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sábado, 19 de janeiro de 2019

RESTAURADOR E BLANKA


6h09. Despertei antes da hora. É um momento agradável para se despertar, principalmente porque raro. O dia que se inicia é belo e ensolarado como só dias tropicais podem ser. Meu irmão retornou aos Estados Unidos. Meu primo historiador, que veio tomar conta de Maria ontem (não a delegam a mim com justa razão), elaborou 20 perguntas para eu responder no postanterior (LINK).

15h59. Hoje dormirei cheio de fios, farei um polissonografia do meu sono. Já não posso beber mais Coca ou café ou qualquer coisa estimulante. O restaurador ligou hoje, um tanto chateado pela nossa falta de contato. Eu só acordei agora, pois levantei às 5h e só voltei a dormir perto das 11h, com o telefonema dele, ou melhor, com a minha mãe que coincidentemente chegou ao quarto quando o meu celular estava tocando. Não sei se ele ligou mais vezes, eu estava apagado. Mas isso tudo é papo muito chato. Entretanto são variações da rotina, dão um contexto onde me insiro. Blanka nunca mais deu notícias.

16h17. Mandei um Instagram para Blanka, ela disse que fala comigo à noite. Meu coração esquenta e derrete. Ai, ai, sou bobo mesmo.

16h35. Pedi a mamãe um café, ela concordou e fez uma xícara de expresso. Delícia. Depois disso, só água, saco. Talvez o suco de morango que ela abriu. Vou acender a luz e botar um som. The Cure. Maria não fez a cirurgia para a retirada dos caroços hoje, mas ela e titia não estavam em casa para me dar mais informações. Várias esperas se acumularam desde que acordei: o restaurador, Blanka, Maria, fora o exame do sono que já me esperava desde antes de eu me deitar. Minha prima aparentemente não viu a mensagem que a mandei ainda ou viu e configurou o WhatsApp para não mostrar quando as mensagens são visualizadas. Acho que isso é possível de se configurar no aplicativo. De toda sorte, o não está embutido no post que compartilhei e, por conseguinte, na mensagem enviada. Incrível como os Barros têm muito mais desenvolvido o hábito da leitura que os Gonçalves. Inclusive entre os da minha geração. Já li, pero non mucho, hoje me apetece escrever e escrever somente, me falta paciência e interesse para textos alheios. Tentei ler O Mundo de Sofia, um carinhoso presente de uma pessoa querida, mas empaquei. Coloquei o som no volume 10, o padrão para mim e sinto que minha qualidade de vida aumentou com o volume. A familiaridade, por vezes tediosa, no mais das vezes, querida. Tive uma ideia para um jogo de implementação fácil e focado em VR que queria passar para o meu irmão. Chamar-se-ia Kaleidoscope 3D ou VR.  E seria exatamente isso: um caleidoscópio onde pedrinhas da mesma cor e tamanho teriam profundidades diferentes, algumas saltariam muito da tela outras menos e assim sucessivamente, quando o usuário mexesse a cabeça, as pedras se misturariam de acordo, formando novas figuras e seria possível tirar fotografias 3D das imagens formadas. Simples, belo e que faz bom uso dos recursos dos capacetes de realidade virtual. Ou assim quero crer. Pode ser que seja uma ideia idiota, sei lá. Vou postar esse trecho da conversa no WhatsApp do meu irmão e ligar para ele dizendo que o fiz. Quem sabe ele não enxergue potencial e desenvolva o jogo.  

17h30. Está feito, entregue às mãos do meu irmão, do acaso-destino. Cutuquei a existência, gosto quando faço isso, meus textos são cutucadas muito irrelevantes, inexpressivas, embora sejam a minha forma de expressão maior. Minha mãe deu uma ideia para o projeto, quando o reparti com ela, que achei muito pertinente, desenvolver conjuntos de “pedrinhas” diferentes, temáticas para o caleidoscópio, o exemplo que ela deu foram flores. Sugeri a meu irmão que adquirir os demais conjuntos ou versão “full” do jogo fosse uma experiência paga, para tornar a empreitada lucrativa para ele.

17h46. Sem inspiração. Vou ao cigarro.

18h46. Fui ver Maria e saber porque não arrancou os caroços hoje. Descobri, mas a razão é demasiado enfadonha para explicá-la aqui. Estava contente com o sapato que ganhou da minha tia-vizinha, embora tenha ficado com um preto, que não lhe cabia, na cabeça.

 “Não sei quanto a ideia do jogo... tenho que pensar a respeito”. Foi a resposta do meu irmão. Tenho uma sensação estranha de que está se distanciando de mim. Espero que seja ilusória. Mas sinto – e novamente podem ser só caraminholas da minha cabeça – um ranço, um repúdio dele em relação à minha pessoa. Isso me fere, essa impressão que talvez nada tenha de real. Talvez seja mais uma forma que meu sádico ego arrumou de me maltratar. Estou com sono e calor. Nada posso fazer em relação ao sono até os fios chegarem, o calor é facilmente solucionável basta apertar o botão azul do controle branco.

19h23. Vou me deitar. Tentar um último cigarro antes de ir.

19h33. Mamãe foi redondamente contra a ideia de eu me deitar. Tentarei não sucumbir ao sono. Vou para o maravilhoso mundo dos bonecos.

22h22. Acordei para ir no banheiro, comer e fumar. Não estou conseguindo dormir direito, menos pelo aparelho e mais pela hora em que me deitei, muito mais cedo que o habitual.

22h41. Volto a tentar dormir.

1h44. Acordei por biscoitos e porque o sono me fugiu de novo.

6h06. Acordei para comer e fumar

11h51. Acordei definitivamente.

13h07. Fiquei conversando com a empregada da minha tia-vizinha e Maria. São primas. Maria volta amanhã para Natal. Estou ainda pela metade, não despertei propriamente e meu despertar é pleno de desgosto por existir. Tomo café recém-feito e fumo.

“[15:18, 1/17/2019] Mário Barros: Não vai rolar tirar os caroços de Maria agora, pois, devido à idade, o procedimento tem que ser feito num hospital e, para isso, é necessária a permissão do plano. Ela voltará a Natal amanhã com titio, que vai a uma missa de sétimo dia lá.
[15:21, 1/17/2019] Mário Barros: Estou à espera do restaurador. Ele disse que chegaria por volta das 15h. As bonecas já estão todas dispostas na mesa da sala, nem o machado, nem as flechas, nem a espada foram danificados, pude averiguar agora. Mais uma vez obrigado, amado irmão.”





15h27. Passei um bom tempo conversando com Maria e a prima na casa da minha tia-vizinha. Voltei porque o restaurador está prestes a chegar. Preciso ficar atento ao interfone.

16h23. Nada do restaurador. Mamãe – e eu concordo – acha que a reparação tem que ser realizada aqui em casa.

16h26. Acabei de ligar para o restaurador que disse que está chegando. Blanka criou uma conta do Instagram para falar comigo. Disse que está ausente porque está cuidando de si, está enfrentando uma crise depressiva e a compreendo. Mamãe vai achar que é mentira, mas ela havia mencionado sobre a questão na grande conversa que foi o nosso último encontro.

18h34. O restaurador cobrou um preço super em conta para reparar as três peças danificadas, seriam muito mais caros tais serviços no exterior. Blanka me respondeu e disse que tinha o dia todo para falar comigo.

20h46. Fui comprar Coca na pizzaria e um bróder de lá me perguntou sobre Blanka. O que significava. Expliquei que era a minha paquera de 19 anos. Por sinal, vamos nos encontrar amanhã, ao que tudo indica, para assistir Glass no Plaza, comer pastel na Praça e tomar um sorvete para conversar sobre o filme. Queria tanto poder beijá-la, no entanto não sei se será possível, pois está com um furúnculo ou coisa que o valha estourado no rosto e está dolorido. Bem, veremos. Descobrirei.

21h37. Já estou com os ingressos para o filme comprados e impressos. O desejo que surgiu da conversa com a minha tia caçula está próximo da realidade. A realidade é que não sei como me aproximar de Blanka, como alcançar o seu afeto. Mamãe acredita que nunca conseguirei, eu sou um pouco mais otimista e persistente. Blanka foi jantar e arrumar a casa, quando for deitar volta a falar comigo.

22h08. Comi e isso geralmente me dá sono, não sei aguentarei esperar por Blanka.

3h56. Disse a Blanka que ia me deitar e acabei vagando pelo maravilhoso mundo dos bonecos até agora. Vou dormir, senão posso melar tudo amanhã.

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23h19. Eu tive um dia diferente e especial. Comecei acordando atrasado. Fui ao Manicômio pegar receitas para as minhas medicações, depois fui tosar os pelos da cabeça. Me aprontei e enfim o momento mais esperado, o encontro com Blanka. Apresentei-a ao pessoal da pizzaria, alimentamos os peixes e tartarugas da Praça de Casa Forte, andamos de mãos dadas até o shopping, um deleite há muito desejado por mim que adoro andar de mãos dadas com a razão dos meus afetos. Conversamos e surpreendentemente ela falou mais, outro deleite, adoro saber dela. Assistimos Vidro (recomendo vivamente a quem for assistir que veja antes Corpo Fechado e especialmente Fragmentado, que acho o melhor dos três e que perde muito do seu elã se Vidro for visto primeiro). Fiquei com pena de Blanka, que não havia visto os predecessores e ficou a ver navios na primeira meia-hora de filme. Saí do cinema me urinando e louco para fumar, vontades do corpo empatadas, mas como Blanka também queria ir ao banheiro, acabamos fazendo a escolha certa. Ainda comemos pastel na Praça e depois sentamos num banco do bucólico local para conversar, outro sonho meu, que sempre via os casais se curtindo lá e me indagava quando a minha vez chegaria. Bem, chegou, foi rápida, mas foi outro deleite. No final roubei um selinho de Blanka que, fechada como é estranhou o gesto e entrou no Uber. Voltei para casa contente de ter vivido a vida em grande amplitude de situações num dia para mim diferente do senta-fuma-bebe-algo-negro-escreve. Ela é uma pessoa que se diz de difícil socialização e de fato é, mas estamos seguindo sei lá para onde ou o quê. Queria muito poder levá-la para Gravatá nesse domingo, mas sei que não é o momento nem a ocasião, ademais está com um furúnculo nas partes íntimas, dificilmente poderia desfrutar da piscina aquecida, onde pretendo passar a maior parte do meu tempo. Em verdade, tenho monte de carinho represado para dedicar a ela, mas fico acanhado porque ela parece um bicho do mato em relação a isso. Espero que, aos poucos, se o tempo me for concedido e as oportunidades acontecerem, eu consiga habituá-la a receber os meus afagos. O tempo dirá. Eita, entrei na quarta página. Uma última frase. Blanka me faz bem, quero fazer o mesmo por ela. Somos muito parecidos no isolamento do mundo e nas relações cada vez mais pontuais e curtas com os demais e somos diferentes em tudo o que tange amar e num monte de outras coisas. Descobrimos mais diferenças que semelhanças a cada novo encontro, mas isso não me desestimula ou me faz descrente, tudo é possível. Escolhi a trilha mais difícil, para muitos, um espinhoso caminho, mas dizem que os caminhos mais difíceis levam aos lugares mais belos. Veremos.  

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

COMBALIDO E ENTREVISTADO PELO MEU PRIMO HISTORIADOR




19h03. Estou fisicamente combalido, o corpo reclama não sei bem do quê. Mandei o roteiro de “O Escudo Negro” para o meu amigo cineasta. Ele aparentemente achou o experimento fácil e quiçá divertido. A única coisa que sou capaz de fazer agora sem demonstrar para outras pessoas que não estou passando muito bem é escrever. Não vou na casa da minha tia-vizinha agora, pois isso não me sinto em condições, terei que ir comprar Coca e Dalmadorm, não consigo, prefiro passar sem Coca do que levantar dessa cadeira. Levantaria só para me deitar e não quero fazer isso agora. Mamãe se animou com o projeto com o meu amigo cineasta. Acha que vai ser algo que infelizmente não vai ser. A primeira versão do roteiro está no meu post mais recente, comuniquei isso a ela, para que, caso leia, saiba bem o que esperar. Coloquei Maria para falar com a minha avó. Acho que vou fumar outro cigarro com o resto da Coca e me deitar, meu corpo pede repouso, está exaurido e sem forças. Espero que Blanka não venha se comunicar comigo hoje. Hoje não estou para nada, ainda deito as palavras, mas com certa dificuldade as assento na página, não dormi durante a noite nem como nada desde o almoço de ontem. Só café, cigarro e Coca. Não é o mais saudável a se fazer, até parei com o café, não estava me descendo, a única coisa que entra é Coca com muito gelo. Comida não. Tenho medo de vomitar se comer. Não gosto de vomitar sólidos. A passagem pela garganta é particularmente desagradável.

19h22. Fui ver se o meu amigo cineasta havia mandado algum update, sou muito ansioso. Vou fumar e me deitar. Ou escrever mesmo. Está suportável escrever. A posição na cadeira também me agrada, com as pernas cruzadas como índio. Saudades do meu sobrinho. Deu e passou, ainda bem. Fui tomado por pensamentos outros, sexuais, porque o Badoo apitou mulheres para mim ainda agora. Estou me sentindo cansado. Acho que vou fumar e deitar.

22h39. Me deitei e dormi até agora há pouco, quando fui despertado por mamãe para comprar o Dalmadorm e Cocas, o que obviamente já fiz, visto que estou aqui de volta escrevendo, inclusive já tendo ingerido a minha dose noturna de remédios que inclui o supracitado e me permitirá dormir hoje à noite. O sono me fez bem, o novo projeto, se assim posso chamar, com o meu amigo cineasta me excita, parece uma produção mais concreta que esse texto. Embora me aparente ser mais uma inutilidade de uma mente que só produz inutilidades. A utilidade seria fazer com que o meu amigo cineasta saísse da inércia com uma produção de feitura simples, mas que pode servir como um primeiro passo de uma retomada, sei lá.

23h02. Recebi um trote. Há quanto tempo isso não ocorria. Uma novidade para fechar o dia. Fiquei de visitar Maria hoje à noite, mas, depois de voltar da drogaria ninguém atendeu a porta na casa da minha tia-vizinha. Preciso me desculpar com ela, mas me faltou a força para o esforço e esse se fez impossível. Realmente precisava dormir. Vou tentar resumir esse post a duas páginas. Não há nada de interessante para pensar ou fazer. É esse estado de coisas que chamo de tédio.

23h49. Não sei o que vou escrever, isso me parece um desafio instigante nesse momento. Mudança de paradigma. Wild Mood Swings, que toca agora no quarto-ilha. The Cure. Bloodflowers parece ser o predileto de muitos, ou que mais ouvem do Cure em suas listas virtuais. Disintegration está um passo além de tudo o que o Cure já fez, é sublime. “Am I seducing or being seduced?”. O sono e a fome, efeitos do Dalmadorm, pelo visto, se manifestam, acho que me entregarei aos prazeres do paladar e da saciedade estomacal agora. Antes um cigarro com Coca.

0h28. Nossa, o meu pijama é muito confortável, tão bom estar vestido com ele, finalmente troquei a roupa com a qual eu fui à pizzaria, parece que ele acarinha e acolhe o meu corpo. Vou ligar o ar. Um alô para Beatriz da pizzaria, que pediu que eu fizesse isso, como se isto fosse lhe emprestar uma celebridade que meu blog não alcança. Bem, pelo menos ficará eternizada enquanto o Blogger for provido gratuitamente à humanidade pela Google. Acho a instituição mais capaz de dominar o mundo. A Amazon é muito poderosa, provavelmente mais lucrativa, mas a Google tem a vocação e talvez o desejo, não de dominar o mundo do dinheiro, embora sinta essa fome, mas de governar a humanidade, de servir à Humanidade sem pedir nada em troca. De tornar a vida das pessoas melhores gratuitamente. “Don’t do evil”.

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Hoje sinto que meu corpo está fraco, como se cansado de se levar, sinto uma moleza que poderia chamar também de mal-estar. Não me sinto bem, justamente porque sinto como se a vida escapasse do meu corpo como um balão com um pequeno furo que vai murchando. Ou um balão com um nó maldado. Espero que não seja a morte ainda, sonho em ver o meu quarto pronto e não sonho muito além disso. Com Blanka estou quase desistindo de sonhar. O desprezo ou a inacessibilidade, não sei como nomear, só sei que fere. Sabia que iria doer, mas não é a dor dilacerante de perder um grande amor, é um arranhão, uma roncha na alma.

18h58. Estou reunindo o que há de mim para retornar à companhia do meu primo historiador e minha babá na casa da minha tia-vizinha. Me apeteceria deveras se o meu primo elaborasse uma entrevista para que eu respondesse aqui. Minha mãe me mostrou técnicas que Dan Brown usa para escrever... ficção. A que mais me chamou a atenção foi: crie o seu vilão primeiro, pois ele vai definir quem seu herói é. Meu vilão é também o meu grande amigo: o tempo. Às vezes estamos em consonância, mas quando discordamos é sempre um sofrimento para mim, quando se dilata para além da minha vontade ou quando se contrai à minha revelia, quando estica e encolhe enquanto eu permaneço o mesmo, isso me faz sofrer. Acho que uma prima quer que eu faça publicidade para ela. Com remuneração. Não há dinheiro no mundo ou laço de sangue que me obrigue a isso. Estou pensando em como dizer-lhe não. Acho que vou mandar um link desse post. Ela entenderá que tenho profundo repúdio por fazer tais tipos de serviços, eu nasci para ser servo de mim mesmo e meu contrato mudo e eterno é somente com estas palavras. Esse é o meu labor, meu ofício, minha ocupação, a lança e a cruz com que enfrento o vilão da minha vida, o supramencionado tempo, que agora descubro ter uma ajudante que ao mesmo tempo que me liberta me aprisiona: a solidão. Vou levar o computador para a casa da minha tia-vizinha e tentar persuadir meu primo historiador a elaborar algumas perguntas.  

Perguntas banais de um primo que realmente não é um historiador:

1) Qual a primeira memória de você como pessoa?
R.: Campinas. A filha de uma empregada deita e abre as pernas e pede para eu deitar em cima dela, Maria nos pega antes que eu o faça e impede aos gritos algo que me pareceu novo e excitante de uma forma que eu nunca tinha sentido. (Dou mais detalhes do episódio no segundo livro que escrevi e que nunca verá a luz do dia, "Eu Sou Assim e Ninguém Tem Nada Com Isso".)

2) Você é uma pessoa que sonha quando dorme? Se sim teve algum sonho marcante?
R.: Dizem que todas as pessoas sonham, algumas têm a capacidade de lembrar de seus sonhos. Não sou uma delas, talvez por causa dos remédios. O que há em comum entre os poucos sonhos recentes que me recordo foi que em todos havia a reunião de amigos da minha juventude, das Ubaias e eu também era jovem, eram sonhos felizes, não pesadelos, em alguns havia uma garota desejada. Não sei precisar mais detalhes que esses, foram os que me ficaram.

3) Quando você era criança você tinha alguma ambição? Gostaria de ser um astronauta ou jogador de futebol?
R.: Recebi quando criança, na época em que morava na Cidade Universitária, um livro sobre algumas profissões com coelhinhos as exercendo nas ilustrações, a que me despertou mais vontade foi a profissão de astrônomo e o interesse pelo cosmos é presente até hoje, embora não tenha interesse em me aprofundar nisso, acho nébulas eventos cósmicos magnificamente belos, mas prefiro escrever sobre mim e minha percepção da existência a estudar astrofísica pelo Wikipedia ou quaisquer outros meios.

4) Na Escola, você era bom em alguma matéria escolar?
R.: Tinha especial facilidade com Biologia até citologia, quando entrou genética eu me compliquei. O maior elogio que recebi foi por conta de uma redação que fiz quando estudava no Global, em São Paulo. Aquilo me marcou, tanto que me lembro até hoje. A professora ficou sinceramente entusiasmada com o que escrevi para além da minha compreensão, mas meu ego agradeceu.

5) Já se machucou? Quebrou algum osso ou passou por alguma operação?
R.: De operação, nada muito sério, a retirada dos cornetos (acho que esse é o nome) e alguma outra coisa de dentro do nariz para respirar melhor. Já quebrei a mão umas duas ou três vezes dando murros na parede com raiva da existência e de mim. Não me recordo do meu histórico hospitalar para ser sincero, sei que quebrei a clavícula algumas vezes quando criança.

6) Bruce Lee ou Jackie Chan. Qual o seu favorito?
R.: Acho Jackie Chan um artista mais completo, mas fico com a lenda, o mito que é Bruce Lee. Lembra-me meu pai (um fã) e os poucos filmes do artista que vi com ele.

7) Prefere Hotel Fazenda ou Hotel Praia
R.: Prefiro a casa da família em Areias. Sempre.

8) Qual a refeição mais importante do dia para você? Pessoalmente não gosto do café da manhã.
R.: Eu só como uma vez por dia quando bate a fome dos remédios nas altas da noite. Como como um cavalo.

9) Se você pudesse aprender alguma língua instantaneamente, qual você aprenderia?
R.: Japonês, embora saiba que seja melhor escolha o mandarim. Ou C++.

10) Mario ou Luigi?
R.: Sempre Mario. Odeio o Luigi, ele escorrega.

11) Você tem algum professor marcante na sua vida?
R.: Vários, mas não me lembro os nomes deles e delas, todos foram importantes de alguma forma. Há alguns que são marcantes por outras razões: meu pai, minha mãe, o Imperador da Casqueira e meu avô materno.

12) Você se lembra do seu primeiro “Melhor amigo”? Ainda mantém contanto com ele?
R.: Lembro, foi na Cidade Universitária. Não, não mantenho com ele. Depois foi o meu primo urbano.

13) Como era a relação com seus irmãos durante a infância? Muitas brigas?
R.: Eu era distante deles, por alguma razão que me escapa. Hoje, mesmo com as distâncias geográficas, me sinto mais próximo deles do que jamais fui na infância. Sempre me interessou a companhia de pessoas mais velhas. Ou da minha idade. A diferença de quase três e quatro anos que tinha deles me parecia enorme na infância. Costumava arengar muito com a minha irmã, meu irmão sempre foi tranquilo.

14) The King of Fighters ou Street Fighter?
R.: Street Fighter 2. Consegui zerar com Honda no fliperama. Acho que foi o único jogo de fliperama que zerei. E só desta vez. Não sei nem para onde vai King Of Fighters, nunca joguei.

15) Qual seu filme que você considera perfeito, ou pelo menos o mais perto disso. Não necessariamente o seu favorito, mais o que você não mudaria nada.
R.: Cidadão Kane, 2001: Uma Odisseia no Espaço, Quero ser John Malkovich.

16) Se você ganhasse na Mega-Sena você tem algum projeto louco de milionário que planejava gastar?
R.: Algo com mendigos, talvez comprar a companhia de alguém. Comprar o apartamento das Ubaias. Não preciso desse dinheiro, em verdade, estou muito bem como estou. Acho muito dinheiro muita dor de cabeça.

17) Quantas namoradas na vida?
R.: Quatro apenas e incontáveis amores platônicos. Vivi o mais intensamente que fui capaz a relação com cada uma delas.

18) Gosta de filme dublado ou legendado?
R.: Com legendas em inglês, sempre que possível.

19) Qual seu diretor favorito?
R.: Stanley Kubrick, eu acho.

20) Coca-Cola ou Pepsi?
R.: Coca Zero. Ou Cherry Coke.

19h38. Meu primo historiador elaborou o questionário, responderei quando retornar ao quarto-ilha. Prometi divulgar o link no WhatsApp da família para que ele lesse e quem mais interessar.

21h06. Estou tão fora de forma que carregar o notebook no braço por alguns minutos o deixou completamente trêmulo. Ouvi meu tio-vizinho discorrer sobre Cuba e o nivelamento de todos pela quase miséria, em todos os âmbitos, inclusive cultural. Voltando à minha prima que provavelmente me demanda serviços publicitários, preciso acrescentar que o programa que eu uso está desatualizado, a Publicidade de hoje é devota da Adobe, eu uso Corel, e está migrando para a internet e nada entendo disso. Nem quero entender, nem quero servir a mais nenhum cliente, ainda mais da família, o que gera uma relação trabalhista ainda mais complexa e desgastante para mim. A Publicidade quase me levou à morte, somada às minhas tendências depressivas, pois disparava estas últimas. Em uma palavra o que eu sou hoje é um não-publicitário, não faço mais publicidade e não me interessa fazê-lo, nem me sinto capacitado para exercer o ofício, então peço desculpas e julgo mais sensato procurar auxílio de alguém que atue nessa área e esteja atualizado com as tendências e demandas da publicidade tal como se dá hoje, muito diferente da época em que a exerci. O que faço hoje em nada se assemelha em forma, método e conteúdo ao que procura. Tanto é que tenho minhas dúvidas que tenha chegado até esta altura do texto, pois é chato e pessoal, faço para mim e para a eternidade cibernética. É meu único comprometimento produtivo e quero que permaneça assim. Vou responder as questões do meu primo historiador para finalizar esse texto de hoje, que novamente ultrapassará o limite estipulado de três páginas.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

ROTINA




Algo em mim está descontente com a existência, desgostoso com a minha vida, por mim, poderia morrer agora. Não há mais nada a ser visto, nada mais a ser feito que desperte algum interesse. Nem as minhas amadas bonecas porvir, nem Blanka, nem a reforma do meu quarto. Talvez um copo de Coca gelada. Vou tomar um banho, às vezes me faz bem. São 16h19, sou eu em leve estado depressivo. É chato, incômodo, sofrido, sem razão aparente. Ao banho.

17h04. Se não volto o mesmo, não volto muito diferente. Pelo menos estou mais conformado com a minha realidade dentro do quarto-ilha com as minhas palavras. Me deu vontade de mandar um alô para toda a galera da pizzaria onde compro as Cocas que se dispuseram a ler o meu blog, me sinto honrado, prestigiado e contente com o interesse pela minha medíocre pessoa. Espero passar aí assim que mamãe acordar para comprar mais duas Cocas. Rapaz, realmente não estou num dia bom. Não consigo entender, pois não consigo achar a causa. Olho para a base da estátua da Red Sonja, que também foi danificada na vinda dos Estados Unidos, e a acho horrível, uma das piores, mais feias e menos inspiradas bases de todos os tempos. A Red Sonja compensa imensamente esse pecado e acho que vou acabar apelando para a minha tia-vizinha para consertar, visto que o restaurador que encontrei pelo Google não me responde.

17h22. A internet está dando pau. Especialmente os serviços da Google. Curioso e irritante.

17h43. A internet voltou a pegar pela rede de mamãe, que aparenta ser lenta. Não canso de olhar para a base danificada da Red Sonja e pensar na oferta da minha tia. Acho que é a ânsia que tenho de resolver as coisas o mais rápido possível. Talvez o restaurador seja a opção mais acertada e esperar o seu contato o mais sensato. De um dos dois para os quais mandei mensagem.

19h48. Apelei para a minha tia-vizinha, apostei nos seus dotes de restauradora de arte, mesmo que pop art. Não aguentei esperar por resposta que não vinha dos profissionais. Ela ficou de arrumar Superbonder para seguir na reparação, mas já colocou uma das falanges da mão da Pequena Sereia. Nossa, muito bom estar na companhia dela, tem um astral muito positivo. Por falar em astral, o meu está bem melhor. Acho que era a solidão que me oprimia e onde volto a mergulhar, um pouco mais confortável com a condição.

20h41. Meu irmão chegou com a turma toda e minha cunhada me convidou para acompanhar dois casais – ela e meu irmão e sua irmã e o marido – ao sushi. Embora tenha encarado a ideia com acanhamentos e estranheza, acho que vou ceder ao convite.

0h07. A noite foi bem mais agradável que o restante do dia, a começar pela convivência com a minha tia-vizinha, depois o sushi, onde soube dos incríveis investimentos imobiliários do pai da minha cunhada, finalizando com mensagens de Blanka, que se importou comigo mais do que poderia imaginar. Tudo corroborou para um dia que valeu a pena ser vivido, apesar do desconforto emocional que me acometeu em sua maior parte. Não estou com saco de escrever. Blanka está menstruada e sentindo as fortes cólicas que a acometem nesses períodos, como havia me contado anteriormente. Amanhã disse que conversa melhor comigo. Não quero sair com ela sentindo cólicas, não me incomoda a menstruação, mas a dor rouba parte de Blanka, que não estará por inteiro se estiver sofrendo por dentro.

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11h50. Há algo de deprimente em acordar e vir sentar diante desta máquina, algo que me faz questionar se isso não seria muito pouco. Vou fumar um cigarro. Com café frio de ontem.

12h19. A turma subiu da piscina, eu me isolo. Acordei pensando em Blanka. Nossa, como é difícil para mim, bicho antissocial que me tornei. Ainda bem que o desejo de a encontrar prevalece.

12h45. Meu irmão e família estão indo para Aldeia. Detesto despedidas. Tomara que mamãe faça realmente café.

13h09. Eles já foram. Mamãe fez café da máquina de expresso, portanto apenas uma xícara. Não sei como escreve “expresso” na grafia italiana, acho que é diferente.

13h21. Pronto. Acho que agora não serei mais incomodado. A não ser pela lentidão da internet. E preciso da internet para me comunicar com Blanka. Tive outra crise de sonambulismo ontem. Não sei se o termo é esse, pois estou metade acordado, metade dormindo, oscilando entre a consciência e inconsciência dos meus atos.

13h33. Olho para a tela e não me vem nada para dizer, é uma situação diferente para mim que sempre tenho algo a dizer, visto que não deixo de pensar e escrevo o que penso. Me deixei prestar atenção na música, Pretend We're Dead do L7. Penso em Blanka e na internet, penso em fumar um cigarro também. É o que vou fazer. Talvez botar café para fazer.

14h03. Planejo cortar o cabelo e fazer a barba hoje. Esperar a minha mãe acordar. A vontade que tenho é dormir também. Não posso depender de situações exteriores para estar bem comigo mesmo. Fato é que esse tem sido o caso nos últimos dias. Tenho que me conscientizar que pelo menos por 300 dos 365 dias desse ano, serei eu só com as minhas palavras e que isso tem que me bastar. Não é um pensamento agradável, mas já tive piores, já cortejei a morte e mais de uma vez quase caí em seus braços fatais. Nossa, o meu quarto foi invadido por um barulho advindo de alguma máquina de alguma das reformas que estão se dando no prédio, em andares próximos ao nosso, além da troca da cerâmica que reveste o edifício, que gera marteladas ao longo de todo o dia. Aos que se perturbam com barulho isso se mostrou um impedimento para o sono. A mim, pouco se me dá o barulho. Vou fumar um cigarro com Coca bem gelada e me deitar.

14h37. Coloquei mais um copo de Coca. Vou reiniciar a máquina, o Chrome está com algum bug. Já bebi o copo de Coca todo. Vou reiniciar e me deitar. Bem, antes acho que vou fumar mais um cigarro com Coca.

15h05. Ao me deitar, senti que dormir era uma atitude inútil e deprimente, de entrega, não era a minha vontade. Ao ir fumar o supracitado cigarro dei de cara com a empregada da casa do meu amigo cineasta que veio me entregar o livro do meu amigo escritor que o cineasta havia levado por engano. Acredito que lerei. Há poucos minutos recebi a ligação do restaurador, que disse que poderia vir no domingo aqui para ver as peças. Terei que falar com mamãe a respeito disso. Blanka disse-me ontem que poderia entrar à tarde ou à noite para conversar comigo. Se mamãe topar o restaurador e Blanka falar comigo o resto do dia promete ser bom.

15h35. Fui fumar e mamãe acordou (temporariamente), falei com ela a respeito do restaurador e ela já ficou preocupada com o preço. Disse-lhe que faria tudo com ela e só aceitaria o serviço caso ela estivesse de acordo. Combinei também de fazer a barba e o cabelo e comprar Coca, que acabou. Vamos ver o que o acaso-destino me trará. Enquanto isso projeto.

16h01. Falei com o meu amigo cineasta pelo WhatsApp Web, mas a internet está um bosta. Que saco.

16h14. Este seria o horário ideal para ir cortar o cabelo e comprar as Cocas, mas mamãe dorme e não quero perturbá-la. Quanto à internet, melhor esquecê-la por ora. Meu padrasto está ocupado, não vai comprar briga com o provedor por minha causa agora.

[15:46, 1/11/2019] Amigo cineasta: vcs foram para areias?
[15:47, 1/11/2019] Mário Barros: Fomos. Foi massa, mas fomos com uma prima que gosta de beber, então não aproveitei muito a companhia dele, do que me arrependo.
[15:48, 1/11/2019] Amigo cineasta: saquei. mas aproveitaram o passeio ao menos
[15:48, 1/11/2019] Mário Barros: Sim, sim. E o lugar maravilhoso, palco de tantas memórias. E trouxemos Maria conosco. Foi bom.
[15:49, 1/11/2019] Amigo cineasta: que massa
[16:17, 1/11/2019] Mário Barros: Interagi melhor com meus sobrinhos, isso também foi bom. Não esperava isso de mim, mas eles me cativaram de alguma inexplicável maneira.
[16:21, 1/11/2019] Amigo cineasta: crianças têm esse dom
[16:22, 1/11/2019] Mário Barros: Acho que eles atingiram uma idade com a qual consigo lidar. Especialmente o mais velho, que é uma pessoa de um otimismo incomum.
[16:23, 1/11/2019] Amigo cineasta: foi o que estava mais discreto no dia da piscina
[16:25, 1/11/2019] Mário Barros: Confesso que no dia da piscina a mágica ainda não havia se dado. :P

20h27. Dormi. Acordei me sentindo meio febril, mas acho que é ilusório, excesso de cama. Nada de Blanka até agora. Talvez Dande ainda esteja com ela. Quem saberá? Estou curioso a respeito do restaurador. O pessoal da pizzaria onde compro as Cocas é sempre muito gentil e afetuoso comigo, é bom ir lá, me faz bem. Não consigo imaginar quantos leram o meu blog ou se algum continuará lendo. Não importa, foi a recepção mais calorosa que meu texto já recebeu. Houve quem dissesse, por falta de adjetivo melhor, que o texto era “interessante”. Blanka disse que lia, mas isso foi no começo, duvido que o faça hoje em dia. Nossa, tomar Coca já gelada com gelo é uma delícia. Acordei com um astral melhor, mas queria ter feito a barba e o cabelo hoje. Faço na segunda. Estou mais gordo do que jamais fui e nunca comi menos, aliás, já: quando da minha dieta somaliana leve no período do CAPS. Consegui perder entre dez e doze quilos. A maioria das minhas roupas não cabe mais em mim. Há camisas que adoraria usar e que simplesmente tornaram-se insuportavelmente apertadas de vestir. Ou, melhor dizendo, eu me tornei demasiado rotundo para entrar nelas. Lembro-me, quando dessa perda de peso, que olhava para os mais gordos com desdém, tomado de superioridade por perder o peso que eles não conseguiam, apenas comendo pouco, muito pouco, uma refeição dia sim, dia não, ou algo do gênero. Hoje me acostumei a comer uma vez ao dia, mas comer muito, tarde da noite, movido pela fome que os remédios me dão. Vou fumar e acabou-se a terceira página.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

PARA RICKY


17h52. Antes de começar de fato a preencher esta página, um cigarro se faz necessário. Acabei de revisar e postar o texto anterior.

18h31. Resolvi colocar umas fotos no post para que tenha um pouco mais de dinamismo e seja mais amigável ao leitor. Não sei se fui bem-sucedido. Vou fumar outro cigarro e migrar para a Coca.

18h44. Cruzei no dia de Natal com dois sem-teto, talvez com grandes sonhos, certamente com esperanças miúdas, como a expectativa de financiar o próximo porre de Pitu, não sei se mendigos, pois dormiam, portanto, nada me pediram, eu que tinha cento e vinte reais em dinheiro para comprar Coca e sorvete. Ainda cometi a ousadia de fotografar sua sorte na existência ali à deriva na calçada. Postei a foto no post anterior e ela me cala muito profundamente, o acaso-destino age de formas tão variadas e pode ser extremamente duro com alguns e é extremamente duro com alguns, talvez excessivamente duro. Apesar disso, dessas pessoas maltratadas, maltrapilhas, mal vividas, desprezadas, esquecidas, em sofrimento, sou otimista. Acho que há mais gente se sentindo bem do que mal no mundo. E vou além: acho que esse número é crescente. E indo mais além: acredito no paraíso na Terra, quando todas as necessidades serão supridas, todos os desejos realizados. Todos terão oportunidade de entrar no paraíso, mas haverá aqueles que não se disporão a isso por medo do novo. Queria falar com Blanka. Muito mais do que escrever aqui. Não estou com disposição para escrever aqui, vou vagar pela internet.

19h36. Meu amigo da piscina me chamou para fumar um cigarro na escada. Depois me chamou para descer, mas dessa vez decidi ficar em casa. Aqui no quarto-ilha, na minha estranha solidão com as palavras. Esse lugar onde tenho domínio absoluto de tudo, meu casulo, meu útero, minha cela com porta aberta. Onde me encarcero, me retiro da sociedade para ser eu mesmo mais plenamente. Onde me exerço da forma que melhor me cabe no mundo. Eu não consigo acreditar no resultado do cartão de crédito, acho que o total é superior à soma do que foi gasto. Posso estar enganado, certamente estou. Mas me bate quase uma vontade de somar tudo e ver se bate. A preguiça me impede de tomar essa iniciativa. É tão bom ser submisso à preguiça, é tão fácil e tão cômodo. Não tenho vontade, não faço, tenho vontade, faço. Todos deveriam ter esse direito. Me privo de quase tudo para me entregar à preguiça, tenho poucas vontades, assim posso satisfazê-las. Acho que trago a alma atrofiada hoje em dia, murcha como uma passa, pois não necessito ocupar todo o lugar da uva. A memória engana, a preencho as lacunas com imaginações, ficções que creio serem fatos, por exemplo, o clipe de Hunter de Björk tem o fundo branco, eu creio, mas me veio à cabeça como se tivesse fundo rosa, laca gerânio, tal a capa do CD. Fiz uma fusão de memórias. Quantas mais devo fazer sem me aperceber? É um pensamento que dá medo, mas cada vez confio menos na minha memória, pois cada vez menos a exercito, vivo muito o presente. Estou levemente nauseado. Tenho muita Coca e muito gelo, isso me traz um sentimento de tranquilidade, de que tenho os recursos de que necessito em quantidade adequada.

20h03. A fantástica faxineira ainda está aqui, coitada, é uma guerreira. Tem Deus e isso lhe serve de consolo para seguir com resignação e obstinação adiante. Tem a alma boníssima também. Eu e Blanka não temos, nós conhecemos o lado obscuro de nossos seres, temos contato com ele. E com o lado negro da vida. Talvez até sejamos atraídos por ele e isso faz de nós pessoas corrompidas. Mas nisso também sou otimista, já fui pior do que sou hoje, há redenção, não completa, mas alguma parcela dela. Fiquei feliz de que só poderemos nos encontrar após Areias. Talvez esteja mais preparado para uma experiência sensorial com ela, não apenas verbal, oral, mas acrescentando-se o táctil e o visual, a nudez, quiçá a excitação, embora essa não me faça falta, falta dar carinho a um corpo nu e jovem de mulher, especificamente de Blanka.

20h21. Estou vivendo a vida o mais plenamente que posso nesse momento. A existência está me sendo extremamente benfazeja. Só um brilho, o perfeito reluzir, a casa só para mim, o som no volume 20, tudo conspira a favor. Vou fazer uma coisa, vou pedir pra Clementine passar o endereço desse blog para o seu namorado ou namorido.

20h27. Acabei de fazer. A cutucada na existência eu dei. Eu acredito que a raiva deriva de alguma frustração, é causada por esta. O som me parece muito alto, desagradavelmente alto. Volume 16 está bem mais palatável. Por que tive a ideia de repassar para ele o endereço? Porque me deu vontade de cantar Pétala de Djavan no hall enquanto fumava pensando que Clementine ouvia e divagando se algo lhe passava na cabeça a respeito do que cantava. Percebi que, desde que sou de Blanka, que ela esteve no Natal dos Barros, uma geleira se derreteu entre nós. Acho positivo e espero que Blanka dê certo. Por mais que o receio disso, do novo, me atormente. Mas estava em paz e quero continuar assim. Não preciso de perturbações outras, não preciso de perturbação nenhuma. Acho que vou fumar um cigarro. Isso me faria bem e talvez me faça divagar por novas searas. Com Coca geladíssima, claro.

20h49. Me dei ao luxo de fumar dois cigarros seguidos agora. Vou colocar Virus de Björk, versão remix. Alto. Extremamente benéfico. O segundo cigarro que fumei me deu um prazer nesse estado em que eu estou, singular na minha existência. Bom demais. Eu, Mário Gonçalves de Barros, amo fumar. E há momentos de tabagismo que são um deleite inexplicável para mim. Não sei o que se dá, que há de interessante em tragar aquele negócio que me traz tanto agrado. Sei que sou abençoado por isso, mesmo estando me amaldiçoando, ou tornando o meu futuro muito sofrido e talvez bem mais curto do que poderia ser. Não quero a velhice, mas acho que a máquina que me carrega é tão resistente que envelhecerei. Na verdade, a idade já me pesa. Há coisas que não faço mais porque não tenho vigor ou disposição. Uma das coisas que tenho que eliminar desse rol é sexo, penetração. Entrou um The Cure que bateu na trave. É, me peguei cantando e pensando em Clementine, ela sempre vai ter um significado importante para mim. Queria que Blanka, em quem penso com frequência, conquistasse tal importância e que ela fosse mútua, chega de unilateralidades. Estou tão distante disso que nem sei se é possível, às vezes me questiono se estou disposto, mas quando recebo atenção de Blanka isso me faz bem, me faz sentir mais feliz. Me incomodam os erros de português, o não saber usar o infinitivo quando escreve, mas isso é um detalhe pequeno. Acho que minha mãe está passando por um momento negro de sua vida e isso tem afetado o meu padrasto, o relacionamento do casal, lembro-me deles mais em paz e mais felizes. Mamãe disse que com ele conheceu, enfim, a paixão. Às vezes acho que mamãe cancelou o meu cartão para que eu não o levasse quando fosse sair com Blanka. Penso em pedir uma semanada de trezentos reais após a reforma do meu quarto e que voltemos a investir parte do dinheiro. Será que meus irmãos vão querer vender as Ubaias? Será que me ajudarão financeiramente a mantê-la? A me manter? Se recebesse a pensão integral de papai talvez conseguisse. Talvez meu irmão viesse morar aqui comigo. Sei lá. O mundo ainda tem que dar muitas voltas e em algumas ele se comporta de forma muito estranha, bizarra, completamente inesperada. Meu pai morto no chão do banheiro, bizarro, para dizer o mínimo. Totalmente inesperado. A gente se conforma com a morte. Eu me conformei com a morte do meu pai. Eu aceitei. Aí, vem um movimento da alma querendo me impor uma carga que não mereço. Foda-se para lá. Não é algo verdadeiro. Preciso de um cigarro. Merecido. Mudar de ares, esses são muito carregados. E fumarei na escada, estou com vontade. Até porque meu padrasto – e mais ele que a minha mãe – pode estar chegando, não quero desagradá-lo.

21h24. If chance-destiny sticks to my brother’s plan, we will throw the ashes of our father in the shores of Macau. This will have different meanings to the two of us and I think we deserve to let my sister know. O que significará para mim, que fiz tanta questão disso? Pensei que muito pouco a priori, pois não acredito que esse saco que está no meu armário seja o meu pai, porém pensei melhor e adiante e cheguei à conclusão que significa a realização de um último grande desejo dele, uma homenagem à sua memória, que é tudo o que me resta dele, a memória cada vez mais rota e algumas fotos. E tudo o que pôs dentro de mim, o que fez por mim para que me tornasse o que me tornei, sua contribuição na receita que eu sou. Até para que chegasse ao meu estado atual de coisas. Ele garantiu com sua morte a minha liberdade para escrever, fazer o que eu quero da vida, com a ajuda da minha mãe de do marido da minha prima. E do pesadelo pelo qual passei.

21h33. Clementine ainda não viu as mensagens que mandei para ela. Gostaria que o fizesse. Sou muito imediatista. Mas estou em paz e continuarei assim, apesar de levantar assuntos mórbidos e melancólicos. Fazem parte da vida. Música muito doida de Björk, do Utopia, instrumental.     

21h42. Meu amigo da piscina me pediu cigarro.

21h56. Voltei com uma nova verdade dele: a cor rosa pacifica as pessoas, as deixam mais calmas. Não sei se procede, mas minha cor predileta é laca gerânio, um tom de rosa mais escuro, intenso e mais avermelhado, é a melhor forma que tenho para descrevê-lo, se aproxima do magenta, mas acho que tem um tantinho de amarelo e ciano. Pensei em pintar uma das paredes do meu quarto da minha cor predileta, mas pode ser opressivo, não sei qual o tom do rosa que ele mencionou. Sei que as bonecas têm que ficar em fundo neutro, talvez branco mesmo. Porra, o cibículo onde o Batman branco vai ficar, a “batmacumba” que quero fazer poderia ter as faces laca gerânio, destacaria muito a imagem e a caveira no prato branco. Quando meu quarto estiver todo pronto e todas as bonecas chegarem eu vou me inscrever para colecionador da semana, ou mês, sei lá, do site da Sideshow. Não acho impossível ser selecionado. Me traria muito orgulho, como me trará muito orgulho repartir as fotos da minha coleção com a comunidade de colecionadores do Facebook. Será o meu “cheguei lá”, só não sei se continuarei adiante, pois nem sei se tem espaço para todos os bonecos no meu quarto. Tomara que sim. A foto da “batmacumba” sairá bastante interessante. Nossa, como quero a Die-Cut, depois do Hulk a minha mais querida. Mas não quero falar nisso. Vou fumar um cigarro. Ver se outros pensamentos aventam. Mas o “altar” do Batman laca gerânio fica massa. Adorei essa ideia.

22h18. Pensei em por que eu escrevo acaso-destino e cheguei à conclusão que é porque são duas palavras, dois paradigmas antagônicos, que descrevem o mesmo fenômeno, como duas faces de uma moeda, não saberia que lado escolher, ser humano que sou e capaz de perceber e criar padrões, nem sempre condizentes com a realidade, eu percebo a causalidade, sei que o decaimento da energia o permite, mas não sei para além disso, não sei se tudo é possível ou inevitável.

 “22:24 - Já vi que o seu acho = não vou fazer. 😛

22h26. Mandei para Blanka. Sua ausência me decepciona, demonstra o exato tamanho que tenho em sua vida. A minha falta de importância, a sua falta de interesse. Mas não desisto. Vou até o fim. Fazendo o meu melhor que pode muito bem não ser o suficiente.

“[22:29, 12/27/2018] Mário Barros: Bom, eu tentei.”

22h31. Mandei para Clementine que ainda não visualizou as mensagens que enviei. Gostaria muito de saber a opinião do namorado dela. Esses últimos posts me deixaram satisfeitos. Também pouco exijo senão o prazer de escrevê-los. Sou muito imediatista, cacete. Acabou-se a terceira página.

22h38. Clementine respondeu e repassará ao namorado.   

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

BLANKA, BLANKA, BLANKA, BONECOS E PERMANÊNCIA


Página em branco, mente idem. Cigarro e café. Preciso.

13h46. Blanka me mandou mensagens dizendo que iria fazer prova, espero nova comunicação hoje à tarde.

14h13. O mundo conspira para que eu escreva, mas não sei que palavras colocar no papel. Estou com medo de não conseguir fazer sexo (ainda, espero) com Blanka quando do nosso próximo encontro. Sexo tornou-se uma coisa problemática para mim. Amo as preliminares, me acovardo da penetração, acho que seja trauma do desempenho pífio na minha primeira e única ficada. Aliás, na minha segunda ficada com a mesma pessoa. Segunda e última devido exatamente ao meu desempenho ou falta de desempenho. Não sei como superar esse medo de fracasso e me entregar sem neuroses ao ato com Blanka. Ela me atrai, ela me desperta afeto, ela tem tudo para que funcione. Ou quase tudo. Eu não sinto a chama do tesão ardendo por ela como sinto pela alagoana. A alagoana realmente mexe com os meus hormônios, é algo animal, que me dá uma excitação que quase não reconheço como minha embora seja deveras minha. Mas não sei se a alagoana vai topar a nossa semana de curtição e Blanka foi a pessoa que meu peito escolheu para cultivar afeto. Quase tenho vontade de não ter o encontro antes do Natal com medo de fracassar sexualmente. Mas não vou correr, é o que quero para a minha vida, é onde invisto todas as minhas energias, preciso resolver isso. Preciso encarar, sem medo de ser feliz. Se o fracasso vier, virá. Pode não vir também, posso ficar excitado. Vou comprar um Viagra. Só por garantia. Juro. Pelo menos é uma muleta psicológica. Vou fazer um exame para estudar o meu sono, engraçado é que ele possui um questionário sobre os meus hábitos durante o sono. Como poderei eu responder tal questionário se não sei o que faço quando estou dormindo? Um dos questionários mais sem lógica que eu já vi. Mamãe que respondeu, pois tem mais propriedade para tratar do assunto do que eu. Vou fumar e repor o café. Acho que é a última ou penúltima xícara.

14h41. Volto com a cabeça repleta de Blanka. Uma mistura de sentimentos bons e ruins que advém, creio eu, da mudança que ela representa. Acabou de me mandar mensagem, disse que a mãe não sai hoje, que fala comigo à noite e, mais importante, inusitado e inesperado, disse que estava com saudade de falar comigo. Não consigo crer, mas não posso me desmerecer tanto a ponto de desacreditar de um gesto de carinho dedicado a mim. Talvez seja sincero, talvez seja a colheita chegando ou já aqui, quem há de saber? O negócio é seguir em frente. Talvez ter mencionado a volta da alagoana tenha a deixado insegura, lhe dado um leve medo de me perder. O que já seria uma grande proeza da minha parte, causar-lhe esse tipo de receio. Há quanto tempo uma garota por quem esteja romanticamente interessado não diz que está com saudade de mim? Nem lembro. Afinal, quando estava com a Gatinha, não havia tempo para grandes saudades. E quando houve, eu recaí na cola, aproveitando sua ausência. O que apagou qualquer traço de saudade em decepção, frustração e raiva, porque a Gatinha era e é esquentada.




15h40. Quase escrevo em inglês agora! Hahaha. Estava perdido no maravilhoso mundo dos bonecos. A palavra saudade ainda ecoa em mim. Sou muito carente, admito, e coisas assim me tocam por mais que as aceite com certa desconfiança. Ou não as aceite e mesmo assim não deixem de me impactar. Vamos ver como falará comigo à noite. E tenho ainda a tarde inteira para esperar. Acho que vou navegar no mundo dos bonecos, bem que eu poderia receber o e-mail de que o crânio-coração chegou ao Brasil. Mas encantado mesmo eu estou com a peça que, com a ajuda de Daisy da YetiArt eu adquirirei. Queria abrir a página para namorá-la um pouco, mas tenho medo de enjoar. Adoro, é um passatempo, namorar as imagens das figuras que tenho, mas que estão em pre-order ou na casa do meu irmão. Falando ainda em bonecos, antes de partir de fato para esse universo, estou com certa ansiedade em relação ao truque da MoAF funcionar ou não. Se não funcionar, vou pleitear pelo menos metade do desconto ou um reembolso integral do valor gasto. Comprei o Superman e torrei todo o meu dinheiro do PayPal por causa do desconto. Não consegui resistir aos 30% off oferecido pelo site que usei em uma peça que não estava na promoção, mas que, por um defeito do site consegui, incluir o desconto. Fiz isso com duas peças. Numa obtive 25%, o Batman branco, na outra, como mencionado, o Superman, 30%. Agora me lembrei, aproveitei o desconto uma terceira vez em duas peças proibidas também, obtendo 25% de desconto, mas acho que essas passarão despercebidas. Ao todo economizei mais de 500 dólares que, caso tenha que pagar, serão um golpe duríssimo. Economizei é forma de dizer, pois acabei foi gastando todo o meu dinheiro do PayPal nessas promoções. Vou pegar Coca e ir para o maravilhoso mundo dos bonecos, fazer hora para falar com Blanka.

17h53. O maravilhoso mundo dos bonecos está um pouco silencioso agora, resolvi voltar para cá, acho que fui rude com Blanka em meus comentários, duvidando da sinceridade da sua saudade de falar comigo.

23h38. Pelo visto meus comentários não foram tão infundados assim. Até agora nada de Blanka. Eu me sinto o perfeito palhaço. Como pode? Como pôde? A vontade de botar um fim nisso me vem até a garganta. Para mim já é escrotice.

1h13. Foi eu postar um desaforo para ela e ela me responder, não sei se foi coincidência, só sei que tivemos uma pequena discussão, mas tudo acabou em paz. Discussões fazem parte, é como um se afina ao outro, como disse a ela no post que deixei para ela ler amanhã. Não sei se aguento muito mais tempo acordado. Foi uma delícia passar a tarde no maravilhoso mundo dos bonecos. Vou voltar para lá. Estou sem o que dizer aqui, a não ser que há colecionadores muito mais descontrolados que eu e que poucos acreditam que eu tenha abandonado o hobby mesmo, que estou satisfeito com a minha coleção. A única peça que desejo eu jamais poderei ter que é Batman Sanity da XM. É completamente inviável pelo preço e logística. Troquei o Azure Dragon pela pintura de um custom kit feita pela YetiArt, achei mais válido. Faltam ainda duas figuras minhas a serem pintadas lá. Mas ficarão para o final do ano que vem, quiçá 2020, visto que ela tem muitos trabalhos a fazer, a lista de espera é grande. Blanka me veio à mente de assalto, suas palavras duras calaram profundamente em mim, me senti egoísta e insensível. Embora ache que se não tivesse me manifestado ela não teria respondido, não sei. Pode ter sido a mais pura coincidência. Coincidências acontecem. Vou para o mundo dos bonecos.

-x-x-x-x-

14h50. Acordei há algum tempo e há algum tempo estou conversando com Blanka. Ela não ficou com raiva do meu piti ontem e talvez até entendesse o meu ponto de vista se lesse este texto, mas não vou forçá-la a isso. Entretanto tentarei causar a tentação para que o faça. Se ela voltar a me responder. Pedi uma pausa para o café e cigarro.

15h04. Ela parou de se comunicar, talvez o médico tenha chegado lá ou qualquer outra coisa. Vou aproveitar para mais café e cigarro. Fiz a propaganda do blog, by the way.

15h43. Blanka parou de se comunicar comigo. Mandei mensagem para o meu amigo cineasta para combinarmos a nossa ida ao lançamento do livro do nosso amigo. Até agora ficou firmado de 18h45 na Rua da Amizade (nome sugestivo para tal encontro) e de lá irmos andando para o local do evento. Preciso cortar as unhas da mão. Estou com preguiça agora, quando a fantástica faxineira acabar de arrumar o meu quarto eu corto, até porque o cortador está lá.

16h35. Cortei as unhas, nada de Blanka e denunciei a presença de uma baratinha à fantástica faxineira. É o máximo que consigo fazer: denunciar; não tenho coragem de eu mesmo lhe roubar da existência, por mais que o resultado seja o mesmo. Coisa idiota. O livro do meu amigo chama-se Permanência e segundo ele trata da “impermanência”, confesso que não entendi direito, mas quiçá, se tiver coragem de ler a obra, eu compreenda do que se trata. Há um clipe rolando no Instagram com uma mulher de vermelho, solitária, em diversas situações, com trilha assinada pelo meu primo urbano, eu suponho. O livro está tendo um pomposo lançamento via Instagram, pelo menos. Não sei no Facebook, pois estou ultimamente conectado na minha conta do maravilhoso mundo dos bonecos. Sei que o meu amigo escritor fez o seu melhor e é tudo de uma fineza e bom gosto que me causam inveja. Livro de capa dura, preço bastante acessível, trinta reais, me desperta até a vontade que o meu tio me venha com a boa notícia da publicação do meu. Não virá. Fui vítima de promessas vazias, estou começando a me acostumar com elas, mas não desacredito da humanidade por causa disso, cada um oferece o que é capaz de oferecer e toma tudo o que pode tomar, é da natureza humana e, novamente, não desacredito dela, acredito que estamos progredindo, respeitando mais uns aos outros e à nossa mãe natureza. Há os brutalizados por força das circunstâncias, talvez haja aqueles que nasçam com o gênio ruim, aliás, tenho certeza que esses há, visto que sou um deles e reprimo o que posso para me aceitar como pessoa. Várias vezes, entretanto, meu lado ruim me escapa e sai para o mundo, mas me confesso cada vez menos dado a tais arroubos, a alma serena com a maturidade, que a mim chega parcialmente, em uns aspectos e não em outros, mas como um todo, assumo que amadureci e é boa tal assunção, pensei que nunca a alcançaria. O tempo corre...

17h03. Me perdi das minhas ideias lendo as novas mensagens de Blanka, a mãe teve alta e vai ter que entrar deitada em casa. Escrevi uma declaração para ela que, infelizmente, não posso publicar aqui. Minha mãe acha que ela é uma oportunista a me fazer de trouxa, eu prefiro acreditar que ainda há humanidade em seu coração. Não sei, me imaginar com ela me traz ansiedade e medo. Principalmente insegurança sexual. Acredito que a situação com a ficante de anos atrás somada à minha baixa auto-estima tenham resultado nisso. Blanka sexualmente me agrada, mas sinto como se não fosse capaz de ter uma ereção com ela. Até porque não é a penetração o que quero no momento, quero usufruir do seu corpo de todas as formas, menos dessa. É tão estranho e incomum e não estou sabendo lidar com isso. Acho que o jeito é aceitar essa incapacidade momentânea, pedir-lhe paciência até que me sinta sexualmente seguro com ela para que a coisa aconteça. Não adianta me forçar a algo que meu ego não está preparado para oferecer. Os fracassos com a minha ficante me assombram terrivelmente. Sempre fui sexualmente inseguro, aliás, desde a minha terceira namorada. O bloqueio começou nessa época. Fato é que penetração não me interessa muito, me interessa muito pouco em verdade. E vou deixar esse papo para lá porque preciso me aprontar para o lançamento de Permanência. 17h33. Tomar uma Coca com cigarro e me aprontar.

1h55. Acabei de mandar para Blanka:
01:55 - E ligar a minha vida à sua. Isso é tão precioso, pena que poucos veem sua beleza, a beleza de tal acontecimento. Só eu posso mensurar o que eu passei e o que eu desejo, só eu preciso relevar o que eu preciso relevar. Muitos achariam muito. Ser sempre o segundo, Dande sempre em primeiro? Não me importa e não me interessa. Estamos aqui tentando ser felizes. Se a sua felicidade é ter Dande como a pessoa que atravessa a couraça sem restrição, que é sua pessoa mais importante, que seja. A minha felicidade está em ser o segundo, ou de oferecer uma experiência nova, boa e válida para nós, que tenhamos prazer um com a companhia do outro, se pudermos fazer o outro um pouco mais feliz e experiente, porque a troca de experiências vai ser rica para ambos os lados, que a mudança venha, enfrentarei qualquer preconceito. Porque não são meus e não me atingem. Sou maior que eles. Desculpe me perdi escrevendo. Vou postar isso no blog, mudando os devidos nomes.

1h57 – Agora eu vou fumar um cigarro e talvez comer alguma coisa. Esqueci de dizer que estar com ela é melhor que meu dia enfurnado num quarto a escrever. Ou tão bom quanto, bom de formas completamente diferentes. Vou lá fumar.

domingo, 25 de novembro de 2018

BLANKA E SUPERMAN

12h43. Só falarei com Blanka amanhã, ela foi a Toritama e adjacências comprar roupas com o dinheiro que poupou para isso. Mamãe saiu para comprar portas. Me encontro intranquilo. Acho que é ressaca da Black Friday e o medo de entrar numa nova relação após dez anos. Torrei o dinheiro quase todo do Azure Dragon com o Sunperman da Sideshow, não resisti aplicar novamente o truque na MoAF e arrematá-lo com 30% de desconto. Comprei dois jogos para o Nintendo Switch também em promoção e não sei se foram debitados do meu PayPal ou do cartão de mamãe, escolhi o PayPal como meio de pagamento, mas a transação foi meio confusa. Tenho vontade de cancelar o Superman, mas, além de perder 15% do que investi, eles podem descobrir do Batman Branco, o que seria péssimo. Vou deixar as coisas como estão e seguir adiante. Queria voltar no tempo e desistir de tudo, de todas as engrenagens que coloquei em movimento. Não, não queria, não. Tenho que ter hombridade suficiente para encarar Blanka, é o tipo de relacionamento que eu sem saber desejei todos esses anos. Não posso amarelar agora. Ela é uma garota que me encanta. Sei lá, estou intranquilo. Sinto que coloquei mais peso do que consigo suportar. E pensando bem quem está colocando esse peso todo sou eu mesmo. Apenas troquei um boneco por outro e vou ter uma relação leve e descompromissada com uma garota jovem e encantadora. Não há nada a temer, é só uma questão de adequação a uma realidade nova, diferente da estagnação em que me encontro. Pode ser que ela caia nas graças de mamãe. Mamãe tem tudo contra ela. Vai haver o confronto inevitável no próximo sábado. Estarei ao lado de Blanka para que ela não enfrente a fera sozinha, o meu padrasto também vai querer interrogá-la, é provável. Vai ser a parte mais difícil para nós, o resto, espero, seja só alegria. Que ela seja acolhida pela minha família. Pelas minhas famílias materna e paterna. Tenho quase todos os bonecos que sonhei, isso também é reconfortante. Preciso relaxar, talvez tenha tomado café demais. Acho que o que vou tomar é um banho para ver se tiro essa quizomba de cima de mim.

14h11. Tomei banho e quando entrei no quarto o celular tocava com uma ligação de mamãe: chegara e queria que eu descesse para pegar o que havia comprado. Trouxe-me uma providencial Coca (normal) e me tirou um pouco do ânimo em que me encontrava. Estou mais tranquilo em relação a tudo. Estou mais em paz com o mundo embora ainda sinta pontadas de ansiedade. Descobri que o Tinder estava me cobrando mensalidades automáticas e a forma de desativar esse modo é complicada para os não iniciados. De toda sorte consegui desativar. Sacanagem. Eu só preciso do Tinder para me comunicar com Blanka, não procuro mais ninguém. Nossa, Coca é muito gostosa. Blanka também é uma delícia para os meus peculiares gostos. Não queria falar disso para não ficar sofrendo por antecipação.

14h29. Dei uma olhadinha no Tinder e tendo Blanka como parâmetro poucas me agradam. A verdade é que estou agradado dela, da pessoa, do todo, como se me apresenta. Inclusive o formato do relacionamento. Eu em vez ficar com medinho, devia meter os dentes numa oportunidade dessas. Oportunidade que construímos meio sem querer querendo. Processo muito curioso do acaso-destino que dificilmente se dará duas vezes. E eu fico querendo o que não posso ter, acabei de mandar uma mensagem para a garota de Alagoas que me tirou do WhatsApp. É ser muito tapado mesmo. Eu tenho Blanka, que mais eu posso querer? Ela é a garota ideal para mim, se ela não desistir de mim, poderei acompanhá-la crescer com pessoa, como mulher, espetáculo belo que não queria perder. Escrevo isso e sabe o que acabo de fazer? Colocar o Badoo para instalar para ver se contato a garota de Maceió por lá. Eu definitivamente não me entendo.

16h33. Não é que a de Maceió está online no Badoo? Mas não responde e não está à altura de Blanka. Dançou. Vou fumar um cigarro para tirar um cochilo.

23h01. O convite e as senhas, incluindo a de Blanka, chegaram aqui em casa. A coisa toda me parece cada vez mais inevitável. Depois do sono, dormi até as 21h30, me sinto mais tranquilo em relação a tudo, inclusive a Blanka. Achei o horário da festa um pouco tarde, 22h, mas o que tiver de ser será. Também ronda os meus pensamentos o Superman, a vontade de cancelá-lo e o medo de o Batman Branco ser desmascarado no processo. Acho que vou mantê-lo porque quero um Superman e este é definitivamente o melhor, embora não pareça legal de alguns ângulos (muito narigudo e queixudo, quase como uma caricatura) do ângulo frontal é soberbo. O Superman perfeito para mim, ele parece poderoso, belo e heroico e eu mereço ter um Superman no meu rol de super-heróis. Decidido, depois eu me entendo com a Gantaku sobre o Azure Dragon.

23h46. Menos educação, menos democracia. Menos democracia, mais corrupção. Logo, menos educação, mais corrupção. Não sei por que esse pensamento me veio, nem sei se tem lógica, mas está aí posto. Eu vou me sentir bem tendo Blanka como minha companheira na festa de 15 anos da minha prima caçula. Os meus primos todos com suas mulheres e eu, o mais velho, trago uma beldade de juventude e frescor exuberantes, maior que a de suas consortes. Essa prova de potência masculina, se posso chamar assim, me inebria de satisfação. Após dez anos de solidão, de vê-los todos casando e se reproduzindo eu chego com uma gatinha, legal, gente boa, com seus sonhos e convicções. Jovem, mas já bastante dona de si.

0h09. Nossa, como é bom chegar ao meu quarto-ilha algumas vezes. Como essa. Estou começando a ficar animado com Blanka e menos amedrontado. Será que dançaremos a valsa? Não falo ideia de como dançar, talvez ela consiga rapidamente me ensinar, não me acanharia, pelo menos tentaria. Os bonecos e o desejo de possuí-los me toma, não posso me descontrolar. Nem tenho verba para isso. Gostaria do Azure Dragon, não fora a Black Friday e o truque que apliquei na MoAF (que se não funcionar, demandarei full refund) seria a peça que fecharia com chave de ouro a minha coleção. Não vejo o Superman como um fechamento. Não vejo mesmo.

0h52. Mamãe esteve aqui e conversamos um pouco e ouvimos música. Foi bom. Ela disse que está se sentindo mais feliz, de bem com a vida, o que me faz feliz e de bem com a vida. Lembrei de Areias agora e me dei conta de como parece um cenário alienígena, especialmente quando a maré seca e se revela o lamacento mangue à frente. Andando para a esquerda o cenário é de ficção pós-apocalíptica com as máquinas de petróleo e a infinita solidão. Gostaria de voltar lá com o meu irmão e meu primo, quiçá Maria e Blanka. Não posso chegar revolucionando a rotina de Blanka para que não se gerem suspeitas sobre a minha presença em sua vida. Queria muito que levasse menos tempo para que mamãe a acolhesse aqui em casa e ela pudesse passar a noite ao meu lado. Nossa como sonho com isso. Adoro dormir acompanhado de quem eu desejo. Eu desejo Blanka, espero que desenvolvamos afeto um pela companhia do outro. Minha mãe tem forte preconceito em relação a como tudo se deu. Não lhe tiro a razão, é tudo meio torto, como costuma ser na minha vida, mas se me faz bem – se me fizer bem, em verdade resta descobrir, falta começar de fato –, ela deveria aceitar a realidade tal como é. É um relacionamento diferente, em mais aspectos do que cabe elencar aqui, mas válido se ambas as partes estão satisfeitas com ele. Estarão satisfeitas, afinal nosso relacionamento até agora se deu quase que exclusivamente no âmbito cibernético.

1h27. Estou mais aclimatado com a ideia do Superman. Estou mais aclimatado com a existência tal como se dá. Parte dela consequência das minhas escolhas e investimentos, do que fui buscar do mundo para o meu mundo. Blanka sendo a epítome dessa busca. Não sei do meu futuro, espero que tudo transcorra mais ou menos como espero.

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11h34. Acordo e venho para as palavras como um vampiro em busca de sangue. Hoje menos faminto, talvez porque ainda no processo de despertar. Sempre um momento chato, mais difícil do que deveria ser, mas é dos meus processos metabólicos, das particularidades do meu corpo, ter essa dificuldade de ser e estar logo que acordo. Vou fumar.

11h51. Fui e volto com a minha alma toda voltada para a festa à qual irei com Blanka. Sentimentos misturados, mas a mistura resulta em uma sensação mais positiva que negativa. Quero exibir minha pouco ortodoxa conquista para os meus. Quero que ela seja bem tratada e respeitada. Que se sinta bem entre os meus. Estou a despertar, preguiçoso, com a mente vagarosa e ainda não plenamente desperta. Eita, lembrei do Superman e a imagem que me vem à cabeça dele é sempre a do pior ângulo. Não sei porque essa crueldade da memória, acho que porque me foi a imagem mais marcante. O tempo de me desfazer do Nintendo Switch se aproxima, preciso tentar avançar no Inside. Hoje talvez tenha Vila Edna, ainda estou despertando, não sinto ânimo para nada além do computador. E de cigarros com Coca e muito gelo.

12h21. A casa está vazia e já fico preocupado com a saúde da minha mãe. Não saberia seguir sem ela. Pelo menos num primeiro momento. Não quero perdê-la, não estou preparado para isso e não sei se jamais estarei. Vou ligar para ela e descobrir seus whereabou... ela irrompeu aqui no quarto, está animada, vai à piscina fazer exercícios aquáticos. Meu padrasto tentou me convencer a ir, mas declinei. Basta-me sabê-la bem. Eu me sinto bem. Só não tenho preparo físico nenhum. Não sei como farei para transar. Não sinto nem disposição disso. Não agora que estou ainda no demorado processo de despertar. Vou fumar.

13h08. Liguei para o meu irmão a pedido da minha mãe, ele ficou de ligar para ela mais tarde. Não tenho a mínima vontade de sair do meu quarto-ilha, exceto para fumar. Coloquei café para fazer. Não estou com vontade de fazer nada hoje que não seja estar aqui a escrever. O Superman não me sai da cabeça. Ainda estou em dúvida se fiz a escolha certa. Fiquei um pouco decepcionado com o acabamento da Rebel Terminator, mas acho que estou sendo muito picky. O olho “estrábico” da segunda cabeça não me incomoda, pois a exibirei com a primeira, são os outros detalhes. Pelo menos a pintura do Superman está impecável.


Ângulo que me desagrada.

Ângulo que muito me agrada!


13h21. É de cismar como posso me contentar com o Word e como tenho indisposição para todas as demais coisas do mundo. Acho que é uma questão de condicionamento. A cadeira que tenho é muito boa, mas já há uma parte onde o acolchoado está gasto pelo meu peso que fere, bom, terei que me virar com ela até março, no mínimo. Não sei o que dizer, o que é meio apavorante, pois é a única coisa que estou disposto a fazer e acabou-se a terceira página. Revisar e postar.

sábado, 24 de novembro de 2018

BLACK FRIDAY II E BLANKA



16h18. Ainda nem postei o outro, mas a vontade de escrever continua. Escrevo isso e a vontade se esvai, coisas desse eu contraditório e desobediente que sou. Me incomoda esse medo de Blanka, não posso mistificá-la nem mitificá-la. É uma pessoa extraordinariamente diferente de mim que o acaso-destino fez com que eu conhecesse e estabelecesse um compromisso inusitado. Mas estou com medo dela. De trocar os pés pelas mãos, de dar certo. Estou com medo de toda e qualquer possibilidade de desdobramento dessa história.

17h06. Às vezes sinto ânsia de voltar ao meu quarto-ilha, é definitivamente o centro do meu universo, meu útero fora do útero. Meu amigo da piscina sempre vem com inúmeras sugestões de atividades e rumos de vidas que deveria seguir, acha que eu deveria sair do Brasil para virar imigrante ilegal num dos países em que os meus irmãos moram, vivendo de subemprego. Essa foi a última dele. E algo que já repetiu algumas vezes para mim. Ontem redargui que vivo a vida que escolhi e elenquei como a melhor para mim, sei que as minhas escolhas fazem pouco ou nenhum sentindo para alma aventureira e irrequieta dele, mas estou seguindo o caminho que me faz mais bem ao espírito. É composto de muito pouco, mas para mim é o suficiente. Quanto à escolha de Blanka ele também é reticente, mas, pondo o medo à parte, é precisamente o que quero para a minha vida. Acho que a história toda se desenrola de forma muito esquisita e peculiar, mas eu sou esquisito e peculiar, combina bem comigo. Eu sou o ser que se escreve e não sou muito mais que isso. Aliás, sou muito mais do que isso, mas este eu que se diz é o eu que mais me satisfaz e mais me faz conectado com a vida, por mais contraditório que possa soar; é quando me sinto produtivo, mesmo que produzindo conteúdo inútil aos olhos alheios, mais pleno de mim e das minhas capacidades, mais vivo e em sintonia com o universo. Espero que Blanka venha acrescentar outra forma de plenitude à minha vida, uma completude que estranho e acho esquisita e assustadora porque há muito não experimento. Tenho mais receios que expectativas, o que me causa preocupação, a covardia frente o inevitável ou o que eu não quero evitar porque sei que essa criança chorona e acanhada não pode derrotar o homem que quero ser. Farei o que tiver disponibilidade de fazer. Vou fumar porque me sinto perturbado por esse assunto.

17h33. Pensei em ligar para Maria e desisti. Vou ligar. Péra.

17h51. Liguei, falei, a achei meio desencantada da vida, ela disse que é a velhice. Falei de Blanka para ela, mas ela não botou muita fé porque eu disse que ela era bem novinha. Se ela soubesse da missa o terço... Olhei minha aba de e-mails e só dá Black Friday, tenho medo de cair em tentação e acabar comprando o Superman com 30% de desconto e mandar o Azure Dragon às favas. Vou fumar um cigarro.

18h06. Fui tomado por um súbito prazer por estar vivo, posto dessa forma, nessas condições. Me veio do nada e para lá voltou, deixando-me apenas a memória e a gratidão que me tomou. Fico grato que tudo passa, que eu passo e um dia passarei em definitivo. Irrelevante como o meu passado, que é o meu presente e que só a mim importa, pelo menos importa a pessoa que realmente deveria importar, creio. Já tirei da cabeça, ou quase, pois esperança sempre há, fazer diferença para o mundo. Todos aspiramos ser heróis ou relevantes de alguma forma. A maioria não consegue, eu faço parte dessa maioria e isso não me desagrada ou incomoda. Já incomodou bastante. Eu acreditei por muito tempo na mentira de que eu tinha a obrigação de ser alguém grande para o mundo. Sofri muito por não conseguir. Hoje já não sofro, usufruo do que tenho e tenho tudo o que desejo. Seria impudico pedir mais. A relevância que não alcanço é compensada pelo prazer de estar vivo, vivendo a vida exatamente do jeito que desejo viver e isso é para poucos, sou nesse caso uma exceção, um felizardo. Obviamente há limitações, mas essas são tão poucas e tão pouco importantes diante dos meus desejos e prioridades que não incomodam. Há coisas que ainda desejo mudar, não muitas. A maior mudança, a qual peço à existência há muito mais tempo do que é sadio agora me mete medo: um relacionamento. Olha o que quase mando para Blanka: “Quero que me ajude a não ter medo de você”. Não mandei, mas ainda vejo pertinência em fazê-lo. Deixa para lá. Quero que ela me responda primeiro. Nossa comunicação é muito partida. Mas teremos oportunidade de conversar bastante quando nos encontrarmos pessoalmente. Sábado da semana que vem. Queria ter um encontro prévio, mas minha mãe não vai querer pagar motel para a gente, menos ainda recebê-la aqui em casa, como deixou deveras claro. Gosto da vida nesse momento. É tão bom gostar da vida, é a melhor coisa. Eu que passei muitos anos odiando a existência sei o valor que esse estar bem no mundo, estar bem consigo representa e é valioso. E ter uma gata de 19 anos, mesmo que numa relação aberta e torta, faz um bem enorme para o ego. Em verdade a relação ainda nem começou. Ou começou ciberneticamente. Se houvesse um exemplo de relacionamento moderno a ser colocado nalgum tipo de dicionário, o nosso seria o exemplo perfeito. Nunca imaginei viver algo assim, mas pensando bem, é exatamente o que buscava.

19h01. Meu amigo da piscina me chamou para fumar um cigarro na escada, onde me mostrou vídeos com vaginas e falou que fugiu de um encontro ao se deparar com a figura como realmente é, sem filtros. Uma das que dei match no Tinder falou comigo, não estou interessado em responde-la porque ela não me interessa e mora longe. Mas me sinto compelido a responder, acho indelicado o descaso.

19h06. Bom, respondi. Vamos ver no que vai dar. Disse-me escrevendo, não sei se ela vai respeitar o meu momento que está muito meu e muito bom assim, tanto que dispensei um encontro com meu amigo da piscina mais tarde.

19h14. Conversei com a moça do Tinder um pouco, ela parou de responder. Então estou de volta, já com vontade de fumar um cigarro e abrir a segunda garrafa de Coca. Será que minha mãe do médico foi ao shopping em plena Black Friday? Corajosa, se for o caso. Se não for o caso, está demorando bastante. Me dá ideias, mas acho que deixarei para a noite alta, prefiro assim. Não quero fazer exame de sangue amanhã e não sei se farei. Queria sair e tomar umas cervejas, mas prometi à minha mãe que só depois de o meu irmão ir embora. Então, cerveja para mim, só no ano que vem. Nossa, a Black Friday me atrai a gastar, muito. Ofertas impensáveis, tem uma loja de pôsteres que está vendendo tudo pela metade do preço, mas não sei se a minha ideia do “pendurador de pôsteres” na porta vai vingar. Fora que estou com a grana contada para o Azure Dragon. A tentação maior é o Superman, essa está quase irresistível. Gostaria que a garota do eBaymag me respondesse, mas aparentemente sumiu do mapa. Isso está prejudicando as minhas vendas quando deveria ajudar.

19h36. Sendo bastante contraditório com o que acabei de dizer postei o terceiro item no eBaymag na vã esperança de que os meus três itens sejam vistos em todos os eBay do mundo, o que não está acontecendo. Dane-se, são itens difíceis de vender.

19h46. Estava lá calibrando os fretes para outros locais do mundo, negócio chato. Vou fumar um cigarro. Estou meio sem saco de escrever no momento. Espero que, com o cigarro, a vontade volte. Minha mente é só Black Friday no momento.

19h56. Volto do mesmo jeito que parti, com uma boa dose de Blanka no meio. Não consigo entender o receio, esse medo covarde em mim. É uma coisa boa na minha vida, muito desejada e vai ser supertranquila. Não terei nem obrigação de penetrar. Posso acabar com a relação na hora que eu quiser. Não há problemas, é só uma garota que decidiu repartir uma parte do seu tempo comigo. Quando penso em levá-la ao cinema, minha alma serena mais. Queria ver Alita Battle Angel com ela. Nem sei se queria por causa desse medo que sufoca qualquer prognóstico bom que eu faça. Saco isso. Vou mergulhar na Black Friday, ver todas as gostosuras que a internet me oferece.

20h28. Cometi a loucura que estava louco para cometer, gastei quase todo o meu saldo do PayPal achando que com isso estava poupando dinheiro ao invés de gastar. A grande enganação da Black Friday. E de qualquer desconto. Gastar achando que se está poupando. Economizando. Economizar é não gastar. Espero que o truque da MoAF funcione realmente para o Batman Branco e para o Superman. Eu me descontrolei agora. Fui levado pelo impulso do desconto nunca dado antes. Economizei mais de duzentos dólares. Ou seja gastei dinheiro com algo que queria. Tenho que incluir o Superman na lista de bonecos. Agora terei um dos maiores ícones da cultura pop na minha coleção. Não me arrependi. Ainda. O Azure Dragon virou um sonho distante. Espero que mamãe não leia esse post, acho que não vou publicá-lo. Vou é fumar um cigarro e pensar no que fiz. Não me sinto excitado, diria que estou até um pouco decepcionado comigo.

20h53. Não fumei um, mas dois cigarros e não consigo me arrepender da decisão se o truque da MoAF funcionar. Eu nem estava mais tão interessado no Azure Dragon. Me arrependo de ter feito o cara da Gantaku fazer tudo o que disse que fez, no caso, reservar a versão exclusiva para mim. Troco o espaço de um pelo outro e acho que o Superman ocupa menos espaço lateral e de profundidade. Bom, está feito e não pode ser desfeito. Se vender um dos dois itens que pus à venda, os mais caros, pode ser que consiga o fôlego financeiro que preciso para o Azure Dragon, mas não vejo isso acontecendo. São itens muito difíceis de vender. Que seja, tenho Superman na minha coleção agora, foge menos dos padrões que o Azure Dragon, mas é um personagem que não poderia faltar. Nem ele, nem o Batman. Estou com um sentimento ruim.

21h15. Mamãe chegou e continuo com um sentimento ruim. Trouxe um lanche do McDonald’s, mas estou sem fome alguma, vai ficar para as altas da madrugada. Blanka me mandou uma mensagem, mas demorei a responder pois estava com a minha mãe e ela sumiu.

0h56. Conversei mais com Blanka e ela deu mais um sumiço, esses contatos fazem o medo diminuir. Ainda com o Superman na cabeça. É meu. Estará um dia nesse quarto, se tudo der certo.

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8h53. Esperei Blanka me mostrar os vestidos o máximo que aguentei. Me veio com uma desculpa do porquê não o fez e eu tento acreditar. Pedi a ela apenas que, em não podendo fazer o combinado me avise de que não é possível para eu não ficar fazendo papel de besta a esperar pelo que não vai ocorrer, afinal isso é respeito, é o que uma pessoa que se importa com a outra faz. Mamãe já disse que não bota fé nesse relacionamento e que ela vir aqui em casa não se dará nem tão cedo. Mamãe deveria enxergar por outro prisma, ela é mais do que uma acompanhante terapêutica para mim, ela me suprirá todas as carências, então é, economicamente falando, um investimento campeão. Embora eu veja a coisa toda por um viés muito mais sentimental, acho que afeto pode surgir, mas será devagarinho. Ou não. Minha mãe acha que eu vou entrar numa pior se perder ela e talvez até entre, mas será muito melhor ter vivido isso que continuar apenas no ostracismo. Entrei na quarta página, vou revisar e postar.