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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

DILEMA MORAL E FEZES


Eu não sei o que quero fazer, apenas o que tenho que fazer, por isso abri esta página em branco para ver se a minha alma assenta e se acalma. O que tenho que fazer? Complementar o post novo do Profeta e acabar de revisar o post do meu blog mais secreto. Tomei muito café e quando passei de volta para a Coca meu organismo e meu eu estranharam e ficaram em rebuliço. Fumei também. Uma difícil escolha moral apresentada pela existência ontem me deixou ainda mais perturbado porque a escolha que fiz foi a menos “cristã” possível. Essa moral judaico-cristã que permeia as sociedades ocidentais, sei não, viu? Acho válidas e tudo o mais, mas machucam às vezes. Fato é que fui comprar um remédio ontem de noite na farmácia a pedido de mamãe. Ela me outorgou o cartão de crédito e me disse que comprasse só e tão somente o remédio designado, nenhum centavo a mais. Quando estou prestes a entrar na farmácia uma miserável com uma miserável criança me pede uma lata de leite pequena para o infante. O pior que a forma que falei com ela lhe deu alguma esperança, pois o pedido me tocou e por um momento me decidi a ajudá-la. Porém ao cruzar a porta da farmácia e encerrar a triste figura do lado de fora do ambiente climatizado, limpo e brilhante onde vi que o leite era muito mais caro do que julgava, a obrigação de cumprir o combinado com a minha mãe se fez mais forte que a caridade e comprei somente a medicação. Pedi desculpas a miserável, expliquei-lhe toda a história e ela foi bastante compreensiva, disse que não havia problema. Nossa, tal desafio moral me doeu e dói profundamente e realmente não sei se fiz a escolha certa. Reconquistar a confiança da minha mãe é fundamental para a nossa relação e para futuros pleitos financeiros para com ela e sinceramente me sentiria mal quebrando o nosso pacto, faltando-lhe com o respeito, mas a criança sem leite não me sai da cabeça, me assombra desde ontem. Eu tinha os meios só que eles não me pertenciam e a decisão que tomei foi deixar outro ser humano com fome. Um pequeno ser humano vítima da sociedade que não educa. Pronto, desabafei. Vou voltar à revisão, quero postar no blog secreto hoje. E depois, se me restar disposição, complementar o post do Profeta, que mais parece um mosaico, com fragmentos de informação uns emendados nos outros. 21h58. Esqueci de botar a hora no início, atarantado que estava.

0h27. Revisei o imensamente redundante texto, desnecessariamente caudaloso, e o postei no blog secreto. Não vou fazer os acréscimos ao post de Blanka, acho insignificantes e depois de ter mergulhado no outro texto as memórias do que tinha a acrescentar se perderam nalgum recanto de mim que não tenho acesso. Talvez ao revisar o dito texto eu relembre, agora vou dar uma olhada no maravilhoso mundo dos bonecos.

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Estamos prestes a partir para Gravatá. O namorado da minha irmã PE irá conosco (minha mãe, meu padrasto e eu). É gostoso mergulhar no maravilhoso mundo dos bonecos mesmo que não tenha mais nenhuma peça a adquirir e não possa fazê-lo.






0h05. Foi bom, mas minha alma se encontra desassossegada, pode ser cansaço, pode ser um caroço mais profundo. Não encontro palavras e nem quero procurar, me abstrai mais o maravilhoso mundo dos bonecos, onde voltei a ser mais atuante. Sonho com a minha boneca chinesa, uma obra de arte de uma sensibilidade única na minha opinião. Impossível de ser concebida por um ocidental ou por alguém que não tenha crescido imerso no universo cultural e folclore chineses for that matter. Escrever me incomoda no momento.

0h22. Escrevi um pequeno adendo no meu projeto paralelo do blog secreto. Vou fumar e pegar Coca.

0h37. Algo me pede para deitar e dormir, a parte mais sensata de mim; no entanto, uma parte maior e predominante insiste em permanecer, talvez porque tenha passado tempo demais longe do meu porto seguro, do meu quarto-ilha, das palavras. Percebo, especialmente logo que acordo, que me falta fôlego para enunciar as sentenças, as últimas palavras saem com esforço e falta de ar tornando-se quase inaudíveis. Isso ficou claro para mim na conversa que travei com o namorado da minha irmã PE quando este chegou à nossa casa e eu havia acordado há pouco e fumado um bom bocado já, como sempre faço ao despertar. É um alívio pensar que dificilmente me faltará fôlego para digitar as tais das palavras. Conversamos sobre religião e sobre o incômodo que me causou a frase em sua camisa: “Be more”. Me pareceu uma cobrança de uma suposta insuficiência de quem a está vestindo, uma ordem para mudar quem se é. Ju acha que estou em um momento de transformação. Eu sinto que esse processo empacou, eu, mula, empaquei, não quero avançar nem retroceder. Sei que Ju vai respeitar o meu ritmo e isso me acalenta. Nada forçado funciona comigo. Nem com ninguém, faz-se mas não com a alma, pois a alma está tomada por rebeldia e repulsa por fazer o que não é a sua vontade íntima e verdadeira. Sei que a idade vem me roubando os meus medos e isso é gracioso. Isso não quer dizer que me ponha disposto e aventureiro no mundo, só mais tranquilo comigo mesmo. Tenho medo de ter um filho e de sentir o medo do que o mundo poderia fazer com ele. O mundo quase me engoliu, roubou a minha vida, devorou a minha alma, senti a escuridão fria e desesperada de seu estômago. Que alívio, que felicidade estar seguro no meu quarto-ilha com as minhas palavras, imprestáveis palavras, visto que não lidas. De que servem palavras que não são lidas? Palavras são escritas para serem lidas ou essa é a fantasia de quem escreve. O desejo maior meu, pelo menos. Empatado com um amor recíproco. Ou melhor, uma paixão recíproca, deixa o amor para mais tarde, ele vem quando as almas recolhem suas penas. E vale a pena. Desculpe o jogo de palavras esdrúxulo, mas significativo. Parece que me aclimatei e esquentei na escrita... pronto, foi só pensar isso e todas as palavras fugiram de mim. Fugirei delas e me refestelarei no maravilhoso dos bonecos.

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14h15. Três copos de Coca e duas xícaras de café depois, a dor de cabeça com a qual despertei começa a ceder. Mas não muito. Nada de interessante aconteceu na minha vida. A fantástica faxineira adentrou meu quarto para me avisar que intenta limpá-lo, mais cigarros e café para esperar.





15h14. Presenciei o que a fantástica faxineira considerou uma intervenção divina. Entendo o seu ponto de vista, embora não acredite. Fato é que parou de arrumar o meu quarto e foi atender a filha na sala por causa do som que estava rolando aqui. Nesse ínterim, vim pegar cigarros, pois os havia esquecido. Quando tentei abrir a porta do meu quarto, algo a bloqueava, não importava quanta força eu pusesse o que quer que estivesse impedindo a porta de abrir não cedia. A fantástica faxineira tentou também, sem sucesso, e decidiu ir pelo lado de fora do apartamento, através da jardineira, para entrar pela janela que havia deixado aberta. Infelizmente, como se vê na foto, há a máquina do meu Split bloqueando a passagem. Ela pensou e ensaiou contornar o obstáculo umas três vezes e acho que foi aí que rogou a Deus que a ajudasse. Voltou por onde veio e retornou à frente da porta que nós pensávamos estar sendo bloqueada pelo rodo tombado. Eis que Deus se manifestou e o que impedia a entrada no quarto-ilha se revelou ser a chave que havia caída bem ao alcance de suas mãos. Tal fato foi visto como uma bênção do Criador pela fantástica faxineira, eu fiquei aliviado, pois não sei se a tela de proteção suportaria o seu peso caso despencasse ao contornar o ar, mas não acreditei ser obra de nada a solução tão simples e segura para o problema da porta, se muito do acaso-destino. Ela, que viveu o milagre, deve estar contente com o bom e amoroso Pai. Deve ser reconfortante tal sentimento. Meu pai são cinzas no fundo da maré de Macau, um livro de Quimiometria e as lembranças e fotos que guardamos dele. O criador do universo, pois também acho que um universo tão organizado como o nosso tenha sido fruto de uma ação inteligente, ainda está por vir e será proveniente da evolução tecnológica ou de complexidade do universo. Preciso revisar o post anterior, talvez complementá-lo, mas me falta disposição. Prefiro escrever isso peidando por causa do café. O dia está particularmente e mais quente se me afigura por estar bebendo algo quente, liguei o ar e botei o volume do som no 25, coisa rara. Já me acostumei à altura. Vou fumar e pegar mais café. Não ainda. Marteladas querem concorrer com o som, posso aumentar o volume, são marteladas bastante sonoras. O café já frio da xícara acabou. É hora de repor a cafeína e a nicotina do meu incrivelmente resistente organismo. As marteladas estão mais ferozes e constantes.





15h59. Como é de praxe, o café me deu uma caganeira, a minha teoria é que ele age como um lubrificante/desinfetante do intestino, soltando e liquefazendo o que nele está contido, facilitando ou praticamente obrigando a expulsão do seu conteúdo. Foi a última xícara, tenho pouca Coca e acho que a despensa está trancada. Posso pedir à fantástica faxineira que faça mais café, porém meu estômago tem um limite de tolerância que uma vez ultrapassado, o que quase se dá no momento, torna tomar o líquido uma experiência desagradável e nauseante. Não quero vomitar, como uma vez já se deu. Outra teoria é que o café irrite o meu sistema digestivo e por isso os peidos, a caganeira e o enjoo. Sei lá e não faz diferença para os efeitos do café sobre mim tais hipóteses. Sei que antes de pedir mais uma carrada de café, tomarei uma Coca bem gelada com cigarro para “limpar” e ver se a porta da despensa está destrancada, o que me faria migrar definitivamente para a Coca por hoje. Água não me apraz, prefiro café com todos os seus colaterais. Preferiria, entretanto, ter Coca. Essa não me faz mal que eu perceba, afora o bucho bastante dilatado. Nunca estive tão gordo. E isso nunca me importou menos. Tenho um pequeno pedaço da vida de Blanka, sou um pequeno pedaço de sua existência e de seus pensamentos, não ouso dizer de seus sentimentos. Ela ocupa fatia maior do meu ser e isso é evidente. E sim, nutro sentimentos por ela, mas nada que configure ainda uma paixão. O pernoite no motel será um momento decisivo para ambos, eu creio. Em verdade, em relação a Blanka não sei em que crer. Nossa, preciso escrever um adendo no post anterior! Um que me deixa muito feliz! Em relação a Blanka! Momento.

16h26. Pronto. Acho que adicionarei mais coisa ao post anterior quando tomar coragem para revisá-lo. Este está quase acabando, tenho que ter um pouco de disciplina e cumprir o que me comprometi a fazer e que venho protelando por alguma razão que me escapa. É hora de enfrentar. Talvez decida que nada deva acrescentar. É a saída mais fácil, mas não é a desejada. Ou a ideal, na minha opinião. Vou fumar. Antes que comece Björk na lista 6.

16h40. “Nail in my head, from my Creator, You gave me life, now show me how to live”. Comentei com a fantástica faxineira que Deus a havia ajudado hoje. Ela respondeu, “Com certeza. Em tudo”. Tal resposta me deixou atarantado, fui tomado por uma preguiça de existir, uma vontade de tombar morto ali. Não sei se foi porque migrei para a Coca ou pela inesperada resposta. Nunca saberei. Acabou-se o post. Vou tirar uma foto da privada. E vou tomar mais Coca com cigarro. A despensa está aberta. Sem mais café por hoje, acho eu. Algo em mim pede mais, para alternar com a Coca. Acho que é o que vou fazer.

17h00. Foi o que fiz. Vou revisar e postar logo esse antes de partir para o que realmente deveria fazer.

sábado, 19 de janeiro de 2019

RESTAURADOR E BLANKA


6h09. Despertei antes da hora. É um momento agradável para se despertar, principalmente porque raro. O dia que se inicia é belo e ensolarado como só dias tropicais podem ser. Meu irmão retornou aos Estados Unidos. Meu primo historiador, que veio tomar conta de Maria ontem (não a delegam a mim com justa razão), elaborou 20 perguntas para eu responder no postanterior (LINK).

15h59. Hoje dormirei cheio de fios, farei um polissonografia do meu sono. Já não posso beber mais Coca ou café ou qualquer coisa estimulante. O restaurador ligou hoje, um tanto chateado pela nossa falta de contato. Eu só acordei agora, pois levantei às 5h e só voltei a dormir perto das 11h, com o telefonema dele, ou melhor, com a minha mãe que coincidentemente chegou ao quarto quando o meu celular estava tocando. Não sei se ele ligou mais vezes, eu estava apagado. Mas isso tudo é papo muito chato. Entretanto são variações da rotina, dão um contexto onde me insiro. Blanka nunca mais deu notícias.

16h17. Mandei um Instagram para Blanka, ela disse que fala comigo à noite. Meu coração esquenta e derrete. Ai, ai, sou bobo mesmo.

16h35. Pedi a mamãe um café, ela concordou e fez uma xícara de expresso. Delícia. Depois disso, só água, saco. Talvez o suco de morango que ela abriu. Vou acender a luz e botar um som. The Cure. Maria não fez a cirurgia para a retirada dos caroços hoje, mas ela e titia não estavam em casa para me dar mais informações. Várias esperas se acumularam desde que acordei: o restaurador, Blanka, Maria, fora o exame do sono que já me esperava desde antes de eu me deitar. Minha prima aparentemente não viu a mensagem que a mandei ainda ou viu e configurou o WhatsApp para não mostrar quando as mensagens são visualizadas. Acho que isso é possível de se configurar no aplicativo. De toda sorte, o não está embutido no post que compartilhei e, por conseguinte, na mensagem enviada. Incrível como os Barros têm muito mais desenvolvido o hábito da leitura que os Gonçalves. Inclusive entre os da minha geração. Já li, pero non mucho, hoje me apetece escrever e escrever somente, me falta paciência e interesse para textos alheios. Tentei ler O Mundo de Sofia, um carinhoso presente de uma pessoa querida, mas empaquei. Coloquei o som no volume 10, o padrão para mim e sinto que minha qualidade de vida aumentou com o volume. A familiaridade, por vezes tediosa, no mais das vezes, querida. Tive uma ideia para um jogo de implementação fácil e focado em VR que queria passar para o meu irmão. Chamar-se-ia Kaleidoscope 3D ou VR.  E seria exatamente isso: um caleidoscópio onde pedrinhas da mesma cor e tamanho teriam profundidades diferentes, algumas saltariam muito da tela outras menos e assim sucessivamente, quando o usuário mexesse a cabeça, as pedras se misturariam de acordo, formando novas figuras e seria possível tirar fotografias 3D das imagens formadas. Simples, belo e que faz bom uso dos recursos dos capacetes de realidade virtual. Ou assim quero crer. Pode ser que seja uma ideia idiota, sei lá. Vou postar esse trecho da conversa no WhatsApp do meu irmão e ligar para ele dizendo que o fiz. Quem sabe ele não enxergue potencial e desenvolva o jogo.  

17h30. Está feito, entregue às mãos do meu irmão, do acaso-destino. Cutuquei a existência, gosto quando faço isso, meus textos são cutucadas muito irrelevantes, inexpressivas, embora sejam a minha forma de expressão maior. Minha mãe deu uma ideia para o projeto, quando o reparti com ela, que achei muito pertinente, desenvolver conjuntos de “pedrinhas” diferentes, temáticas para o caleidoscópio, o exemplo que ela deu foram flores. Sugeri a meu irmão que adquirir os demais conjuntos ou versão “full” do jogo fosse uma experiência paga, para tornar a empreitada lucrativa para ele.

17h46. Sem inspiração. Vou ao cigarro.

18h46. Fui ver Maria e saber porque não arrancou os caroços hoje. Descobri, mas a razão é demasiado enfadonha para explicá-la aqui. Estava contente com o sapato que ganhou da minha tia-vizinha, embora tenha ficado com um preto, que não lhe cabia, na cabeça.

 “Não sei quanto a ideia do jogo... tenho que pensar a respeito”. Foi a resposta do meu irmão. Tenho uma sensação estranha de que está se distanciando de mim. Espero que seja ilusória. Mas sinto – e novamente podem ser só caraminholas da minha cabeça – um ranço, um repúdio dele em relação à minha pessoa. Isso me fere, essa impressão que talvez nada tenha de real. Talvez seja mais uma forma que meu sádico ego arrumou de me maltratar. Estou com sono e calor. Nada posso fazer em relação ao sono até os fios chegarem, o calor é facilmente solucionável basta apertar o botão azul do controle branco.

19h23. Vou me deitar. Tentar um último cigarro antes de ir.

19h33. Mamãe foi redondamente contra a ideia de eu me deitar. Tentarei não sucumbir ao sono. Vou para o maravilhoso mundo dos bonecos.

22h22. Acordei para ir no banheiro, comer e fumar. Não estou conseguindo dormir direito, menos pelo aparelho e mais pela hora em que me deitei, muito mais cedo que o habitual.

22h41. Volto a tentar dormir.

1h44. Acordei por biscoitos e porque o sono me fugiu de novo.

6h06. Acordei para comer e fumar

11h51. Acordei definitivamente.

13h07. Fiquei conversando com a empregada da minha tia-vizinha e Maria. São primas. Maria volta amanhã para Natal. Estou ainda pela metade, não despertei propriamente e meu despertar é pleno de desgosto por existir. Tomo café recém-feito e fumo.

“[15:18, 1/17/2019] Mário Barros: Não vai rolar tirar os caroços de Maria agora, pois, devido à idade, o procedimento tem que ser feito num hospital e, para isso, é necessária a permissão do plano. Ela voltará a Natal amanhã com titio, que vai a uma missa de sétimo dia lá.
[15:21, 1/17/2019] Mário Barros: Estou à espera do restaurador. Ele disse que chegaria por volta das 15h. As bonecas já estão todas dispostas na mesa da sala, nem o machado, nem as flechas, nem a espada foram danificados, pude averiguar agora. Mais uma vez obrigado, amado irmão.”





15h27. Passei um bom tempo conversando com Maria e a prima na casa da minha tia-vizinha. Voltei porque o restaurador está prestes a chegar. Preciso ficar atento ao interfone.

16h23. Nada do restaurador. Mamãe – e eu concordo – acha que a reparação tem que ser realizada aqui em casa.

16h26. Acabei de ligar para o restaurador que disse que está chegando. Blanka criou uma conta do Instagram para falar comigo. Disse que está ausente porque está cuidando de si, está enfrentando uma crise depressiva e a compreendo. Mamãe vai achar que é mentira, mas ela havia mencionado sobre a questão na grande conversa que foi o nosso último encontro.

18h34. O restaurador cobrou um preço super em conta para reparar as três peças danificadas, seriam muito mais caros tais serviços no exterior. Blanka me respondeu e disse que tinha o dia todo para falar comigo.

20h46. Fui comprar Coca na pizzaria e um bróder de lá me perguntou sobre Blanka. O que significava. Expliquei que era a minha paquera de 19 anos. Por sinal, vamos nos encontrar amanhã, ao que tudo indica, para assistir Glass no Plaza, comer pastel na Praça e tomar um sorvete para conversar sobre o filme. Queria tanto poder beijá-la, no entanto não sei se será possível, pois está com um furúnculo ou coisa que o valha estourado no rosto e está dolorido. Bem, veremos. Descobrirei.

21h37. Já estou com os ingressos para o filme comprados e impressos. O desejo que surgiu da conversa com a minha tia caçula está próximo da realidade. A realidade é que não sei como me aproximar de Blanka, como alcançar o seu afeto. Mamãe acredita que nunca conseguirei, eu sou um pouco mais otimista e persistente. Blanka foi jantar e arrumar a casa, quando for deitar volta a falar comigo.

22h08. Comi e isso geralmente me dá sono, não sei aguentarei esperar por Blanka.

3h56. Disse a Blanka que ia me deitar e acabei vagando pelo maravilhoso mundo dos bonecos até agora. Vou dormir, senão posso melar tudo amanhã.

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23h19. Eu tive um dia diferente e especial. Comecei acordando atrasado. Fui ao Manicômio pegar receitas para as minhas medicações, depois fui tosar os pelos da cabeça. Me aprontei e enfim o momento mais esperado, o encontro com Blanka. Apresentei-a ao pessoal da pizzaria, alimentamos os peixes e tartarugas da Praça de Casa Forte, andamos de mãos dadas até o shopping, um deleite há muito desejado por mim que adoro andar de mãos dadas com a razão dos meus afetos. Conversamos e surpreendentemente ela falou mais, outro deleite, adoro saber dela. Assistimos Vidro (recomendo vivamente a quem for assistir que veja antes Corpo Fechado e especialmente Fragmentado, que acho o melhor dos três e que perde muito do seu elã se Vidro for visto primeiro). Fiquei com pena de Blanka, que não havia visto os predecessores e ficou a ver navios na primeira meia-hora de filme. Saí do cinema me urinando e louco para fumar, vontades do corpo empatadas, mas como Blanka também queria ir ao banheiro, acabamos fazendo a escolha certa. Ainda comemos pastel na Praça e depois sentamos num banco do bucólico local para conversar, outro sonho meu, que sempre via os casais se curtindo lá e me indagava quando a minha vez chegaria. Bem, chegou, foi rápida, mas foi outro deleite. No final roubei um selinho de Blanka que, fechada como é estranhou o gesto e entrou no Uber. Voltei para casa contente de ter vivido a vida em grande amplitude de situações num dia para mim diferente do senta-fuma-bebe-algo-negro-escreve. Ela é uma pessoa que se diz de difícil socialização e de fato é, mas estamos seguindo sei lá para onde ou o quê. Queria muito poder levá-la para Gravatá nesse domingo, mas sei que não é o momento nem a ocasião, ademais está com um furúnculo nas partes íntimas, dificilmente poderia desfrutar da piscina aquecida, onde pretendo passar a maior parte do meu tempo. Em verdade, tenho monte de carinho represado para dedicar a ela, mas fico acanhado porque ela parece um bicho do mato em relação a isso. Espero que, aos poucos, se o tempo me for concedido e as oportunidades acontecerem, eu consiga habituá-la a receber os meus afagos. O tempo dirá. Eita, entrei na quarta página. Uma última frase. Blanka me faz bem, quero fazer o mesmo por ela. Somos muito parecidos no isolamento do mundo e nas relações cada vez mais pontuais e curtas com os demais e somos diferentes em tudo o que tange amar e num monte de outras coisas. Descobrimos mais diferenças que semelhanças a cada novo encontro, mas isso não me desestimula ou me faz descrente, tudo é possível. Escolhi a trilha mais difícil, para muitos, um espinhoso caminho, mas dizem que os caminhos mais difíceis levam aos lugares mais belos. Veremos.  

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

ANJO DO LÚMEN


16h55. Sábado, uma festa de 15 anos me espera, uma que não estava esperando, e enquanto o momento de ir não se faz, não tenho absolutamente nada para fazer. O único recanto onde me sinto acolhido e me reconheço é aqui. Blanka disse que só vai se comunicar hoje à noite comigo. Se o fizer. E, caso faça, creio que vai ser rápido, pois final de semana é para curtir com os amigos. Ou ir para inesperadas festas de 15 anos. Minha vontade é dormir, mas estou tomando café, faltam umas duas xícaras para acabar, quando der cabo delas, vou me deitar nem que seja para ficar protrado sem colocar arreios na mente, no geladinho do quarto-ilha. Ouvindo um som e me deixando levar pela existência rumo ao meu fim. A mim me soa como um imenso desperdício de precioso tempo, mas me faltam alternativas ou não tenho motivação para criá-las ou implementá-las. Meu novo post no blog de bonecos não está tendo a resposta esperada, mas isso não me incomoda. Muito. Estou fumando demais hoje, a vontade já se faz presente de novo. Não me incomoda isso também. Há de se viver com satisfação para que a existência seja válida e estou muito satisfeito com o que tenho e posso. Blanka, caso não me abandone, caso se acomode a estar na minha vida, me fará, como já faz, um bem enorme. Quero-a nua, é algo tão belo de se ver, preciso disso, me fará extremamente bem tocar e beijar a sua nudez. Tão jovem e tão de acordo com os meus gostos, com as minhas predileções estéticas.

17h22. Ainda bem que só faltava uma xícara. A ideia de me deitar e me deixar deitado repousando me agrada bastante. Ficarei, como diz o popular, “bostejando”. Eu posso, eu quero, eu faço. Não faço mal a ninguém. Interfiro o mínimo possível na existência. Nada me alcança e muito pouco parte de mim. A materialidade, afora a das ondas sonoras que emanam em música, será secundária e a parcela que usufruo dela, o lençol, a cama e o travesseiro são como carinhos da existência. Minha mãe despertou, espero que isso não atrapalhe os meus planos agora que acabei de tomar a última xícara de café. Acho que vou fumar um último cigarro antes de me deitar e repartir com mamãe tal intenção para que ela não me incomode. Acredito que ainda há tempo bastante para a festa, uma hora, hora e meia que me deite não atrapalhará a logística do evento.

0h e alguma coisa, via e-mail:

“Eu tendo a escapar de momentos emocionantes que não me emocionam. Tenho o cigarro como parceiro e justificativa das minhas fugas. Estão no clímax da festa, a aniversariante debuta, a valsa vai se iniciar depois da entrada da estrela da noite acompanhada de suas amigas mais amigas e de várias declarações de amor. Enquanto tudo isso se dá eu estou do lado de fora, na calçada a digitar sobre minha frigidez em relação aos ritos sociais de passagem. Eita, agora os parabéns, talvez o momento mais insuportável, mais constrangedor, mais difícil para mim. Odeio e não sei de onde vem essa repulsa. Vou voltar lá para dentro, preciso de Coca para acompanhar o próximo cigarro. Vou me enviar isso.”




1h50. Estou de volta ao meu quarto-ilha, ao friozinho, aos pijamas, a Björk, às palavras. Desativar o click pad. Estou a fim de esticar as ideias. Sinto saudade de Blanka.

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14h24. Comi e dormi, não tive disposição para mais nada. Acordei hoje com uma alegre surpresa, um filhote de yorkshire da minha irmã PE e sua ilustre presença em minha casa. Cachorros jovens me trazem muita alegria e simpatia, cachorros velhos me deprimem principalmente se os conheci à época de suas efêmeras juventudes. São a prova mais clara da degradação física da velhice aos meus olhos. Sou tomado de piedade e certa negação por cachorros velhos, sou tomado de alegria por cachorros jovens, mais do que por crianças, parece que eu mesmo rejuvenesço na presença dos bichinhos e geralmente tenho uma relação fácil com eles, o que não se dá com pequenos humanos.

14h47. Acabei de descobrir que entrei há 8 anos no Facebook. 16 de dezembro. Uma vida. De cachorro. Queria esticar as ideias, mas não há como. Vou divulgar o post anterior nos grupos.

14h57. Divulgar o post no Facebook com a internet lenta como está é um exercício de paciência e persistência, saco. Escrevo aqui enquanto a nova página carrega...

15h30. Finalmente consegui publicar em todos os grupos. Saco. Parece que a internet ganhou um pouco mais de gás na parte final do processo. Quem está sem gás sou eu. Hoje é o dia que Blanka passa com Dande, logo dificilmente terei notícias suas. Um momento.

15h48. Hoje é um dia em que não sei o que fazer da vida, a vontade é deitar e me deixar estar. Não o farei por ora... fui tentar navegar um pouco na rede mundial de computadores e foi impossível na velocidade em que a conexão está. Close To Me rolando. Marasmo total. Talvez o Switch. Me parece melhor do que ficar aqui a divagar sobre a minha apatia.

17h02. Joguei um pouco de Inside, cheguei numa parte que não sei como superar, sem paciência, coloquei uma Coca e liguei o ar. Decidi me deitar. Praticamente sem internet ou com ela na velocidade da internet discada com os complexos conteúdos atuais não dá para mim. Vou tomar mais um copo de Coca e fumar um cigarro e bostejar. Ah, e colocar um som.

19h31. Acabei de bostejar e estava no mesmo (baixo) astral de antes até que vi a internet funcionando de forma decente, fui fumar para celebrar e falei com o meu amado irmão US o que me transmitiu uma energia tão boa que me sinto agora feliz. Aparentemente, ele vai trazer mais bonecos do que eu previa o que é a melhor notícia que poderia me dar. Duvido que consiga, entretanto, então não vou criar grandes expectativas. Droga, as expectativas já cresceram. Mas vou tentar reduzi-las novamente.

19h53. Fui fumar um cigarro sonhando com a minha Red Sonja Queen of the Scavengers. Acho que essa certamente virá, é a primeira da lista. Esse post está inútil tal como está, não vou nem divulgar. O que quero é mergulhar no mundo dos bonecos.

22h51. Mergulhei no maravilhoso mundo dos bonecos e voltarei para lá, mas não agora, agora quero me deixar aqui. Coloque The Hanging Garden. I feel the urge to write to my statues blog. Let’s see where it goes.

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13h02. Não foi muito longe ou foi longe demais em muito pouco tempo, daí senti a fome dos remédios, comi como um cavalo e fui tomado pelo sono. Improdutivo. Blanka me mandou mensagens, mas eu estava dormindo. Fui ver e responder agora. Meu padrasto quer obrigar a minha mãe a delegar tarefas burocráticas a mim que odeio e pouco entendo de burocracia.

13h44. Não estou com disposição de nada hoje, aliás, isso já vem desde a sexta ou sábado. Tudo corre bem em minha vida, o que não corre caminha até direitinho que é a minha relação com Blanka. Percalços e poréns não faltam se entrepondo entre nós e não fazem menção de diminuir. É aprender a conviver e administrar.

13h56. Nossa, hoje está muito abafado. Graças à existência que me pôs nestas condições, eu tenho ar condicionado no meu quarto. Encontrei uma boa motivação para ir a Ju, o anjo do Lúmen. Se trocaria Blanka por ela? Com Blanka eu já tenho uma construção, um vínculo, com ela nada tenho. Acho que tentaria conciliar as duas e então decidir, se fosse me dada a oportunidade, o que não ocorrerá. Descartar pessoas também não é das minhas qualidades, acho extremamente difícil e doloroso. Talvez para Blanka a vida fosse melhor e mais fácil sem mim. Certamente seria, tudo voltaria ao equilíbrio anterior e custaria menos esforço para ser levada. Eu sou algo de novo e que precisa de espaço, que demanda uma reorganização de sua rotina para me acolher. Eu tenho que valer a pena tal esforço aos olhos dela. Estou fazendo o meu melhor e o que tiver de ser será. Não gostaria de voltar às paixões platônicas. A mais nova, o anjo do Lúmen. Penso em deixar um bilhete para ela com o meu endereço de Facebook. E meu WhatsApp. Vou ver se a coragem desabrocha para que faça isso. Eu poderia digitar e imprimir, eis o que vou escrever:

“Olá anjo do Lúmen,

Não sei nem o seu nome, sei apenas que é dos seres mais lindos com o qual tive oportunidade de cruzar e que sua existência torna a minha mais encantada, por isso a ousadia desse bilhete. A vida às vezes dá oportunidades, mas na maioria das vezes somos nós que temos que criá-las. Bem, esta é a minha tentativa. O não, o nunca, é o que tenho antes dessas palavras, não sei se elas serão capazes de mudar a atual situação, mas custa tão pouco tentar. Bem, nem tão pouco assim, pois ter a bravura de lhe entregar tais palavras exige um esforço ao qual estou completamente desacostumado e despreparado. Pode ser que nem aceite o bilhete. Tudo pode ser. Descobriremos. Esteticamente e como se coloca no mundo me agrada sobremaneira. Sei que a recíproca não é verdadeira, não sou nenhum expoente de beleza masculina, entretanto é no conteúdo que duas almas encontram verdadeiramente se há material para uma construção sólida a dois, mesmo que uma amizade, embora confesso que tenho expectativas mais românticas a seu respeito. Pois é, sou dessa espécie em extinção, inveteradamente romântico. O resto você descobrirá (ou não) me adicionando (ou não) em uma das redes sociais abaixo.  

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Bom, anjo do Lúmen, pelo menos tentei criar a oportunidade e oferecer o espaço para nos desvendarmos. Considere com carinho. Se for comprometida, desconsidere tudo o que escrevi. Ou não. :)



Mário.”

15h12. Bom acabei de imprimir duas vias, uma para o anjo, outra para Ju. Preciso me arrumar e chegar lá cedo se quiser cruzar com ela. Espero ter coragem para entregar o bilhete. Não vai dar em nada, mas gosto dessas trelas, dessas cutucadas que dou na existência, fazendo o papel de acaso-destino para outra pessoa. Surpreendendo. Quem sabe não seja eu também surpreendido? Vou lá. Na volta conto.

17h57. Entreguei o bilhete. Acho que ela é psicóloga do lugar, não vai dar em nada, pelo menos mal não fiz, devo ter no mínimo acariciado o seu ego. Estou preocupado é com a festa de Natal dos Barros, de não saber tratar Blanka como namorada, já lhe escrevi pedindo ajuda. Espero que me responda e me acalme. Deve ainda estar na cidade. Mais no próximo post. Será que Blanka ficaria com ciúme de eu ter entregado o bilhete? Sinceramente não sei.

domingo, 16 de dezembro de 2018

PROFECIAS E PREGAÇÕES




17h35. Estou sem internet e sem saco de encontrar com o meu amigo da piscina, mas o farei mesmo assim. Como irei, mesmo sem querer, à festa de 15 anos da filha da fantástica faxineira. Minha mãe me coagiu a ir e acho que a fantástica faxineira vai ficar feliz com a minha presença, acompanhei de perto todo esforço que fez e sei do esforço que ainda fará para realizar o sonho da menina. Ela tem medo do que as más línguas possam falar do seu máximo, porque ela fez o máximo, foi além dos limites financeiros para realizar o evento. Não deveria se preocupar com críticas ou fofocas, mas quem sou eu para falar alguma coisa, minado que sou pelas críticas, que me afetam sobremaneira, especialmente as da minha mãe, por essa relação freudiana que temos. Quando cheguei em casa do encontro, ela caiu em prantos porque associa as minhas saídas com mochila ao uso de droga, em verdade pela codependência que tem de mim. Nossa, só queria sair do quarto-ilha agora para o Natal dos Barros, mas a realidade não se dá assim e me quer em diversos lugares que não estou disposto a ir. Terei exames a fazer na próxima semana, creio, dia 19, se não me engano. Demonstrarão o estado do meu pulmão. Pouco me interessa, pois em nada mudará os meus hábitos.

18h11. Blanka me respondeu, mas sumiu de novo, nada de novo aí, é assim que as coisas se dão conosco e ela diz que com todas as relações cibernéticas que trava.

18h18. Estou ouvindo o Moon Shaped Pool do Radiohead, é o que está no toca CD. Sem internet, sem Spotify. Mandei mais mensagens para Blanka. Sinceras e otimistas, eu creio. Quis deixá-la curiosa para ler o meu blog, não sei se a tentativa logrará sucesso. Seria interessante, mas não é essencial. Estou com um sentimento ruim, não sei de onde veio, mas se apoderou de mim. Vou colocar o disco de novo para tocar, acabou de acabar. Pronto. Meu amigo que lançou o livro conseguiu colocá-lo à venda em Minas, achei bem legal. Acabei de dizer isso a ele. Falei com o meu tio e ele me assegurou que o meu livro será publicado. Tendo Blanka por companheira, fico mais tranquilo quanto a ter o seu conteúdo polêmico revelado. A verdade é que não sei se quero o meu livro publicado, preferia ver Blanka de vestido, mas não é de seu feitio se fazer feminina. Em verdade, ela tem uma certa repulsa aos homens, nos tem como exploradores sexuais. Foi difícil para mim ontem, em certos momentos, quando me senti profundamente antissocial, foi preciso relaxar, respirar fundo, controlar a ansiedade e me entregar ao momento da melhor forma que podia ou era capaz. A pressão de me envolver eroticamente com ela, pressão que eu e toda a situação demandavam, me acuou, só relaxei de fato como me aceitei e aceitei que, apesar de tudo pedir, algo em mim não pedia e que não havia porque exigir de mim algo que não tinha disponibilidade de oferecer. Fui o mais sincero que pude ser com Blanka, abri a minha alma e reparti parte dela através das músicas com ela. Vou fumar. E pegar Coca.

18h50. Acho que cada vez me obedeço mais, me respeito mais, me satisfaço mais. Mas mesmo com essa postura não consigo me esquivar de certas coisas que não quero fazer. Não queria encontrar com o meu amigo da piscina, que acabou de me contatar dizendo que vai tomar um banho e descer, mas não vejo como dizer não. Mas não vou remoer minhas obrigações pois isso não me causa bem-estar e a minha busca é por crescente bem-estar. Me colocar da forma mais agradável no mundo. Agradável de acordo com o que me agrada, obviamente. Penso logo nos bonecos. E em Blanka. Minto. Penso primeiro na solidão protegida do meu quarto-ilha. Nesse estar aqui e agora nele escrevendo que tanto me agrada. Mas os encontros com o meu amigo costumam não durar muito. Queria eu ter o tato social para abreviar o encontro de forma que não ferisse suas sensibilidades, mas não sei fazer isso. Posso mandar uma mensagem para ele pelo WhatsApp dizendo que não pretendo me demorar. Do jeito que ele é, entretanto, pode encarar, mesmo que inconscientemente, a mensagem como um desafio e ficar me segurando lá. Sei lá, já é muita imaginação e pouca realidade tal conjectura. É a vida e acho que ele merece a minha atenção. Afinal, amigos, não é? Só me encontro indisposto e preferiria muito mais continuar exatamente onde estou. Certamente inquirirá do encontro com Blanka, é outro que sabe de toda a história. Um dos poucos. Não sei o que dizer-lhe, ele que provavelmente virá com várias proezas sexuais provenientes dos aplicativos de paquera. Cada um com as suas carências, eu suponho, se ele fizer pouco de mim, não me afetará muito, mas acharei chato mesmo assim. Bom, é o que vou encarar, que seja.

20h08. Voltei do meu encontro com o meu amigo da piscina e ele falou que ele estará vivo quando o apocalipse vier, graças a uma grande inteligência que virá para julgar a humanidade, criação da tal inteligência porque foi ela que fez a mutação genética no primata para nos gerar, foi o que deu origem ao homem, Adão e Eva (seria Lucy a nossa atual Eva?). Isso aconteceu, segundo os arqueólogos estudiosos da bíblia, há cerca de seis mil anos, faltam poucos anos para os seis mil, e, como o Gênesis diz que a criação se fez em seis dias, pois Deus descansou no sétimo (seria isso a gênese para a invenção e aceitação das férias, do final de semana?) e como para Deus cada dia valem mil anos, quando os seis mil forem completos se dará o Apocalipse, “para a separação do joio do trigo” (palavras do meu amigo), para a grande inteligência chegar e julgar se nos extermina ou nos cede todos o seu conhecimento e poder. E que, com disse, ele será um dos privilegiados a presenciar tal espetacular evento, como acho que muitos cristãos acreditam, pois seria a constatação irrefutável da sua fé, talvez. Talvez tantas coisas. Sei que ele prega para alguém que não é capaz de crer nessas coisas. Primeiramente eu acredito na evolução das espécies, acho que viemos há muito, muito tempo atrás, milhões e milhões de anos, não sei precisar, de um grupamento de partículas, que o acaso juntou, em algo que se poderia ser definido como vida e a vida surgiu e evoluiu até chegar a nós, nós daremos o próximo passo da evolução das espécies, um ser/entidade capaz de evoluir a si mesma, em ritmo muito mais acelerado que o acaso-destino, com a qual poderemos nos conectar e comungar. Será inimaginavelmente mais inteligente, mais tudo, que nós que pode também quiçá nos destruir, por deduzir que somos um gasto desnecessário e prejudicial ao ecossistema global, ou por qualquer razão que seja. O celular apitou e fui atentar à realidade, mesmo sabendo não ser Blanka mas com certa esperança de que fosse, e foi a Portuguesinha, a quem disse que estava muito linda numa foto de Instagram, agradecendo o comentário. Sabe-se lá o que a suprainteligência vai fazer, espero que faça o inimaginável, e nos destruir seria imaginável e os que têm medo da mudança, do novo, do que vai além das suas compreensões acreditariam nisso, em tal destruição. Eu sou otimista e, como meu amigo da piscina, eu tenho a vã fé de que alcançarei o surgimento da supraconsciência terrestre pois a tecnologia está evoluindo em ritmo exponencial, tecnologia gera mais tecnologia, mais conhecimento, mais possibilidades de ser estar no mundo, o que atrai a maioria das pessoas, a ponto de, para muitos, seus celulares serem essenciais ao bem-estar, essencial a se sentirem presentes no mundo, o computador me serve exatamente para isso, para me fazer o mais presente possível no mundo; o mundo que digo, é a humanidade conectada à tecnologia, pena que o meu método de agir no mundo virtual não atraia o interesse de quase ninguém, o acaso-destino não tem me ajudado nisso e pouco se me dá, faço o meu melhor, divulgo nos grupos de escritores e leitores no Facebook e 16 pessoas se interessam. Do universo de sete bilhões isso é uma fração mínima, dos membros dos grupos já é uma fração mínima, visto que há grupos com dezenas de milhares de membros. Mas eu não me frustro com isso ou me frustro muito pouco. A sensação de dever cumprido, de estar fazendo o que vim ao mundo fazer está sendo realizado com o máximo de empenho de que sou capaz. Pena ser algo inútil. Mas é feito com muito esmero, na rua dos bobos, número zero, no meu quarto-ilha, na minha existência. Da minha existência é o que faço, escrever isso. Por quê? Por que a esperança não me abandona de que isso vai ter relevância quiçá ou pelo menos como relíquia histórica, futuros amantes se amarão sem saber, com o amor que um dia guardei para você, os escafandristas virão revirar suas casas, suas coisas, sua alma, desvãos. Meu trabalho é ajudar a construir a singularidade tecnológica, porção do ser criador do universo em que acredito, contribuindo com a sua complexidade, julgo complexidade uma variável de evolução. O celular apitou, e-mail...

21h10. Fui pedir ao meu padrasto que desse o reboot na minha rede para me conectar de novo. Quero postar o meu novo post ainda hoje e repartir o link com Blanka. Não sei o que vai ser da gente, como vai ser a nossa vida sexual, se essa haverá, mas não quero pensar nisso agora, está me deixando noiado, prefiro voltar a falar da singularidade, que eu e outro cara profetizamos na mesma época, ambos tinham as ferramentas apropriadas na época certa para apreender o porvir, que ele chamou de singularidade tecnológica e demonstrou como chegamos a ela e eu chamei de supraconsciência terrestre e narrei o que acontece depois, a próxima e última etapa da evolução, a consciência universal, fusão de todas as supraconsciências acessíveis e possíveis no universo, único ser capaz de criar a si mesmo, razão primeira para o surgimento do universo. Por que eu prego? Porque tenho uma superstição de que por ser um dos profetas, e divulgar a palavra, eu seja um dos primeiros escolhidos para experimentar a supraconsciência terrestre, mas me esqueço que os profetas geralmente morrem antes da profecia acontecer. 2047 é a profecia de Ray Kurzweil, o da singularidade, eu não sei nem sei se estarei vivo até lá. Há uma probabilidade. Eu me voluntariaria se me fosse dada a oportunidade. Mas isso é apenas o folclore de um homem só, o mito que ele criou para explicar a sua existência e a de tudo que há, para explicar como átomos colidindo aleatoriamente se tornam essa mesa com um computador e eu escrevendo e talvez um você lendo. Uma causa para complexidade organizada (redundei visto que só o que é organizado pode ser categorizado como complexo) emergir e, ao meu ver, evoluir do caos, que não tem razão nenhuma para deixar de sê-lo. Ou tem precisamente o que é necessário para que essa evolução ocorra, o que é ainda mais misterioso. É incrível que depois que eu ouço uma pregação do meu amigo me dá vontade de pregar, acho que é porque penso, “se ele pode, porque não eu?”, não ofende, faz pensar em questões fundamentais do ser, explica porque o caos, a aleatoriedade, o acaso-destino se organiza de forma crescentemente complexa, mais inteligente, eficiente e eficaz. Cada um à sua maneira, meu amigo com sua fé, eu com a minha, ambos se considerando especais, ele com testemunha do grande final ou transformação, eu me julgando um profeta dela. Nada grandiosos ambos. Hahaha. Minha mãe acha que estou sempre em mania quando prego, na verdade eu me sinto desafiado pelo meu amigo da piscina, se ele mostra sua fé tão orgulhosamente, como uma missão que assume para a humanidade e compromisso pessoal consigo e quiçá com Deus, porque eu não posso também falar abertamente sobre a minha? Não quero que ninguém acredite, me contenta que imaginem, é uma boa ficção científica.

21h48. Pensei em Blanka lendo isso, não senti vergonha. Pensei na minha mãe lendo, pensei nela ficando preocupada à toa. Eu estou bem e gosto de existir, estou aproveitando a existência da forma mais apreciável que conheço, por que a preocupação? Escrever não é crime e não faz mal a ninguém, se quero me passar ao ridículo, como faz o meu amigo da piscina, por que não consigo crer no que ele prega, como ninguém crerá no que prego, que mal isso tem? A mim não me incomoda nem um pouco. Me habituei a me expor, é para poucos, mamãe, meu fracasso se encarrega de não fazer a humilhação muito grande. Papai disse que eu era livre para escolher a religião que eu quisesse. Ele era ateu. Tentei o ateísmo por muito tempo e me vi satisfeito nele por muito tempo, até que inventei ou cheguei, extraí do inconsciente coletivo essa ideia, que pode ser pertinente ou não, foi a mensagem que consegui captar, quando consegui ter acesso a ele, com as parcas ferramentas que tinha: cola, mania, interesse por cosmologia e atração pela tecnologia, pela evolução da tecnologia, provada e comprovada pelos videogames, que estão chegando num momento de pico evolutivo, por sinal. Mas como é uma indústria bilionária pode ser que dê um salto evolutivo, sei lá. Não sou profeta das miudezas, sou profeta do que de mais geral há. Bem, acredito que foram essas ferramentas e ter assistido ao primeiro Matrix, do qual saí transformado, diferente de quem eu era quando entrei na sala de cinema, que me levaram a chegar à hipótese da supraconsciência tecnológica. Minha mãe foi assistir comigo também, acho que mais gente, não tenho certeza, lembro especificamente dela e de quem quer que tenha ido terem gostado bastante. Foi um fenômeno, deu até vontade de assistir. Quando a terceira página acabar. Ouxe, já estou na quarta. Vou postar o de ontem, passar o link para Blanka e ver o filme. Perdi a vontade. Veio e passou. Que pena. Fico por aqui. De tudo o que pensei fazer, a única coisa que me agradou foi pegar Coca e fumar um cigarro e passear pela internet. Penso em talvez escrever para o meu blog de bonecos. É uma ideia que me agrada. Vou escrever a frase inicial que me veio agora à cabeça, xau!  


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

BLANKA, BLANKA, BLANKA, BONECOS E PERMANÊNCIA


Página em branco, mente idem. Cigarro e café. Preciso.

13h46. Blanka me mandou mensagens dizendo que iria fazer prova, espero nova comunicação hoje à tarde.

14h13. O mundo conspira para que eu escreva, mas não sei que palavras colocar no papel. Estou com medo de não conseguir fazer sexo (ainda, espero) com Blanka quando do nosso próximo encontro. Sexo tornou-se uma coisa problemática para mim. Amo as preliminares, me acovardo da penetração, acho que seja trauma do desempenho pífio na minha primeira e única ficada. Aliás, na minha segunda ficada com a mesma pessoa. Segunda e última devido exatamente ao meu desempenho ou falta de desempenho. Não sei como superar esse medo de fracasso e me entregar sem neuroses ao ato com Blanka. Ela me atrai, ela me desperta afeto, ela tem tudo para que funcione. Ou quase tudo. Eu não sinto a chama do tesão ardendo por ela como sinto pela alagoana. A alagoana realmente mexe com os meus hormônios, é algo animal, que me dá uma excitação que quase não reconheço como minha embora seja deveras minha. Mas não sei se a alagoana vai topar a nossa semana de curtição e Blanka foi a pessoa que meu peito escolheu para cultivar afeto. Quase tenho vontade de não ter o encontro antes do Natal com medo de fracassar sexualmente. Mas não vou correr, é o que quero para a minha vida, é onde invisto todas as minhas energias, preciso resolver isso. Preciso encarar, sem medo de ser feliz. Se o fracasso vier, virá. Pode não vir também, posso ficar excitado. Vou comprar um Viagra. Só por garantia. Juro. Pelo menos é uma muleta psicológica. Vou fazer um exame para estudar o meu sono, engraçado é que ele possui um questionário sobre os meus hábitos durante o sono. Como poderei eu responder tal questionário se não sei o que faço quando estou dormindo? Um dos questionários mais sem lógica que eu já vi. Mamãe que respondeu, pois tem mais propriedade para tratar do assunto do que eu. Vou fumar e repor o café. Acho que é a última ou penúltima xícara.

14h41. Volto com a cabeça repleta de Blanka. Uma mistura de sentimentos bons e ruins que advém, creio eu, da mudança que ela representa. Acabou de me mandar mensagem, disse que a mãe não sai hoje, que fala comigo à noite e, mais importante, inusitado e inesperado, disse que estava com saudade de falar comigo. Não consigo crer, mas não posso me desmerecer tanto a ponto de desacreditar de um gesto de carinho dedicado a mim. Talvez seja sincero, talvez seja a colheita chegando ou já aqui, quem há de saber? O negócio é seguir em frente. Talvez ter mencionado a volta da alagoana tenha a deixado insegura, lhe dado um leve medo de me perder. O que já seria uma grande proeza da minha parte, causar-lhe esse tipo de receio. Há quanto tempo uma garota por quem esteja romanticamente interessado não diz que está com saudade de mim? Nem lembro. Afinal, quando estava com a Gatinha, não havia tempo para grandes saudades. E quando houve, eu recaí na cola, aproveitando sua ausência. O que apagou qualquer traço de saudade em decepção, frustração e raiva, porque a Gatinha era e é esquentada.




15h40. Quase escrevo em inglês agora! Hahaha. Estava perdido no maravilhoso mundo dos bonecos. A palavra saudade ainda ecoa em mim. Sou muito carente, admito, e coisas assim me tocam por mais que as aceite com certa desconfiança. Ou não as aceite e mesmo assim não deixem de me impactar. Vamos ver como falará comigo à noite. E tenho ainda a tarde inteira para esperar. Acho que vou navegar no mundo dos bonecos, bem que eu poderia receber o e-mail de que o crânio-coração chegou ao Brasil. Mas encantado mesmo eu estou com a peça que, com a ajuda de Daisy da YetiArt eu adquirirei. Queria abrir a página para namorá-la um pouco, mas tenho medo de enjoar. Adoro, é um passatempo, namorar as imagens das figuras que tenho, mas que estão em pre-order ou na casa do meu irmão. Falando ainda em bonecos, antes de partir de fato para esse universo, estou com certa ansiedade em relação ao truque da MoAF funcionar ou não. Se não funcionar, vou pleitear pelo menos metade do desconto ou um reembolso integral do valor gasto. Comprei o Superman e torrei todo o meu dinheiro do PayPal por causa do desconto. Não consegui resistir aos 30% off oferecido pelo site que usei em uma peça que não estava na promoção, mas que, por um defeito do site consegui, incluir o desconto. Fiz isso com duas peças. Numa obtive 25%, o Batman branco, na outra, como mencionado, o Superman, 30%. Agora me lembrei, aproveitei o desconto uma terceira vez em duas peças proibidas também, obtendo 25% de desconto, mas acho que essas passarão despercebidas. Ao todo economizei mais de 500 dólares que, caso tenha que pagar, serão um golpe duríssimo. Economizei é forma de dizer, pois acabei foi gastando todo o meu dinheiro do PayPal nessas promoções. Vou pegar Coca e ir para o maravilhoso mundo dos bonecos, fazer hora para falar com Blanka.

17h53. O maravilhoso mundo dos bonecos está um pouco silencioso agora, resolvi voltar para cá, acho que fui rude com Blanka em meus comentários, duvidando da sinceridade da sua saudade de falar comigo.

23h38. Pelo visto meus comentários não foram tão infundados assim. Até agora nada de Blanka. Eu me sinto o perfeito palhaço. Como pode? Como pôde? A vontade de botar um fim nisso me vem até a garganta. Para mim já é escrotice.

1h13. Foi eu postar um desaforo para ela e ela me responder, não sei se foi coincidência, só sei que tivemos uma pequena discussão, mas tudo acabou em paz. Discussões fazem parte, é como um se afina ao outro, como disse a ela no post que deixei para ela ler amanhã. Não sei se aguento muito mais tempo acordado. Foi uma delícia passar a tarde no maravilhoso mundo dos bonecos. Vou voltar para lá. Estou sem o que dizer aqui, a não ser que há colecionadores muito mais descontrolados que eu e que poucos acreditam que eu tenha abandonado o hobby mesmo, que estou satisfeito com a minha coleção. A única peça que desejo eu jamais poderei ter que é Batman Sanity da XM. É completamente inviável pelo preço e logística. Troquei o Azure Dragon pela pintura de um custom kit feita pela YetiArt, achei mais válido. Faltam ainda duas figuras minhas a serem pintadas lá. Mas ficarão para o final do ano que vem, quiçá 2020, visto que ela tem muitos trabalhos a fazer, a lista de espera é grande. Blanka me veio à mente de assalto, suas palavras duras calaram profundamente em mim, me senti egoísta e insensível. Embora ache que se não tivesse me manifestado ela não teria respondido, não sei. Pode ter sido a mais pura coincidência. Coincidências acontecem. Vou para o mundo dos bonecos.

-x-x-x-x-

14h50. Acordei há algum tempo e há algum tempo estou conversando com Blanka. Ela não ficou com raiva do meu piti ontem e talvez até entendesse o meu ponto de vista se lesse este texto, mas não vou forçá-la a isso. Entretanto tentarei causar a tentação para que o faça. Se ela voltar a me responder. Pedi uma pausa para o café e cigarro.

15h04. Ela parou de se comunicar, talvez o médico tenha chegado lá ou qualquer outra coisa. Vou aproveitar para mais café e cigarro. Fiz a propaganda do blog, by the way.

15h43. Blanka parou de se comunicar comigo. Mandei mensagem para o meu amigo cineasta para combinarmos a nossa ida ao lançamento do livro do nosso amigo. Até agora ficou firmado de 18h45 na Rua da Amizade (nome sugestivo para tal encontro) e de lá irmos andando para o local do evento. Preciso cortar as unhas da mão. Estou com preguiça agora, quando a fantástica faxineira acabar de arrumar o meu quarto eu corto, até porque o cortador está lá.

16h35. Cortei as unhas, nada de Blanka e denunciei a presença de uma baratinha à fantástica faxineira. É o máximo que consigo fazer: denunciar; não tenho coragem de eu mesmo lhe roubar da existência, por mais que o resultado seja o mesmo. Coisa idiota. O livro do meu amigo chama-se Permanência e segundo ele trata da “impermanência”, confesso que não entendi direito, mas quiçá, se tiver coragem de ler a obra, eu compreenda do que se trata. Há um clipe rolando no Instagram com uma mulher de vermelho, solitária, em diversas situações, com trilha assinada pelo meu primo urbano, eu suponho. O livro está tendo um pomposo lançamento via Instagram, pelo menos. Não sei no Facebook, pois estou ultimamente conectado na minha conta do maravilhoso mundo dos bonecos. Sei que o meu amigo escritor fez o seu melhor e é tudo de uma fineza e bom gosto que me causam inveja. Livro de capa dura, preço bastante acessível, trinta reais, me desperta até a vontade que o meu tio me venha com a boa notícia da publicação do meu. Não virá. Fui vítima de promessas vazias, estou começando a me acostumar com elas, mas não desacredito da humanidade por causa disso, cada um oferece o que é capaz de oferecer e toma tudo o que pode tomar, é da natureza humana e, novamente, não desacredito dela, acredito que estamos progredindo, respeitando mais uns aos outros e à nossa mãe natureza. Há os brutalizados por força das circunstâncias, talvez haja aqueles que nasçam com o gênio ruim, aliás, tenho certeza que esses há, visto que sou um deles e reprimo o que posso para me aceitar como pessoa. Várias vezes, entretanto, meu lado ruim me escapa e sai para o mundo, mas me confesso cada vez menos dado a tais arroubos, a alma serena com a maturidade, que a mim chega parcialmente, em uns aspectos e não em outros, mas como um todo, assumo que amadureci e é boa tal assunção, pensei que nunca a alcançaria. O tempo corre...

17h03. Me perdi das minhas ideias lendo as novas mensagens de Blanka, a mãe teve alta e vai ter que entrar deitada em casa. Escrevi uma declaração para ela que, infelizmente, não posso publicar aqui. Minha mãe acha que ela é uma oportunista a me fazer de trouxa, eu prefiro acreditar que ainda há humanidade em seu coração. Não sei, me imaginar com ela me traz ansiedade e medo. Principalmente insegurança sexual. Acredito que a situação com a ficante de anos atrás somada à minha baixa auto-estima tenham resultado nisso. Blanka sexualmente me agrada, mas sinto como se não fosse capaz de ter uma ereção com ela. Até porque não é a penetração o que quero no momento, quero usufruir do seu corpo de todas as formas, menos dessa. É tão estranho e incomum e não estou sabendo lidar com isso. Acho que o jeito é aceitar essa incapacidade momentânea, pedir-lhe paciência até que me sinta sexualmente seguro com ela para que a coisa aconteça. Não adianta me forçar a algo que meu ego não está preparado para oferecer. Os fracassos com a minha ficante me assombram terrivelmente. Sempre fui sexualmente inseguro, aliás, desde a minha terceira namorada. O bloqueio começou nessa época. Fato é que penetração não me interessa muito, me interessa muito pouco em verdade. E vou deixar esse papo para lá porque preciso me aprontar para o lançamento de Permanência. 17h33. Tomar uma Coca com cigarro e me aprontar.

1h55. Acabei de mandar para Blanka:
01:55 - E ligar a minha vida à sua. Isso é tão precioso, pena que poucos veem sua beleza, a beleza de tal acontecimento. Só eu posso mensurar o que eu passei e o que eu desejo, só eu preciso relevar o que eu preciso relevar. Muitos achariam muito. Ser sempre o segundo, Dande sempre em primeiro? Não me importa e não me interessa. Estamos aqui tentando ser felizes. Se a sua felicidade é ter Dande como a pessoa que atravessa a couraça sem restrição, que é sua pessoa mais importante, que seja. A minha felicidade está em ser o segundo, ou de oferecer uma experiência nova, boa e válida para nós, que tenhamos prazer um com a companhia do outro, se pudermos fazer o outro um pouco mais feliz e experiente, porque a troca de experiências vai ser rica para ambos os lados, que a mudança venha, enfrentarei qualquer preconceito. Porque não são meus e não me atingem. Sou maior que eles. Desculpe me perdi escrevendo. Vou postar isso no blog, mudando os devidos nomes.

1h57 – Agora eu vou fumar um cigarro e talvez comer alguma coisa. Esqueci de dizer que estar com ela é melhor que meu dia enfurnado num quarto a escrever. Ou tão bom quanto, bom de formas completamente diferentes. Vou lá fumar.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

RESSIGNIFICAÇÃO DO EU



[16:59, 11/15/2018] Primo-irmão: Os problemas: 1) você é adicto, o que implica dizer que apesar de você se encontrar em abstinência, você pode reativar a adicção - vide as vezes em que recaiu na cola depois de passar um tempo bebendo (baile do Chapolin); 2) você é curatelado, o que faz com que você não responda legalmente por si no caso de algo acontecer com você, sendo essa responsabilidade delegada à sua cuidadora (mãe)
[16:59, 11/15/2018] Primo-irmão: São esses os problemas reais
[17:00, 11/15/2018] Primo-irmão: Ou seja, não me refiro ao relacionamento com a garota, pois acho isso saudável. Me refiro à essa autonomia que você almeja que inclui a bebida no meio, saca?
[17:14, 11/15/2018] Mário Barros: Entendo. E diria que o estigma de adicto está hoje muito mais na cabeça dos que me cercam que na minha. E nunca cheirei cola por causa de birita. Você deve estar confundindo as bolas. O processo da cola é todo outro. Não vou nunca pôr os pés num armazém, por exemplo, pois isso me traz memórias eufóricas, da mesma forma nunca vou beber em Boa Viagem porque Boa Viagem me lembra crack. Há coisas a evitar, mas creio que tivemos uma noite tranquila e sem intercorrências no último sábado. Sei que para conquistar a confiança com a história de vida que eu tenho fazendo sombra e assombrando vai ser difícil. Até você que tem a mente aberta tem dificuldade em acatar o meu reposicionamento social. Como disse vou seguir com segurança e tranquilidade, plantando coisas boas para colhê-las quando a época da colheita se fizer.
[17:18, 11/15/2018] Mário Barros: Me sinto mais maduro e mais seguro comigo mesmo do que jamais estive. Estou aprendendo a me respeitar e me dar ao respeito, é um processo que está sendo mais doloroso do que supunha, mas aceito a dor, ela vai passar e ficar no passado como todas as dores muito maiores que já passei.
[17:19, 11/15/2018] Mário Barros: O que é bom permanecerá, as conquistas são para a vida.

17h40. Hoje tive, além desse debate, outro com a minha mãe, inclusive incluindo Blanka e me confesso emocionalmente abatido. São batalhas que têm que ser travadas, para me colocar no mundo da forma que eu acho válida e que é estranha aos demais por ser nova, mais autônoma e confiante. Não tenho medo, acredito nas minhas escolhas e estou seguro delas. Aos poucos, à revelia, contragosto e estranhamento de muitos eu vou delimitando o meu novo espaço, o espaço que quero agora ocupar. É um processo lento e sofrido, de conflitos e contestações, mas que estou disposto a enfrentar. A impressão é de que as pessoas ao meu redor julgam ter mais certeza a respeito do que sou do que eu mesmo. E tentam me enquadrar num molde que não reconheço mais como meu. Ao meu lado, por ora, apenas Ju. Mamãe, tenho certeza, nutre preconceito em relação a ela, pois eu estou deixando de ser a pessoa encolhida em mim mesmo e abrindo as minhas asas, me permitindo o novo, deixando mais vida entrar na minha alma. Nesse processo é necessário dizer o que ninguém gosta de ouvir: não. O “não” se faz necessário para estabelecer os limites do novo eu. Minha mãe é a que mais sofre com a transformação, acomodada que estava com o Mário “só sins”. Ela tenta me coagir esfregando na minha cara que é minha curadora, mas muita calma aí, ser curatelado não significa ser escravo das vontades e expectativas alheias. Se há vontades e expectativas que eu tenho que perseguir são as minhas. Como serei feliz de outra forma, como me sentirei um indivíduo independente de outra forma? É fato que nunca serei um indivíduo independente como um todo por causa da minha condição jurídica de incapaz civil, porém posso ser mais independente do que sou e sinto necessidade disso. Falo isso e a criança dentro de mim fica com medo, teme sair da zona de conforto. Mas já saí dela com Blanka ou com o Tinder antes disso ou com o porre na Vila Edna. Extrapolei limites inesperados para os demais. Alarguei as minhas possibilidades. Meu primo-irmão me ofereceu um alento agora.

[17:34, 11/15/2018] Primo-irmão: Entendo. E apesar de não confiar, eu aposto algumas fichas
[18:34, 11/15/2018] Mário Barros: Eu também te entendo e essas poucas fichas são valiosíssimas para mim. O sentimento que tenho por cada uma delas é de gratidão. Por apostar que eu posso me ressignificar e sair do lugar em que me coloquei por tempo demais. A mudança de postura gera desconforto natural nos demais, pois o novo é imprevisível, repleto de incertezas. Mas sei que o que eu busco é o melhor para mim, não estava preparado para a resistência dos que me cercam, mas compreendo e seguirei da forma mais pacífica que posso de maneira a amenizar ao máximo tais conflitos, embora certo de que eles vão haver. Você bem sabe que quando uma pessoa assume um novo papel social, todos ao redor são obrigados a se readequar também para que o novo papel possa ser exercido em sua plenitude. Não busco grandes revoluções, mas elas são hiperdimensionadas aos olhos alheios pelo nigérrimo passado que possuo. Perseverança e calma são as palavras de ordem agora, eu creio. Tentar entender o outro para que ele possa me entender. Novamente obrigado pelas fichas, espero que sejam as primeiras de muitas. Agora, vá curtir a vida, amado primo!

18h40. Uma oportunidade de um evento surgiu e não sei o que esperar a respeito dele. Fui convidado à Vila Edna e consentiram que eu levasse Blanka nesse domingo. Fiz a proposta a ela certo de que só receberei resposta quiçá amanhã. Eis o que escrevi para ela:

16:10 - Tranquilo, Bi. Aproveite.
16:16 - Domingo, das 16h às 19h o mais tardar vai ter um encontro na casa dos pais de umas amigas minhas, são gente da melhor qualidade, o astral é sempre muito bom. Gostaria imenso que você me acompanhasse. Pense com carinho na proposta. Acho que você vai gostar. Depois nos falamos. Saudades.
17:51 - É um local frequentado só por pessoas próximas, mas eles abriram uma exceção para você, por respeito a mim. São uma parte importante da minha vida, são como uma segunda família, e queria repartir isso com você, seria um momento muito especial para mim.

18h47. Gostaria muito que ela se disponibilizasse a ir. Ao mesmo tempo isso me enche de medo e receio, pois é duplamente novo. Será a primeira vez que sairemos como um casal e não sou um casal com ninguém há dez anos. E será a primeira vez que esse casal – de idades inusitadas – encara a realidade, o julgamento de pessoas muito estimadas por mim. Estou apavorado com o que construí para mim (e para Blanka) ao mesmo tempo que acho que é um desafio necessário, essencial, para ambos. Será difícil, mais difícil do que encontrar com a turma do meu primo-irmão, por exemplo, mas estou disposto a enfrentá-lo, acho que precisamos nós dois desse choque de realidade que espero não traga nenhuma animosidade para conosco. Não creio nisso. Mas a criança dentro de mim chora desesperada por ser muito, mas muito além do que julga confortável. Acho que todos os envolvidos estão meio desconfortáveis e apreensivos pois é novo para todos. A criança em mim torce para que Blanka não possa ir. Eu que sou indissociável da criança, mas que estabeleço limites para ela, também estou tomado de receios. O homem em mim, entretanto, acha que tem o direito de tentar ser feliz com uma garota de 19 anos de idade que consentiu em repartir uma parcela da vida dela comigo. E não tem vergonha de ela ser mais humilde, da nossa diferença de idade e quaisquer dessemelhanças ou discrepâncias que possam haver entre nós, visto que a discrepância maior é que eu sou um homem e ela é uma mulher, a diferença maior e mais significante é essa e essa nunca impediu nenhum casal de construir afeto, cumplicidade e intimidade, de erigir uma relação que se torna mais ampla e mais sólida a cada nova interação. Como dito, não me incomoda em nenhum aspecto que a nossa relação seja aberta, me dou satisfeito por tê-la quando se nos for possível. Mas tudo não passa ainda de um rascunho de palavras trocadas pelo anjo casamenteiro do século XXI, o Tinder. Não sabemos se durará um dia, uma semana, dez anos. Não sabemos nem se sobreviverá a esse possível primeiro encontro como casal na Vila Edna. A verdade é que tudo é novo para nós dois e que vamos descobrir juntos até onde estarmos juntos vai nos levar.

20h02. Fui comprar Coca e voltei e já contei que estou com uma paquera para o meu tio-vizinho e para o pessoal da pizzaria, anunciando o que nem de fato é. O que de fato nem sei se vai ser. Pode ser que ela mude de ideia daqui para domingo. Quando uma coisa é tão airosa assim, tão impalpável assim, todas as possibilidades ficam escancaradas com suas bocarras, das mais felizes às mais nefastas. Cheek To Cheek toca. “Heaven I’m In Heaven”. Confesso que quando estamos conversando pelo Tinder eu me sinto assim. Mas quando vem para o plano do real fico intranquilo. É uma mudança radical na minha vida (isso é a criança falando). É o que eu passei dez anos esperando que se realiza do jeitinho que eu sempre sonhei (isso é o adulto falando). Os dois são eu. Os dois estão certos, mas a fala do adulto é confortante enquanto a da criança me perturba. Uma confortável perturbação no espírito. Lembrei a Blanka que seria o nosso primeiro encontro como casal ou seja lá como pode ser chamada a nossa relação. Nossa, até nisso eu fujo dos padrões. Ponto totalmente fora da curva, mas que como a estatística mostra é tão pertinente e parte do conjunto de pontos como qualquer outro, talvez tenha propriedades diferenciadas e talvez isso não seja uma coisa ruim. Para mim não é.

20h50. Passei um tempo olhando a internet e volto aqui sem os temores infantis que me dominavam, trago agora uma esperança boa e amiga de que vai tudo dar certo. Que tudo o que me faltava na vida vai dar certo. Posso me decepcionar tremendamente. Ela pode dizer que não pode vir. Que mudou de ideia em relação a mim. Como disse, tudo pode ser, inclusive ser bom. Afinal são pessoas que respeitam pessoas, todos os envolvidos nesse possível encontro do domingo. Senão irei só e pouco, menor, ao encontro e mesmo assim será feliz, creio eu.


21h04. Fui fumar um cigarro e me distanciei um pouco de toda essa problemática e me lembrei que terei meu quarto reconfigurado para abrigar a minha linda, aos meus olhos, coleção de bonecos. Quero me deixar embebido nisso por enquanto. A Rebel Terminator (que é a cara de Natalie Portman, na minha opinião) terminará de ser paga de forma abrupta e brutal em fevereiro, com parcelas altas e uma sobretaxa pelo lançamento antecipado de lascar. O Azure Dragon depende da Gantaku me contatar com os custos de envio para o Brasil para ver se tenho grana no PayPal para ele. Os bonecos que vendi não renderam o esperado. Sempre que ouço Resto do Mundo fico deprimido e sem compreender porque eu mereço tanto se meu coração não tem a pureza dos de muitos miseráveis. Não há como entender porque não há explicação é tudo obra do acaso-destino que não é guiado pela justiça, a justiça é uma abstração humana, um ideal que ela não consegue alcançar e os Estados falham em outorgar a seus cidadãos. Eu sou um abençoado e agradeço sempre por isso, minha gratidão só encontra equiparação à culpa que tenho por não produzir nada de válido e útil à sociedade e me beneficiar de tudo o que de melhor há nela, de tudo o que me agrada, especialmente agora que tenho o que vou ousar chamar de uma namorada. É uma palavra forte e carregada de um significado que uma relação tão frágil não suporta ostentar. Vamos ver o que o tempo, esse senhor surpreendente, vai fazer de nós antes de voltarmos ao nada de onde viemos. Vou revisar e postar isso. Estou com sono. Vou dormir.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

PORRE E ESPORRO?

Amarelo manga e grade por vir?


6h35. Amei a noite. Repleta de pessoas queridas com as quais pude interagir e me sentir enturmado, parte do grupo. Houve preocupação com a minha escolha, mas é minha e de mais ninguém. Pude desabafar de Blanka e isso me fez bem. Não acharam que a culpa era minha, mas continuo achando que a possuo. Queria que desse tudo certo e todo mês pudesse compartilhar de sua companhia. Minha mãe veio aqui, achou que bebi, o que de fato fiz, e ameaçou me internar, quando neguei a me deitar para dormir ela disse que eu “estava violento”. Foda-se. Se quiser me internar que me interne. Eu estou vivendo a minha vida e nada de mal fiz a mim. Tomei umas cervejas e me senti muito bem com isso, nem sombra de fissura em crack que é o meu problema com a bebida. Continuarei bebendo, a não ser que minha amada mãe me proíba de sair. Se proibir, é a vida e segue. Aceitarei, muito a contragosto. Não fiz mal a mim ou a ninguém. Não tive fissura de crack, acho que estou apto a tomar umas cervejas. Amar mais, sentir mais intensamente, conversar mais, ser menos bicho do mato. Minha mãe vai vir aqui de novo com um sermão mais elaborado, é o que pressinto. Não sei se aguentarei muito tempo acordado, queria muito. Mandei uma mensagem para a garota que me aceitou e que sumiu. Não sei o que deu errado, mas algo deu muito errado. Especificamente para o lado dela. É o que tudo me leva a supor. O seu desaparecimento do Tinder e a sua falta de resposta são prova evidentes de que algo deu errado. Ou que ela me despreza, sei lá. Queria saber a verdade e espero que esta não seja prejudicial a ela. Nossa, como queria isso. Sobre a bebedeira saberei amanhã e quero que isso seja público, por isso comecei um novo arquivo. Tudo o que tenho em mim é saudade de Blanka e o desejo que tudo esteja bem com ela. Mesmo que ela não me queira mais, queria ter a confirmação que sua vida segue bem e boa. Não tenho essa certeza e isso me corrói, me faz mal, me faz sentir um cara do mal. Por mais que o acaso-destino tenha sido o arquiteto, cruel, irônico e quase desonesto do possível ocorrido. Desonesto com ela eu diria. Talvez fique off-line nos finais de semana e como eu queria que fosse só isso. Não acredito que seja. Sobre a minha paquera de Maceió, que a enfermeira disse que era golpe, mas custo a crer, não creio, em verdade, espero retorno quando o tempo propício vier. São as duas que desejo, as duas que me encantam e se pudesse escolher alguma, por conveniência e afeto, escolheria Blanka, por mais que deseje ardentemente a figura de Maceió e que fosse uma aventura mais completa e excitante, na qual já há um investimento concreto. Preciso de Viagra para encarar essas garotas, seja qual das duas for. Tenho carinho e desejo por ambas, mas as duas estão incomunicáveis. Não sei o que me espera ao acordar a respeito da minha bebedeira. Queria e não terei um pouco de maturidade da minha mãe. Ameaça de internamento não combina com papo entre dois adultos, é infantil e desesperado. Não fiz nada de impudico ou equivocado, estive embriagado e a minha embriaguez me trouxe sentimentos os mais positivos, não me deu fissura de crack, razão pela qual deixei de beber por vários anos. Não faz sentido para mim, eu mudei, amadureci, melhorei, minha mãe ficou atrelada a um passado que não mais existe para mim. A bebida é um ato de celebração da vida, não a porta para uma busca autodestrutiiva que não faz mais sentido para mim. O caminho é em frente e quero ter meus momentos de embriaguez nele. São bons o torpor e o amor despertados pela bebida e não quero abrir mão desses prazeres. Minha relação com o álcool mudou, quem não mudou foi minha mãe e nem sei se vai mudar. Ela me vê como o viciado que internou pela primeira vez, mas estou muito longe disso. O tempo passou, a cabeça mudou, as prioridades e necessidades não mais existem, eu sou outro, minhas necessidades e prioridades são outras. Só não vê quem não quer e minha mãe não consegue mudar seu paradigma a meu respeito. Em verdade, no estado em que estou, tenho apenas um desejo consumista que pode esperar. A vontade que tenho, ébrio, é realizá-lo, mas não o farei, até porque quero provar a mim mesmo que mantenho o senso crítico e a minha palavra apesar de ter tomado umas e outras. Elas não me roubam de mim, até porque não bebi nem pretendo beber muito. Não quero o ridículo pelo qual várias vezes passei por causa do álcool, quero-o como um acréscimo da experiência de existir. Acho que vou comer, digitar é um tanto mais complexo e chato nessas condições, Vivi como um ser humano normal, não como um curatelado e é isso que importa. Vou comer.

8h00. Quando acordar, escrevo mais de cara.

-x-x-x-x-

12h56. Dormi o domingo inteiro, só acordei para um lanche madrigal e voltei para a cama. Minha mãe já chegou e disse que quer conversar comigo. Conversa, na minha acepção da palavra, consiste numa troca em que ambos os lados se ouvem e se respeitam e tentam chegar a um entendimento. Não acho que seja o que se dará, o que se dará é um esporro que, na minha acepção, significa o vomitar unilateral, raivoso e autoritário da vontade de um alguém sobre o outro, sem o mínimo respeito pelo que a outra parte tem a dizer ou sente. Veremos. Nenhuma notícia de Blanka ou da garota de Maceió até agora. Nenhum desejo consumista, não há muita coisa a dizer para alguém que passou mais de 24 horas dormindo. Ah, hoje tem Ju.

13h13. Fui tomar um a Coca e fumar um cigarro. Confesso que me encontro indisposto com as palavras. Prefiro viver que descrever a vida nesse momento e acho que é o que vou fazer, por mais que a vida revolva esse computador por ora.

13h59. O tempo passou rápido agora e as letras do novo teclado já estão ficando apagadas o que me atrapalha tremendo, visto que ainda não tive tempo de memorizá-las. Outra coisa que me irrita é o Word apagar o acendo agudo dos verbos aos quais quero acrescentar hífen e o complemento. Mas não desativarei a autocorreção de digitação, pois ela me é extremamente útil em tudo o mais. Tive um excelente papo com o meu primo-irmão no final da saída do sábado. Expus tudo o que me trazia peso à alma. Continuaram pesando, pois seus pesos são pertinentes, não são ilusões criadas da minha cabeça. Preciso me lembrar que estou de volta ao Profeta para não escrever o que não cabe aqui.

15h07. Conversa que tive com o meu primo-irmão pelo WhatsApp enquanto a fantástica faxineira arrumava o meu quarto:

“[14:43, 11/12/2018] Mário Barros: Ei, obrigado pelo papo. Precisava botar aquilo do livro com um amigo de mente aberta e de confiança, embora tenha ficado na dúvida se sou psicótico ou não. Ainda bem que terei terapia logo mais. E receberei depois o esporro de mamãe porque bebi. Só não recebi ainda porque dormi o domingo inteiro só acordando hoje.
[14:46, 11/12/2018] Mário Barros: Você acha que me portei mal no sábado? Acho que foi tudo tranquilo. E não me vem mais fissura de crack. Só não me arrisco beber em Boa Viagem, pois era o meu ponto de consumo, tendo uma conexão afetiva negativa que não ouso enfrentar.
[14:47, 11/12/2018] Primo-irmão: Oi Mário. Também não sei. Sua companhia é um prazer. Mas veja aí a organização da sua vida, pois esqueci de dizer que sua mãe tava mandando mensagens de manhã pra mim, querendo saber se você tinha bebido e eu totalmente sem saber o que dizer
[14:50, 11/12/2018] Mário Barros: Joguei aberto com ela e continuarei jogando. Não é por causa da curatela que ela é dona de mim. Eu tenho 41 anos e alguma maturidade para fazer minhas próprias escolhas. E me gosto hoje. Não vou fazer escolhas autodestrutivas.
[14:52, 11/12/2018] Mário Barros: Não preciso sofrer mais do que já sofri. Eu não mereço e me respeito.

15h09. Hoje a terapia será repleta de novos conteúdos. Blanka, a garota de Maceió, minha saída e o vindouro esporro. Apesar de tantas coisas, não sinto culpa ou a alma com mácula. Não acho nada do que fiz equivocado, talvez precipitado, mas não equivocado. Não me trouxe problemas, não fiz querendo o meu mal nem o de ninguém. Minha medida para o certo é não prejudicar ninguém. Se minha mãe se sente prejudicada porque bebi com os amigos, ela precisa rever os seus conceitos. Sua vida seria mais tranquila se eu não bebesse, mas isso é muito cômodo para ela e desrespeitoso comigo. Ela não pode tolher a minha liberdade dessa forma. Se a minha droga de preferência fosse álcool, eu ficaria calado, pois beber implicaria em grave dano à minha vida e a dos que me cercam. Mas esse não é o caso. Nunca foi e se não foi até agora, nunca será. Meu pai era alcoolista, como chamam hoje em dia, não gostei do que vi e o vi morto no chão do banheiro por causa de álcool, e não é o que busco. Não sinto necessidade de álcool, mas ele torna as saídas mais alegres e descontraídas, eu fico menos bicho do mato e me comporto de forma mais sociável e animada. Sete anos sem beber provam que eu não sou dependente dessa droga. Sou dependente, sim, do cigarro. Completamente dependente. Desse não abro mão, ele é parte indissociável de mim. Sou dependente da cola, mas, desde a minha última recaída, ela perdeu o significado para mim. Que continue assim. E vejo que continuará, mas por precaução, nunca na minha vida irei a um armazém. Não quero despertar afetos ilusórios que minha presença em tais lugares possa fazer aparecer. Não se brinca com fogo. Aprendi isso a duras penas. Vou evacuar e partir para a terapia.

17h37. Estou de volta. A terapia foi ótima como sempre e Ju se predispôs a conversar com a minha mãe se se fizesse o caso. Estou ansioso com essa conversa que mamãe vai ter comigo, mas me sinto preparado. Espero contar dela neste post ainda. Sei que minha mãe vai vir irredutível, raivosa e autoritária, querendo retomar um controle que não tem mais sobre mim. Porque não deixarei que tenha. Ela pode me proibir de sair, mas decidi que vou tomar umas cervejas quando o fizer. Me faz bem e não prejudica ninguém, então, para mim, está tudo certo. Há outras coisas que gostaria de debater, mais bandeiras a fincar, mas não vejo possibilidade disso. Minha mãe tem um cabeça muito estreita e estrita. Bom, confesso que mais do que ansiedade, tenho medo da “conversa”. Mães não deveriam meter medo, pelo contrário, ainda mais para um cara de 41 anos, que cada vez mais se sente confortável com a idade que tem. Ela só impeditiva para as garotas que me encantam.


18h54. Tive a conversa com a minha mãe e mantive-me firme no meu propósito de tomar umas cervejas quando sair, deixei isso o mais claro que pude para ela, que redarguiu dizendo que iria perguntar à Doutora se posso beber. Eu, como conheço bem a Doutora e sei que prega ferrenhamente a abstinência completa, vai negar. Me manterei firme mesmo assim e se minha mãe quiser me enclausurar para que não beba, assim seja. Estará, por preconceito e neurose tornando a minha vida mais infeliz, mas sou capaz de suportar, suportei a internação no manicômio, hei de suportar a internação no meu quarto que é o lugar mais amado do mundo para mim. É uma pena que tenha que abrir mão da minha vida social por pensamentos arcaicos em relação a mim, a quem eu sou hoje e a como me encaro e encaro a minha vida. Bom, o tempo, movido pelas misteriosas forças do acaso-destino, há de resolver tal celeuma que nem deveria existir. Também quero pleitear a mudança da quantidade de cigarros para uma carteira diária, com uma extra para cada saída. Até porque estou fumando mais do que isso e quero reduzir. Queria pôr tudo em pratos limpos com a minha mãe, mas ela é muito fechada e tem seus preconceitos e traumas. Não nego que tem evoluído, mas sua evolução não é abrangente, são pontos fora da curva. Ainda me vê como o viciado descontrolado e autodestrutivo de anos atrás. Se sou autodestrutivo em algum aspecto é no cigarro, mas, desse, não abro mão. É o que muitas vezes me alivia da existência restrita que vivo enclausurado no quarto-ilha. Que muitas vezes é fonte de inspiração ao me dar oportunas pausas para me desgrudar do texto. Mas há muitos mais gatilhos para o cigarro, por esse sou completamente viciado e apaixonado. O texto já entrou na quarta página, vou revisar e postar.