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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

PARA RICKY


17h52. Antes de começar de fato a preencher esta página, um cigarro se faz necessário. Acabei de revisar e postar o texto anterior.

18h31. Resolvi colocar umas fotos no post para que tenha um pouco mais de dinamismo e seja mais amigável ao leitor. Não sei se fui bem-sucedido. Vou fumar outro cigarro e migrar para a Coca.

18h44. Cruzei no dia de Natal com dois sem-teto, talvez com grandes sonhos, certamente com esperanças miúdas, como a expectativa de financiar o próximo porre de Pitu, não sei se mendigos, pois dormiam, portanto, nada me pediram, eu que tinha cento e vinte reais em dinheiro para comprar Coca e sorvete. Ainda cometi a ousadia de fotografar sua sorte na existência ali à deriva na calçada. Postei a foto no post anterior e ela me cala muito profundamente, o acaso-destino age de formas tão variadas e pode ser extremamente duro com alguns e é extremamente duro com alguns, talvez excessivamente duro. Apesar disso, dessas pessoas maltratadas, maltrapilhas, mal vividas, desprezadas, esquecidas, em sofrimento, sou otimista. Acho que há mais gente se sentindo bem do que mal no mundo. E vou além: acho que esse número é crescente. E indo mais além: acredito no paraíso na Terra, quando todas as necessidades serão supridas, todos os desejos realizados. Todos terão oportunidade de entrar no paraíso, mas haverá aqueles que não se disporão a isso por medo do novo. Queria falar com Blanka. Muito mais do que escrever aqui. Não estou com disposição para escrever aqui, vou vagar pela internet.

19h36. Meu amigo da piscina me chamou para fumar um cigarro na escada. Depois me chamou para descer, mas dessa vez decidi ficar em casa. Aqui no quarto-ilha, na minha estranha solidão com as palavras. Esse lugar onde tenho domínio absoluto de tudo, meu casulo, meu útero, minha cela com porta aberta. Onde me encarcero, me retiro da sociedade para ser eu mesmo mais plenamente. Onde me exerço da forma que melhor me cabe no mundo. Eu não consigo acreditar no resultado do cartão de crédito, acho que o total é superior à soma do que foi gasto. Posso estar enganado, certamente estou. Mas me bate quase uma vontade de somar tudo e ver se bate. A preguiça me impede de tomar essa iniciativa. É tão bom ser submisso à preguiça, é tão fácil e tão cômodo. Não tenho vontade, não faço, tenho vontade, faço. Todos deveriam ter esse direito. Me privo de quase tudo para me entregar à preguiça, tenho poucas vontades, assim posso satisfazê-las. Acho que trago a alma atrofiada hoje em dia, murcha como uma passa, pois não necessito ocupar todo o lugar da uva. A memória engana, a preencho as lacunas com imaginações, ficções que creio serem fatos, por exemplo, o clipe de Hunter de Björk tem o fundo branco, eu creio, mas me veio à cabeça como se tivesse fundo rosa, laca gerânio, tal a capa do CD. Fiz uma fusão de memórias. Quantas mais devo fazer sem me aperceber? É um pensamento que dá medo, mas cada vez confio menos na minha memória, pois cada vez menos a exercito, vivo muito o presente. Estou levemente nauseado. Tenho muita Coca e muito gelo, isso me traz um sentimento de tranquilidade, de que tenho os recursos de que necessito em quantidade adequada.

20h03. A fantástica faxineira ainda está aqui, coitada, é uma guerreira. Tem Deus e isso lhe serve de consolo para seguir com resignação e obstinação adiante. Tem a alma boníssima também. Eu e Blanka não temos, nós conhecemos o lado obscuro de nossos seres, temos contato com ele. E com o lado negro da vida. Talvez até sejamos atraídos por ele e isso faz de nós pessoas corrompidas. Mas nisso também sou otimista, já fui pior do que sou hoje, há redenção, não completa, mas alguma parcela dela. Fiquei feliz de que só poderemos nos encontrar após Areias. Talvez esteja mais preparado para uma experiência sensorial com ela, não apenas verbal, oral, mas acrescentando-se o táctil e o visual, a nudez, quiçá a excitação, embora essa não me faça falta, falta dar carinho a um corpo nu e jovem de mulher, especificamente de Blanka.

20h21. Estou vivendo a vida o mais plenamente que posso nesse momento. A existência está me sendo extremamente benfazeja. Só um brilho, o perfeito reluzir, a casa só para mim, o som no volume 20, tudo conspira a favor. Vou fazer uma coisa, vou pedir pra Clementine passar o endereço desse blog para o seu namorado ou namorido.

20h27. Acabei de fazer. A cutucada na existência eu dei. Eu acredito que a raiva deriva de alguma frustração, é causada por esta. O som me parece muito alto, desagradavelmente alto. Volume 16 está bem mais palatável. Por que tive a ideia de repassar para ele o endereço? Porque me deu vontade de cantar Pétala de Djavan no hall enquanto fumava pensando que Clementine ouvia e divagando se algo lhe passava na cabeça a respeito do que cantava. Percebi que, desde que sou de Blanka, que ela esteve no Natal dos Barros, uma geleira se derreteu entre nós. Acho positivo e espero que Blanka dê certo. Por mais que o receio disso, do novo, me atormente. Mas estava em paz e quero continuar assim. Não preciso de perturbações outras, não preciso de perturbação nenhuma. Acho que vou fumar um cigarro. Isso me faria bem e talvez me faça divagar por novas searas. Com Coca geladíssima, claro.

20h49. Me dei ao luxo de fumar dois cigarros seguidos agora. Vou colocar Virus de Björk, versão remix. Alto. Extremamente benéfico. O segundo cigarro que fumei me deu um prazer nesse estado em que eu estou, singular na minha existência. Bom demais. Eu, Mário Gonçalves de Barros, amo fumar. E há momentos de tabagismo que são um deleite inexplicável para mim. Não sei o que se dá, que há de interessante em tragar aquele negócio que me traz tanto agrado. Sei que sou abençoado por isso, mesmo estando me amaldiçoando, ou tornando o meu futuro muito sofrido e talvez bem mais curto do que poderia ser. Não quero a velhice, mas acho que a máquina que me carrega é tão resistente que envelhecerei. Na verdade, a idade já me pesa. Há coisas que não faço mais porque não tenho vigor ou disposição. Uma das coisas que tenho que eliminar desse rol é sexo, penetração. Entrou um The Cure que bateu na trave. É, me peguei cantando e pensando em Clementine, ela sempre vai ter um significado importante para mim. Queria que Blanka, em quem penso com frequência, conquistasse tal importância e que ela fosse mútua, chega de unilateralidades. Estou tão distante disso que nem sei se é possível, às vezes me questiono se estou disposto, mas quando recebo atenção de Blanka isso me faz bem, me faz sentir mais feliz. Me incomodam os erros de português, o não saber usar o infinitivo quando escreve, mas isso é um detalhe pequeno. Acho que minha mãe está passando por um momento negro de sua vida e isso tem afetado o meu padrasto, o relacionamento do casal, lembro-me deles mais em paz e mais felizes. Mamãe disse que com ele conheceu, enfim, a paixão. Às vezes acho que mamãe cancelou o meu cartão para que eu não o levasse quando fosse sair com Blanka. Penso em pedir uma semanada de trezentos reais após a reforma do meu quarto e que voltemos a investir parte do dinheiro. Será que meus irmãos vão querer vender as Ubaias? Será que me ajudarão financeiramente a mantê-la? A me manter? Se recebesse a pensão integral de papai talvez conseguisse. Talvez meu irmão viesse morar aqui comigo. Sei lá. O mundo ainda tem que dar muitas voltas e em algumas ele se comporta de forma muito estranha, bizarra, completamente inesperada. Meu pai morto no chão do banheiro, bizarro, para dizer o mínimo. Totalmente inesperado. A gente se conforma com a morte. Eu me conformei com a morte do meu pai. Eu aceitei. Aí, vem um movimento da alma querendo me impor uma carga que não mereço. Foda-se para lá. Não é algo verdadeiro. Preciso de um cigarro. Merecido. Mudar de ares, esses são muito carregados. E fumarei na escada, estou com vontade. Até porque meu padrasto – e mais ele que a minha mãe – pode estar chegando, não quero desagradá-lo.

21h24. If chance-destiny sticks to my brother’s plan, we will throw the ashes of our father in the shores of Macau. This will have different meanings to the two of us and I think we deserve to let my sister know. O que significará para mim, que fiz tanta questão disso? Pensei que muito pouco a priori, pois não acredito que esse saco que está no meu armário seja o meu pai, porém pensei melhor e adiante e cheguei à conclusão que significa a realização de um último grande desejo dele, uma homenagem à sua memória, que é tudo o que me resta dele, a memória cada vez mais rota e algumas fotos. E tudo o que pôs dentro de mim, o que fez por mim para que me tornasse o que me tornei, sua contribuição na receita que eu sou. Até para que chegasse ao meu estado atual de coisas. Ele garantiu com sua morte a minha liberdade para escrever, fazer o que eu quero da vida, com a ajuda da minha mãe de do marido da minha prima. E do pesadelo pelo qual passei.

21h33. Clementine ainda não viu as mensagens que mandei para ela. Gostaria que o fizesse. Sou muito imediatista. Mas estou em paz e continuarei assim, apesar de levantar assuntos mórbidos e melancólicos. Fazem parte da vida. Música muito doida de Björk, do Utopia, instrumental.     

21h42. Meu amigo da piscina me pediu cigarro.

21h56. Voltei com uma nova verdade dele: a cor rosa pacifica as pessoas, as deixam mais calmas. Não sei se procede, mas minha cor predileta é laca gerânio, um tom de rosa mais escuro, intenso e mais avermelhado, é a melhor forma que tenho para descrevê-lo, se aproxima do magenta, mas acho que tem um tantinho de amarelo e ciano. Pensei em pintar uma das paredes do meu quarto da minha cor predileta, mas pode ser opressivo, não sei qual o tom do rosa que ele mencionou. Sei que as bonecas têm que ficar em fundo neutro, talvez branco mesmo. Porra, o cibículo onde o Batman branco vai ficar, a “batmacumba” que quero fazer poderia ter as faces laca gerânio, destacaria muito a imagem e a caveira no prato branco. Quando meu quarto estiver todo pronto e todas as bonecas chegarem eu vou me inscrever para colecionador da semana, ou mês, sei lá, do site da Sideshow. Não acho impossível ser selecionado. Me traria muito orgulho, como me trará muito orgulho repartir as fotos da minha coleção com a comunidade de colecionadores do Facebook. Será o meu “cheguei lá”, só não sei se continuarei adiante, pois nem sei se tem espaço para todos os bonecos no meu quarto. Tomara que sim. A foto da “batmacumba” sairá bastante interessante. Nossa, como quero a Die-Cut, depois do Hulk a minha mais querida. Mas não quero falar nisso. Vou fumar um cigarro. Ver se outros pensamentos aventam. Mas o “altar” do Batman laca gerânio fica massa. Adorei essa ideia.

22h18. Pensei em por que eu escrevo acaso-destino e cheguei à conclusão que é porque são duas palavras, dois paradigmas antagônicos, que descrevem o mesmo fenômeno, como duas faces de uma moeda, não saberia que lado escolher, ser humano que sou e capaz de perceber e criar padrões, nem sempre condizentes com a realidade, eu percebo a causalidade, sei que o decaimento da energia o permite, mas não sei para além disso, não sei se tudo é possível ou inevitável.

 “22:24 - Já vi que o seu acho = não vou fazer. 😛

22h26. Mandei para Blanka. Sua ausência me decepciona, demonstra o exato tamanho que tenho em sua vida. A minha falta de importância, a sua falta de interesse. Mas não desisto. Vou até o fim. Fazendo o meu melhor que pode muito bem não ser o suficiente.

“[22:29, 12/27/2018] Mário Barros: Bom, eu tentei.”

22h31. Mandei para Clementine que ainda não visualizou as mensagens que enviei. Gostaria muito de saber a opinião do namorado dela. Esses últimos posts me deixaram satisfeitos. Também pouco exijo senão o prazer de escrevê-los. Sou muito imediatista, cacete. Acabou-se a terceira página.

22h38. Clementine respondeu e repassará ao namorado.   

segunda-feira, 28 de maio de 2018

ANIVERSÁRIO DE MAMÃE


Pois é, hoje é aniversário da minha mãe. Ela está aparentemente feliz. E aparentemente sairemos para almoçar. Ainda estou despertando, ela disse que faria café, que será muito bem-vindo. Está a conversar com o meu padrasto na sala. Hoje é aniversário do meu primo urbano também.

12h54. Estou ainda muito sonolento e continuo sem novidades. Estão desejando feliz aniversário ao meu primo urbano aqui no WhatsApp. Acho que vou pegar um copo de Coca antes do café que não sei que horas mamãe vai fazer ou se vai fazer de fato.

13h02. Parece que iremos a um restaurante português.

13h43. Já tomei banho e troquei de roupa. Acho que vou fumar outro cigarro. Com Coca.

17h31. Meu primo urbano me convidou para ir ao Caverna por volta das 20h00 para a celebração de seu aniversário. Estou com vontade de ir e isso é bom. Acho que vou tirar um cochilo antes. Almoçamos num restaurante português e a comida estava boa e vinha em boa quantidade. Mamãe saiu muito satisfeita do local. Espero que haja Uber circulando hoje, com a crise da gasolina, quem sabe?

20h39. Estou esperando dar uma carga no celular para tomar banho e ir ao Caverna. Como sempre uma ansiedade bate, mas mais de leve. Não vou alimentá-la. Escolhi a roupa, camisa rosa do Strokes e a velha bermuda preta de guerra. Deixarei o celular carregar até as 21h00. Espero que seja o suficiente. Preciso dele para chamar o Uber. Não sei o que ou como falarei com a incrível revisora, que é namorada do meu primo urbano e certamente estará lá.

1h26. Estou de volta e confesso que estou de baixo astral. Clementine estava lá, mas não interagi com ela, achei ser o mais sensato a se fazer. Mas não foi isso que me deixou de baixo astral, isso foi irrelevante. O que me causou esse estado de ânimo foi uma bela garota, linda até, jovem, que me chamou a atenção, me encantou. Cheguei a perguntar se o instrumento que guardava era um violino ou uma rabeca, no que ela respondeu que era uma rabeca e em vez de emendar um papo eu só falei “que curioso”. Acho que ela estava indo ao banheiro. Gostaria muito de ter conversado mais, mas não me dei essa chance e o meu Uber chegou antes de ela voltar. De qualquer forma, pela maneira que o provável dono da rabeca a tocou, acho que tinham algum enlace afetivo. Melhor pensar assim, me deixa menos frustrado. Mas, nossa, como sinto falta de conversar com uma garota encantadora. Isso faria uma diferença tremenda na minha qualidade de vida. Pena que ache muito raramente alguma que me encante e mais raro ainda que me disponha a falar com ela. É uma pena. Sinto pena de mim e isso é um sentimento infantil, eu sei, mas é como me sinto agora. Fantasiei pedir o WhatsApp dela, mas isso, como narrado, passou longe de se concretizar. Agora estou em casa tão solitário quanto posso ser e ainda um pouco mais por causa dessa breve intervenção em minha vida. Nossa como queria ter alguém que me encantasse para amar. Me vi velho, gordo, ridículo. Eu me vejo assim sempre, mas isso me pesou de forma significativa hoje. Falei com a incrível revisora apenas na despedida e ela reforçou o fato de deixar Raimundo Carrero em paz e não criar expectativa, ou seja, no meu entender, não achar que ele vai me responder. Talvez ela mesmo tenha visto que o meu texto não é válido, não é literário o suficiente, mas limitou-se a dizer que estava lendo e que quando acabasse a gente conversava. Fiquei impressionado com a temática do livro de um outro amigo que já mencionei aqui que havia escrito um livro e revisado com a minha amiga revisora. A obra chama-se “Permanência” e trata do conceito oposto ao do budismo da impermanência das coisas. Achei bastante profundo. Me senti embaraçado em relação ao meu. Envergonhado, diminuído. Quando me lembro do que contei do que se tratava o meu para o namorado de Clementine... não contei com orgulho ou coisa que o valha, nem sei que sentimento me tomou na hora. Apenas disse que havia escrito um diário durante uma internação no Manicômio e que o havia digitado e mandado para a nossa amiga revisora revisar. Acho que a noite valeu por prestigiar o meu primo urbano. Interagi a contento com quem de direito, mas quando ele se foi, me vi só, pois não iria participar do grupo em que Clementine estava colocada, que eram as únicas pessoas que eu conhecia no local. Fiquei então só e admirar a figura encantadora supracitada. Caramba, a minha solidão é esmagadora hoje. Vendo tantos casais de namorados e eu só. E me deixando só. Só com palavras. Me parece um destino tristonho para mim. Obviamente penso na minha paixão platônica nesse momento, mas é algo irreal. Penso também na impossibilidade do livro. Penso que estou me amparando em duas mentiras. Não é um pensamento bom, mas é um pensamento razoável, no sentido de ter razão. Isso me põe ainda mais para baixo. Eu não sou um sujeito ruim, mas me sinto péssimo. Sei que acordarei melhor. Estou até pensando em aparecer no Poço da Panela, no evento organizado por uma amiga que mora lá. Isso depois das visitas que teremos aqui em casa por conta do aniversário de mamãe. Vou na vã esperança de encontrar alguém. Mas ninguém haverá. A saudade da minha paixão platônica me fere. A impossibilidade infelizmente não apaga a esperança. Só uma garota encantadora que se encantasse por mim seria capaz disso. Mas garotas encantadoras não se encantam por mim. Acho que irei ao Poço amanhã. A depender da hora e permanência das visitas. A realidade às vezes me parece tão fictícia... vou fumar um cigarro para ir dormir. Ou não. Não ainda o cigarro e não ainda dormir. Tudo é um grande teatro onde todos nós achamos que somos o(a) protagonista. É, estou mais desiludido com a vida que de costume. Seria tão mais interessante se em vez de rabeca fosse um violino. Adoro o som de violinos. Por sinal, não estou ouvindo som nenhum, nenhuma música, digo, no momento. Acho que o silêncio cabe mais nesse momento triste. Estou triste. Mas é passageiro. Não estou deprimido. Foi só uma noite fracassada para mim. Ainda aventei a possibilidade de me enxerir para uma amiga da turma, até descobrir que ela era agora casada. Com um cara não muito mais bonito que eu. Mas certamente muito mais desenrolado e autoconfiante. É, só pensar em vida sexual que me aclimato de novo à solidão. Vida sexual é algo que me intimida e espanta. Assusta. Gera uma insegurança e um receio dos infernos. Me deixo na solidão e blindado dessa possibilidade, quase sem questionar se não seria bom, saudável e até formidável ter uma vida sexual ativa. Obviamente com uma garota que me encantasse. Quem será essa garota, como indagaria Madonna. Bem, depois dessa, vou fumar e dormir.

2h39. Não consegui. A página de Word aberta me atraiu para cá. Me sinto mais leve depois de ter desabafado com o papel, pelo menos para isso a escrita me serve, é serventia pouca, mas alguma. Antes não tivesse cruzado com a garota encantadora e ter tido a dimensão exata do meu ridículo. Ridículo esse que eu mesmo crio em minha cabeça e talvez só dentro dela exista. Mas aí lembro do meu passado e penso no meu futuro e tudo me parece mais que ridículo, negro, tétrico. Gostaria de reunir qualidades positivas, mas a minha história me esfrega na cara justamente o contrário. Volto a me sentir mal, antes tivesse findado no parágrafo anterior. Mas é a vida e, por mais que não enxergue isso agora, ela é bela.

2h52. Vi fotos. Meu coraçãozinho dói diminuto dentro do peito. Quase um nada. E capaz de tão grande e pleno amor. Mas para quem esse amor? Para quê? Eu que já amei e fui amado que conheço o gozo e a alegria de ser um de um par, como me embrenhei nessa mata escura e espinhosa da solidão de forma tão completa? Me perdi na solidão e não sei encontrar o caminho de volta. Às vezes penso que nem quero isso. Isso é tudo autopiedade e não gosto de autopiedade, mas se ninguém tem pena de mim? Não é de se estranhar que esteja nessa situação. É de se estranhar o esforço que faço para permanecer nela. Quero ir ao Poço amanhã. Quem sabe algo não me sorri? O destino-acaso não me apronta uma das suas? Acho que não conseguirei ir por causa da presença dos meus tios aqui. Que seja. Ficarei a digitar, escrever, como queira. Não passo de um digitador de palavras, um blogueiro de meia tigela. A farsa mais sincera. A encarnação do fracasso. Não sou gente, nem chego a isso. Não agora, nesse momento. Nesse momento sou apenas um corpo humano atacado por sentimentos desumanos. Eu sou desumano comigo mesmo, eis a verdade. Eu deveria realmente me apiedar do que faço comigo. Foi a forma de viver que escolhi. Mas queria desescolher. Não, não queria, tenho medo, medo do que está para além dessa escolha, para além do quarto-ilha, para novas possibilidades. Por que a novidade me assusta tanto? Por que ela tem 50% de chance de dar errado? Por que só quero as coisas do meu jeito senão nada feito? Não sei, não faço ideia e vou dormir.

3h11. Boa noite.

8h21. SONHO

- Tia-vizinha querendo aparar Zeus que estava muito vivo, bem cuidado e bem nutrido. Ele estava indócil e latia para um ponto fixo na parede, como se visse percebesse alguma presença que não percebíamos.
- Jogo com coordenadas, tipo caça ao tesouro, última coordenada era na casa de papai, o terceiro papel da estante de baixo, que era justamente a lista de convidados do meu casamento sabendo que o padrinho era Rafael Saraiva. Aquilo pareceu muito estranho e informar os contatos da lista me pareceu perigoso, tremendamente pessoal para um jogo que deveria ser impessoal, temi que quisessem matar alguém da lista.
- Helicóptero de guerra descendo. Perguntei se era minha tia de Natal. Minha tia-vizinha confirmou que só poderia ser. Minha tia jornalista também entrou no sonho.
- Desceu uma equipe com roupas militares, mas não me recordo dos detalhes, só sei que não eram militares, estavam mais para mercenários.
- Locadora alugar filme, não lembro dessa parte direito.
- Na casa de papai, acharam um saco que ele suspeitou ser de cocaína e suspeitou ser meu.
- Papai me agredindo me agarrando pelo pescoço e me dando murros na cara (eu de consciência limpa por saber que não havia sido eu e que não era cocaína, alisava a cara de papai)
- Meu dente ficou mole de tanta porrada que levei na boca.
- Ficou comprovado que não era pó e meu pai nem se dignou a me pedir desculpas.
- Imagem num papel na qual se via várias coisas diferentes a depender do olhar que se dava.
- Meu irmão aparece, pergunta da minha roupa. Eu lembro que estava no chão do banheiro de papai, ele pergunta por que Mario Bros se não havia na camisa e realmente não havia.
- Não lembro de mais, só acho que houve mais.

15h26. Eu não estava conseguindo dormir direito porque havia esquecido de tomar os remédios, eles realmente fazem a diferença pelo menos no meu sono. Tive um sono fragmentado e mal dormido até a hora que levantei para ver se havia tomado os remédios e foi quando enunciei o meu sonho. Apenas o fiz a título terapêutico para levar para Ju. É tão raro com as medicações ter um sonho tão elaborado e longo, pode ter alguma serventia.

15h35. Daqui a pouco os meus familiares aportarão aqui. Não sei o que dizer e essa falta de palavras tem sido algo cada vez mais recorrente. Algo que me preocupa. Mas não vou alimentar bloqueios criativos, tampouco vou me forçar a fazer isso por obrigação. Mamãe me fez café. E o dia de ontem ficou para trás, acordei melhor do que fui dormir ontem. Mamãe está sendo dura com o meu padrasto. Eles são os adultos da casa, não eu. Eu não sou considerado adulto por eles, nem por mim mesmo. Vou pegar mais café.

15h48. Acho que não dará mais tempo de ir para o Poço. Que pena. Estava até com sincera motivação para ir. Acredito que faria uma grata surpresa aos meus amigos da turma do meu primo-irmão. Mas a vida não se desenha assim. Meus parentes ainda estão por chegar. Coloquei o “Songs Of Innocence” para variar um pouco, ouço-o desde ontem, mas acho que prefiro o “Songs Of Experience”. Talvez por ter escutado muito mais. Mamãe está magoada com meu padrasto. Está descontando o seu descontentamento nele. Ainda bem que nada tenho a ver com isso, mas me estressa por tabela esse clima tenso, de animosidade da minha mãe, que tem lá suas razões pelo pouco que apreendi. Mas não vou ficar fofocando sobre as intimidades deles. Deixar-me-ei comigo mesmo. E o que trago comigo hoje? Que minhas sensibilidades são de fatos sensíveis, a julgar pelo episódio de ontem, irrelevante hoje, mas capaz de mudar as cores da água do poço da minha alma quando se deu. Não me sinto mais válido do que me sentia ontem. Apenas isso me preocupa menos. O desespero por encontrar alguém se extinguiu. A necessidade urgente de ser par com alguém que me encantasse deixou sua urgência perdida nalguma parte do meu sono. Me sinto uma vez mais aclimatado com a minha condição. Acho-a medíocre em muitos aspectos, mas também a acho incrivelmente favorável nos demais. Lembro que falei da escrita como forma de ócio produtivo para o namorado de Clementine. Disse que, não tivera a escrita, eu acabaria endoidando com tanto tempo e nada por fazer. Não acho assistir coisas na TV um afazer, um fazer, é muito passivo. Jogar videogames é mais interativo, mas não tem o senso de produção que a escrita me proporciona. A escrita é o que faço de mais válido de mim. Mais pessoas têm curtido os meus posts. Isso me alegra imenso. Recebi umas três ou quatro curtidas de pessoas desconhecidas, algumas que já curtiram mais de uma vez inclusive e isso me é precioso. Empresta mais validade ao meu afazer. E o número de visitantes aumentou. Tudo isso me alegra. Minha grande obra não é o livro e, sim, este blog. É a isto que me dedico diariamente, de domingo a domingo e que por algum motivo parece estar me saturando. Isso me assusta, pegar abuso de me dizer aqui. Isso realmente é aterrador. Aventei as possibilidades restantes, TV e videogames, mas não me animei o bastante com elas, prefiro ainda as palavras. Espero que não me sature nunca. Que só troque isso por uma relação com alguém. Muito embora esse alguém não vá viver grudada comigo, visto que a vida de alguém não se resume à outra pessoa, a não ser na velhice. Então ainda me restará tempo para me dizer. Do jeito que, como ficou demonstrado, ando e interajo com o mundo está difícil esse par surgir. E me apoio em fantasias impossíveis para preencher o peito sem me ferir. Por um bom tempo. Ou até a publicação do livro, que cada vez mais me parece improvável. Está cada vez mais nas mãos do meu tio. Mas acho que ele não vê o material como publicável. Mas, uma vez com a versão definitiva, quando eu e a incrível revisora chegarmos a um consenso acerca do conteúdo, que está tudo dentro dos conformes, sentarei para conversar com ele. Antes terei que sentar com a incrível revisora e isso me causa desconforto, por causa dos temas abordados e sobre quem me revelo. Não vai ser fácil para mim. A família já se encontra aqui em casa. Eu, como é minha prática, me recolho ao meu quarto.

16h59. Chamei os meus familiares para ver o Hulk, mas realmente não fez muito a cabeça deles. Minha tia disse que eu rejuvenesci uns dez anos com o meu novo corte e o cabelo aparado. Que bom. Estão na varanda e os ouço daqui, pois a janela está aberta. Como a minha família materna está acostumada com a minha rotina reclusa de escrever, não se incomodam muito que não participe da reunião. Acho que essa é a verdadeira celebração de aniversário para a minha mãe, com os irmãos e a mãe. Me veio agora a moça da rabeca. Poderia ter ousado mais e não ousei. Me perdi num emaranhado de pensamentos sobre os possíveis desdobramentos da conversa que não houve. Vou botar o mais novo do U2 para ouvir. Coloquei. Parece que meu amigo cineasta está realmente produzindo o projeto que filmou comigo. Está até cobrando o meu primo urbano a trilha. Isso me deixou feliz e foi uma coisa que esqueci de narrar da noite de ontem, quando fiquei sabendo da notícia. Pensei que fosse deixar o projeto de lado agora que tem um projeto muito maior a caminho, um filho. Pronto, contei. Parece que já se pode espalhar a notícia. Eu abro a boca mais do que devia, quando é para deixá-la fechada e, quando é para falar, calo. Acho essa ironia um problema que não sei como contornar. Já me coloquei em situações infelizes por conta disso.

17h26. Não haverá tempo para ir ao Poço. É uma pena. Queria ir enquanto dia ainda, queria uma tarde solar no bucólico Poço, não queria chegar no final da festa. E se for agora é o que acontecerá o dia já foi praticamente engolido pela noite. As coisas lá devem estar no final. É incrível que a minha família materna aceite com tamanha tranquilidade a minha clausura. Acho ótimo em verdade. Parece que se acostumaram com o meu modus operandi. Sei que vou me arrepender bastante quando eles se forem de não ter privado de suas companhias em vida. Entre as músicas, ouço mais a voz do meu padrasto. Ou será meu tio? Agora é minha tia. Bom, conversam, o que acho ótimo. Poderia estar lá, mas não me animo para isso. Vou pegar Coca Zero. Acabou-se o café.

17h41. Fui à varanda a convite de mamãe para pegar bolo e debatia-se sobre a greve dos caminhoneiros. Meu padrasto, muito eloquente e muito informado, traçava um panorama dos acontecimentos. Meu tio parece exaltado. É curioso ouvir o burburinho da varanda. Preciso tirar o Poço da cabeça. Foi, passou, e ia mais movido por esperanças vãs.

17h49. Um alento se fez, meu amigo da piscina me chamou para descer por volta das 19h30, 20h00. Isso é muito bem-vindo. Não sei se levarei o meu computador, mas acho que sim. O único problema é que não há gelo para levar lá para baixo. O gelo que há está na varanda para os convidados. Se sobrar e se esses já tiverem partido, eu levo o balde. Acho que levarei o computador também. Estou com preguiça dessa movimentação toda, mas tenho tempo para me aclimatar com a ideia. Acho que vou fumar um cigarro. Não, não vou agora. Acho que vou botar uma Coca no congelador para gelar. Para levar lá para baixo. Droga, acabei de ver que esqueci a bateria no computador, isso acaba com a vida útil da bichinha. Agora me decidi a levar o computador lá para baixo. Vou fumar um cigarro e botar a Coca para gelar.

18h18. Parece que o pessoal já está indo. Talvez possa descer antes do esperado e que sobre mais gelo do que supunha. Minha mãe está superfeliz com as visitas. Eu, como odeio despedidas, me entoquei no quarto. Ademais, acabei de fumar um cigarro. Estou “contaminado” pelo cheiro.

18h51. Meu padrasto me intimou a ir acompanhando a família até lá embaixo. Não foi ruim, só não gostei da coerção. Vou bater os contatos com o meu amigo da piscina.

Quando Mário entra no segundo capítulo de sua vida, uma salva de aplausos se dá. Quando ele tira o computador outra, outra agora, outra quando se senta. Uma depois desse ponto final. Que negócio curioso a existência – salva de aplausos – pode ser – salva de aplausos, salva de aplausos –. Mil pensamentos, Casa de Papel, primeiro episódio, e Beast of Nation. Chegou um grupo aqui. Vou meter um “Bastards” de Björk. É um aniversário gigante, estavam cantando “Parabéns Pra Você”, no colégio talvez. Bom, vou botar Björk; grande levante. E palmas. Meti Björk no universo. O meu mundo agora é banhado por Björk e não me incomodo que chegue até os caras, acho que estou educando-os. Eu, um coroa de 41 anos, fumando, e botando o som mais moderno que existe, o CD de remixes de Björk. Caralho, é um som muito do caralho, perdão pela expressão. Eu visto camisa regatas vermelhas, uso óculos, estou com o cabelo e barba cortados de maneira decente, as extremidades da regata, ombros e gola, azuis-marinhos. Um coroa que apagou o cigarro e vai pegar o Vaporfi e mais Coca, que aumentou o som para ouvir e difundir e ouvir melhor “Virus” e que acaba de desativar o clickpad, touchpad, sei lá o nome. A música tem um som de uma mulher que traz desespero e sofrimento, é muito doida. É fantástica. A existência está me sendo especialmente generosa, me fazendo ter esses momentos e de contemplá-los dessa maneira. Não acho que a figura que descrevi seja ameaçadora para os rapazes da piscina, certamente é a de um cara que está botando o som para a galera ouvir, quebrando o silêncio da piscina, com uma Björk mais que épica, iluminada, poderosa, plena, incrível. “Mutual Core”. Estou deixando aspas e itálicos para colocar na revisão. É fantástico este disco, não há outra palavra para descrevê-lo. É um que preciso ter em CD. Vou procurar quando for à Alemanha, já um motivo para ir passear pelo centro e ir até a Saturn. Espero que ainda haja CDs de boa como possuía antigamente. Já me vejo lá, mas não vejo mamãe andando por lá, só se for de muleta mesmo. Acho uma boa marcarmos de nos encontrarmos de quando em quando para ela sentar e eu poder levantá-la depois e pudermos interagir enquanto lá, no coração de Munique. Um lugar plural, altamente globalizado, onde há pessoas de todas as partes do mundo, todos de certo porte financeiro, embora se vejam também mendigos e artistas de rua, mas nunca bandidos. Embora haja os trapaceiros, mas geralmente são imigrantes. Estou muito imerso na música. Sovaco fedido é sinônimo de banho. Preciso tomar um banho hoje, mas com 42 graus.

20h41. Finalmente, parei e tirei o Vaporfi, dei umas baforadas e vou beber a Coca. A coca pede o último cigarro. Só terei quatro para fumar amanhã. Pensando aqui no meu amigo da piscina, que quer dar uma pausa de uma semana no fumo. Eu faço o contrário, em vez de parar e depois voltar fumando com tudo, eu prefiro fumar menos continuamente. Ou com gradações. A primeira gradação é o primeiro dia, festa; o segundo dia, moderação; o terceiro dia, penúria. Até recomeçar o ciclo com a nova carteira. Hoje estou no segundo dia, moderação, que me permite fumar esse cigarro que está comigo. É muito bom fumar na vibe da piscina. Não venho todo dia, não vou me privar disso. O clima está agradabilíssimo, uma leve, muito leve brisa bate da minha esquerda para a minha direita. É muito doido o remix, putz, estridente às vezes. Mas são quase todos geniais.

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14h10. Como tenho mais uma página, vou utilizá-la. Me sinto um pouco intimidado, com medo de escrever besteira. Acho que é porque Tico e Teco ainda estão despertando. Hoje tenho café e não tenho terapia. Devido à greve dos caminhoneiros. Mamãe e meu padrasto conversavam sobre o assunto na cozinha enquanto serviam-se do almoço, realmente é um assunto que está gerando uma comoção nacional. Ontem foi agradável estar na piscina, estava saturado do meu quarto-ilha e poder fumar cigarro enquanto escrevo é um grande prazer, por poucos que tivesse. Fora que a presença de sempre as mesmas coisas, coisas marcantes com o Nintendo Switch e principalmente o Hulk, pode se tornar cansativa, repetitiva. É bom dar uma variada, estar num espaço aberto, com verde, água, paz, ainda tendo a vantagem de ser o mais velho e ter um computador com caixa de som relativamente potente e botar Björk para um bando de rapazes, muito mais jovens do que eu ouvir. Não tem preço. O sono de ontem para hoje foi com os remédios, então sem sonhos. Lembrei que meu pai disse que teve que quebrar o braço do cadáver do meu avô para poder vesti-lo. Ainda bem que não tive que passar por nada semelhante com o meu pai. Não gostaria de ver se corpo nu aberto e costurado como um galeto recheado pela autópsia do IML, seria chocante demais para mim. Ainda bem que a indústria da morte cuidou de tudo. Para isso ela serve, por mais que pareçam urubus em cima da carniça e isso seja irritante. Lembro que minha tia escolheu uma frase de João ou Francisco, se não me engano, para ornar o caixão, por mais que papai não acreditasse nessas coisas. Acho o taoísmo, como ficou para mim do que li, que não foi muito nem pouco, mas o suficiente, desta que foi a “religião” que papai acolheu como sendo a que mais se identificava, possuía diversos livros sobre o Tao, foi que o taoísmo é construído em cima de contradições e paradoxos, do tipo, sei lá, o Tao é e não é, ou coisas do gênero. Não consegui me adequar à religião, precisava de algo materialista para crer. Por isso meu deus é o que a tecnologia será algum dia. Se houver reforma do meu quarto mesmo, não quero falar disso agora. Tratava da vida e da morte, de deus e suas diferentes definições/compreensões. Da diferença entre a religião do meu finado pai e da minha. A reforma me parece algo distante desses assuntos e algo que desejo e não desejo ao mesmo tempo. Não desejo porque não vejo solução para caber tudo o que tem que caber no quarto, além de tudo o que já há aqui. A página sete está acabando e pretendo fumar um cigarro. Vou tirar uma foto de que para ilustrar o post de hoje? Deveria ter tirado da piscina, mas esqueci completamente e já tirei tantas da piscina. Não sei, pensarei em algo, talvez do som. O som quase nunca aparece.

14h49. Tirei. E há um monte coisas acima e ao redor do som. Nunca havia me dado conta.





14h50. Já estou sem assunto para esse post que dirá para o que começarei a construir em breve, quando acabar a página sete. Fiquei na dúvida se a frase anterior terminava ou não com interrogação. Deixei com ponto final, como se vê. O meu som é algo que em cinco ou dez anos vai ser um objeto de museu, ultrapassado. Com todo mundo ouvindo streaming, só precisarão daquelas caixas bluetooth. O celular ou computador vai ser o som, será necessário só comprar a caixa para amplificar o som. Eu seguirei com o meu dinossauro, que tem bluetooth, não é tão jurássico assim, e tem caixas relativamente grandes, potentes. Me deu uma vontade de abrir o jogo para quem de direito, mas ainda não é a hora. Nossa, se já estou sem assunto agora, imagina para post novo? Fiquei na dúvida novamente quanto à pontuação. Acho que vou acabar este post aqui. Foi só falar que pulo para o começo da oitava páginas. Revisar, publicar e começar um novo. Sabe-se lá com que conteúdo.

terça-feira, 15 de maio de 2018

ABERRAÇÃO


O negócio com Ju hoje foi denso. Cheguei à conclusão que me vejo como uma aberração em todos os âmbitos da minha vida (social, familiar, afetivo, profissional, pessoal etc.). A pior notícia nem é essa. É que só quem pode mudar essa visão de mim sou eu mesmo. Ju disse que me vê qualquer coisa outra muito diferente de uma aberração. E eu não tenho a mínima ideia de por onde começar. Penso que a aprovação do livro por quem de direito me faria escritor. E isso seria fundamental para a minha autoestima. Ser digno de ser publicado porque alguém meritório acha válida tal publicação. Me dizer escritor, o que só posso me considerar dessa forma, faria um bem enorme para a minha autoimagem. Mas não guardo muitas esperanças disso. O mais irônico é que, se publicado, serei execrado pelos leitores. E muitos deles provavelmente serão meus amigos. Então vencerei por um lado, realizando o meu maior sonho profissional e perderei por outro, pois todos os meus amigos e quem mais ler me terá por um canalha imoral e pervertido. Se não for publicado, nunca realizarei um dos meus dois maiores sonhos e tudo permanecerá como está. Não sei o que dizer nem o que pensar. Ou sei, prefiro realizar o meu grande sonho – e novamente para isso preciso da anuência de Seu Raimundo ou de uma editora – e receber o repúdio à minha pessoa do que passar a vida inteira ou o que me resta dela, me achando um blogueiro de meia tigela. A realização profissional nos meus moldes, me seria um pilar fundamental da minha autoestima. O que as pessoas vão achar já me é aguardado. A pena de ser excluído socialmente me dói profundamente, mas anseio ainda mais profundamente ser reconhecido como escritor. Queria não me sentir medíocre uma vez na vida. Queria sentir que alcancei o meu grande sonho, que cheguei lá, que viram valor na minha obra. Valor esse que eu mesmo não enxergo nela. Mas como acho que tudo o que sou e que faço uma merda, quem sabe eu possa estar enganado dessa vez. Seria a vez perfeita para cometer tal engano. Em me sentindo escritor eu me sentiria um ser humano válido e isso mudaria radicalmente a minha autoimagem. Pena que dependa dos outros para isso. E nem sempre os outros correspondem às expectativas. Bem que poderiam corresponder dessa vez. Mas não acredito sinceramente nisso. Contraditoriamente, guardo esperança de realizar o meu sonho. Está entregue às mãos do destino/acaso. Queria tanto mudar minha percepção de mim de aberração para excêntrico apenas. Mas isso é muito difícil, acho o meu fracasso tão completo e total, em todos os âmbitos, que não sei como jamais mudarei essa visão de mim. A pergunta que Ju me fez é que me deixa ainda mais encasquetado: de que me serve esta posição de aberração? E mais, por que tenho que estar à altura das expectativas do meu pai? Por que preciso estar à sua altura? Eu que o coloco num patamar extremamente alto? Inalcançável para mim? Por que não posso eu mesmo desenvolver o meu padrão de qualidade? Um que seja mais adequado a quem eu sou? Simples, porque acho o padrão de qualidade do meu pai o ideal. Se estiver de acordo com esses padrões que eu mesmo julgo inalcançáveis, serei um ser humano válido. Não confio em mim o suficiente para determinar os meus próprios padrões de qualidade. O único lugar onde consigo alcançar isso é nas palavras. A única válvula de escape, o único lugar onde me sinto livre dos grilhões que, no final das contas, eu mesmo me imponho. Os padrões de qualidade do meu pai não entram aqui porque ele não era dado a escrever, logo não há como aplicá-los aqui. Tampouco os da minha mãe. Aqui os padrões são meus e são bastante mais flexíveis que os deles. Meu pai nunca ousou se dizer em palavras, intimidado que era pela sua própria enorme bagagem cultural. Minha bagagem cultural é leve, não me pesa a ponto de impedir as minhas palavras. Aqui, no meu quarto-ilha eu sou rei, aqui nessas palavras sou déspota muito pouco esclarecido. Nos demais lugares, me ponho com personagem secundário ou terciário. Novamente Ju me questiona, de que vale estar nesses papéis secundários? A respondi que era para não perceberem o grande imenso e gigantesco fracasso que sou. Que eu acredito que seja. É necessário me lembrar que quem me determina aberração e fracassado em primeira e última instância sou eu mesmo. Eu definitivamente não sei lidar comigo mesmo. Ju disse que eu posso abrir mão das expectativas dos outros. Do meu pai, da minha família, da sociedade. Viver de acordo com as minhas expectativas. Mas eu não sei quais elas são. A minha grande expectativa é ter o reconhecimento de Raimundo Carrero. É alta o suficiente para passar pelos padrões de qualidade do meu pai. E me daria por satisfeito com a sua bênção. Me sentiria válido uma vez na minha vida. A vez mais importante de todas. Mas tenho que botar na cabeça que isso não vai acontecer, que é delírio meu. E decidi que não mais aperrearei o velho escritor em busca de uma posição. Se der três meses e ele não me responder, é porque nunca mais vai me responder. Talvez envie um desabafo a ele. A esse direito pelo menos eu posso me dar. Mas se ele me respondesse positivamente, ah, que maravilha, poderia olhar firmemente nos olhos dos meus pares e me dizer escritor. Mas isso não vai acontecer seu idiota, seu texto é medíocre. Esse Raimundo Carrero nunca vai lhe responder. Ponha isso na sua cabeça oca de uma vez por todas. É o superego enxerido. Como queria que ele estivesse equivocado essa única vez. Mas já faz quinze dias, já era tempo para alguma comunicação se esta fosse acontecer. Mas esperarei até a minha amiga revisora entregar a primeira revisão. Tudo a seu tempo, foi o que Ju me disse. E é uma frase que tem me perseguido ultimamente. Tudo pode ser ainda, inclusive nada. Mas nada é apenas um dos diversos resultados que podem acontecer. Vamos ser um pouco otimistas. É porque acho que um dos meus dois maiores sonhos se realizar impossível. Não me acho merecedor disso. Já tendo sido agraciado de tantas maneiras na vida. Acabei até de ganhar um iPod que mamãe não usava mais para mim. Pena que seja dos que tem tela, mas é muito melhor que nada. Já atualizei e formatei, não tenho coragem de escolher as músicas agora. Coloquei algumas, mas vai me custar um tempo enorme, prefiro fazer isso depois, por mais que tenha me dispersado completamente do texto.

19h55. Coloquei todas as músicas que queria no iPod, agora ele não quer ejetar. Vou tentar mais uma vez abrir o iTunes para ver se funciona. Consegui. Pronto. De volta ao texto. Mas antes, uma Coca e um cigarro.

20h10. Voltando a ser uma aberração, bom, não me agrado desse papel em que eu mesmo me coloco. O isolamento é parte do que intensifica essa condição, as interações sociais vão se tornando tanto mais penosas quanto mais tempo passo isolado. Não sei que solução dar a isso, pois não a diviso. Todos trabalham, então só me resta ficar aqui escrevendo enquanto aguardo o final de semana e a possibilidade de uma saída. E cada vez me sinto menos motivado a sair. Toda a minha vida parece um enorme vazio nesse momento, só me agarro a estas palavras para subsistir. É certo que amanhã terei uma saída muito especial. E por isso mesmo temida. A ansiedade me acomete antes de qualquer evento social nos dias de hoje. Mas não posso dar para trás amanhã. Pode significar um caminho para a publicação do livro. Ou não. Sei lá, sei que se alguém pode me tirar do papel de aberração esse alguém sou eu. Eu tenho que me aceitar, eu tenho que me dar valor, eu tenho que gostar de mim, mas eu não consigo, é difícil demais. Não sei nem por onde começar. Aliás, sei de um excelente começo, o bendito livro, mas o que quero alcançar com ele não depende de mim. A minha parte eu já fiz. Falta pouco, ajeitar o livro com a incrível revisora. Afora isso é ver o que vai se dar amanhã e torcer para Seu Raimundo ler o livro e gostar. Em ambos os casos estou na mão de terceiros. Da boa vontade deles. Será que Seu Raimundo terá essa boa vontade com um desconhecido? Acho duvidoso. A demora da sua resposta para mim só pode significar duas coisas, ou achou uma porcaria e nem vai me responder, ou gostou e está lendo e me responderá a seu tempo, quando tiver terminado a leitura. Sei lá. Já martelei tanto e tanto sobre esse assunto que não tenho mais nem cara de comentar isso aqui. Sei que sua bênção seria um milagre para a minha autoestima. Eu me sentiria digno, válido, escritor de fato. Eu me sentiria alguém. Me sentiria mais interessante e me daria um pouco de importância. Mas isso até agora é só delírio da minha cabeça. E provavelmente continuará sendo. O que faço é só descrever, não é escrever. Estou me iludindo à toa. Vai ser uma decepção enorme. Nossa, chega dá vontade de chorar. Juro. E não sou dado a lágrimas. E elas não virão. Uma ponta de esperança reside em mim. Acredito que pelo menos uma resposta ele há de me dar, não é possível. Aliás, é completamente possível. Aberração. O próprio livro me pinta como uma aberração. Eu me pinto como uma aberração. Eu não sei como desfazer isso, Ju. Isso me angustia. É um pensamento doloroso esse que me imponho. O que teria que fazer para me sentir um ser humano válido que não envolvesse o livro? Eu sinceramente não sei. Para mim tudo em mim aponta aberração, até com certo escárnio. Eu confesso que estou perdido em mim mesmo. Não consigo entender como as pessoas gostam de si mesmas. Tal sentimento me é alienígena e sempre foi. A não ser por um curto período de tempo em que repetia incessantemente que gostava de mim. Essa autossugestão funcionou e me senti bem por um mês ou dois. Depois deixei de praticar e isso evanesceu. O papel com os comandos ainda está grudado na minha parede, de repente se eu ficar repetindo de novo faça alguma diferença. Mas me parece uma coisa superficial e não interior. Talvez tenha que me conformar e seguir a existência miserável de aberração. Desistir da humanidade, me isolar definitivamente no meu quarto, o que não solucionaria nada, pois continuaria a me sentir aberração aqui dentro como me sinto no momento. Por que eu sou uma aberração? Porque sou um fracasso como filho, sou um fracasso como escritor, sou um fracasso socialmente, sou um fracasso com a família, sou infantilizado, sou imprestável, sou preguiçoso, incompetente, fraco, inseguro, sou barrigudo, não tenho vaidade, não tenho o pau grande, não tenho lábia, não tenho atrativos, sou dado a platonismos etc. Ficar sozinho no meu quarto a escrever é o maior prazer da minha vida medíocre e não quero substituí-lo por nenhum outro. Eu realmente não sei o que fazer. Além do que tenho um caráter para lá de duvidoso. Eu não sei de que essa humilhação pública me vale. Pelo menos exponho a mim mesmo as coisas que me levam a crer que sou uma aberração. Combater todo e cada um desses fatores me levaria duas encarnações. Ainda bem que não acredito nessas crenças, essa vez já está de tamanho bom demais para mim. Seria uma verdadeira maldição continuar sendo eu mesmo após a morte. Seria uma piada de muito mau gosto do criador. Pediria para ele me deletar do sistema, dá control + shift + delete na minha alma ou sei lá o que quer que eu fosse. Colocando o livro aprovado por Seu Raimundo na equação, transforma bastante o quadro. Mas isso é devaneio, que saco. Tenho que parar de me agarrar no que não vai existir. Saco. Não sei mais o que dizer. Cutucamos a onça com vara curta hoje na terapia e ela me abocanhou de uma só mordida. Não estou suportando nem as palavras. Hoje estou me sentindo mais do que costumeiramente uma merda. Bom, esperemos por amanhã.

21h13. Se amanhã houver, pois meu tio veio falar comigo e não sei do que se trata. Talvez tenha lido o meu post. Espero que não. Nem lembro o que coloquei. Mas não acho que o denigra de alguma forma. Talvez tenha dito que não guardo grandes esperanças a respeito da publicação, se muito. Pelo menos essa comunicação me roubou um pouco de mim. Estava muito ruim estar imerso em mim no parágrafo anterior. Não quero mais pensar em mim como aberração. A vida é muito curta para ficar me martirizando assim. Se eu sei como me aceitar? Não. Mas remoer tudo o que acho equivocado e odioso em mim de nada vai adiantar nesse intento. Então deixar esse papo pesadão e autodegradante de lado. E ver outras coisas. Bom, meu tio silenciou-se. Não sei qual foi. Talvez não vá haver a gravação do tal programa de rádio amanhã. Bom, não sou adivinho. Me coloquei disponível.

21h25. Agora fiquei curioso. Mas não deve ser nada demais. Ou é o que eu espero que seja. Sei lá. Estou apenas querendo saber o que ele quer me comunicar.

21h30. Bom, vou continuar a escrever. O meu WhatsApp está conectado. Se apitar eu vejo. Mas é isso, a vida é muito curta e é preciso amá-la, isso eu consigo. Mas o tal do amor próprio é um bocado mais difícil. Não adianta, não consigo me concentrar com essa expectativa do que é que meu tio queria comigo. Estou virando uma pessoa ansiosa, qualquer migalha de novidade já mexe comigo. Acho que porque minha vida é tão isenta desses acontecimentos que qualquer coisinha me causa frisson. Acredito que seja precisamente isso que se dê. Espero que meu padrasto não detone a paella hoje porque aí quem a detonará sou eu. Já estou até com água na boca. Do mesmo jeitinho de ontem, acompanhada de Ruffles cebola e salsa.

21h37. O mistério continua. Espero que não seja nada de ruim. Não sei o que dizer no momento. Estou ouvindo “Utopia” de Björk pela enésima vez. Já estou saturado do álbum. Acho que vou botar a lista 6 para rolar, faz tempo que não ouço.

21h42. “In a Little While” do U2 rola como refresco para os meus ouvidos. Agora “Aurora” de Björk. Não sei como as coisas vão se dar se o meu livro vir à luz dos olhos do público. Especialmente para duas pessoas muito especiais para mim. Se bem que o pandemônio vai reverberar muito além delas, mas elas estão no epicentro. Terei, como já disse aqui inúmeras vezes, abrir o jogo antes da publicação. E correrei o risco de perder duas amizades preciosíssimas. Nossa, porque a minha vida se dá assim? Não poderia ser um pouco menos complicada? O meu maior sonho ser a razão da perda das minhas maiores amizades. Mas o destino/acaso se desenhou assim. E bote destino/acaso nisso. Sei lá, mas acho que não vou encontrar quem de direito para aprovar a minha obra como meritória, alguém que eu reconheça como tal. Então o que vai acontecer é que nada vai mudar. O sonho vai morrer no nascedouro. É tão mais simples assim, por que querer sonhar tão grande? Para me sentir menos aberração ao me afirmar uma. É um contrassenso, eu sei. Mas minha vida parece repleta deles. A canção tema da Garota da Noite toca, “Cantada (Depois de Ter Você)”. É uma música que adoro, diz tudo em pouquíssimos e precisos versos. Mas a Garota da Noite é passado. Ela me despreza merece o mesmo comportamento em troca. Já fiz demais por essa causa, joguei a toalha.

22h00. Pelo visto o meu tio desistiu de falar comigo. Que coisa estranha e curiosa. Bom, a vida tem dessas coisas. Amanhã às 18h00 estarei pronto à sua espera. Se aparecer, apareceu. Mas creio que vá se comunicar comigo ainda. Minha vida são esperas ultimamente. Vixe, até uma cover trash de uma música de “Mario Galaxy” me soa como algo revigorante aos ouvidos. Estava cansado mesmo de ouvir as mesmas coisas. Quem sabe eu não deixo a paella para minha mãe e meu padrasto e coma dois Miojo. É uma. Estou a encher linguiça porque não consigo tirar a cabeça do que meu tio queria comigo.

22h23. Acho que ele desistiu. Ou assunto de maior relevância se alevantou. Já tomei os remédios, o que posso mais eu dizer? Não quero entrar na história da aberração porque é muito sofrida no momento. E, como disse, é perder tempo ficar me denegrindo. Não leva a nada de produtivo. Não acho que essa tenha sido a ideia de Ju sobre deixar as ideias remexendo dentro de mim. Ela não quer que eu me afunde na minha própria lama, ao contrário quer que eu veja coisas válidas na minha condição de ser eu. Essa parte me é dificílima. Já tentei fazer esse exercício outras vezes e não fui muito bem-sucedido. Eu amo a minha mãe, acho que isso é uma coisa boa e uma conquista nova. Não é mais amor e ódio. É amor apenas. Poderia fazer a barba e cortar o cabelo amanhã, o que seria uma forma de autovalorização eu creio, por mais que pouco se me dá se não tenho ninguém para agradar. A mim não faz diferença pois só olho no espelho para pentear a juba. Vim meio despido de vaidades estéticas para o mundo. Adoraria acordar sarado, mas não tenho disposição para alcançar tal meta. É só fechar a boca um pouco mais que eu começo a perder peso, não é tão difícil assim. Eita, agora é a música tema de Clementine que passa. Só vai faltar a de Aurora, que acho que está nessa lista. Modéstia à parte, eu escolho lindas músicas para as minhas paixões platônicas. Se bem que essa quem escolheu foi a própria mãe ou assim reza a lenda. Eu estou enjoado de Clementine. Não tenho mais paciência para ocupar meus pensamentos com ela. Cansei também. Só a solidão me é fiel e companheira e possível. Isso é um tanto triste, mas já foi mais, acabei acostumando. Por falar nisso, o texto que lemos na terapia é um convite ao amor. Amor-próprio, amor de amantes, amor de amigos, amor materno, amor em todas as suas formas é, quase sempre uma coisa boa, mesmo o amor solitário e impossível, eu acho. Eu estou meio fechado para o amor. Alguém que me apetecesse teria que me convidar para o amor, pois eu me sinto incapaz de fazer esse convite. Pensamentos de fracasso rondam a minha cabeça como muriçocas. Ou urubus. Pelo menos tenho o meu Hulk aqui, eterno companheirão.

22h45. Nenhum sinal do meu tio. Melhor seria que não tivesse me enviado mensagem. Me chamar e sumir é no mínimo esquisito. Vai ver se perdeu no bilhão de atividades que faz e eu acabei ficando para trás. Bom, se fosse caso de urgência já teria se comunicado. Então creio que não seja nada de relevante. Mallu canta a deliciosa “Love You” que entrará em um dos meus projetos paralelos. Certamente. Saudade danada de ouvir Mallu. Espero que as meninas tenham gostado de fato do presente. Se não, que posso eu fazer? Absolutamente nada. Hahaha. U2 com “Promenade”. Linda, linda. Acho que é uma das minhas prediletas do U2 de todos os tempos. Está sendo ótimo ouvir a lista 6 até que ela não comece a tocar Faith No More sem parar. Gosto do “Angel Dust” mas não estou na vibe. Quero músicas ensolaradas ou estreladas, bonitas, agradáveis, não agressivas e pesadas. Já me basta o peso que carrego nessa cada vez mais velha alma. Hoje não soube aproveitar a deixa de Ju, mas acho que o negócio é deixar as neuras para lá. Começou Faith No More. “Falling To Pieces”. Não adianta eu escrever sem ter nada a acrescentar. Só estou curtindo a minha lista de músicas, nada mais acontece. A abominação aqui está sem ter o que dizer.

23h09. Não estou nos meus melhores dias. Nem sempre se está. Tenho tanta coisa para deixar para trás que chega me assusta eu que as carreguei todas esse tempo inteiro. Desde que me entendo por gente. Não sei por que alguém me teria por alguém inteligente. Até hoje me é um grande mistério. Talvez por ser filho do meu pai. Meus irmãos sempre foram tão mais e além de mim. Não entendo. Ouço a música que meu irmão dedicou a nós três, “Orange Sky” de Alexi Murdoch. Mamãe quer que, caso eu coma a paella, deixe a maior parte para o meu padrasto almoçar amanhã. Acho que vou fazer dois Miojo para mim mesmo. Se tanto fizer. Acho que vou detonar só a Ruffles cebola e salsa e o resto do Sucrilhos. Vou comer. E vou dormir, acho eu.

23h45. Comi uma farta porção de paella com a Ruffles e deixei ainda uma porção generosa para o meu padrasto, uma vez e meia o que jantei mais ou menos. Espero que seja o suficiente. Acho que vou tentar dormir, para que esse dia um tanto depressivo acabe logo. Fui chafurdar em mim, acabei não gostando nem um pouco do que vi. Eu tenho que pensar que tudo são fases. Eu não sou mais o ser que habitou o Manicômio naquela internação de dois anos atrás. Mas quem eu sou não considero muito melhor do que aquele. É uma triste constatação e não quero ficar revolvendo o lixo que sou. Bom, sem mais por ora, fico por aqui. A casa está de pernas para o ar, minha mãe está meio desgovernada e sentindo fortes dores no joelho. Isso me preocupa. Estou com muita pena da minha mãe e não sei como ajudá-la, como ampará-la da melhor forma. Nem como filho eu sirvo. Aberração dos diabos. Acho que minha mãe está inclusive um pouco deprê com a sua situação e se sente meio perdida. Eu não sei o que fazer. É, acabou pior ainda o meu dia com essas percepções sobre a minha mãe. Espero que o dia de amanhã compense de alguma forma. Ou não. Para falar a verdade, nesse momento tanto faz. Vou comer um Grego de frutas vermelhas para pelo menos dormir com o aftertaste delicioso do iogurte em minha boca.

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Acordo um pouco melhor, mas já com um pedido de folder para fazer. Sim, meu tio. Acho que era sobre isso que queria debater ontem. Estou esperando que replique a mensagem que o enviei. Me disponibilizei a fazer o folder. Mas preciso deixar claro para ele que quando eu achar que não dá mais, não deu. Não sei bem como fazer isso. Ah, são 11h51. Ele me mandou a mensagem às 10h00 e eu acordei às 11h00. O meu post de ontem já teve 34 visualizações e foi curtido por três pessoas, uma excelente marca. Um(a) leitor(a), não sei pois seu nome é Deus Carmo, elogiou meu texto e parece dominar profundamente a gramática, o que é um duplo elogio. Deu-me até uma dica de escrita, da qual só entendi o principal, a explicação sobre particípio e auxiliar não fizeram o mínimo sentido para mim, pois, embora me sejam palavras familiares, ignoro por completo os seus significados. Ser elogiado por alguém que entende é fenomenal. Já ganhei o meu dia. A música tema de Aurora passa. É tão evocativa para mim e me toca profundamente. O que o destino/acaso me reserva? Já me revelou um folder. Golpe inesperado. Folder é uma das peças que mais odeio fazer, mas tentarei o meu melhor. O que não faço para realizar o meu maior sonho. Mas ganhando um elogio espontâneo de alguém que entende de português sinto-me menos aberração. É tão raro receber elogios ultimamente. E ainda mais elogios à minha escrita. Esses são raríssimos. E preciosíssimos porque a escrita é a maior parcela do que eu sou, da minha vida. Quem sabe – já penso novamente em Seu Raimundo – ele não veja também tais qualidades no meu texto? Mas aí é sonhar alto demais. E, pior, voltar à neurose. Não a quero agora. Estou inseguro em relação a fazer o folder. Há tanto tempo não faço um. A melhor parte de ser dia para mim é olhar o Hulk em toda a sua exuberância. É muito pouco com tanta coisa no mundo para ser ver de dia, mas me basta. Pouquíssimas pessoas das sete bilhões que existem no mundo têm a oportunidade de ver o busto do Hulk. Eu sou uma delas e aproveito isso ao máximo. “The Loudest Sound” do Cure passa. Achei curioso que, ao procurar vídeos dela no YouTube, a maioria tinha a mesma impressão que eu, de que música trata de uma cena à beira-mar. Hoje acho que fala de um casal de velhinhos, com uma enorme história de vida, que caminham silenciosamente pela praia.

13h07. Nenhuma resposta do meu tio. Nem sobre o folder, nem sobre o encontro de hoje. Acredito que ainda vá responder.

13h14. Estou meio sem inspiração para escrever. A Coca aqui de casa acabou, não tenho dinheiro para comprar mais e não sei que horas mamãe chega. Também disponho somente de dois cigarros, queria ter a nova carteira caso vá ter com o meu tio hoje. Ainda inebriado com o elogio em relação ao meu texto. Realmente é uma coisa que recompensa todo o trabalho e dedicação. Por mais reles que seja o conteúdo. E mesmo assim. Hahaha. Entro na última página desse post e não sei se receberei a resposta do meu tio ou não. Também estamos no meio do horário de almoço. Só por hoje me sinto menos medíocre como escritor. Como há pessoas com facilidade para conseguirem ser publicadas. Vi agora que esse meu tio do folder foi ao lançamento do livro de Maciel Melo. É muito mais fácil ser publicado quando se tem um nome ou talvez ele próprio tenha optado por se publicar, quem sabe. Mas a impressão que me dá é que alguma editora o publicou. Confesso que não sei o que Maciel Melo faz da vida, tenho que é algo regional, não sei se em canção ou em forma de causos. Aparentemente seu chapéu e óculos são icônicos porque ilustram a capa da obra. Bom, que seja. Não posso invejar o jardim do vizinho, tenho que cultivar o meu. As sementes foram todas plantadas, vamos ver se alguma vinga. Quero escrever, mas poupo espaço para ver se cabem as respostas do meu tio nessa página. Lembrei que estou sem Coca. O negócio seria fazer um café. Acho que é o que farei quando o meu padrasto for para o seu escritório. E encher umas caçambas de gelo. Umas oito, pelo menos. Quer saber? Vou escrever, não vou ficar poupando palavras. Aliás, vou fazer o café.

14h28. Fiz o café e enchi as caçambas e nada do meu tio. Novamente deve ter coisas outras, mais importantes para fazer. Espero que se lembre do encontro que teremos hoje. Ou não teremos, sabe-se lá. Mas acho difícil ele farrapar com meu outro tio e com o tal do poeta e artista. Pode farrapar comigo que não sou ninguém. O café ficou forte, me agrada. Estou sem muito conteúdo para compartilhar hoje. A obra em frente ao meu prédio, que encobrirá toda a nossa vista, está com cada vez mais peões trabalhando. O barulho peculiar de seus trabalhos invade o meu quarto e perturba Louis Armstrong e Ella Fitzgerald. “Tenderly”. Vou pegar mais café.

14h41. Perguntei se iria haver o encontro hoje às 18h00. Vamos ver se ele olha alguma das mensagens. Vi que a Garota da Noite finalmente visualizou a minha mensagem, talvez tenha lido o post, nunca saberei. O mosquitinho inconveniente ainda habita o meu quarto. Eita, “Poses” de Rufus Wainwright. Linda. Mas estava eu a sonhar com a Garota da Noite. Acho que o post que escrevi foi meio que uma despedida. Para o grande alívio dela, eu suponho. Que seja, a solidão me é fiel e nunca me abandona. Sou eu que às vezes a traio com a presença de outras pessoas na minha vida, mas somos bem caseiros eu e minha solidão. Geralmente saio e deixo ela em casa, mas noutras vezes me acompanha e me sinto só no meio das gentes. É quando a solidão é pegajosa e possessiva assim que ela me enerva e me põe cismado. No mais temos uma relação pacífica, só não vou com a cara do amigo dela que às vezes calha de nos visitar, o tédio. Ainda bem que o tédio não gosta de café, não suporta nem o cheiro, então para espantá-lo faço café. Tomei duas xícaras e já me sinto superiormente disposto e de bom humor. Eu com a minha solidão, sem tédio. Minha vida ultimamente é repleta de esperas, o que significa que muito da minha vida está nas mãos de terceiros, pois se dependesse de mim apenas, não haveria espera. Quem espera, espera geralmente pelo outro. Ou por alguma coisa ou por um acontecimento é bem verdade. Mas a maioria das vezes é pelo outro, seja num consultório à espera de um médico, seja num banco à espera do caixa, seja pelo amor da sua vida, que se você não investir nunca vai haver. Vou pegar mais café. No próximo café que for pegar fumo um dos meus dois cigarros. Nossa, saber que a Garota da Noite provavelmente leu o que eu escrevi mexe com a minha cabeça. Me faz quase crer na possibilidade de sermos um par. Possibilidade que em verdade não há. Deveria desencanar disso. E estou praticamente desencanado. Acho que é até o que deixo claro no texto Carta à Garota da Noite. Que é o que espero que ela tenha lido. Foi o link que a enviei. E surgiu do resultado de um papo num aniversário que fui, que foi ótimo por sinal. “Small Victory” do Faith No More, gosto muito dessa e, com cafeína no juízo, encaro melhor sons mais agitados, embora nem seja das mais agitadas. O livro, nos meus termos, seria the greatest victory. Mas eu estou um tanto descrente dessa possibilidade se dar. Se meu tio não me responder nem me arrumo para o encontro de hoje. Faltam menos de três horas para o horário combinado. Não vou me aperrear. Relaxar. O que tiver que ser será. Ou não será. Hoje estou meio no tanto faz. Talvez porque também não queira receber o folder para fazer. Será que meu tio vai continuar a me pedir trabalho mesmo depois e se o livro for publicado? Se for, farei mais dois após esse fato miraculoso e depois dou a nossa parceria por encerrada. Se há uma coisa que não quero fazer são layouts até o final da minha vida. Os faço a contragosto, como quem trabalha mesmo, em troca de uma recompensa, que é meu livro ser publicado por questão de mérito. Ou seja, no mínimo, que meu tio envie a uma editora para que ele seja avaliado se é digno ou não de publicação. O máximo seria uma resposta positiva de Raimundo Carrero. Não sei se mereço ou meu texto merece esse máximo. Mas, no fundo, acho que ambos merecemos. Não sei de onde tiro essa confiança toda, mas é uma fé que eu tenho, que basta dar tempo ao tempo. Se bem que meu lado pessimista me chama de idiota e diz que se Seu Raimundo fosse responder já o teria feito. Mas não vou entrar nessa quebra-de-braço comigo mesmo. É um sofrimento desnecessário. Acho que vou fumar o meu cigarro com café. Será que meu tio espera que eu ligue para ele? Odeio telefonemas. Bem, vou fumar. Levarei o celular, só por via das dúvidas.





15h41. Nada. Bom, sigo a minha rotina me dizendo então. Como me sinto agora? À espera. Mas não vou me focar nisso. Pensei ter ouvido a minha mãe me chamar. Acho que foi engano. Senão já teria me chamado uma vez mais. Ah, cortei as minhas unhas, estava me devendo isso. Por incrível que pareça tem Blink 182 na lista 6. Graças ao meu amigo Marinheiro. “No Future”. Não acho essa música ruim. Ouvimos muito durante a internação narrada na obra que sonho transformar em livro. Não enunciei o nome da música em nenhum momento da narrativa. Que seja. Se sentir necessidade acrescento, mas não vejo ponto realmente em enunciá-la. “Boys Don’t Cry” do Cure. Essa a maioria dos leitores já deve ter ouvido, não é possível. É, bem dizer, um clássico. Mas deixemos o som de lado. Se algo mais me chamar atenção na lista 6 eu escrevo aqui. Há o fato de uma certa cantora agora me lembrar uma certa pessoa. Mas isso não é assunto para cá. Aqui é território da Garota da Noite, até o aniversário desta. Preciso me lembrar de colocar o link lá em cima. Já havia esquecido desse detalhe. Mas a revisão me lembraria. Eu queria saber o que a Garota da Noite acha de mim. Mas é uma coisa que permanecerá um mistério e o qual não me assombra muito ficar sem elucidação. Tenho pelo menos a sensação de missão cumprida com a Garota da Noite. Fiz tudo o que estava ao meu alcance e além. Fui até onde podia ir. Para além daí, é pagar papel de palhaço demais. Se eventualmente nos cruzarmos e ela quiser conversar comigo, o que acho bastante improvável, serei todo ouvidos e espero que alguma fala. Mas por enquanto tal encontro está no rol das impossibilidades. Já ganhei o meu dia com o elogio de Deus aos meus escritos. Hahaha. Não é sempre que a divindade se dá a esse trabalho comigo. Diria que é a primeira vez que converso com ele(a) realmente. Hahaha. Embora, tenha havido uma vez que pareceu uma intervenção divina para não comprar cola, mas não dei atenção. Ou até dei atenção, só não obedeci a sugestão de não usar. Foi logo depois que o meu pai morreu. E eu tinha pressa, mas peguei um caixa em que a mulher da frente havia comprado várias lâmpadas e queria ver se todas estavam funcionando. Cada vez que o caixa acendia uma me parecia um sinal de alerta para não comprar a cola. E foram várias lâmpadas. Mas, fissurado que estava, ignorei tal “sinal” e comprei a cola mesmo assim. Espero que esse negócio de cola esteja definitivamente no meu passado como acredito que esteja. Me veio uma memória eufórica agora, mas não caio nessa mais, não. Melhor mudar de assunto. Eita, já estou na nona página e nada de o meu tio responder. Menos de duas horas para o suposto encontro e nenhum sinal de vida. 16h08. Bom, eu não vou me estressar com isso, a minha parte eu fiz. Se ele não faz a dele, não posso fazer por ele. Que seja. Quando a minha obra estiver devidamente revisada e editada por mim e, especialmente, pela incrível revisora, envio para as editoras. Com a bênção de Seu Raimundo ou sem ela. Se a editora aceitar já vai me ser prova suficiente de que eu sou meritório de ser publicado. Mas estou botando o carro na frente dos bois, pode ser que meu tio responda. Será que ele tem contato com Raimundo Carrero? Não aí iria ser demais, pedir para o meu tio ligar para ele e perguntar se ele está lendo o documento que o enviei. Hahaha. Seria absurdamente patético. Hahaha. Acho que o bom velhinho descartou a minha obra. E outra coisa me diz que não. Ele pelo menos me mandaria uma resposta, eu creio. Nossa, não vou entrar nesse pensamento cíclico de novo. Só faço falar nesse livro e nas possibilidades de validá-lo. Sai fora. “it’s a beautiful day” então tenho que desfrutá-lo com conteúdo outro por alguns instantes.

16h18. Tem dizendo que o meu tio viu o WhatsApp dele há quatro minutos. Se ele não me responde é porque não quer. Não há nada que eu possa fazer. E provavelmente receberei um e-mail dele com as fotos e o texto para montar o folder. Isso vai ser deveras sem graça. O pior desdobramento dos fatos possível. Me sentiria um tanto usado. Desrespeitado até. Mas acho que isso não vai acontecer. Se bem que todas as minhas expectativas são equivocadas. Então não sei ao certo o que esperar, só, bem, espero.

16h25. Preparei a foto do café para postar. Ainda não sei usar a câmera do meu celular direito. Um dia aprendo. “Despite all my rage I am still just a rat in a cage”. Mas como gosto da minha jaula, o quarto-ilha e fico confinado nele porque me agrada, não porque me obrigam, fico por livre e espontânea vontade. Está quente, acho que vou ligar um pouquinho o ar. Liguei. Esse post está me saindo imenso. Paro de escrever quando der 18h00. Ou antes, se meu tio se comunicar. Muito estranho o seu comportamento. Do meu ponto de vista, que tenho, eu mesmo, um comportamento bastante estranho. Bom, que seja. Nossa, como queria que o bom velhinho me respondesse positivamente. Mas acho que ele não vai me responder nunca. Ficarei na eterna espera do que nunca virá. Vamos manter a esperança até o dia 31 de maio. Depois dou por visto. Eu acho. Talvez ainda o mande um e-mail. Acho que não resistirei e mandarei. Penso em ser até um pouco arrogante. Não acho isso demais. Não faz o meu perfil. E ainda há muita água para rolar até lá. Eu creio. Eu só sei que tenho que matar um leão de ansiedade por dia à espera dessa bendita resposta do escritor. Ozzy demais. Por ser o acontecimento possível no mundo hoje que eu mais espero, anseio e desejo, não consigo ficar imune à expectativa. Que se renova a cada despertar. A esperança que não quer me abandonar. Queria saber se a incrível revisora já passou da metade do livro, mas não vou pressioná-la porque odeio pressão. Que ela leve o tempo que lhe cabe. Tenho até o final da vida para publicar. Não há pressa, ou assim espero. Hahaha. Afinal a indesejada das gentes pode chegar a qualquer momento, sempre é hora. Vou fumar o meu último cigarro. E botar talvez a última xícara de café.

17h13. Meu tio só mandou um e-mail com as informações do folder, não mencionou encontro nem nada. Repliquei perguntando do dito encontro de hoje, mas a essa altura já ficou tarde demais. Bom, whatever. Não me submeterei muito tempo a isso. Vou começar a fazer o folder.

19h18. Acabei de fazer o layout do folder, já desci para pegar o computador de mamãe no carro e depois para comprar Coca na pizzaria em frente de casa e fumar um cigarro na piscina. Vamos ver se vai haver a parte das alterações no folder. Cenas para o próximo capítulo.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

CASA DA TIA ÚLTIMOS DIAS - OLINDA





13h47. Familiares chegam para se confraternizarem aqui hoje. Eu já estou pronto para Olinda.

13h53. Meu primo-irmão também está pronto. Estamos esperando o nosso amigo cinéfilo. A família está reunida. Legal. Dá até vontade de ficar, mas minha curiosidade está voltada para Olinda. Quem sabe quando eu voltar não esteja rolando ainda a festa? Pela hora que iremos sair, acho difícil. Mas não emendarei de forma alguma para o Recife Antigo. Count me out. Não sei porque uso esses anglicismos, acho que para passar vergonha. Creio que vá ficar o tempo todo no casarão do meu tio por parte de mãe lá. Espero muito que ele realmente tenha ido. Caso não tenha, ficarei em frente à casa de um amigo do meu primo. Ficar me locomovendo muito no meio da massa é que eu não vou.

14h20. Vou levar o celular! Está numa pochete do Star Wars. Dentro da bermuda. Não é possível que levem. Só se for quando eu for chamar o Uber. O carnaval deve ser a farra do celular para os ladrões.

14h30. Meu primo-irmão pretende ficar em Olinda até o Homem da Meia-Noite. Se meu tio do casarão for dormir em Olinda até me aventuro. Isso se assistir o mais famoso boneco gigante desfilar de dentro da casa do amigo do meu primo-irmão. Eu estou muito antissocial, nossa. Nem ficar com a velha guarda na varanda eu quero. Quem será que, da família materna, aportará na casa do meu tio? Aposto que deverá estar cheia de pessoas. Uma casa em Olinda de graça é uma boquinha que poucos querem perder.

14h40. Até agora nada do nosso amigo cinéfilo.

(Nota: Eis os e-mails que escrevi durante a minha ida a Olinda.)

Assunto: Carnaval

14:59. Estamos tentando pegar o nosso amigo cinéfilo no centro. Está rolando um certo estresse. O motorista certamente não dará uma nota muito boa para o meu primo-irmão. O nosso amigo cinéfilo chegou, está ao meu lado.

15:13. Já estamos no engarrafamento para Olinda.

16:47. Estou sentado ao lado de Albertão. Não pretendo sair daqui. É um Carnaval muito plural o de Olinda. Há pessoas de todos os tipos, inclusive quase inválidos desfilando à minha frente. Temo que tomem o celular da minha mão. Minha mãe me incutiu tal paranoia, mas acho que estou seguro onde estou. Quando vier um bloco, eu escondo o aparelho. Por enquanto a rua está tranquila. Uma moça um tanto vulgar vestida de gatinha, mas que não é gatinha na minha opinião, parece ser uma presa fácil. Não me interessa. Aliás, até agora só vi uma garota que me chamasse a atenção. Um monumento, embora não muito alta, tinha um corpo exuberante que não fazia questão de exibir, usando um fio dental praticamente com uma saia transparente.






16:58. Parece que vai chover. Não é nenhuma novidade nessa época. Lá vem o monumento, está hospedada na casa da frente. As pessoas passam cada vez mais ébrias. Devem ter chegado cedo aqui. Vou observar um pouco mais a festa de momo.

17:09. A rua está mais cheia. Colocaram um som em uma das casas. Rola algum dos pancadões de hoje em dia. Os ex-alunos de Albertão que aportaram aqui se animam com o som. Há muitas mulheres vestidas de policiais dominatrix.

17:27. Acho que não vai mais chover. A noite vai se derramando lenta pela cidade Alta. O monumento está sentada em frente a mim do outro lado da rua.

17:32. Um bloco de anciãos cantando músicas da velha guarda acaba de passar por aqui.





17:34. A turma disse que passaria aqui depois do Eu Acho É Pouco. Disseram que o bloco acabou de sair.

18:08. Passou o bloco dos Papudinhos de Bonsucesso. Vi mais uma delícia ler e KY is u going  home for a long time long time here u ikon..  Ipassando. Acho

(Nota: não sei como esse texto em inglês foi parar no post, mas é deveras curioso. Interrompi o texto pela metade porque fiz alguma besteira no celular.)

Assunto: Olinda II

18:23. Nada dos meninos. Ainda estou sentado ao lado de Albertão. Mandei um WhatsApp para a minha mãe, para tranquilizar a véia. Nossa, o monumento com esse biquíni virada com a bunda pra mim é um colírio. Vou aproveitar a vista. Foi só falar e ela sentou. Que pena. Não sei mais o que dizer, o clima esfriou mais, acho que muitos foliões já devem ter dado o dia como visto e terem ido pra casa. Imagino a ressaca coletiva amanhã.

18:57. Os meninos chegaram há alguns minutos. Deliberam ir para um lugar chamado Fortim para assistir shows do Eddie e Ave Sangria. Acho que se eles forem, eu vou. Eu acho.

19:04. A galera ainda não decidiu o destino.

(Nota: fim dos e-mails)

Estou de volta do Carnaval de Olinda. Foi uma experiência válida, tornou-se ainda mais válida quando encontrei a turma e rumamos para o Fortim. Pude interagir mais por mais que tenha sido mais demandante e cansativo. Envolveu caminhada e aglomerados concentrados de pessoas em alguns lugares. Como no nosso destino final, o Fortim. Avisei à galera e fui sentar nos bancos à beira-mar. Observei duas mulheres dançando como um par, num jogo de sedução, senti a brisa marinha, fumei um cigarro, pensei sobre a vida ao som de Academia da Berlinda de quem não conheço uma música sequer. Em alguns momentos me senti alienado e alienado deveras sou de minisséries, música atual, de quase tudo. Carregar esse vazio que as outras pessoas têm preenchido com essas informações gera falta de identificação, de assunto. Quando estava saindo de táxi, vi uma moreninha bem gostosuda, não resisti e fiz “pô”, quando ela estava olhando para mim. Não é que ela abriu um sorriso? Nunca esperaria tal reação. Dei por vista a minha incursão pelo Carnaval. Agora, a partir de amanhã, é só quarto-ilha, Word e Mario Odyssey. Me diverti a meu modo, durante a tarde, observando o movimento – e o monumento – e escrevendo; e me diverti em grupo, com os meus amigos, numa socialização agradável e irmanada. Ainda bem que não faltavam pessoas para conversar com o nobre Albertão, pois eu, se troquei quatro frases com ele foi muito. Não sabia o que conversar, não tínhamos conhecimento algum um do outro e não nos sentimos, mais da minha parte, estimulados a conversar um com o outro. Ainda bem que ele foi entretido por seus ex-alunos que não paravam de surgir e cumprimentá-lo. Um grupo passou quase o mesmo tempo que eu com ele lá a trocar ideias, o que me fez sentir imensamente aliviado, por não ser necessário socialmente e poder fazer o que tinha vontade. Quando os meninos chegaram a história foi outra, a conversa correu solta, troquei ideia com o meu amigo cervejeiro e o meu amigo cinéfilo e não conversei mais com o meu primo-irmão porque estava acompanhado de uma garota.


À frente o palco do Fortim.


0h35. Meu primo achou o busto do Hulk parecido com o Eddie do Iron Maiden. Hahaha. Viu na minha tela a imagem do busto, que queria mostrar a ele, mas antes que o fizesse ele olhou para a tela e perguntou se era a mascote do Iron. Hahaha. Mas voltando ao assunto momesco, o dia foi muito melhor que o esperado, superou minhas expectativas. Amanhã é a inevitável volta ao quarto-ilha. Foi bom ter passado esses dias aqui, foi bom minha tia me perceber isolado. É como tenho me colocado no mundo, só com as minhas palavras. E o Mario Odyssey que, infelizmente, tem prazo para acabar. Infelizmente, também, não vimos o Homem da Meia-Noite, mas isso só me valeria como uma história para contar, não acho que renderia muito mais que isso. Agora estou de novo na frente do computador. Eu e as palavras. O que acho disso? No momento nem gosto nem desgosto, mas é muito melhor tê-las do que estar sem elas. Se sou viciado em escrever? Talvez. Melhor do que os outros vícios que carrego. Se me faz mal? Estou me alienando aos poucos da sociedade, mas a sociedade cada vez me diz menos. São massa rompantes esporádicos assim, pois vislumbro uma coisa outra na minha vida, sinto o poder da intimidade em diferentes graus, mas o sentimento de não pertencimento lateja agora em mim. Na hora não senti isso, não sei por que vim sentir aqui. E não quero me focar nisso. Acho que mantenho relações muito superficiais com as pessoas, que não tenho a intimidade que tenho com as palavras. Isso me preocupa, por que não há como ter mais intimidade do que conmigo mesmo, eis a verdade. E nesse meu monólogo converso de mim para mim, sou o mais íntimo que posso ser publicamente. E ainda tenho o Vate para as coisas que são de mim, mas não são para os olhos alheios. Tenho vergonha de admitir, mas tenho o Mario Odyssey que me diverte de uma forma singular que só videogames podem proporcionar a um gamer. Só quem é gamer entende o grau de elação que o jogo da sua vida pode proporcionar. São momentos inesquecíveis. Serão momentos inesquecíveis porque perduram, o jogo ainda não acabou. 1h05. Ainda não estou com sono. Mas ele se aproxima. Isso é bom. Não acordo tão tarde. Ou desperto para o almoço com mais disposição. Isso se minha mãe não vier me buscar antes. Queria ter outra Coca de um litro para beber ou poder pegar café e água na cozinha. Quem sabe não crio coragem para tal. Não sei. Não quero perturbar a minha prima professora que acho que ainda dorme na sala. Tudo leva a crer que dorme, não quero interromper o descanso dela, é por demais inconveniente por parte de um hóspede. Indelicado. Desrespeitoso até. Eu me viro com meu Vaporfi a seco mesmo. Isso não é problema. O saco vai ser arrumar tudo para amanhã, mas não há nem muito o que fazer.

1h13. Resolverei o problema da água de forma um pouco menos ortodoxa, mas que não afetará o sono da minha prima. Pronto. Tenho suprimento de água até dormir. Um enigma simples da existência que não tive problema em contornar e achar uma outra solução. Aí fico querendo o café o que já é querer demais. A água me basta. Deixa de ser peitica, Mário. Há alguns minutos atrás você não tinha com o que molhar a goela, agora está bem servido, é o suficiente. Mudando de assunto completamente, eu tenho uma estranha mania de colecionar alguns e-mails promocionais. Sei que isso é ridículo e inútil, mas penso na constante virtualização dos produtos e conteúdos.

Miniconto.
Pode ser que em algum futuro distante, um historiador da História do Entretenimento Digital possa utilizar todos os PDFs de ofertas da Gamestop que salvo para traçar um arco histórico baseado no que estava em evidência e nos valores dos softwares e hardwares desses folhetos digitais e sua variação ao longo do tempo. Poderia ceder os documentos a ele. Seria um farto material de pesquisa e ricamente ilustrado. Sei que isso é só devaneio. Considere um microconto, uma ficção baseada em fatos reais, pois efetivamente salvo todo e qualquer PDF que a Gamestop me manda.

1h25. Algo, um impulso, me empurrou para longe do computador por alguns segundos em que fiquei me questionando, se não isso (a escrita), então o quê? Mas foi rápido, pois o mesmo sentimento me motivou a escrevê-lo aqui, por ser a primeira vez que me ocorre. Pois, é, se não for escrever, não sei o que faria da minha vida. Nada me agrada mais e eu acho que na vida a gente tem que buscar o melhor, o que mais se enquadra aos nossos desejos, tentar ser feliz como se é capaz. E meu desejo é simples, banal, é fazer isso tendo Coca Zero gelada e o que fumar. Com o busto do Hulk ao meu lado. Queria que lançassem expansões para o Mario Odyssey. Novos mundos a serem explorados. Mas acho isso impossível. Eles já colocaram coisas demais num jogo só.

1h34. Estou ficando sonolento. Seria bom até dormir antes da fome dos remédios. Vou pegar mais água.

1h37. Peguei e acendi o penúltimo cigarro da noite. Mais reminiscências de Olinda? Vi uma menina que parecia uma fadinha, tão bonitinha e miudinha. Vi um velho que caminhava muito mal, com a pernas de alicate, dava cinco passos e parava, seguido de outro com cacoetes faciais realmente estranhos e constantes, ambos juntos aproveitando à sua maneira o Carnaval. Vi com inveja muitos homens sarados, obviamente sem camisa, para exibir o resultado de tanto esforço nas academias às damas ou cavalheiros de seu interesse. Vi muito Fred Flinstone e Super Mario. Além das policiais dominatrix. Vi um casal de baixa renda, jovem, com um bebê de colo, com pouquíssimos meses de vida, levando o isopor para vender cerveja. A vida é realmente dura para alguns. Mas não pareciam tristes, acho que deviam se amar e amar o rebento. Prefiro crer assim. Vi onde os sem-teto de Olinda se alojam na orla. Foi uma visão triste.





Vou na cozinha comer alguma coisa e ir dormir.

2h05. Comi primeiro o resto do doce de leite, eu acho, depois o resto do macarrão com queijo ralado e por final, a delícia, uma bacalhoada que só vi quando fui guardar o queijo na geladeira. Foi uma lauta refeição. Fumar o digestivo e ir dormir. Amanhã, no quarto-ilha, colo o que digitei em Olinda aqui. Tenho saco agora não.

-x-x-x-x-

15h27. Já arrumei tudo, só falta o computador. Minha tia foi dar o primeiro banho em sua neta e mamãe ficou de me buscar mais tarde. Hoje é o glorioso retorno ao quarto-ilha. Sem internet. O nobreak do meu padrasto deu pau, por isso tenho que acabar esse post e publicar ainda na casa da minha tia-mãe. Vou colar os e-mails que escrevi e revisar até aqui, pois daí posso escrever com mais tranquilidade. Momento. 15h31.

16h05. Revisei e percebi que muita coisa que narrei foi perdida por minha incompetência em mexer no meu celular. Que pena. Lembro que vi dois Jack Sparrows por lá, o que achei interessante, especialmente pelos dois serem coroas. Um era uma superprodução, estava muito parecido, detalhado e rico, supus que o coroa tivesse dinheiro dada a produção, e devia fazer um calor danado a fantasia. Deixou de constar que o monumento estava acompanhada, o que acresce um fetiche a mais a ela. Esqueci de narrar da miserável vendedora de chicletes, grávida, eu acho, e com jeito de moradora de rua ou viciada em crack que veio vender chicletes para mim. Era só o que tinha a oferecer, três caixas de chicletes de cartela de três sabores. Quis ajudá-la comprando uma cartela e acabei chutando sem querer as caixas de chiclete na sarjeta molhada, quando ela as colocou no chão para tirar o troco. Pedi sinceras desculpas. Incrível que ela conseguiu limpar e tirar a água das caixas de forma a parecer que nada tinha acontecido. A necessidade é realmente a mãe da invenção. Como retribuição pelo meu ato o destino fez com que a cartela de chicletes que havia comprado também caísse na sarjeta, onde permaneceu ou foi levada pelos pés dos foliões.





16h20. Tirei outras fotos. Colocarei abaixo. Outras tantas poderia ter tirado se tivesse mantido o meu celular no bolso em vez da pochete, mas não quis arriscar.

Em primeiro plano, os meus companheiros de cadeira na casa de Albertão.

O povo a passar num desfile sem fim.

Prova de que estava sentado em pleno Carnaval de Olinda.



16h26. Como já guardei o meu pen drive, salvei esse arquivo, que não havia salvo ainda, na Área de Trabalho. Tenho que me lembra de salvar sempre, poderia ter perdido o texto, o que seria decepcionante, visto que não tenho as memórias tão vívida quanto na noite passada. Meu tio chegou de Olinda, meu primo-irmão acho que não chega antes da minha partida e provavelmente destruído, afinal gastou uma dinheirama para ter como porto seguro uma casa equipada e com open bar. Deve tomar todas para compensar o investimento. Estou satisfeitíssimo com a minha incursão no Carnaval e não preciso de mais. Se me lembro de mais alguma coisa? Lembro que fui mijar numa das ladeiras eleitas pela massa como mictório, fico a cismar como as gentes se organizam como formigas e determinam tais coisas sem se comunicarem umas com as outras. O fato foi que havia um grupo de garotas no final da ladeira e elas ficaram olhando para o meu pau enquanto urinava. Não estivesse eu tão necessitado, não teria feito ali, mas no aperto consegui relaxar. Havia outros a mijar e acho que as meninas olhavam para todos os pênis, o que me fez indagar se estavam ali para isso. Há fetiches de todas as formas, cores e sabores, como há gente com a mesma variedade em Olinda. A moças eram jovens e havia uma até bonitinha. Confesso que o fato de olharem o meu pau, me fez sentir um pouco mais macho, um pouco mais desejado. É, também tenho os meus fetiches, mas confesso que não sou um desbravador do campo, então só me apercebo que alguma coisa me traz excitação, quando a excitação se dá, seja manifesta em ereção, seja apenas um sabor de safadeza nos pensamentos, como foi o caso da ladeira. Sim, falando nesse assunto fálico, me lembrei de uma parte essencial do meu dia de Carnaval, a “Escada Rôlante” que puseram em frente à casa de Albertão. Era uma escada cheia de pênis (rolas), que as meninas, pois é meninas, da casa da frente convidavam as pessoas a subir. Essa era a brincadeira deles. Meu primo disse que o mesmo se deu no ano passado com a adição de um irritante bumbo que deixou Albertão bastante enervado. Fato é que me surpreendi com o número de garotas (especialmente) e rapazes que subiam na escada para brincar ou tirar fotos, muito mais para tirar fotos naquela situação peculiar que para brincar.




16h50. Vi também como uma dança que considero vulgar e erotizada está difundida entre as mulheres, qual seja, botar as mãos no joelho arrebitar a bunda e ficar fazendo movimentos sensuais. É agradável de ver e ao mesmo tempo um pouco chocante para mim, pois até garotas que imaginava terem mais compostura, dançam desinibidamente dessa forma. Acho que estou ficando velho. Outra moda, agora entre os homens, foi descolorir as barbas, deixando-as loiras. Não fica legal, mas vi vários caras aderindo ao modismo. Ah, os sentimentos de autoafirmação e pertencimento ao grupo o que fazem. Sobre autoafirmação não posso nem comentar, quer mais autoafirmação que me repartir nesse blog? Hahaha.

16h59. Até que guardei bem as memórias do Carnaval. Uma das benesses de não beber. Ir ao Carnaval para mim é me divertir com a diversão alheia, ver a humanidade desfilar sua criatividade, exibicionismo, sensualidade e ébria euforia de forma supercolorida num ambiente belo que é a Cidade Alta de Olinda. Os e-mails com as fotos acabaram de ser enviados. Posso agora recortá-las e redimensioná-las no Photoshop. Mas não farei isso agora. Ou farei? Vou baixar as fotos e salvar e descompactar e fazer logo todo o chato trabalho.

17h39. Acabei, ufa. Agora estou livre de novo para escrever. Me indigna como sou um péssimo fotógrafo. Interessante, um cachorro pode se sentir só. A cadelinha daqui foi latir à porta do meu tio demandando atenção. Meu tio atendeu ao seu pedido e se levantou para lhe fazer companhia. Ele aprendeu a amar o animal, como sonhei um dia que meu pai faria o mesmo com a cadelinha que lhe dei. Não gosto de lembrar disso.

17h48. Vi uma foto de Clementine no WhatsApp agora. Não me despertou nada a não ser um sentimentozinho leve e ruim. Mágoa diluída pelo tempo. Ainda bem que o tempo dilui essas coisas. Ainda quero ter uma foto dela, aliás duas, as duas mais belas fotos dela para olhar no meu quarto-ilha, não sei bem por quê. Acho que porque paixões não realizadas nunca morrem, pois nunca tiveram vida de fato. São fantasmas emocionais. Ademais acho duas fotos lindas e uma delas ainda traz a presença ilustríssima de Maria, tão avessa a fotos. Quero fazer o meu pote de lembranças. É uma das coisas que vai constar no meu quarto. Meu relicário de lembranças materiais da vida. Não bastasse esse espaço. Hahaha.  

17h56. Acho que o gato vomitou uma bola de pelos aqui na bancada. Aparência mais estranha. Seria estranho colocar uma foto disso como o meu plano de fundo. Gosto dessa estranheza. Considerarei. Estou cansado da do Super Mario Odyssey que agora o computador ostenta. Já desmontei o Switch, por sinal. Só falta o computador.

Sugestivo o nome do livro.



Momentos antes da foto acima.



18h06. Minha mãe acabou de me ligar e disse que não vem me buscar, que eu espere minha tia chegar e volte de Uber. Vou esperar até 19h00, postar isso e ir embora independentemente da chegada da minha tia ou não. Mando um WhatsApp para ela, não gosto de despedidas. Odeio despedidas. Como odeio reencontros. A não ser que seja o reencontro da pessoa amada. Reencontros, como despedidas, são eventos que geram uma certa demanda emocional. Acho que vou agora quando acabar de postar esse texto. Vou revisar o que escrevi hoje.