terça-feira, 5 de setembro de 2017

AO ME ISOLAR, EU...

9h45. Estou no CAPS. Acabo de reencontrar uma usuária que retorna ao serviço. Não lembro se ela era AD. Minha memória anda tão ruim. Isso é ao mesmo tempo uma coisa que me preocupa e com a qual vou instintivamente aprendendo a lidar. Penso no custo do envio do Hulk para o Brasil e me preocupo também. É uma preocupação banal, pois sei que tenho dinheiro para pagar, o problema maior será a reação da minha mãe. Ela vai fazer disso uma tragédia e me fará ficar com uma mistura de pensamentos ruins, estresse, raiva e culpa. Principalmente culpa. E vai querer usar o gasto com o frete como impedimento para eu comprar as duas últimas figuras da minha coleção, Red Sonja e Swamp Thing. A única coisa que tenho a meu favor é o e-mail que mandei para ela comunicando tudo isso.

10h20. Conversei com a psicóloga de referência do grupo AD. Já havia conversado com a psicóloga assistente e tratei basicamente das mesmas coisas, o bem-estar de ficar na casa da minha tia, a ansiedade com a viagem, a preocupação com a cognição da minha mãe... interessante que não trouxe a minha preocupação com o frete do Hulk. Acho que tenho vergonha de ter uma preocupação tão banal. Penso que acho banal pelo fato de ser um boneco. Los Hermanos me soa estranhamente alienígena, como se ouvisse a canção pela primeira vez através de um novo eu. Será que a conversa com a psicóloga de referência me transformou a esse ponto com a pontuação que ela fez de que às vezes a gente está de acordo com as expectativas alheias, às vezes além, às vezes aquém. É natural das relações humanas. "Strangelove" tem me perseguido. Tocado com mais frequência que jamais tocou em minha vida, excetuando-se, claro, o período em que era um hit nas rádios. Estou escrevendo sem muita concentração. Não sei por que isso. É como se a minha mente não tivesse despertado por completo. Meu primo tem um pensamento muito irresponsável sobre viagens internacionais. Hahahaha. O conselho que ele me deu foi completamente imprudente para dizer o mínimo. Hahahaha. Prova de que não tem a mínima experiência com viagens dessa natureza. Hahahahaha.

17h17. Já estou em casa há bastante tempo, óbvio. Estava lendo o roteiro que meu amigo cineasta me mandou e fazendo algumas pontuações que julguei sem importância, além de algumas correções nos erros de Português. O Word acha que o nome da língua não deve ser iniciado em maiúsculas, eu acho que deve. Quem está certo? Não tenho Português suficiente para saber, infelizmente. Procurei no Wikipédia e o Word está certo, então, a partir de agora tratarei o português como língua como um substantivo comum, não nome próprio. Vou pegar Coca. Espero que já haja gelo formado.

17h33. Me habituei a ter a Coca ao meu lado, como fiz na casa da minha tia durante a semana passada. Estou com um problema terrível de caspa. Na barba, sobrancelhas e cabelos. Não posso usar camisas de cores escuras, pois ficam todas cheias de “flocos” brancos. Não sei por que contraí isso. Deve ter sido na internação do Manicômio. Mas acho que vem de antes. Realmente não sei. Tomarei um banho hoje e utilizarei o xampu anticaspa novamente. Provavelmente sem efeito perceptível novamente. Descobri novamente no Wikipédia que banhos quentes podem estimular a caspa, mas não vou deixar de tomar banho quente por causa disso. Estou com medo de estar ficando com mal de Parkinson, minhas mãos andam tendo pequenos espasmos ultimamente. Tomara que não. Sabe o que é estar sem saco de fazer nada, nem de escrever? Sou eu agora. Estou sem assunto. Lembrei de um, o grupo AD. Os três integrantes do grupo mencionaram o isolamento social como característica de suas vidas. Tanto que o grupo foi direcionado para esse tema. Nos foi dada uma folha em branco e nos instruído a representar o tema “ao me isolar eu...”. Eu me desenhei na cadeira em frente ao computador, escrevendo, com um copo de Coca ao lado. Não desenhei o Vaporfi porque este não estava funcionando, agora foi que ele foi funcionar um pouquinho melhor. A mariposazinha que habita meu quarto cresce a olhos vistos. Passou agora na frente da tela do computador, única fonte de luz do quarto. A noite já se fez lá fora. São 18h08. Bom, mas voltando ao tema do isolamento eu respondi algo na linha de que ao me isolar eu me sinto confortável, em paz, feliz escrevendo, pleno, completo (exceto pela parte afetiva). Lembro que coloquei confortável duas vezes, no começo e no fim. É definitivamente a minha zona de conforto, onde me sinto bem e onde e quando me sinto mais eu, mais dono de mim, mais livre. Onde faço o que realmente quero que é escrever. A única coisa que me leva à socialização, que foi uma segunda pergunta, era a procura de uma namorada, mas por mais que eu saia isso não ocorre e acho que prefiro viver de platonismo, embora meu coração esteja aberto a ser encantado por alguém. A droga é que sou seletivo demais esteticamente e não há ninguém que eu veja que barre a minha paixão platônica. Embora não deixe de me encantar não raro, na noite, por alguma garota. Mas disso não passa. Não vou lá falar com ela, não “abordo”, como dizem e acho horrível. Às vezes penso que o que escrevo não tem valor nenhum, não é poético não traz palavras com cores. É apenas uma grande e volumosa merda. O que posso eu fazer se é esse monte de caca que me preenche e me faz feliz, senão continuar a fazê-lo? Que ninguém dê valor. Que eu mesmo não dê valor literário algum, mesmo assim a necessidade de dizê-lo se faz presente e pungente. E digo mesmo, pouco me importando com o que os outros vão pensar e com o que o meu supercrítico superego está pensando. 18h36. Fui fumar um cigarro de verdade e vou agora encher outro copo de Coca.

18h38. Voltei, mas a vontade de escrever ficou perdida no meio do caminho. Não sei o que fazer. Nada quero fazer a não ser ficar aqui a digitar. O Hulk me passa pela cabeça, realmente estou apaixonado pela figura e preocupado com a reação da minha mãe em relação a ela. Ao frete dela. Às taxas alfandegárias dela. 18h50. Me perdi na internet por alguns momentos. 18h59. Descobri que meu primo-irmão acabou um relacionamento no qual punha a maior fé. Pelo menos desse mal não sofro com o meu isolamento. Isso só me faz pensar na minha paixão platônica que lateja para o bem e para o mal. O mal é a impossibilidade. O bem, a inquebrantável esperança de que o impossível aconteça. É muito amor represado. E é ridículo, eu sei. Mas qual amor não tem um quê de ridículo? Não faz as pessoas agirem de formas tolas? Só os amores amadurecidos após a passagem da paixão. E até esses são bastante ridículos às vezes, principalmente nas arengas.

19h53. Tive que ir comprar remédios para mamãe que caiu gripada. Falava de amor. Tive o meu quinhão de amor na vida, mas não acredito que tenha sido o suficiente, eu, pelo menos preciso de mais. Eu acho. Pode ser que não. Já que vou me fundir à Singularidade se tudo der certo, abandonarei o mundo material ou este terá importância secundária para mim, para dizer o mínimo. O que eu escrevo não tem a magia de Machado de Assis, a graça de Luís Fernando Veríssimo nem o encantamento de Fernando Pessoa, mas é meu, é a minha voz e é o máximo que posso dar. E o blog acho que é o veículo ideal, visto que democrático, gratuito, ilimitado. O fato de não alcançar muitos leitores me interessa, mas não subtrai a minha vontade de me expressar, não importa que ninguém leia. Estará salvo para a posteridade, enquanto o Google mantiver ativa a minha conta. Espero que isso dure muito tempo depois de mim. Isso novamente se eu não me fundir à Singularidade e me tornar virtualmente eterno. Virtualmente no sentido tecnológico da palavra também. Eu não tenho nem a graciosidade da escrita da minha prima e vizinha que dirá me comparar a bastiões da literatura portuguesa? E dane-se isso, pelo menos sou sincero e autêntico. Não há nada aqui que não reflita o que minha alma captura, processa e emana. Realmente hoje não estou com inspiração para escrever. Meu deus, tem muito jogo para eu jogar, mas cadê a vontade? Cadê? E a uma semana de viajar só poderia jogar algo bobo e sem história com uma mecânica fácil de lembrar como o New Super Mario Bros. Wii U. Ou o Super Mario Galaxy. Pelo visto, mamãe não vai à universidade amanhã. Em compensação a noite será minha dentro em breve. Ou assim quero crer. Gosto de me sentir dono do reino do apartamento todo, não apenas do meu quarto-ilha. Teria essa sensação mais total se mamãe e meu padrasto fossem para a universidade amanhã. Acho que mamãe se medica demais. E acho que algumas de suas doenças são de origem psicológica. Depois que eu tive 39 de febre e não conseguia sair da cama por causa do meu primeiro dia de volta à Publicidade, não duvido mais do poder da mente em relação a doenças. Por falar nisso estou com ideia fixa de que terei mal de Parkinson. Tenho que tirar essa ideia nefasta da cabeça, posso estar facilitando inconscientemente as coisas para a doença. Xô! Vade retro! Já estou com sono. Só se eu tirar um cochilo de duas horas e me acordar as 23h. São 20h39. Não vai dar certo. Melhor sustentar acordado e me conscientizar que não conseguirei virar a noite. Me conscientizar e conformar. Também não há necessidade disso. Preciso, ao contrário, ir me acostumando com o fuso-horário alemão. Mas quer saber? Dane-se o horário alemão, lá eu me acostumo. Ou não. Não quero ir em primeiro lugar. E agora mamãe já está planejando ir em dezembro para os EUA e meu único interesse nisso é poder trazer os bonecos para cá, senão também não teria nenhum motivo para ir. Amo meu irmão, mas detesto inverno pesado mesmo sem tê-lo experimentado. E não tem porão para eu ficar nessa nova casa. Pelo menos não pronto, o que eu não sei o que significa. Talvez esteja no tijolo cru, sem instalações elétricas. Vai ser um saco, mas é outra que terei que encarar se quiser trazer as estátuas e figuras para cá. Uma pequena parcela delas, digo. Eu preciso e vou tomar um banho hoje. Você vai ver. Ou hoje ou pela madrugada. Estou decidido a adentrá-la. Mas ainda é muito cedo. 20h55. Queria ir até umas três horas da manhã. Não sei se só aqui. Nutro vontade de visitar o Desabafos do Vate. Nutro vontade de ver o resto de “Alien Covenant”, mas não muita.

21h15. Mamãe ligou para o meu celular do seu quarto para eu tomar os remédios. Sua voz está péssima mesmo. Talvez tenha pego a gripe realmente. Sei lá. Acabei de mandar um lembrete sobre a entrevista para o cara com quem fuleirei enquanto na casa da minha tia, nem sei se ele vai fazer depois disso. Mas joguei as minhas cartas, disse que tinha tido um problema com a internet. Cabe a ele responder ou mandar eu me lascar. Hahahahaha.

21h21. Ele ainda não visualizou a mensagem. Estou ansioso pela resposta. Espero que não seja negativa, mas tenho que me preparar para a negativa. Ele poderia me abrir as portas para mais entrevistas, mas estou achando que ele não vai me dar resposta. 21h30. Nada de resposta. Bem, vou relaxar e dar a causa por perdida. O pior é que não consigo desfocar do assunto, mas vou tentar.

21h39. Nada. Ouvindo “Superheated Extended Mix” do New Order. Essa música já tem sabor desse período da minha vida, não houve uma música que marcasse o período que passei na casa de titia, ouvi coisas muito variadas. 21h41. Vou ver se os outros habitantes da casa foram dormir.

21h44. Dei o maior vacilo, fui espiar pela fechadura se já estavam com a luz apagada e a luz estava de fato apagada, mas meu padrasto estava na sala mexendo no celular. Não sei se ele me viu. Minha defesa seria saber se mamãe já estava dormindo, pois lembrei de falar uma coisa com ela. O que seria essa coisa? Dizer que a Red Sonja já vai ser lançada, dia 7 de setembro. Como acabei de descobrir. Quem me dera ela fosse do preço que suponho. Ela é uma estátua pequena, a licença é mais barata, não deve ser um absurdo de cara. O Swamp Thing é que vai ser a bomba. Já estou até vendo. Se brincar mais caro que o busto do Hulk, o que espero muito que não. Mas é a boataria que rola nos grupos. O preço do Swamp Thing da Prime 1 foi astronômico, mas ele vem com um bocado de braços e mãos e cabeças intercambiáveis. E é gigante. Sete polegadas a mais que o da Sideshow e proporcionalmente maior.

-x-x-x-x-

19h18. Já é mais tarde do que imaginava. É bom estar de volta ao Profeta. Mas só completarei está página para postar. Fui com a minha mãe à oncologista. Fomos de Uber porque ela não queria dirigir. Eu chamei o Uber do meu celular porque mamãe não sabe operar o aplicativo. O trânsito na cidade é sufocante para mim, mas suportei estoicamente. Dei altos cochilos profundos enquanto esperava mamãe ser atendida e durante o atendimento, que foi rápido. Sobre o Surfista Prateado certamente vou querer que incida uma luz âmbar. Estava discutindo no Desabafos do Vate como quero uma iluminação altamente personalizada para cada estátua para que cada uma seja uma experiência em si, traga um clima diferente. A simetria estará na disposição das figuras, todas em diagonal, para a esquerda ou para a direita, organizadas de acordo, todas as que estão viradas para a esquerda do lado direito e vice-versa. Eis dois exemplos de iluminação que busco, para você ter ideia de quão variada eu quero que cada peça pareça e quão complexa vai ser a iluminação que eu visualizo.


Este eu tinha encomendado e cancelei por causa do Hulk, mas a iluminação está massa
para outras peças, gosto especialmente do azul dando um tom noturno à imagem.



Esta é a tão falada Red Sonja. Quero essa iluminação para ela que a empresta
sorriso de Mona Lisa.



Quero com mais de um ponto de luz para algumas imagens, de cores variadas. Espero que exista tecnologia que produza luzes pequenas, focais, de cores diferentes. O som deu a endoidada de novo. Não lembro mais que procedimento eu fiz da outra vez que não precisei reiniciar, mas acho que agora precisarei. A página acaba já e estou ouvindo relativamente bem diretamente do computador. Ouvindo Cure. Massa como sempre. Seria difícil escolher com quem preferia sentar para uma Coca e conversar: Björk ou Robert Smith. Puxa, seria uma parceria e tanto entre esses dois, mas ainda preferiria ver disco de Björk em parceria com os Strokes. Seria como um SugarCubes do século XXI. Preciso tomar banho hoje. Ontem, só não tomei para não tomar esporro da minha mãe por estar acordado até tão tarde. Vontade não me faltou. Eita, por pensar em amanhã, tenho que descarregar o meu celular e botá-lo para recarregar senão fica muito tarde para ligá-lo e botar o despertador. Como já disse aqui, acho salutar descarregar a bateria toda e recarregar do zero. Acho que aumenta a vida útil da bateria. Sei lá, superstições ou tiques. Todo mundo deve ter algum. Tenho outro que é soprar profundamente quando um pensamento muito ruim me aflige, como uma forma de extirpá-lo de mim. Sei que isso tem efeito apenas psicológico. Mas os pensamentos são o que senão fenômenos psicológicos? Bom, é como se fosse para não atrair aquela coisa ruim para mim, como se fosse a botando para fora de mim. Soprei profundamente, por exemplo, ao pensar que estava desenvolvendo os primeiros sintomas de mal de Parkinson. Soprei de novo por pensar nisso agora. Hahahahha. De médico e louco todo mundo tem um pouco e no sopro misturo um pouco dos dois, é terapêutico para mim soprar! Iria botar outra risada aqui, mas me contive. Estou pensando na iluminação dos bonecos, se será possível. Espero que sim. Desafio para a arquiteta. Pensando nisso, não vejo lugar para o Boba Fett. Ou não diviso iluminação para ele. Ele certamente será um dos que ficará virado para a direita. Acabou-se a página. Agora que me dei conta. Estou na segunda linha da quinta página. Fico por aqui.

P.S.: 21h12. Meu amigo cineasta talvez venha me filmar, está em Recife devido a um mal na família. Sugeri que o fizéssemos na piscina desta vez.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

ÚLTIMO DIA NA CASA DE TITIA

0h01. A madrugada do meu último dia aqui na casa da minha tia-mãe acaba de começar. Minha mãe vem hoje mesmo me buscar e amanhã, segunda, eu tenho CAPS. Que saco. A vida recomeça e dentro de um pouquinho mais de uma semana embarco para a Alemanha. Essa viagem tem me enchido de receios que, espero, sejam infundados. Foi muito bom passar esses dias aqui. Foi muito boa a noite de ontem, apesar do meu lado antissocial ter se sobressaído. Ainda travei algumas interações aceitáveis ou passáveis. A noite está fria e chuvosa, uma brisa que dá frio de tempos em tempos adentra o quarto. Esse quarto daria para eu fazer uma prateleira massa para as minhas bonecas, duas, aliás, pois suas maiores dimensões não têm janelas ou armários. E são quartos grandes. Pelo menos eu acho.

0h27. Trouxe o isopor com gelo e mais uma garrafa de Coca para o meu quarto. Só tenho sete cigarros, oito com o que vou acender agora. Espero ter restado algum no estoque de titia. Não me furtarei de pegar um lá caso esse acabe. Essa chuva que vai e vem não me agrada. Pode arruinar as gravações de amanhã. Espero que chova tudo o que tem de chover durante a madrugada. Meu sono já está passando. Não sei se isso é bom ou ruim. Não sei se aguentarei atravessar a madrugada acordado. Não sei se minha prima caçula vai dormir em casa hoje. Ainda está muito cedo para um sábado à noite para que as coisas se definam. 0h36. Confesso que não estou muito inspirado a escrever. A Gatinha fala comigo pelo WhatsApp, deve ser um dos finais de semana em que o namorado dela não está na cidade. A solidão completa é muito tediosa. Eu não a suportaria, como não a suportei. Preciso de gente, mesmo que nos arredores, longe de mim. Preciso saber que não estou sozinho permanentemente num local. Apenas temporariamente é mais do que suficiente. Se meu irmão não estiver morando aqui quando mamãe partir, se ela for antes de mim, não vou querer ir morar nos States, vou ver se minha tia-mãe, que já não é tão jovem ou meu primo-irmão assumem a minha curatela. Já cogitei também na irmã de mamãe, mas realmente me sinto bem e aclimatado na casa da minha tia-mãe. A verdade é que não queria deixar as Ubaias. Queria viver lá até o final dos meus dias. Vou descobrir se ainda tem cigarro. Ou peço a titia logo um. Que seria o mais certo a se fazer. Mas incrivelmente tenho mais coragem de agir como um gatuno do que pedir a ela. 0h57. Não dá mais tempo para cochilo nenhum, só depois que o meu primo chegar. Acredito que ele deve estar aportando aqui entre 2h00 e 2h40. Não posso colocar despertador, pois o barulho acordaria os meus tios. Logo, não posso cochilar se quero mesmo combinar tudo com ele para amanhã. Espero muito que amanhã não esteja chovendo. Pensando bem, esse meu foco em socialização, esse dilema entre o prazeroso ostracismo e nem sempre prazeroso encontro com a sociedade é uma questão que tem o seu lado bom, pois me ocupa a mente e desvia a minha atenção do foco das minhas drogas de preferência. Esse prazer que encontro em escrever, essa liberdade que eu tenho e que ao mesmo tempo é um aprisionamento voluntário me preenchem o ser, exceto no âmbito do afeto que, afora o impossível que é uma paixão platônica, encontra-se adormentado. Nem pensei que “adormentado” existisse, espero que queira dizer algo entre adormecido e dormente. Era o que eu queria dizer. E a Alemanha que está batendo à porta? Espero que encontre a caixa. Seria massa. Espero que não encontre os vizinhos. Seria ozzy. Espero que o Vaporfi não tenha quebrado com a queda que dei nele devido a um furo no bolso da bermuda. Acho que ele começa a fazer mais fumaça. Embora com a outra bateria não estivesse fazendo contato entre o atomizer e a bateria. 1h13. Não demora muito agora para o meu primo chegar. Água e computador não devem ser coisas que devem ser postas uma junto da outra, tratarei de botar gelo no copo longe da máquina a partir de agora. Não estou a fim de ouvir som. O silêncio me parece mais interessante, o barulho das teclas. O fato de minha rotina estar se tornando um aprisionamento voluntário é algo que vai ser questionado na terapia que supostamente ingressarei quando voltar da viagem. O Vaporfi definitivamente está fazendo mais fumaça, ótimo. Se pudesse dormia uma horinha, mas sei que não dormirei só uma horinha e meu primo, me vendo desacordado, mesmo que deixe a luz acesa e a janela aberta, não me despertará. Gostaria de pôr o som saindo das caixas do computador, mas isso faria barulho demais, a noite está tão quieta, só ouço o barulho das teclas sendo digitadas. Após a filmagem terei que arrumar tudo para estar pronto quando mamãe vier me buscar. Espero que meu primo não arrume nenhuma transa para trazer para arrematar aqui, o que melaria todos os meus planos. Veremos. 1h26. Só tenho seis cigarros. Acho que titia já se recolheu, senão estaria ouvindo barulhos de TV, panelas ou louças e, claro, os papos dela com a cadelinha. Meu ombro não para de doer, mas pelo menos não está me incomodando muito. Taí uma coisa que tenho medo, de ser impedido de escrever por algum motivo de saúde. Vou fumar outro cigarro apostando que lá no estoque de titia tem mais. Eita, preciso ler o negócio que meu amigo cineasta me mandou. Chuva novamente. Isso não está me cheirando bem. Se bem que a câmera é à prova d’água. Mas colocar meu primo na chuva para filmar é ozzy. Espero muito que mais tarde faça sol. Ou que pelo menos não chova. Vou ver o Hulk.

4h09. Estava no Desabafos do Vate. Elogiaram o meu cabelo e o meu físico aparentemente mais esbelto. Isso me fez muito bem. Este blog parece mais claro, iluminado, que o Desabafos do Vate, que, por oposição parece mais escuro, como um porão cheio de entulhos mesmo. Aqui parece que sou eu na frente de holofotes, onde todo o mundo que tem internet e fala Português pode me ver. É fato que poucos veem. Mas se alguém além de mim lê é o bastante, compartilhar a minha vida com você. Estou com receio agora da terapia, espero que passe, todo mundo está dizendo que vai ser ótimo para mim. Minha vida é basicamente escrever isso. Quão mais limitador e alienante pode ser? Quão mais livre posso ser também? Quão mais independente eu posso ser senão dando vida às minhas ideias? Se quase ninguém lê não faz parte do meu trabalho. Meu trabalho se encerra quando divulgo nos grupos. Aí é com o destino. Ou o acaso. Tanto faz. Só não é comigo. O máximo que podia fazer, eu fiz. 4h21. Vou dormir. 4h23. Abri a carteira de cigarros que peguei sem permissão do estoque. Meu primo é uma pessoa muito legal e muito compreensiva. Minha dieta a partir de agora será comer pouco. Se queria ter cem leitores? Queria. Mas não se pode ter tudo na vida. Eu tenho quase tudo. Eu tenho a minha liberdade de expressão. Eu posso exprimir o que eu quiser. Miscigenação cultural é algo sadio ao meu ver. É um embate de culturas onde há uma troca, uma assimila particularidades da outra, sem frescura, sem preconceito, isso da mulher branca usar o turbante que teoricamente é uma coisa “negra” foi uma vitória da cultura negra sobre a cultura branca, que em vez ser assimilada, assimilou um costume da outra comunidade. Não assimilou o significado histórico que aquilo tem, mas já assimilou seu uso, já está bom demais. A gente não assimila, negros e brancos, a cultura especialmente dos Estados Unidos? Mas agora está mais global. Se me incomoda ver as crianças todas querendo desenhar em estilo mangá japonês? Me incomoda, mas é a vida. Eles têm muito mais acesso a mangá do que eu tinha, não existia isso, então os meus heróis eram desenhados por americanos, um traço completamente diferente. Vários traços, em verdade. Como os japoneses tem vários traços, mas que me parecem mais semelhantes. Como deve ser para eles o americano, embora tenha as minhas dúvidas. A diversidade americana é muito maior, na minha opinião. Mas a gurizada quer mangá, que seja mangá então. Sou um dinossauro. Hahahahaahha. Embora tenha várias bonecas em estilo de mangá e animes japoneses! Que acho lindas. Todas elas escolhidas a dedo. As mais belas entre as mais belas. De Evangelion, pelo menos que foi o que pesquisei mais extensivamente entre kits e bonecos montados só me faltava a Asuka cheia que nem um balão de festa, mas nunca mais achei depois que ela saiu de linha. Estou feliz com o que tenho de bonecos de PVC, entretanto. Tenho até demais. Umas eu penso em dar. Preciso dormir. O dia já desperta. E terei que acordar de meio dia amanhã. Aliás, hoje. Vou lá.

13h56. A filmagem começou, estou fazendo o máximo para ficar desatento à câmera. Meu primo vai fazer outro take. Eu não sei quando ele vai começar. Espero que logo, enquanto eu ainda estou fumando um cigarro. Estou ouvindo uma do Echo & The Bunnymen que nunca havia escutado. Embora me soe familiar. A voz do vocalista não é mais a mesma. Eu não... ele está vindo, está fazendo o círculo ao meu redor, está fazendo takes que são impossíveis com uma câmera normal. Isso é bom.

14h21. Ele fez duas tomadas. Seria bom que o marido da minha prima viesse, para podermos fazer uma terceira tomada. Agora com outro cameraman, co-diretor. Acho que ele captaria mais os tempos que eu pediria para ele tomar filmando cada cena. E acho que talvez ele seja melhor em enquadramento. Mas os do meu primo-irmão já valeram demais.

Na casa da minha tia, eu experimento uma liberdade que não possuo na casa de mamãe. Sou muito bem acolhido aqui. Além do carinho, meus horários loucos são respeitados, meu isolamento não é questionado ou o meu consumo de Coca e ainda posso fumar dentro da casa, dentro do quarto. Não é à toa que me sinto tão bem aqui. Estas férias da rotina lá de casa e do CAPS foram muito boas para o meu juízo. Produzi bastante, saí para uma noitada como há muito não experimentava e ainda teve a festa do meu tio, na qual fui gradativamente me aclimatando à medida que mais pessoas foram indo e menos pessoas ficando. Não sei que horas minha mãe vai vir me buscar, mas imagino que à noitinha. Estou ainda com sono, dormiria mais, mas ficarei acordado para dormir cedo em casa e poder ir ao CAPS amanhã com o mínimo de disposição. Voltar à velha rotina por alguns dias, pouquinho mais de uma semana, e embarcar para a Alemanha onde as restrições à minha liberdade serão ainda mais severas. Fiquei impressionado assistindo a filmagem em como digito devagar em comparação às outras pessoas que conheço, mas é a vida, se assim já produzo muito e me sinto confortável digitando nessa velocidade, que seja. Não faria um curso de digitação. Aliás, não faria curso de nada. Já fiz a minha dose de cursos nessa vida. Agora quero gozá-la. À minha maneira. Que pode se transformar, mas cuja transformação não consigo divisar tão bem estou na atual conjuntura que criei para mim. O único detalhe é esta viagem que é em si uma transformação da conjuntura e, por essa razão, me gera receio e desconforto. A vinda para casa da minha tia, ao contrário, em vez de uma mudança, foi um acréscimo à minha zona de conforto. Uma prazerosa soma às qualidades que prezo em minha vida, de liberdade de ser mais plenamente do jeito que gosto ser, ter a rotina que gosto de ter e gostaria de ter lá em casa, mas que se faz inviável por causa das demandas da minha mãe em relação a mim. É verdade que estou com saudades da minha caminha e do meu quarto-ilha, olhar para o Daredevil, mas confesso que não muita. Aqui, apesar de passar a maior parte do dia dormindo, eu ainda tenho o bônus de viver em família, uma sensação que me escapa em minha própria casa simplesmente porque me sinto mais aceito aqui do que lá e porque aqui há uma família de fato – pai, mãe, filhos – e eu como sobrinho. Mas acho que o principal diferencial é o respeito às individualidades de cada um. Às particularidades de cada um. É um ambiente mais tolerante e liberal de forma geral, dentro de certos limites, é claro. Eita, vou revisar e postar o texto anterior.

16h29. Texto postado e divulgado. Duas xícaras de café me fizeram bem. Acho que partirei para uma terceira, pois ainda estou com sono.

16h33. Nova xícara de café posta. Cigarro aceso. Último cigarro que eu fumo antes de mamãe chegar. Não quero estar fedendo a cigarro quando ela chegar. Quando acabar o cigarro e o café, vou começar a arrumar as coisas. Acabei o cigarro e o café, vou dar meia-hora antes de começar a arrumar as coisas. Deixarei por último, obviamente, o computador. Este quero usar até o último momento. A farra de cigarros, como a minha tia chamou após saber dos meus restritíssimos hábitos tabagistas lá em casa, acabou. A partir de agora, só Vaporfi.

16h46. Guardei uma parte. Não há muito o que guardar, na verdade. Quando acabar “I Remember You” do Skid Row, vou colocar Björk. “Homogenic”. Não posso esquecer de nada, pois tudo o que trouxe, à parte as roupas, são partes essenciais do meu quarto-ilha itinerante. E, por conseguinte, do meu quarto-ilha de fato. Optei pelo “Vulnicura”. Deixei o meu computador ligado todo o tempo que permaneci aqui. Molhei inúmeras vezes o teclado. Em suma, tratei mal o bichinho. Meu companheiro mais inseparável e fundamental e eu o tratando assim... não foi intencional molhá-lo, mas deixar ligado foi uma escolha consciente. Mesmo sem refrigeração adequada aqui. Embora acredite que ele entre num modo mais ocioso quando a tela se apaga depois do tempo predeterminado por mim, que não sei se foi de 15 ou 30 minutos. Quando chegar em casa, o foco vai ser todo a viagem para a Alemanha. Minha mãe vai estar pilhada. Acho que divulgar na minha página principal gera mais visualizações. O que postei hoje já está com 11 visualizações, enquanto o anterior parou em 16 visualizações e ficou. E o deixei lá por bons quatro dias, eu creio. 17h07. A noite já vai abrindo espaço no coração da tarde, ainda mais com o tempo nublado como está, a luz diminui bastante no quarto. E por toda a casa. Estou sem inspiração para escrever agora. O que eu trago de mais forte em meu ser? A preocupação de voltar ao estresse de casa, somado ao estresse da viagem. Vou precisar me acostumar com o fuso-horário alemão, cinco horas mais cedo que aqui. Vou precisar me acostumar com tanta coisa. Eu acho que estou ficando gagá. Não lembro mais como se fecham as persianas e as portas da casa da minha irmã. Terei que ajudar jogando o lixo fora. Provavelmente encontrarei com os vizinhos e eles me chamarão para um encontro na casa deles. Provavelmente terei que ir à Áustria para visitar a casa dos sogros da minha irmã. Inevitavelmente vou fazer um monte de coisas que não quero fazer. Tudo isso me gera um desconforto interno grande, vai ser um grande reboliço no meu modo de ser... minha mãe ligou, é hora de me arrumar para partir.

19h30. Já estou no meu quarto-ilha com tudo conectado menos a internet. Acho que meu padrasto precisa ligar o modem. Minha mãe veio me perguntar se alguma coisa aconteceu durante o período na casa de titia. A que ela estava se referindo não sei, mas me pareceu algo relacionado a drogas. Eu, hein, Rosa? Estou com sono. Quero ir no banheiro e fumar um cigarro de verdade, mas só farei ambas as coisas quando o outros dois da casa forem dormir. Isso se eu não dormir primeiro. Estou sem saco para escrever. Estou sem saco de fazer nada, queria dormir, mas acho essencial ir ao banheiro e tomar um banho antes.

20h41. Banho tomado, dentes escovados e cigarro fumado. Estou pronto para dormir, porém agora perdi mais o sono. Bem, nem tanto. Tenho vontade de escrever no meu projeto paralelo, mas não o farei. É preciso parcimônia. Esta é a palavra precisa. Senão se torna mais um Jornal do Profeta ou Desabafos do Vate. E definitivamente esse não é o formato que eu quero. Por mais que a vontade seja de fazer tudo como eu sigo fazendo nesses dois espaços. O foco, agora que estou em casa vai ser digitar o diário do Manicômio. Se bem que só tenho basicamente uma semana para fazer isso, pois viajarei na terça da próxima semana. Nem vale a pena. Fico pensando se minha tia não está entrando no álcool mais pesadamente por influência do seu namorado. Isso me preocupa. Mas ela é adulta, eu não sou, só de corpo, pode ser que ela já bebesse assim e eu não sabia. Queria ter internet para ver o Hulk e ver se o entrevistado do blog de bonecos mandou a entrevista respondida. Acho que vou dormir. Sem inspiração, disposição, cabeça para escrever. Amanhã será um novo dia.

21h20. A internet voltou.


22h00. Já vi o Hulk, passeei pelo maravilhoso mundo dos bonecos e estou aqui de volta para me despedir, pois vou para cama agora.

domingo, 3 de setembro de 2017

DIAS NA CASA DA MINHA TIA III

7h28. Ainda não dormi. Meu primo concordou em fazer a tomada que eu instruirei a ele como filmar. Chega de meio-dia hoje. Vai dar para pegar a luz muito boa. Bolei toda a tomada de madrugada, nos mínimos detalhes. E o bom é que vou ter o meu autismo auditivo para não me concentrar na câmera.

8h24. Regravei a tomada que fiz de madrugada. Acho que ficou melhor e já eliminou uma coisa que estava atrapalhando a sequência da próxima tomada que era mostrar a parte de trás da casa. Já fiz isso agora. A única parte que me preocupo, mas eu dei um jeito, é que a GoPro não é mais reconhecida pelo computador quando ligada pelo USB. Não me pergunte por quê. Simplesmente parou de identificar. Talvez se reiniciar a máquina volte a funcionar. De todo modo tirei o cartão de memória da máquina e enfiei no computador, alcançando o mesmo resultado. Espero poder levar o meu computador para a Alemanha.

8h47. Estou que não me aguento de sono. Vou acabar esse cigarro e vou dormir. Depois de passar tanto tempo no Desabafos do Vate e no meu projeto paralelo, eu me sinto meio engessado aqui no Profeta, como se faltasse a privacidade que nos demais encontro. Bom, que seja. É aqui que vou escrever hoje. Por sinal, hoje é o dia do Chá de Fraldas da nossa amiga. Minha tia separou fotos de mim e meu primo-irmão quando bebês para uma brincadeira que vão fazer lá. Também comprou as fraldas e mais Coca Zero para mim. Amanhã será a celebração do aniversário de titio aqui. Bem, vou dormir. Até a hora da filmagem.

16h52. Acordei muito tarde, 16h00. Pensei que a luz iria estar boa a esse horário, mas me enganei. Tem que ser filmado amanhã cedo.

17h13. Acho que vou dormir mais um pouco, então. Até as 19h00. Não estou aguentando nem olhar para o computador, acho que estou saturado de tanto escrever. Esta festa vem em boa hora para eu dar uma desanuviada.

20h09. Já estou pronto para o Chá de Fraldas da minha amiga, aliás, da nossa amiga, mais amiga inclusive do meu primo-irmão do que minha.

20h17. Limpei meus óculos e a minha visualização da tela melhorou muito, mas ainda estou vendo meio borrado, deve ser a tal da vista cansada que chega aos 40. Parece que falei tudo o que tinha para falar no Desabafos do Vate e no meu projeto paralelo, que ganhou toda uma nova dimensão. Não sei se tomei a direção correta, mas me foi a mais intuitiva.

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5h33. Cheguei do chá de fraldas. Fui para o Recife Antigo, depois para o Empório Sertanejo e cá estou. Fomos parados numa blitz da Lei Seca, minha amiga foi convidada a fazer o teste do bafômetro. Presenciamos a briga entre um mendigo e um adolescente de rua que culminou com o dono de um dos bares da Rua da Moeda atingindo com aqueles dispositivos de dar eletrochoque o adolescente e botando-o para correr. A vida nas ruas do centro da cidade pode ser violenta para os seus habitantes. Um tanto menos para os frequentadores, embora a interação com seus moradores seja praticamente inevitável, geralmente na forma de pedidos de auxílio financeiro. Não sei por que meu Vaporfi não está funcionando. No Empório Sertanejo interagi muito pouco, preferi escrever coisas para o Desabafo do Vate. Sabia que eram para lá, por mais que o principal conte aqui. Agora é esperar pela festa de titio. Preciso dormir dentro em breve. Só tenho dois cigarros e um na boca prestes a ser acendido. Conversamos sobre feminismo e apoderação cultural. As negras não quererem que as bancas usem turbante é simplesmente ridículo. É a completa ignorância de que elas mesmas devem ter ancestralidade branca, que certamente terão, visto que somos um país altamente miscigenado. Afora isso, o quanto os negros não se apoderam da cultura branca? Acendi o cigarro. 5h52. É um extremo prazer fumar um cigarro de verdade, mesmo sabendo o mal que estou fazendo a mim mesmo. Deixo isso registrado aqui, mais porque um dos grupos em que publico o blog é contra o incentivo de drogas. Mas é um bom lembrete, até para mim. Acredito, porém, na evolução da Medicina. Confessei a uma colega que não sei a novas normas ortográficas brasileiras, ela perguntou e “quem sabe?” Não sei nem as antigas e faço um samba do crioulo doido aqui. Uma mistureba completa, cheia de erros de pontuação. Dane-se. Não quero aprender mais Português. Quero dizer com o pouco que tenho e sei. Me basta para me fazer contente com a vida e é isso que importa. Notei vários silêncios, hiatos de comunicação na festa e percebi quanto algumas interações são forçadas e superficiais. O álcool, eu percebi, leva as pessoas a se aprofundarem mais e se tornarem mais fluentes. Mas, percebi, pessoas que não estão bebendo tem esses hiatos silenciosos. Ninguém soube o que dizer ou trazer aos demais por alguns momentos. Não fui só eu que permaneci calado, mas contribuí com o silêncio. Uma garotinha, bem bonitinha por sinal, veio muito alegremente me abraçar, como se eu fosse alguém especial para ela na festa. Confesso que não entendi. Mas me senti acarinhado. Não vejo uma cena espontânea dessas acontecendo com os meus sobrinhos alemães, a não ser que previamente instruídos pela mãe. Acendi o penúltimo cigarro. 6h12. É muito prazeroso. Se o meu Vaporfi estivesse funcionado. Troquei de bateria e ele começou a funcionar mal e porcamente, ardendo muito a garganta e produzindo pouquíssima fumaça. Droga. Mas estava pensando em outra coisa. E se houvesse, globalmente, um movimento de feministas que raspassem o cabelo como forma de contestação e protesto? E a moda realmente pegasse porque há uma forte ideologia atrelada a ela, de igualdade de direitos entre homens e mulheres? Novamente temo pelo extremismo e as mulheres se tornarem durante essa fase de feminismo exacerbado anti-homens. Seria o ó. Será que Aurora rasparia o cabelo? Estou zumbi. Com sono e ao mesmo tempo com vontade de escrever. Debateram se um documentário apresentava fatos reais ou se poderia ser um documentário ficcional também. Minha opinião é que um documentário produzido com imagens reais captura fatos, a forma de narrar esses fatos é que é subjetiva e tendenciosa, pois todos nós somos subjetivos e temos alguma tendência, alguma intenção, especialmente um cara que produz um documentário. Ele quer demonstrar sua visão dos fatos, então desde as imagens escolhidas, passando pela edição e narração, tudo é feito para passar tal ideia do autor ou diretor do documentário. Mas estava escrevendo e não quis opinar sobre o assunto na hora, deixo a minha opinião aqui. Bom, tenho assunto para a festa amanhã, o episódio da briga e a posterior ação coerciva do dono do bar, que mostra um cidadão que se sente desprotegido pelo sistema de defesa do Estado e resolve tomar a justiça ou pelo menos o poder de polícia em suas mãos. O garoto que levou os choques, veio choramingando que sempre o culpado era ele e que o mendigo é que havia começado a agredi-lo. Como um rejeito social destes não vai se rebelar depois contra a sociedade que lhe oprime, agride e dá eletrochoques? A probabilidade é grande, pois todo o ambiente social do qual é rechaçado o estimula a isso, vai depender do seu gênio e da sua inteligência. E não, não vi quem começou a briga. Sei que o mendigo veio ter conosco depois, mas não entendi a sua história e sua versão da briga. Estava escrevendo e ele tinha um encadeamento de ideias confuso, além disso o barulho atrapalhou. A única coisa que eu entendi é que ele intentava matar o garoto. E disse que já havia matado antes. Acho que vou fumar o meu último cigarro pra ir dormir. O choque social foi grande, a decadência pairava no ar do Recife Antigo. Guardo minhas palavras para depois da festa amanhã. Acendi o último cigarro, nossa, muito bom. Vou ver o Hulk antes de dormir.

7h04. Vi o Hulk e apesar do problemão que vai me dar, sou encantado por ele. Tomara que façam os olhos perfeitos. Os olhos numa estátua de um busto em tamanho real são essenciais para da personalidade e tudo o mais. Os olhos são os pontos focais de quem olha a figura, depois vêm os detalhes.

16h29. Acordei supertarde para o aniversário de titio. Socializei um pouco. Vai ser difícil me acostumar a fumar o Vaporfi novamente depois de desfrutar por tanto tempo – essa semana – do prazer que é cigarro de verdade. Mas percebo que cigarro normal é mais agressivo à minha respiração. Voltei ao meu quarto fechado. Pensei que a interação com a família seria mais fácil, mas se afigura igualmente árdua. Mas voltarei lá para interagir. Algumas vezes ainda. E, sempre que me sentir acuado, alienígena, deslocado, desse jeito estranho que me sinto quando estou no meio de pessoas, volto para cá. 16h41. Vou voltar lá.

16h51. Voltei, interagi muito pouco e retornei ao quarto. Isso muito me desagrada, esse sentimento de deslocamento dentro da minha própria família. Penso até em fazer uso de álcool, como medida extrema para me socializar, mas não farei isso. Não sei quais seriam as consequências e as que diviso não são nada positivas. Estou ainda despertando. Mas dormi bem. Penso no Hulk agora, vendo o que escrevi anteriormente e penso em desistir dele. Mas sei que se fizer isso, nunca vou me perdoar. Enquanto isso a festa rola. E eu sem a mínima disposição de encará-la. É algo tão ou mais forte que eu. Então põe-se este dilema na minha frente: ficar onde realmente estou confortável ou interagir forçosamente e de forma para lá de rudimentar com os meus familiares? Decidi. A cada vez que for pegar Coca, vejo quando tempo permaneço submerso no evento social até vir em busca do ar dessas palavras.

17h25. Conversei com o meu tio francês e católico radical sobre Trump e ele desembocou nos sionistas e maçons governando o mundo e sobre o último aviso de Deus que virá em por volta de 2025, segundo ele. Nem me arrisquei a entrar nas expectativas de Ray Kurzweil do surgimento da Singularidade Tecnológica por volta de 2047. Ele diria que seria coisa dos sionistas, não adiantaria eu dizer que seria uma inteligência independente, um ser tecnológico que ele diria que foi programado pelos seguidores do demo. Mesmo se eu dissesse que ele próprio reescreveria o seu código evoluindo a si mesmo, ele diria que é coisa do demônio. Por todas essas razões ou falta de razão, eu não entrei nesse mérito. Talvez se eu estivesse bêbado, eu entrasse nesse embate ideológico o que não traria benefício nenhum. Pois ele continuaria com a sua visão, muito arraigada, e eu com a minha. Estou sem internet. Acho que seria necessário reiniciar o modem. Acredito que à medida que ficarem menos pessoas, eu comece a ficar mais à vontade na festa.

18h25. Passei até um tempo maior e interagi melhor com a galera. Mas nada como estar aqui. Acho que uma tia minha está meio encasquetada comigo. Ela olha para mim e não dirige a palavra. Meu primo disse ontem que quem trabalha em casa, fica mais avesso a interações sociais com muitas pessoas. Ou assim entendi. Vou até perguntar a ele de novo sobre isso. Não, eu não preciso de um cigarro agora. Não tem para que fumar. Vou segurar mais um pouquinho. Não estou com vontade de verdade, me sinto ainda saciado. Coloquei o iPod, pois o meu computador está sem internet, não posso ouvir Spotify. A bateria do iPod está quase no fim. É incrível como o meu primo é sociável e cheio de assunto. Ele consegue opinar sobre virtualmente qualquer tema. Tenho inveja dessa desenvoltura social. Talvez eu devesse chegar quando for pegar o próximo copo de Coca já dando um beijo na cabeça da minha tia que está amuada comigo, para ver se quebro o gelo. Preciso me preparar para o gesto. Não me vem assim fácil nem gratuito anymore. O que é uma pena. Mas é o caminho que escolhi trilhar. Que bom, está tocando umas músicas massa do The Cure no iPod. Será que minha tia está assim comigo porque lê o meu blog e faz um juízo de valor da minha pessoa a partir do que reparto aqui? Ela disse que lia o meu blog. Não sei se mantém o hábito, principalmente depois dos posts se tornarem tão longos. Fico espantado que pessoas ainda leiam quando divulgo nos grupos, acho que raras chegam até o final. Caso o sintoma antissocial de se trabalhar em casa, sugerido por meu primo, seja um fato, será um dos problemas do século XXI. Um outro colega ontem, disse estar sofrendo dos mesmos sintomas, só que eu ainda estou num grau mais elevado. Antes eu ainda sentia vontade de sentar numa mesa de bar para conversar, hoje nem isso. Ele ainda está no estágio da mesa de bar ser uma comunhão agradável, desprezando apenas eventos que tem muito barulho e multidão e que não permitem uma interação social mais profunda. Me perdi na música que estou ouvindo, agora dentre as que tenho salvas no meu computador, pois o iPod descarregou e continuo sem internet. Acho que vou lá pegar Coca. Mas a relutância em executar o gesto de afeto na minha tia me acossa a ficar aqui. Realmente há algo de muito errado comigo, por mais que me sinta confortável e feliz aqui com as minhas palavras. Vou lá encarar a festa um pouco. Não garanto dar um beijo na cabeça da minha tia. Vou lá.

20h21. Interagi bem agora, estou contente comigo mesmo. Dei um beijo na minha tia e “fizemos as pazes”. É tão interessante essa expressão, nunca tinha atentado para ela, o plural de paz faz todo o sentido, significa que nenhum dos lados estava em paz na situação, o que é o caso em todas as vezes em que a expressão é usada. Sejam nações, sejam pessoas. Soube que minha prima maluquete, a segunda mais doida depois de mim, eu creio, escreveu um livro. Centrado na internação, que também passou, fiquei sabendo, e traçando arcos com toda a sua vida. Como ela é menos pudica do que eu, não deve ter tido reservas. Se bem que nos diários das internações também não guardei segredos. Mas sei que guardo pudores, há coisas que não reparto aqui, por me parecer mais prudente e para essas tenho o meu blog secreto, que espero, quando ficar velho e não tiver mais vergonha de mim, pôr a público. Mas escrevo lá tão desleixadamente, ainda mais que aqui. A seleção do iTunes está bem legal. A voz de Renato Russo me é tão familiar, me acompanha desde os 12 anos de idade, eu acho, e é uma parte indelével de quem eu sou. Ele e sua melancolia depressiva e neurótica no mais das vezes me geram profunda identificação. Ainda. Apesar de gostar da vida, acho que continuo tão neurótico quanto antes e a melancolia, musical ao menos, ainda me atrai. Acho que músicas melancólicas me calam mais profundas à alma. Vou passar à Coca quente dentro em breve. Que pena. Vou voltar lá. Porque quero perguntar algo à minha tia jornalista, a utilização de numerais. Não deu, estão todos assistindo os DVDs de titio na sala. Interessante. Me apercebi de uma coisa agora que não posso descortinar aqui. Pois é, pudores. Prudência. Mas tem a ver com a visão. João Gilberto é extremamente único e econômico em sua interpretação. Entendo toda a adoração de Caetano por ele. Uma tia, sem se aperceber, deixou transparecer uma coisa que não gosta muito no seu par, num comentário bem-humorado e levemente crítico. Crítico para os bons entendedores. Mas essa é uma família muito acolhedora e sem preconceito. Obviamente há as fofocas, especialmente entre as mulheres, me perdoem as feministas, mas acho que as mulheres são mais “reparadoras” em pessoas e gostam de repartir suas percepções sobre as ditas pessoas entre si. Talvez os homens façam a mesma coisa, mas vejo uma incidência menor pelo menos na minha família paterna. Também só há um representante masculino da família aqui em se tratando dos tios e tias. O outro vive na ponte Macau-Natal. Não sei porque tenho essa preconcepção de que as mulheres tendem a fofocar mais. Não sei se é um reflexo da realidade, ou uma percepção pessoal. Sei que comportamentos sociais diferentes dos dos homens não diminui as mulheres, afinal são dois bichos distintos, um é macho e outro é fêmea, é de se esperar que tenham comportamentos diferentes. Muito do que se alcança na vida vem de saber se vender bem. Fazer um bom marketing social. Nunca fui bom nisso. E me torno cada vez mais precário nesse sentido. É como se a aceitação social fosse perdendo a sua importância e, tomando seu lugar, vem a necessidade de fazer respeitadas as minhas escolhas e decisões de vida. O grande problema é a pressão social de quem ainda acredita que eu possa me adequar a um sistema outro, mais abrangente que o meu próprio. Minha prima fez o seu marketing pessoal melhor do que eu e seus pais devem ter financiado a publicação do livro. O meu, por outro lado, não quero que minha mãe leia, o que dificulta muito as coisas. O que ajuda é que eu tenho a pensão, mas não sei se realmente quero publicar o que escrevi nas internações. Quero acabar de digitar, isso tenho muito claro na minha cabeça. Ainda iria um passo além e mandaria revisar, ter o texto pronto para ser publicado. Aí me daria por satisfeito, eu acho. Pelo menos isso me traria uma grande satisfação. Vamos ver. Penso na minha droga de preferência e na recaída que tive no Manicômio. Como todos ficaram abismados com a minha reação durante o uso. É minha droga de preferência, mas, hoje, agora, não faz o menor sentindo para mim. É algo absolutamente tóxico e que me traz consequências nefastas. O Manicômio não é para qualquer um. Certamente não é para o eu que sou no momento. Ainda acho que foi o Tio que nos dedurou. Bem, é a vida. A vida que que eu escolhi e que me escolheu. A vida tem uma parcela de culpa aí porque ela ou minha compleição psicológica me levou a me apaixonar pela cola. E foi uma história de amor que começou maravilhosa, mas que foi se tornando cada vez mais conturbada, complicada e custosa para mim. O crack nem se fala, é devastadora para qualquer um, acho que não há quem use que não fique na fissura de dar mais um tiro. É terrível. Ainda bem que não me apaixonei por ele. Senão a minha situação seria muito pior. Mas é a minha segunda droga de preferência. Odeio a noite de Boa Viagem hoje em dia, pois era onde e quando eu fazia o meu uso de crack. Quando inevitavelmente vou lá, eu fico alerta procurando pela janela do carro ou da varanda dos apartamentos, se estes derem vista para as avenidas principais, por possíveis pontos de compra. É uma reação condicionada que busco combater, mas que sempre me tenta. A última vez comprei foi com uma prostituta que me passou a perna. Mas não há por que lembrar dessas partes da minha vida. Elas podem me gerar fissuras desnecessárias. Totalmente inconvenientes e altamente perigosas. Então, Xô. 21h45. Vou pegar gelo e dar uma desabafada no meu blog secreto. Nada temam, não tem a ver com as minhas drogas de preferência é um assunto outro.

22h21. Falei com o meu primo sobre a filmagem amanhã. Ele concordou. Só não sei se durma ou passe a madrugada em claro. Acho que passarei a noite em claro e não dormirei. É até mais realista e condizente com o meu modus operandi na casa da minha querida e amada tia. Estão todos os sobreviventes da festa vendo DVDs na sala. Estou ouvindo Infected Mushroom pela primeira vez pelo fone de ouvido, é menos impressionante que no som. Me deu vontade de tirar um cochilo para aguentar a noitada. Mas se dormir e meu primo chegar e me pegar dormindo não vai ser legal, tenho que ter uma conversa com ele hoje. Para acertarmos os detalhes da filmagem. Hoje, que daqui a pouco vai ser amanhã. Preciso saber se ele vai viajar ou não amanhã cedo para combinarmos o horário da filmagem, aí decido se durmo ou não. Acredito que ele, se planeja viajar mesmo, deve voltar por volta da meia-noite. Duas da manhã no máximo. Foi a hora que voltou da outra festa quando tinha que viajar no outro dia. Se fosse repetir a hora, eu poderia tirar um cochilo de três horas. Mas acho que vou ficar acordado mesmo. Estou escutando a conversa dos bêbados ali na sala. Isso me desconcentra profundamente ao mesmo passo que me diverte. O mais falante é justamente o par da minha tia que mencionei anteriormente. Meu tio vai estar puto com o cidadão amanhã, eu acho. Estão discutindo a natureza da puta, da profissão da prostituta. Bêbados começam a discutir. O álcool está deprimindo os neurônios da galera legal. Mencionaram agora atrizes e pelo caminho de associações do meu cérebro cheguei até Aurora. E meu medo. Meus medos todos afloraram agora. O último foi o medo da solidão, que ironicamente é o que busco e alcanço na maioria do tempo. E quando me sinto bem, só, mas sabendo que há alguém coabitando comigo. Mas pensar que passarei até o final dos meus dias nessa solidão me assusta, me incomoda bastante o prospecto de não viver nunca mais um grande amor concretamente. Sei que já tive o meu quinhão de amor na vida que muitos passam a vida inteira sem ter, mas algo em mim acha que não foi ou é suficiente. O problema, o meu impedimento é que sou muito seletivo esteticamente. Além de ser romântico e tímido e certamente não ser lindo.  No entanto...


23h45. Todos os convidados foram embora e o aniversariante ronca. Titia tenta ligar a TV da sala. Eu certamente não vou aguentar passar a noite acordado, meu primo vai ter que me acordar amanhã quando da hora propícia para me filmar.