Se o texto me vem ligeiramente mais poético tanto melhor, torna a leitura um pouco mais bela, um pouco mais viva. Se estou enganado sobre haver poesia neste parágrafo pouco se me dá. Me deleito com a minha prosa da mesma forma. Não canso e não cesso de me contar. Conto primeiro para mim mesmo e depois, sem nenhum pudor, ou com o mínimo deste, para o mundo. Ah, me deu vontade de ser poeta, de primar pela beleza, mas ouso preferir o conteúdo, ou a falta dele, pois este texto me parece vazio de coisas válidas, de coisas sólidas como a xícara de café ao meu lado. Minha mãe me perguntou do meu tio, o que disse que iria me ajudar a publicar o livro. Disse-lhe que perdi as esperanças, que as deposito agora em Seu Raimundo que pode vir a me animar ou destruir o meu sonho, ou temendo isso, resolver calar e não me responder. Então ficarei igual a esposa de um soldado de guerra a esperar sem notícia por um homem que tombou sem vida nas trincheiras.  Essa foi forçada de barra, admito, mas me veio, então fica. Me lembrou uma música do New Order que não me recordo o nome. Nem se soubesse diria para não estragar a surpresa final.  É do álbum “Low-Life”, uma das minhas prediletas desse álbum. Pesquisei. Vou dizer logo qual é, dane-se, “Love Vigilantes”. Pronto. Preste atenção na letra se saca inglês. Bom, parece que a poesia se foi de vez dessas paragens. Hahaha. Vou pegar um copo de Coca, pois o café acabou.

17h42. Conversei um pouco com a minha amada mãe. Ela me fez propaganda do novo filme da Marvel, “Infinity War”. Mandei uma mensagem para o meu amigo jurista o convidando. Veremos. Mas acho que ele anda tão atarefado que não sei se vai conseguir. A música me desconcentra, acho que vou voltar para U2, “Songs of Experience”, resolvi dar uma sacada em New Order e fico prestando atenção nas músicas, não no texto. Pode ser que daqui a pouco vire som ambiente também. Por que esperar se posso ter som ambiente agora ouvindo o do U2?

17h50. Coloquei. Bem mais tranquilo, bem ambiente mesmo. Estou em casa de novo, território para lá de conhecido, venho ouvindo incessantemente esse disco desde que saí da internação porque ele tem o maravilhoso sabor da liberdade que nem a droga, nem o internamento me proporcionaram. Por isso ouço, para reafirmar que estou livre, por mais que fique preso nessa repetição maciça do disco. Me agrada, pois não empata os meus pensamentos, só quando passa “Landlady”, aí paro um pouco para ouvir. Essa para mim é a que tem mais sabor de liberdade e é a mais bela do disco. Acho que é a única que gosto de fato. Mas me acostumei com o resto e há algumas relativamente legais. Só que a resenha musical parou aí. Nem lembro mais sobre o que estava escrevendo antes dessa divagação musical. Ozzy. Acho que falava da pouca poesia que reside em mim. Que seja pouca, já foi maior, mas acho que a preguiça de escolher palavras bonitas me impede de exercê-la. A preguiça é o meu pecado capital, por mais que, queira ou não queira, eu trabalho incessantemente, com raros intervalos, construindo esses textos, os revisando, buscando imagens. Eu vivo para o meu trabalho. Mas meu trabalho é um trabalho sedentário e espontâneo, portanto exige o mínimo de esforço da minha parte e por isso me é tão delicioso, por isso e por um exibicionismo que já nasceu comigo. Lembro de imitar Fagner com uma guitarra de plástico quando tinha três ou quatro anos, então o artista vive em mim, já querendo aparecer. Mas ele não quer aparecer de forma poética, não é sua real vocação, a minha real vocação. Às vezes acho que tenho um princípio de dupla personalidade. Hahaha. Coloco a culpa dessas manifestações no superego. Hahaha. Fui olhar para os meus e-mails para ver se uma das pessoas que está com o meu texto me mandou alguma comunicação e nada. Mas não vou cair em ansiedades hoje. Hoje tomei café, uma garrafa, estou tranquilo. Penso em fumar um cigarro, mas só depois de comer o sanduíche que mamãe está fazendo para mim e ao qual eu não soube ou tive como negar, pois, por mais que esteja sem fome, não comi nada hoje e ela faria chantagem emocional para me fazer comer. Visando pular essa parte, aceitei de pronto tudo o que ela me apontou. Faz com a melhor das intenções, eu sei, mas não estou com vontade nenhuma de comer. Entretanto me submeterei a este ato de extrema boa vontade de sua parte, de amor maternal mesmo, ou assim o percebo. Cuidado com a cria, mesmo a cria sendo um homem gordo e flácido de 41 anos, que fica sentado no quarto escrevendo asneiras o dia inteiro. Será que... perdi o fio da meada olhando a internet, procurando se digitar o meu nome no Google direcionaria o usuário para o Jornal do Profeta, o que não ocorre. Seu Raimundo pode tentar me procurar pela internet, como fiz com ele. Talvez apareça a minha cara e até o meu telefone de casa, mas espero que não, acho que para isso acontecer ele tem que ser meu amigo no Google, acho que não é só ter o e-mail, não. Se bem que procurei Seu Raimundo agora na internet e apareceu um perfil parecido com o meu, mas acho que o dele seja construído com informações de conhecimento público, não há o telefone da casa dele, por exemplo. Sei lá, fiquei grilado com isso. A Google pode vender o meu telefone para empresas virem me importunar. Espero que não, acho que a Google não é disso. Não chega a tanto. Não vou pesquisar para descobrir. Não entendo nada da plataforma de propaganda deles. E não estou disposto a aprender. Acho toscas as propagandas direcionadas, com cara de caseiras. Se uma editora achar por bem divulgar o meu livro, o que penso ser otimista ao absurdo, que o faça. Nossa, já venho eu falar desse livro. Não me sai da cabeça de jeito nenhum.

18h29. Comi o sanduíche que minha mãe me fez. Me satisfez completamente e arrematei com um cigarro, ela em verdade fez dois, guardei o menor para a fome dos remédios. Tive a prova cabal que a ideia do estoque que me dominou na internação do Diário não duraria um dia sequer. Outra insanidade da minha cabeça. Ainda bem que hoje vejo isso claramente. Mas não revelarei nada do livro, a não ser que mostro meu lado mais podre, corrompido e compulsivo e revelo o meu segredo mais secreto. Esse é o melhor resumo da obra. É ela toda em uma linha. Se deixa mais interrogações do que explica, tanto melhor, que o leitor fique curioso com até que ponto pode descer um ser humano. Imoral é o mínimo que acharão de mim. Eu mesmo acho que fui, mas não acho que sou. Embora todos nós sejamos um pouquinho, ou um bocado, só que reprimidos pelo tal do superego. Mas nenhum homem sabe realmente o que vai na cabeça do outro. Pode-se chegar perto numa grande amizade ou num relacionamento afetivo de longa data. Nesses casos há quase uma fusão de almas, são acontecimentos muito bonitos da existência. Me faltam os dois. Mas já os tive ambos. É que a vida vai distanciando as pessoas. Cada uma vai tomando o seu rumo, sua condição de adulto independente, e os laços vão se afrouxando. Quanto a mim, permaneço e, por permanecer me distancio. Pois ninguém permaneceu, todos bateram asas e construíram seus próprios ninhos. O meu ninho ainda é na mesma árvore, no mesmo pé de Ubaias de 25 anos atrás. Já habitei outros ninhos, mas acabei voltando ao seio matriarcal pelas circunstâncias que a vida me ofereceu e as que decidi agarrar. Se estou aqui é porque escolhi estar aqui. Não posso outorgar essa escolha a outro senão a mim e ao que escolhi para a minha vida. E vivo eu constrangido e satisfeito de estar aqui. Com vergonha da minha plateia de bonecos e ao mesmo tempo feliz por tê-los. Sou um velho infantil. Sou o que sou e é tudo o que sou. Preciso aprender a gostar e aceitar o que sou. Achar que não sou apenas isso, mas que sou tudo isso. Acho que meu texto não me dá a devida dimensão, acho que faço pouco de mim. Sou um pouco mais do que me mostro. Não sei bem o que mais, só torço para que esse mais seja algo de bom, virtuoso e nobre. Ovelha negra e Patinho Feio são as duas personagens com as quais mais me identifico. Só não sei quando me darei por cisne e estarei entre cisnes. Talvez nunca. Isso já me incomodou mais, hoje, dentro do meu pequeno imenso reino pessoal eu sinto que cheguei exatamente onde queria estar. E tenho sonhos. Só dois. Mais são os dois maiores sonhos do mundo. Não deixei de pensar grande, mesmo me sentindo pequeno em vários aspectos. Se são concretizáveis? Não sei. Sei que sonho e ninguém pode me roubar a capacidade de sonhar. Se forem impossíveis, me darei por satisfeito por tê-los sonhado. Ter voado tão alto e desejado tão grande que me abarca toda a alma. Um dos sonhos é o livro. E faço o máximo para ancorá-lo na realidade. O outro, só lendo o livro. Ou seja, caro leitor, o outro só será revelado caso o livro aconteça. Não ouso enunciá-lo aqui. Até agora só foi revelado a Seu Raimundo, se este se dignar a ler o texto, e à minha amiga revisora, se ela se prestar a revisá-lo. Ambas as coisas para mim estão meio em suspenso. Minha amiga escritora não mandou os dados para o pagamento, o que disse que faria ontem à noite, então fico com a pulga atrás da orelha. Eu nada posso fazer. O que será, será. Não vou cobrar que ela me envie o que parece não querer enviar. Só me resta esperar. Quem sabe pelo pior. Se for, como disse, sonhei. E o que é a vida senão uma sucessão de pequenos, médios e grandes sonhos que tentamos realizar? Quanto maior o sonho tão maior é a frustração de não o alcançar. Desse primeiro sonho – o livro – me resta a consciência limpa de que tentei o máximo. De que busquei ajuda para realizá-lo nas pessoas que achei mais adequadas e qualificadas. Um já deu para trás. As demais podem fazer o mesmo movimento e me verei sem muita saída. Embora ainda haja uma. Só sei que sonhar é bom, tentar tornar realidade é que é a parte desafiante do processo. A que exige de nós o que de maior pudermos oferecer. E fiz tudo certo fazendo tudo errado. Meu livro nasceu dos piores sentimentos que brotaram do meu coração e do mais belo deles, é como uma estrela solitária na noite escura. Estou falando merda, foi mal. Às vezes me desfoco, me perco. Não sei se fez sentido para você, como me diz sempre Ju. Se fez tanto melhor, para você e para mim, pois nenhum dos dois perdeu seu tempo com tais palavras. Estou escrevendo hoje de uma maneira tão diferente da usual, não tenho ideia da causa. Mas me agradam as dicotomias que coloco no texto e a sinceridade dele. 19h12. Preciso escrever um e-mail que me devo há muito.

19h16. Já escrevi – em inglês ou coisa que se assemelhe – e já enviei. É sobre uma boneca que mandei pintar há cerca de um ano num ateliê especializado na China e até hoje não recebi resposta de lá. Lembrei-me disso agora ao pensar em pagamentos e cobranças e mandei um e-mail perguntado o que estava acontecendo. Só falta ela ter mudado de e-mail, aí seria o fim da picada. Mas ela sempre foi correta comigo, sou cliente há mais de dez anos, por mais que só tenha comprado duas peças, três com esta. Mas estive lá no começo, quando não tinham credibilidade no mercado. Sou um cliente VIP por assim dizer. Não puxei muito papo desta vez, mas paguei caro pela pintura. Tenho até vergonha de enunciar o valor. Mas foi caro. Pinturas personalizadas de alta qualidade são artigos de luxo para colecionadores. Vamos ver se ela responde. Minha vida é a espera de e-mails. Hahaha. Espero que as três pessoas me respondam, quais sejam, a moça do ateliê, a incrível revisora e Seu Raimundo. De qual queria mais receber a resposta? Acho que o de Seu Raimundo. Pelo menos é o que me deixa mais curioso e o que pode me arrasar ou me encher de esperança. Os dados da minha amiga revisora em segundo porque queria muito que ela revisasse, sei que faria um trabalho fenomenal por causa da nossa amizade e de seu perfeccionismo. Em terceiro, obviamente, o da Asuka na moto (eis o que é a boneca, uma personagem do Evangelion montada numa moto de corrida).

19h28. Será que a minha amiga revisora se esqueceu ou não está me levando a sério? Não entendo. Será que ela só quer receber quando efetivamente tiver tempo para se debruçar sobre o meu texto? Elucubrações, parece que minha tendência paranoide adora fabricá-las. Da pior qualidade possível. Hahaha. O disco do U2 é completo plano de fundo para mim, é como se não houvesse música tocando, só se parar e fizer um esforço de concentração o ouço.

Isso já está muito grande. Me deixo por aqui. Vou para o Vate, pelo menos lá não há leitores, posso escrever o quanto quiser. Xau.