terça-feira, 8 de janeiro de 2019

ESVAZIAMENTO




17h50. Sinto que estou morrendo. Sei que a cada dia morro 24 horas, mas não falo disso, tampouco dos dentes que caem ou das dores do corpo, falo da morte de quem sou, da minha identidade, do esvaziamento do eu. Cada dia há mais nada em mim, fico mais oco, mais insensível, as vontades vão rareando e se tornando murchas, é como se o processo de demência começasse e o percebesse claramente por estar sempre tão atento a mim. Talvez seja isso, a demência avançando lenta e incessante, chegando mais cedo do que supunha, pois supunha viver coisas que ainda estão por vir com a alma plena. Alma me falta e com ela os sentimentos se embotam e isso me frustra, me assusta. Pode ser um sentimento ilusório que crio para me enganar ou mascarar coisa mais profunda e mais feia que a cara feia e velha da demência. Não sei, foi esse pensamento de que cada dia o que eu sou diminui que trouxe da terapia e que me trouxe até esse momento de pô-lo no papel eletrônico. Já pus. Preciso fumar e tomar Coca gelada. Talvez esteja apenas subnutrido e isso me traga apatia. Apatia: esse é o maior sintoma do que eu sinto. Por mais que tenha tido um momento intensamente luminoso quando senti por um lampejo o que julgo ser o sentimento de amor paternal pelo meu sobrinho mais velho. Foi muito forte e intenso, um empatia superior, uma admiração e um orgulho singulares, um afeto gigantesco e diferente de todos os afetos que já senti. Tão forte que assustador.

18h15. Não queria, entretanto, ter uma alma tão agitada e irrequieta quanto a da minha cunhada. Um eterno desassossego um perene desejo de estar em movimento, se ocupando. Não tenho essa urgência de viver, ou de viver em urgência, fujo disso, quero paz e mais do que paz quero amar. Prefiro a calmaria, mas odeio o tédio tanto quanto o estresse, minha sanidade está toda nas palavras, feitas mais de luz do que vento, como diria o poeta. Se pudesse agradeceria ao meu sobrinho por tudo o que me ensinou. Pensando bem, acho que não faz mal agradecê-lo por isso. Vamos ver para onde a minha (pouca) alma se inclina. Estou com medo de Blanka, desejo sua nudez logo no começo do encontro, pois acho convidativa e encorajante. Talvez ela fique desconfortável com o fato a priori, mas espero que se acostume rapidamente com a condição. Talvez se me fizer nu e mostrar a mediocridade do meu pênis pequenino e murcho, ela se sinta mais à vontade. É justo que exija a minha nudez em troca da sua, me verei sem alternativa senão aderir. Talvez não faça exigência alguma apenas se faça nua. Queria que ela sentisse necessidade de mim, que eu conseguisse criar essa necessidade nela. A verdade é que tudo me assusta, me tornei uma criança de 41 anos encolhida em seu quarto de brinquedos que escreve para se sentir válido. O que não deixa de ser irônico pois o que eu escrevo não vale nada para outro(a) além de mim. Minha mãe disse ontem que meu irmão é uma pessoa melhor do que eu. Tal colocação, por mais que concorde com ela, assim posta com todas as letras pela minha mãe, me fere. O que posso fazer senão aceitar e seguir sendo o pior dos três? A resposta é nada. Esse nada que me invade e me preenche e me domina. Esse nada que é como a noite chegando e engolindo o dia dos meus dias.

18h54. Voltei um pouco mais otimista levado pela felicidade da minha mãe e de Maria por terem meu irmão e família aqui. Felicidade que compartilho, mas que, me isolando aqui, desperdiço a oportunidade de usufruir. Mas por ora sinto a necessidade de estar aqui.

19h32. Fui convocado a chamar um Uber para a fantástica faxineira. Acho que vou tirar um cochilo para ver se ao despertar volto uma pessoa diferente da que foi dormir.

22h40. Acordei e todos já se retiraram. Tomei meus remédios e não sei se eles me darão sono ou fome, pois comi o restinho das linguiças toscanas fritas que deixaram para mim em cima do fogão. Não vi nada dentro da geladeira que parecesse comida para mim. Estou bebendo guaraná, a Coca acabou. Faith No More não está agradando, vou tentar minha sorte na roleta do modo aleatório do Spotify. The Cure, muito melhor. Vou zanzar pela internet enquanto há atividade no maravilhoso mundo dos bonecos.

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10h34. Acordei há algum tempo, mas só agora me sinto suficientemente desperto para escrever aqui. Minha alma continua meio desalinhada de mim e nesse desencontro não me sinto num todo bem. Alguma coisa me falta ou está em excesso. Acordei tendo em mente a comparação que mamãe fez entre eu e meu irmão, me marcou como ferro quente no gado, indelével. Se tivesse que fazer a escolha de Sofia mamãe não teria muita dúvida. Ou dúvida sequer. Não importa, eu mesmo já o sabia, meu irmão é uma pessoa iluminada, eu tenho meu lado negro, nigérrimo e um passado da mesma cor ou ausência completa desta. Ultimamente eu cometi alguns deslizes, meu irmão é antiderrapante, então não há nem como querer alcançá-lo, nem é do meu intento. Já foi, mas desisti. Cansei de me comparar a meu irmão, pois não há comparação. Ele é limpo, puro, eu sou sujo e impuro. E cada um que se aceite do jeito que é. E tente ser aceito do jeito que é.

11h43. Estou meio intrigado/chateado com o meu irmão, pois ele disse que não faz diferença para ele se eu for com ele deixar Maria em Natal ou não. Se a minha presença é indiferente para ele, que seja, vá sozinho. Hoje não estou de muito bom humor. Ademais, Maria disse uma coisa que faz sentido, eu me sentiria cansado para sair com Blanka na sexta. Acho que vou deixar de frescura e passar um tempo com a minha família na sala. Antes, entretanto, café e cigarro.

11h59. Não consegui. Olhei para a cena e não vi lugar para mim. Estava completa com a minha ausência. Não sei o que quero da vida hoje, tenho a alma agoniada. Talvez seja café em demasia. A pizzaria abriu, tenho que esperar minha mãe dar uma pausa na curtição com os sobrinhos para pedir-lhe o dinheiro para as Cocas. Terei que ir consertar o meu dente quebrado na dentista às 16h, preciso preparar a minha alma isso. Minha alma está amplamente desamparada, desmotivada e agoniada, estou desconfortável em ser nesse estado e nessas condições. Vou tentar me aproximar da família uma vez mais, não posso ficar aqui alimentando e remoendo angústias existenciais.

12h29. Fui à sala e deixei-me ficar observando aqueles seres existirem ocupados com o que se ocupavam e minha presença pouca diferença fez ou eu não quis me intrometer no que faziam, pois nada me interessava de fato. Peguei o dinheiro com a minha mãe para as Cocas. Falta-me ânimo para ir. Mas vou. Agora.

13h09. Cruzei com a minha tia-vizinha duas vezes nessa minha ida à pizzaria, achei que meu irmão me tratou com desdém, a verdade é que estou muito sensível a tudo o que tange o meu irmão depois do comentário da minha mãe. Mas acho que ele foi meio rude comigo. Por duas vezes já. O melhor é ficar aqui no quarto se sou tão dispensável para ele. Em todos os âmbitos da minha vida eu sou dispensável. Quase inconveniente. Ou deveras inconveniente. Sei lá e pouco se me dá. Aliás fere para caralho, mas eu suporto, se foi isso que escolhi e se é assim que encaram as minhas escolhas. Não quero conflito.

13h21. Respirei fundo e fui questionar se o meu irmão estava com raiva de mim, ou cansado de mim. Ele disse que não e que meu complexo de inferioridade estava ozzy. Me sinto melhor. Talvez a rudeza venha da sua exaustão, não de um enfado com a minha pessoa. De toda sorte não estou em paz comigo mesmo e não sei por que isso se dá. Pensei em dormir, mas lembrei que tenho a dentista logo mais. Eu estou com medo de encontrar com Blanka, me sinto muito distante dela, sem intimidade suficiente. Hoje estou trancado dentro de mim, avesso ao mundo e às pessoas. Estou como já disse agoniado, perturbado por algo que não tem, nome ou definição, ou causa que eu reconheça.

13h55. Hoje só estou dando bola fora, ofereci o meu quarto para a família do meu irmão dormir no ar condicionado e sem marteladas e minha oferta foi amplamente rejeitada. Que seja. E é. Sigo em frente, pois não há outra direção a seguir. O melhor é permanecer recluso aqui no quarto e não atrapalhar ninguém, pois a mim me parece que é a única utilidade que possuo. Não gosto de me sentir inútil, mas é exatamente o que sou. Acho que preciso de um filho para me sentir útil e verdadeiramente importante para alguém. Para sentir o que senti pelo meu sobrinho, no lapso supracitado, indefinidamente. Tenho medo. Já estou acostumado a ser inútil. É um sentimento forte demais o amor por um filho, assusta, intimida, me rouba de mim. Deixa para lá. Minha própria mãe rejeita a ideia de eu ser pai. Me acha incapaz disso. Sou realmente visto e posto como inútil. Dói, mas é muito mais fácil viver assim. Prefiro a vida fácil e a dor eu tiro no papel, já sofri dores colossalmente maiores, essa de não prestar para nada é café pequeno. Deveria estar celebrando, mas estou triste. Meu amado irmão está aqui com a sua amada família, vou ver Blanka provavelmente na sexta. O problema não está fora, mas dentro de mim. Acho que vou comer para ver se melhora. Sinto que meus sentimentos estão muito ligados ao que se passa no meu estômago e há dias não me alimento bem.

14h58. Comi e isso me deu vontade de dormir, mas está quase na hora de ir ao dentista. Saco. Vou tomar mais Coca e fumar mais um cigarro. Depois banho e dentista.

17h03. Voltei do dentista onde encontrei uma colega de CAPS e de internamento no Manicômio, altamente lentificada (ou dopada) de remédios. Vendo o estado dela, relembrando de todos os adultos com dificuldade de adequação à realidade tal como se dá, refleti sobre a minha atual situação e me vi muito bem. Meu problema era (e ainda é) que não gosto de ser adulto, das responsabilidades e obrigações e burocracias e hierarquias e estresses e pressões e cobranças que a vida adulta implica ou implicou para mim. Entretanto, precisava arrumar alguma forma de ganhar dinheiro sem me submeter a nada disso. Após tentar fugir da vida adulta e da depressão profunda me afundando na cola e tentativas de suicídio, depois de vários internamentos criei um histórico clínico que me permitiu pleitear e conseguir ser considerado civilmente incapaz, ou seja, me livrar de tudo que odiava em ser adulto e ainda ter direito a parte pensão do meu pai através da curatela. Com renda garantida e a certeza de que nunca mais me verei só no mundo, fiz do meu quarto o meu mundo e das palavras a minha ocupação. Tomo várias medicações, é verdade e também é verdade que elas têm os seus efeitos colaterais, mas não sofro mais, posso ser a eterna criança, com direito até a coleção de bonecos. Redescobri a felicidade de existir perdida na juventude. É claro que isso faz de mim uma pessoa esquisita que ocupa um lugar que não é facilmente compreensível para a sociedade, visto que é uma condição nova e singular para muitos, senão todos, essa de velha infância que vivo. E agora quero incluir na minha vida uma pessoa adorável e para lá de peculiar que minha mãe terá muita dificuldade, como demonstrou e demonstra, de aceitar que é Blanka. Minha psicóloga, Ju, quer tentar me fazer mais adulto respeitando as minhas limitações e fobias com essa condição, aliás, minto, acho que isso sou eu quem quer alcançar. Ela só quer que eu viva uma vida feliz da maneira que eu achar mais conveniente. O lado negativo é que carrego culpas enormes, que nem sempre são tão grandes e muitas vezes nem são verdadeiras. Ela quer acabar com esse autossadismo essa mania que eu tenho de me rebaixar e me ferir e me punir. Quando a noite é minha e todos dormem, as culpas dormem também. Por isso vou dormir agora para ter o máximo possível de madrugada para mim.

19h27. Me deparei com a minha limitada, pois a estou achando bastante limitada no momento, realidade e me veio misto de leve angústia e tédio. Vai ver que enquanto dormia sonhava com searas mais amplas. Pensei num microconto de ficção científica, mas estou com preguiça de transcrevê-lo. Tinha a ver com carros autônomos, viagem no tempo e choque de realidade. Vou contar. Vou não, não agora. Agora estou sem disposição de muita coisa. Só sei que não quero voltar a dormir. E agora que percebi que estou na quarta página. Não sei se a teoria da velha infância tem algum fundamento ou é só uma crença que tenho, de que aproveitei tudo de ruim que me aconteceu na vida e reverti a meu favor, toda a dor e sofrimento existencial transformados em liberdade do sistema em que estou inserido. Liberdade quase total, pois o sistema invade meu quarto-ilha pela internet, pela rede elétrica, pelos bonecos, pelas próprias paredes que me encerram do sistema, mas só entram as partes dele que me interessam. Só uso do sistema o que necessito e me apraz e raríssimas vezes o que outros necessitam que eu faça. Ninguém precisa de mim, à exceção da minha mãe, a manifestação inteligente do sistema que gerencia a minha vida. Criei um vínculo de dependência com ela. E ainda me dói ter ouvido que sou pior que o meu irmão. E sempre vou ser. Ou a parte do sempre em que eu existir organizado como esse ser que digita mazelas e amor para ninguém. Um idiota, tão idiota que ousa falar de sistema. Se falo preciso definir o que é sistema. Acho que sistema é o conjunto de ações, construções e invenções concretas e abstratas do formigueiro humano que chamamos de civilização. Inclusive dos ditos não-civilizados. Sei lá, entende?   

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

DE ALDEIA A AREIAS – PRIMEIRAS VIVÊNCIAS DE 2019


6h30. Uau. Encarar uma página em branco a esse horário do último dia do ano e aniversário do meu irmão é intimidante. Mais fácil revisar e postar o anterior, que é o que vou fazer.

7h16. Esperando uma foto fazer o upload para ilustrar o post que estou prestes a publicar. Não sinto a mínima inclinação para escrever e isso me incomoda. Não acredito que volte a dormir. Há um vestígio de sono, mas não há vontade de me deitar, pois sei que rolaria na cama, numa luta tediosa e desnecessária e voltaria a me levantar.

7h21. A foto aparece como “Queued” e não sai desse estado no Gmail do computador, vou postar uma do WhatsApp. Há várias.

7h44. Meu amado irmão acordou e está lendo jornal na cozinha. Eu não estou com a mínima disposição para a escrita.

8h54. Conversei com o meu irmão a respeito da existência e de alienígenas. Ele acha que só não acredita quem não quer ver, que as evidências estão todas aí, disponíveis e acessíveis. Acho a mesma coisa em relação ao que acredito, da emergência de uma inteligência artificial superior a qualquer coisa possível pelos cérebros humanos. Mas já são dois a um para os alienígenas, talvez três se contarmos o meu primo urbano.

9h13. Gostaria que a prática do português escrito se refletisse no meu português falado, mas não vejo isso se dando. É uma frustração minha. Estou realmente sem vontade ou conteúdo para colocar aqui. Meu irmão é contra eu fumar, a maioria é. Eu sou contra um bocado de coisas, mas não saio por aí desrespeitando as escolhas alheias, não as compreendo, mas não as julgo, aceito a diversidade. Faz mal? Tudo indica que sim, está comprovado cientificamente.

9h54. Ensaio uma volta à cama, afinal hoje é um dia que emenda no outro. A madrugada é especialmente aproveitada devido à tradição. Queria mais café, mas na falta de vou tomar Coca com gelo e um cigarro.

10h11. Aposto que meu irmão não comprou o que lhe pedi. Seus princípios não permitiram. Ou esqueceu. Não importa. O que importa é que não terei cigarros suficientes para a longa noite de hoje.

17h13. Acordei há cerca de uma hora e parece que minha mãe quer que eu vá de Uber para Aldeia. Não vou. Parece que entrarei 2019 aqui no quarto-ilha mesmo. Acho até que prefiro. A inércia, a inércia...

17h36. Blanka se comunicou comigo enfim, foi rápido e bom. Revigorou as esperanças. Nem tudo está perdido. Quem sabe 2019 não seja o ano da grande virada na minha vida?

18h22. Minha mãe e sua visão de vida negativa especialmente a respeito de mim me fazem mal. Se já não estava com o astral bom, agora é que não estou mesmo. Não digo que as suas queixas sejam infundadas. Mas doem do mesmo jeito. Não querer liberar o cartão para que eu possa usar o Uber é para mim ultrapassar um limite e invadir o meu direito de ir e vir. A segurança que me habituei a ter de, estivesse onde estivesse, ter a volta para casa sempre disponível, me parece hoje um direito fundamental.

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4h06. Estou no ano novo, 2019, na casa de campo e grande paixão do sogro do meu irmão. Todos se retiraram. Encontrei o grande Adiel Luna fora da sua persona artística, por mais que ela lhe grude cada vez mais à alma. Vou botar Landlady uma vez mais depois de tê-la colocado várias vezes durante a noite e estava ouvindo repetidas vezes até Adiel aportar aqui na mesa muito engenhosa da varanda do quintal, uma churrasqueira e uma caixa da JBL que eu não imaginava existir estão atrás de mim. Vou botar a música e tirar algumas fotos para postar aqui.





4h23. Acho o lugar e o som fantásticos. Mas vou botar a lista 6, eu acho.

4h26. Botei. Caiu exatamente na que eu queria, Poses, de Rufus Wainwright. Vou fumar e pegar uma cerveja, embora o que tomaria fosse uma Coca.

Antes que eu pudesse tomar alguma atitude, vovó rata apareceu e permaneceu até 4h44.


A mesa é sui generis o local é fantástico.



4h45. Acho que vou pedir à vovó rata que...

4h54. Ela disse que tinha refrigerante na mesa de jantar, onde peguei uma garrafa de guaraná e me deliciei com duas fartas fatia de pudim.

5h02. Acho que guaraná faz bolhas maiores que Coca. Se tivesse coragem, eu diria: "por mim, a senhora pode tirar tudo da mesa, menos o pudim...”

5h07. A sogra do meu irmão veio dar as últimas coordenadas. Agora estou só, mas com sono. Um momento.

5h15.

5h22. Pensei em Chamar um Uber e vazar daqui, mas depois de uma fatia de pudim, penso em dormir.

5h30. Quero dormir o dia todo.

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21h11. Estou de volta ao quarto-ilha, finalmente. Amanhã partiremos para Areias eu e meu irmão. Confesso no momento não ter disposição nenhuma para a empreitada, mas estou cansado por mais que tenha dormido o dia todo, visto que virei a noite de ontem e tive dificuldade de dormir a priori. Foi bom ter ido a Aldeia. Conversei com o meu sobrinho mais velho e essa foi a parte que mais me marcou. Me marcou também a parte que contei a meu irmão e minha cunhada o imenso significado que Landlady do U2 tem para mim, como ela representa liberdade, a liberdade que encontro longe das drogas e internamentos e como me veio com clareza que o lugar e a forma que me sinto mais livre é aqui no quarto-ilha construindo textos para ninguém. A liberdade está em viver e moldar a vida o máximo que consigo à maneira que me agrada, não está na fuga pelas drogas, não está dentro de uma lata de cola, como já esteve. Eu construí com o auxílio da minha mãe (mais que os demais que contribuíram e contribuem) uma vida que consigo e sei viver, que me agrada ser vivida. Preciso resolver o negócio do cartão a respeito da Sideshow hoje e, quando cheguei de Aldeia, recebi a cobrança dos tributos de importação do crânio-coração, que também preciso pagar. Definitivamente preciso conversar com a minha mãe e definitivamente espero que seja uma conversa pacífica. Vou fumar.

22h13. Mamãe concordou que eu pagasse os Correios com o cartão e disse que resolveria o caso do cartão amanhã de manhã cedo, que me acordaria para isso. Espero que dê tempo. Acho que dará.

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3h22. Acordei com fome. Comi um pacote pequeno de cereal. Acho que vou dar umas bisbilhotadas na rede antes de voltar para dormir.

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5h13. Estou biritado em Areias. Estou muito feliz, nossa prima de Natal veio e biritamos e conversamos demais, o papo fluiu fácil, falamos de Blanka e mandei uma ousada mensagem para ela.

5h20. Minha prima saiu do quarto para uma boquinha. Botei Biophilia remix, conhecido como Bastards, para rolar no computador. Também tinha abandonado o teclado USB, mas percebi que estou mais acostumado com ele que com o do computador.

5h34. Tirando a dificuldade em digitar a vida está uma maravilha. Estou em Areias, o mar secando e revelando a sua outra identidade, que muito me agrada e define esse lugar como único, somado às memórias das minhas melhores férias da infância, absolutamente e inegavelmente. Está dof[ícol escrevet, mas seguitei tentando, esse é um momento únuicio ns minhs vida. <erece ser descrito, mas acho que vou comer e dormir.

6h37. Fiquei a cismar com a paisagem, a “antimetamorfose” do mar.


Maré seca - onde o mar e a aridez se encontram



6h39. Estou ouvindo Caetano. É genial. Gosto mais da obra dele como um todo, mas as canções específicas de Chico estão à frente de tudo que é CQAetqano. Caetano pode ser genial, mas Chico pode ser mais sublime, belo. E sou um devotob fiel da beleza, eola guia quase tudo na minha pouca vida, essa coisa pequena em que existo. Esse é um momento sublime escrever em Areias enquanto todo9s dormem embora biritsfo r vp, iddp lrtrwas difícweis de acertar. Vou fumar olhando a transfornmaç~son da paiedasgem.

6h58. Estava a fumar e observar o comportamento coletivo das cabras e vabritos, Nç=ão tirei nenhuma conclusão comprovável, sei que uqando correm , tpspa aegue,m a cprrer juntos. Acho que não trouxe os remédios. Só se meu irmão souber.

7h06. Acho que não consigo ter sono por conta da falta de Dalmadorm.

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21h15. Completamente recuperado do porre de ontem, depois de ter dormido o dia praticamente todo, volto mais centrado às palavras. Sei que elucubrei sobre bodes e pouco mais me lembro do que escrevi ontem. Ouvi Caetano, foi a trilha principal da noite. Conversamos bastante, minha prima e eu, é bom fazer umas extravagâncias dessas de vez em quando. Os demais já se retiraram. Tenho a noite só para mim. Estar em Areias mesmo sem sair da casa, é bom, me faz bem, me sinto mais à vontade e feliz que o habitual. A visão do mar de cima do morro é fascinante e nunca cessa de me encantar. O vento forte, porém agradável é outra qualidade daqui. O silêncio, só os sons da natureza e agora das teclas traz uma paz dificilmente reproduzida na cidade, sinto-me num lugar em larga parte selvagem onde a civilização humana não deitou ainda sua mão pesada e bruta. Acho que estar imerso nessa natureza não explorada e estuprada pelo homem o principal diferencial de Areias, além da sua beleza muito própria. Há também o vínculo afetivo de uma vida toda, de felizes férias, que agrega uma familiaridade e acolhimento ímpares ao lugar.

21h40. Estava pensando eroticamente sobre a minha prima. Estou a pensar diversas coisas, mas todas me passam muito antes de apreendê-las no papel eletrônico. Minha prima levantou. Vou lhe fazer companhia.

21h54. Discorri sobre o porquê de minha irmã desgostar e não ter lembranças favoráveis em relação a Areias. Em uma palavra: insetos. Acreditasse ela que há muito menos deles, como há, isso a faria cogitar uma visita a Areias junto com meu irmão e família? Acho que não. Queria muito, muito colocar um som para ouvir, mas prometi a meu irmão que não o faria, perturba o seu levíssimo sono. Quem vai se retirar dentro em breve, ao que tudo indica, sou eu.

22h06. Sempre desejei a minha prima, não é a mais bela, mas possui um conjunto harmônico, uma das fantasias infantis gerada nas férias em Barreiras ou em Macau que não querem evanescer.

22h14. Tomei o remédio da noite já, parece que eu chego aqui e só quero descansar naquela varanda, fumando, tomando Coca e olhando para o mar.

22h18. O computador daqui a pouco chia a bateria.

22h28. Fui fazer as conexões para ligar o computador à tomada aproveitei e fumei um cigarro olhando para a noite escura como só os lugares distantes podem ter. Em breve olharei para o céu, o mais estrelado que já tive o prazer de observar. Enquanto fumava, entretanto, pensei que os índios daqui viviam numa fartura de alimentos, em especial frutas e peixes, única no mundo. O homem branco não tinha a mesma percepção dos nossos recursos, embotados que estavam de sua própria cultura. Sua sabedoria é do mesmo tamanho da sua ignorância da sabedoria, modo de ser e estar no mundo, dos índios. Por terem tecnologia mais avançada, muito mais avançada mesmo, subjugaram os donos das terras. E praticamente erradicaram a cultura de viver em paz e harmonia com a Natureza, respeitando-a e sendo grato por ela. Pensei em Lampião e na aspereza da alma do nordestino do interior, especialmente do sertão. Dos que moram nos confins do Brasil, aonde o Estado não consegue chegar de forma transformadora.

23h12. Comi pão com pasta de amendoim salgada, não é ruim. Pensei em Blanka e no meu pote de recordações, um frasco onde guardarei lixo que tem valor sentimental para mim, como o pedaço de embalagem de Halls que peguei no nosso primeiro encontro. Penso em me deitar. Vou fumar um cigarro com Coca na varanda e ruminar sobre o assunto.

23h35. Ainda não me dei por vencido, continuarei mais um pouco aqui. Estava a observar a complexa e infinita coreografia das folhas de coqueiros anãos ao sabor do caótico vento. Acho que prefiro ficar na varanda que aqui escrevendo no computador.

1h55. Acordei com minha fome madrigal.

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5h14. Acho que acordei de vez agora. Vamos a Macau hoje, fazer o ritual das cinzas de papai. Acredito que meu irmão e minha prima levantar-se-ão em breve. Eu ainda estou com um pouco de sono, mas não acho que vou conseguir dormir mais no momento. Talvez quando voltar da nossa expedição, sei lá, o que sei é que a internet faz uma tremenda falta como passatempo. Acho que vou fumar um cigarro com Coca e deitar de novo.

5h41. Não consegui, estou bem mais desperto agora e não sinto traço de sono quase nenhum. Quase. Mas quase nesse caso não é suficiente para tentar dormir em lugar outro que não minha cama no quarto-ilha, se fosse para ela, até consideraria me deitar, na rede, não. Estou apreensivo com o ritual das cinzas de papai, não sei que botões emocionais irão ser apertados. Espero que poucos ou nenhum. Não sei nem se a sensação de dever cumprido, de missão completa, de promessa respeitada irá emergir. Na atual letargia mental em que me encontro, e que espero que não permaneça no decorrer do dia, não sentiria muita coisa. Sinto uma leve vontade de me deitar. O sono vem e vai.

6h08. O sono se dissipa a cada minuto que passa, precisava só que alguém acordasse para me fazer companhia. Ou não. Me basto aqui e estou achando esse momento salutar. Percebo que escrever me deixa com mais sono.

8h20. Dormi mais uma vez e acho que agora acordo em definitivo. Meu irmão já está de pé, ou melhor, sentado a digitar ao meu lado. Sinto saudades da minha mãe, estranho vínculo. Por falar em estranho vínculo, me lembrei de Blanka com carinho e receio de viver e oferecer tudo o que desejo a ela. De não ser capaz de fazê-lo mesmo que ela se faça disponível. O tempo dirá. Minha prima ainda dorme.

8h55. Estava conversando como meu irmão sobre user interfaces, acho que é um papo que ele pode levar com poucas pessoas fora do trabalho e eu com poucos amigos. Se bem que com qualquer um que jogue videogames ou tenha certa expertise em computador têm opinião a respeito do tópico. É incrível como os meus amigos, bem alguns deles, têm opinião sobre tudo e estão dispostos a reparti-la. Eu tenho várias opiniões, mas não tenho a convicção sobre elas e me sinto constrangido de expô-las fora do âmbito desse blog. Aqui opino muito, mesmo sem ter embasamento ou o arcabouço referencial para respaldar o que penso, o que penso vem de mim e minhas vivências essencialmente e passa ao largo de qualquer leitura mais aprofundada acerca dos temas. Não entendo bem que mecanismo se dá que aqui não tenho o mesmo pudor de me humilhar como ocorre nas discussões presenciais. A mim me parece que todos entendem de tudo e eu sou um completo ignorante. Falam com certeza impressionante sobre os mais variados assuntos, o que me espanta, pois de nada sei ao certo. Penso em tomar um banho de chuveirão hoje e escovar os meus dentes. Vou deixar essas ideias ganharem firmeza em mim. Gosto delas. Gostaria também de comer hoje uma posta de cavala frita com batata frita na orla de Macau, para onde iremos dentro em breve, creio.

9h45. Um pedaço de outro dente caiu enquanto escovava. Quantos mais hão de cair? Será efeito de uma descalcificação por conta da Coca? Ou a idade mesmo mostrando outra de suas facetas? Não sei, só sei que é um evento que demonstra um desgaste dos meus dentes, segundo pedaço em menos de seis meses, um estranho padrão. Enquanto não dói e é reparável não me incomoda como deveria. Como incomodaria ao meu padrasto se se desse com ele.

11h10. Estamos prestes a ir a Macau. Tirei mais uma foto da maré seca que me encanta muito mais que a maré cheia, se chegarmos antes do anoitecer, pretendo descer para catar conchinhas. Ou não. Não encontro disposição em mim para tanto.

O ícone de Macau e o ícone da minha vida, meu irmão.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

MAIS UMA FESTA: O ANIVERSÁRIO DO MEU SOBRINHO




23h29. Não estou com alma de escrever, vou ver o mundo dos bonecos. Minha mãe precisa resolver o imbróglio do cartão.

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15h48. Está havendo ainda outra festividade hoje, o aniversário de um dos filhos do meu irmão. Meu primo que morava no Pará, se não me engano, já chegou e me encomendou um desenho. Não faço mais desenhos, seria uma tortura me submeter a fazer, ainda mais com tema tão abstrato quanto o que eu acho do ser que ele é. Sei que é uma pessoa que coloca a família em primeiro lugar e não sei mais que isso.

17h30. Mandei para a Gatinha:

“Brigado, Gatinha. Desculpe se me torno uma pessoa cada vez menos admirável. É o que o tempo vem fazendo de mim. E as escolhas que faço, claro”.

17h31. Me encolho no meu quarto-ilha para não enfrentar as socializações do aniversário, que transcorre com poucos convidados. Meu português está ruim e escrever me é mais penoso que o normal, acho que por causa de ontem. Espero que com o tempo volte um pouco ao meu ritmo habitual de escrita. Talvez haja pessoas dos Gonçalves em Porto, por isso o esvaziamento desse evento. Me sinto culpado em me isolar. Mas não o suficiente para sair do meu covil.

17h45. Passeei um pouco pela internet, queria dormir mais. Estou de baixo astral hoje. Minha mãe disse que vai cancelar o outro cartão, não acho que deveria fazer isso comigo. Sei que exagerei e que já exagerei outras vezes, mas gostaria muito de uma nova chance, tolher a minha capacidade de ir e vir comprando créditos de Uber acho profundamente injusto e me põe inseguro ao sair de casa usando o serviço. Gostava da garantia de que, onde quer que eu estivesse, eu conseguiria chegar em casa. Isso deveria ser preservado. Respeitado. Ainda vou conversar com ela a respeito. E tenho compromissos financeiros até o final de 2019. Duas bonecas chinesas que serão lançadas nos terceiro e quarto trimestres do ano vindouro. Me comprometi com Daisy, ela assumiu a dívida por mim, fazendo as encomendas. Estou desgostoso com o mundo. Acho que a ausência de comunicação é um dos fatores. É a vida e segue. Cada vez que vou pegar gelo para a Coca, me deixo estar um pouco na festa. Foram festas demais num curto período e mais haverá amanhã, quiçá a última. Certamente a última desse ano. Acho que a melhor definição para o que sinto é falta de ânimo, ainda estou combalido do dia de ontem e a idade pede mais descanso do que me foi permitido. Eu sinto vontade de estar um pouco na sala.

18h28. Não sinto que o eu que se dá hoje – e ultimamente – caiba adequadamente na situação. A de ontem foi muito mais convidativa, tinha mais a minha cara, eu revi pessoas que há muito não via e que fizeram parte de uma fase muito boa da minha vida, a juventude nas Ubaias. Nossa, eu era totalmente outro, a ponto de ser considerado “role model” por uma das pessoas mais inteligentes que conheci. E de ele ter desenhado o seu futuro inspirado nos passos que ensaiei caminhar no ingresso formal na vida adulta. Ingresso esse que não passou de fato do ensaio. Tudo o que decorreu, à exceção do período da Gatinha, foi excessivo e descontrolado e infeliz. Meu lugar é aqui, com minha mãe, entregue aos auspícios dela. É como consigo me sentir melhor no mundo. É como sei e decidi viver. O acaso-destino e as minhas escolhas me trouxeram até essa condição e não me arrependo dela. Privo-me de quase tudo para me possuir e ser o mais completamente meu. Vou dar outra circulada na festa.

18h56. Os meninos vieram aqui e um deles identificou que o meu quarto fede. Tem um olfato muito aguçado. Não sei a que fede, não perguntei. Não sei se é a cigarro ou algo além. Fiquei curioso, mas também acho que a minha cadeira fede, vítima que foi de infindas flatulências. Encruou. É uma cadeira bastante resistente, sem dúvida e pretendo a manter na reserva, mesmo que nova venha, não sei da durabilidade das cadeiras de hoje. Queria conforto, ergonomia e resistência, talvez braços, não sei. Seriam úteis para jogar videogames. Por sinal a minha TV não está ligando. Espero que seja apenas a pilha do controle, mas temo ser algo pior. Meu irmão achou que é tedioso ler o meu blog. Deve ser. É o que ofereço e apenas isso. Faço isso para emprestar algum sentido à minha vida. Aliás, foi o sentido que escolhi lhe dar e estou satisfeito com ele, por mais que desagrade os demais. Talvez devesse reduzir ainda mais o tamanho dos posts, mas aí multiplicaria o número de postagens, é necessário dar vazão, é necessário não parar de escrever. Só é necessário parar de escrever para amar, para o que é desejável socialmente, para apreciar os meus bonecos e para fumar. Interrompo de todas as outras maneiras à minha escrita regada à internet a contragosto. Acabaram de cantar os parabéns, vou lá aparecer nas fotos.

19h25. Apareci e desapareci, cá estou de volta na minha incansável busca para manter a sanidade. Meu banheiro também fede, talvez eu mesmo feda, não sei, ninguém nunca reclamou, é um insulto do qual poucos seriam capazes independentemente do odor que exalo. Preciso conversar com o meu irmão a respeito da ida a Areias e das informações colhidas com o meu primo urbano ontem. Acho que há algum ruído que surgiu na minha relação com este último depois que mudou os seus hábitos de vida. Toca Arisen My Senses, eu aumentei o volume, acho uma música mágica, principalmente se se prestar atenção nela, o que não faço dedicado às letras. Mas há tanto barulho lá fora que me dei ao luxo de ouvir música mais alto. O que eu queria? Só comunicar a meu irmão os detalhes de Areias. E que mamãe lesse o post que reparti com ela pelo WhatsApp. Talvez que ela viesse conversar comigo. Conversaríamos então.

20h23. O resto da família veio conhecer o meu Hulk e ver a minha coleção de figuras, mesmo dentro das caixas, quem sabe 2019 seja o ano de libertá-las para aprisioná-las uma vez mais e definitivamente em vidro e madeira. Quando finalmente chegar o momento de apreciá-las. Quando o quarto-ilha evoluir para o seu estado final, completo. Completo só estará quando todas as peças que estão/estarão na casa do meu irmão aportarem aqui. Isso levará anos, no meu prospecto. Aguardarei pacientemente. Como tenho aguardado ao longo dos anos que passaram. Que vão se acumulando, assim como se acumulam figuras aqui e lá. Mas isso terá um fim. Sonho com esse dia, por mais distante que esteja. Só está o nosso núcleo familiar na sala e mesmo assim me sinto indisposto a me juntar a eles. Estou com certa indisposição física no momento. Sei que é passageira, entretanto. Não sou mais a pessoa que costumava ser, sou uma versão depurada dela, de sabor mais forte e amargo, que cada vez menos se oferece à apreciação alheia e, contraditoriamente, se expõe o mais nu e cru que consegue para o mundo, que não tem o mínimo interesse pela minha nudez ou crueza. Escrevo para mim, não para o outro, para satisfazer as minhas necessidades, não a de algum suposto leitor. Mesmo assim sonho ser descoberto e desvendado. Não se dará. Faço isso há tempo demais e, se não se deu até agora, nunca se dará. A principal razão, direção e motivação da minha existência é um enorme desperdício de tempo e esforço. Não ouso utilizar a palavra talento entre as coisas desperdiçadas pois creio que, caso o possuísse, seria lido. Fato é que eu sou o único interessado na minha vida desinteressante. Grande osso desse meu ofício. Osso duro de roer. Mas não me resta alternativa senão aceitar que as coisas são assim. O acaso-destino escolhe poucos para serem grandes. Não foi, não é e não será o meu caso. Acreditei por algum tempo que fosse. Acho que todo mundo acredita nisso em algum período da vida, eu, que decidi não crescer, continuo com ilusões pueris. Mais pessoas do que o normal têm me perguntado o endereço do meu blog e vejo nos olhos deles que não lerão, é um interesse vazio de qualquer intenção sincera, uma forma de serem polidos apenas. Mesmo assim lhes indico o caminho, movido por uma oca esperança. A minha esperança em relação a Blanka se torna também a cada novo dia mais oca. É uma pena. É a vida e segue. Começo a acreditar que pelo ofício que exercem, professores são mais comunicativos em geral, para além da sala de aula. Nas situações sociais e cotidianas. Eu sou uma espécie de não-professor, nada ensino, quase nada falo. São raras as pessoas com quem eu sinto abertura para me abrir ou menos me dou a tais situações tão absorto estou em criar este monólogo de mim mesmo.

21h52. Em breve todos da casa estarão dormindo. A noite será minha, embora não esteja com disposição para esticá-la. Veremos até onde chego. Tenho expectativa de começar um novo post depois deste, visto que este já vai bem adentrado na terceira e última página. Estou considerando para 2019 diminuir o número de página para duas, mas isso é algo que demanda muita ponderação. Entretanto, se me acostumei às três, talvez me adeque às duas somente.

22h18. Aparentemente mamãe está lendo o post que dediquei a ela. Os resultados verei amanhã, se algum. Espero que não sejam negativos ou só negativos. Estou me dispersando do texto pelos sons advindos das demais pessoas no corredor. Meu sobrinho, filho caçula do meu irmão, está com febre. Eu sinto um amor genuíno pelo primogênito e é mais forte do que imaginava, diferente também. Uma descoberta. Me amedronta. Não sei se estou preparado para esse amor nem sei como vivê-lo ou expressá-lo, não é constante, mas irrompe em certos momentos e vislumbro o que pode ser o amor de um pai por um filho, obviamente numa ordem de grandeza menor, mas é arrebatador. Nunca havia me sentido assim com nenhum dos meus sobrinhos, mas acho que tenho especial identificação com esse, embora ache os demais adoráveis, tanto os outros dois do meu irmão quanto o casal da minha irmã.

22h48. Meu irmão é uma máquina movida a responsabilidades, muitas delas que nem são completamente suas, mas basta apenas um vestígio de que aquilo lhe caiba para que faça. Não poderia ser mais oposto e me sinto pequeno e inútil diante dele. Não é um sentimento bom, mas sinto-o como pertinente. Talvez só seja mais disposto que eu. Ou condicionado a levar a vida dessa forma e eu tenha me condicionado no completo oposto. Mesmo assim, culpa vem porque acho o seu condicionamento imensamente mais positivo, proativo e virtuoso que o meu. Por outro lado, me conformo que cada um consegue ser apenas o que é capaz de oferecer, todo mundo faz o melhor de forma diferente, todos buscam uma maneira de estar melhor no mundo.

0h27. Há rótulos que nos empregamos que são completamente inúteis; “o menos inteligente dos três”. Por que carregar isso na cabeça? Algo que não tem o menor fundamento, evidência, é uma especulação fantasiosa, uma ilusão que faz mal à autoestima. Agora já não acho que ser o mais alienado de todos os da minha geração, todos os adultos que conheço seja uma falácia. Eu me movo nessa direção porque acho que vivo melhor assim, sem saber do macrocosmo em que estou inserido. Só partes específicas dele, pelo menos no que diz respeito ao maravilhoso mundo dos bonecos. Acabou-se a terceira página.