segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

LIXO DEDICADO A BLANKA


“[22:04, 1/18/2019] Mário Barros: Tia Caçula, assisti Vidro hoje e recomendo fortemente que você assista Fragmentado antes.

[23:48, 1/18/2019] Tia Caçula: Massa
[23:48, 1/18/2019] Tia Caçula: Fui ver a esposa:)

[00:28, 1/19/2019] Mário Barros: Ufa!:)”

E outro ainda, que me levou a refletir. Escrevo sobre as reflexões a posteriori.

“Beijo, vou escrever. Pensa direitinho se tem condições de trabalhar amanhã. Para não machucar mais. Tenho certeza que a sua sogra vai compreender se você explicar a situação. Mas a perereca é sua, não me meto nisso... Ainda! Hahaha”

Já fui ao motel duas vezes com Blanka e não penetrei nela. Não me senti confortável para fazê-lo. Não gosto de motel, é feito para o sexo, sexo parece ser uma prática obrigatória, compulsória no motel. No caso dos homens, o sexo parece ser representado pela penetração, o meu sexo foi chupá-la e lambê-la e beijá-la menos do que eu queria, mas o suficiente para achar que foi uma boa dose de sexo para mim, me fez querer mais, mas não penetrei, não cumpri o meu papel de homem num motel, noutra vez, a segunda e última, ficamos conversando, jogando videogame e conversando e eu beijei o seu rosto todo com o máximo de carinho que eu tenho. Nem a boca beijei. Não toquei os seus deliciosos e desejados lábios. Acho Blanka linda. E acho esse texto feminista, ou melhor, um exemplo único de humanidade, uma humanidade que não segue padrões e que não entende a mulher como um buraco morno e úmido para enfiar o pau, até liberar o esperma como um macaco, mas como uma companhia, um ser humano como eu, com todas as suas complexidades. Eu só pedi que entre nós houvesse respeito, honestidade e sinceridade. Mas da próxima vez a pedirei nua, provavelmente num antro de sexo, quando poderia estar no meu quarto com ela. Ela disse que havia algo atrás da TV um botão redondo como um joystick de videogame onde se pode ligar e navegar a smart TV. Não vou procurar agora, até porque não acho que exista, o que é um demérito com a informação da minha parceira. Só por isso vou procurar o danado do botão.

00h56. Nada de botão e nada de luzinha que pisca quando aperto o controle. Passando Loser de Beck. Será que ela inventou ou ouviu falar nisso? Pode ser que haja TVs assim. Não é o caso da minha. Que simplesmente não liga através do controle, acho que não está chegando energia elétrica nela. Passando Virus de Björk. Vou fumar. Ver onde isso me leva.

1h08. Nossa me levou a um pensamento em Blanka que foi seguido de uma megalomania. Pensei em dar a Blanka o password de acesso para os meus blogs secretos e dizer, isso é sua herança, só os seus olhos e os meus poderão ver, e, se eu que só faço escrever em algum momento for reconhecido e meu nome gerar dinheiro, se meu texto gerar dinheiro, você pode ganhar uma grana vendendo o conteúdo desses blogs, lhe dou total direito sobre eles. Quando eu morrer, será quando o meu nome estará mais valorizado, então será a hora de tentar fechar o negócio. Não pensei tudo isso, assumo, parte me veio agora motivada pelo ataque de megalomania que me atingiu antes: meu tio consegue fazer o livro ser publicado, o Diário do Manicômio e ele faz algum sucesso, o suficiente para publicar o meu segundo livro Eu Sou Assim e Ninguém Tem Nada Com Isso, sempre escrevendo o blog, que é a minha obra máxima, gratuitamente oferecida aos leitores. Não mais publicaria livro algum, me dedicaria aqui ao meu blog e quem quiser que lesse. Acho que o número de leitores aumentaria por um curto período, não sei se teria long tail. Quem me dera arrebanhasse alguns fiéis. Me sentiria com o meu dever na Terra mais que cumprido. Interessante é se a publicidade do meu site começasse a dar lucro, eu não me lembro para que usar o lucro. Certamente para ajudar causas humanitárias que eu apoio, mas era para outra coisa que tinha a ver com o meu próprio site. Eu poderia começar a receber perguntas e comentários e me comunicar diretamente com o público. Seria bastante curioso, mas nada disso vai acontecer. Por falar nisso, preciso escrever a nova parte do meu projeto secreto. Mas não hoje, não agora. Estou com uma dor no couro cabeludo, como uma inflamação, mas marca não se vê. Pensei em que cabelo gostaria de ter uma vez na vida: o cabelo longo e vermelho como poderia ter ficado quando descolori e pintei com o auxílio do Imperador da Casqueira, que aportou sua nobreza no Recife (antes era mais dado a viagens, talvez viesse por meu irmão). Nunca saberei, sei que era o seu principal parceiro, ou assim quero crer, conversávamos sobre tudo, inclusive minhas dúvidas em relação ao homossexualismo. Ele me levou até a o gueto gay da cidade, no Mustang e arredores. Até à Doktor Froid, há muito extinta. Bom, ele me ajudou no processo capilar, mas eu encasquetei que a tinta que a minha tia vizinha trouxe da Inglaterra especialmente para isso não daria para todo o cabelo, cortei o cabelo de um jeito ozzy e fiquei com um visual muito ozzy, ainda bem que eu próprio não me via, nem barba eu usava, nossa, estar sem barba, com a cara lisa é um pesadelo para mim, acho que nasci para usar barba, ou é como me apresento sentindo menos feiura no mundo. Tentei um bigode uma única vez e o abandonei prontamente, achei horrível. Deixei a barba engoli-lo. E não mais tirei, embora tenha passado máquina dois que é como se saísse de sunga por aí, mal comparando. Vou repor a Coca, fumar e comer um biscoito Bono de chocolate. Eita New World de Björk, linda e grande, belíssima, orquestrada, como uma flor que desabrocha e revela sua esplendorosa cor sonora. Não direi qual é a cor sonora que me evoca, é bom para quem nunca viu o filme ou a cor do CD imaginar sua própria cor. A capas me influenciam muito sobre a percepção do disco. O objeto disco é uma obra visual tanto quando é sonora e Björk entende isso e até nisso é de vanguarda, mesmo que as capas sejam todas retratos seus. Ela manda criar fontes para cada disco, é primoroso.

1h54. Fui fumar ainda pensando em Björk, descobri que acabaram-se os gelos de fácil remoção da caçamba, agora, só molhando. Estou com frio, vou desligar o ar. O interesse do pessoal da pizzaria pelo meu blog me enche de orgulho. Um viu meu texto como mera descrição do que acontece ao meu redor, não viu a parte em que narro o que decorre dentro de mim. Talvez nesse veja, se ler. Se ler, saiba que fiz o que a menina daí me pediu e fui ao site da pizzaria fazer um elogio sobre o excelente atendimento da filial de Casa Forte e mandei o link dos dois posts em que os havia mencionado até a ocasião. Os vejo quase diariamente, um vínculo se cria pela repetição, talvez por carisma deles, talvez por carisma meu, ou pela soma dos carismas disponíveis. Sei lá.

2h02. Pensei que não falei de Björk duas coisas que me passaram pela cabeça e olhei para as coquinhas e que elas vão todas para o frasco de memórias, mas pretendo guardar alguma Cocas, em especial a da garrafa que ficou deformada e representa quão deformada a minha alma pode ficar. A achei na mochila vermelha que usei em uma das minhas recaídas de cola, sofrida recaída, como são a maioria, senão todas, quando eu levo mochila, minha mãe tem meio que repúdio pela mochila, eu a vejo como uma lembrança de guerra, da batalha que travei primeiramente comigo mesmo de adequação à vida, até achar o meu lugar no mundo, que é exatamente este em que estou, a Coca é outro troféu de agora, representa me aceitar e estar em muito mais harmonia com a vida, sendo eu mesmo a maior parte do tempo, senão todo ele; não, todo ele, não. Mas uma parte maior que a maioria, eles são conformados, ou seja se adequam as fôrmas, eu sou livre, conformado com as minhas próprias leis e vontades. Que se resumem a escrever e agora a Blanka. Blanka é um mundo novo, um novo território, um novo continente onde aportei por causa do acaso-destino, meu gosto e o Tinder. Saí para fumar e voltei. 22h29. Um dos pensamentos que me passou pela cabeça é que se Björk me chamasse para ser seu companheiro, a acompanhando aonde fosse, eu largava tudo – inclusive Blanka – e me mandaria atrás dela, para tentar aprender a viver tão plenamente como ela. Acho nós dois seres peculiares que se dariam bem. Mas não interferiria no seu trabalho, a não ser sugerindo que fizesse um disco em dupla com os Strokes. É o disco mais sonhado da minha vida. E não passará disso, o que podia fazer para realiza-lo, eu fiz, postei mensagem nos fóruns dos sites de ambos fazendo a sugestão. Vou comer mais, preciso.

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16h22. Comi todos os pacotes de biscoito que mamãe comprou, nas diversas vezes que acordei durante a noite. Acordei agora a pouco e sou um ser completamente outro do que foi dormir e o pouco que me lembro do que escrevi faz sentido para mim nesse momento. Deixei a liberdade de pensamentos solta e deu no que deu. Me diverti elaborando e isso para mim já torna o texto válido. Hoje é aniversário da minha irmã e postei um textinho muito mal escrito, relacionado às mudanças que encarará com a família nessa nova etapa da vida. A vontade de voltar a dormir que me consumia e me controlava minutos atrás está passando e aos poucos vou me parecendo mais comigo, com o eu que tenho mais afinidade de ser. Precisaria de café. Talvez bote um para fazer, agora vou de Coca com cigarro.

16h45. O café está pronto – santa cafeteira que a minha tia caçula me deu – seu cheiro é sedutor, mas enchi outro copo de Coca para aproveitar o gelo e por ser um ato quase mecânico, automático, voltar do cigarro e completar a Coca. Quando acabar, parto para o café. Pensamentos de Blanka, Vidro e da pizzaria me cruzam a cabeça, nada muito consistente que mereça ser narrado, só que tenho o desejo de ter uma foto alegre de mim e Blanka, tirada bem de perto, isso é essencial, para ornar a sessão de fotos do meu quarto. Não haverá muitas, mas quero todas e cada uma delas em um porta-retratos diferente. O que será que se deu com a minha TV? Por mais que não a use, me sinto meio órfão das possibilidades nela contidas, de as ter acessíveis se o desejo surgir. A tarde cai vertiginosamente, quase não enxergo as teclas, em breve, quando for pegar o café, acenderei a luz do teto. Lembrei-me agora, numa derivação do pensamento contido na mensagem que enviei à minha irmã, que o chamado da cidade, de Munique, pode me ser irresistível. Numa derivação ainda mais distante, pensei que seria um prazer tomar uma cerveja com a Portuguesinha, moçoila encantadora em todos os âmbitos, a garota perfeita no continente errado e já muito bem acompanhada. Não sei o que me atrai nas pessoas já comprometidas, não que o saiba à primeira vista, mas não desisto quando descubro tal fato. Acho que foi um padrão que foi bem-sucedido uma vez e, por isso, por esse sucesso único, penso que vale insistir nas demais. Tolo eu. Que seja, só estou tentando ser feliz da forma que sei. E não creio de fato no padrão, prefiro crer em coincidências, as melhores garotas já foram tomadas, penso que essa é a melhor explicação. Vou mudar para o café, cairá muito bem com um cigarro.

17h20. Nossa, que prazer a primeira xícara de café com um bom cigarro, me sinto revigorado e grato a existência pelo momento. Acendi a luz como combinado. Ainda rola um tempo até ter a certeza que Blanka é a pessoa certa para receber a herança que mencionei. Ela terá o poder de apagar tudo após a minha morte, tornar os blogs públicos ou publicar se houver demanda para essa última opção. Os direitos iriam todos para ela, pois deixo aqui documentada tal vontade. Quando acabar esse post, vou escrever no meu projeto paralelo e secreto. A terceira página acabou de acabar, o tempo às vezes é de uma precisão surpreendente. Vou revisar e postar o anterior. Talvez revise e poste este em seguida, não sei. A inclinação da minha alma ao final do processo de publicação do outro me guiará. O café me deu calor, liguei o ar. Hoje amo muito o universo e a minha condição nele, a forma como meus atos se manifestam ilusoriamente sob o meu comando, eu, essa entidade imaterial que me parece tão real a ponto de me dedicar a ela. Grande mistério. Vou lá para o anterior. E, desde já, percebo que duas páginas não são suficientes para caber um dia inteiro de ruminações.

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16h22. Nossa, querida Blanka, você estava certa! Há um botão como um joystick, exatamente como você descreveu, na minha televisão, acabei de descobri-lo dando uma segunda chance à sua teoria! Saí alisando as extremidades da TV e bem no meio, embaixo, achei o tal pitoco! Não sabe como isso faz diferença para mim. Desculpe a descrença, me sinto profundamente envergonhada por ela no momento. A TV não liga, entretanto. Não sei o que se deu. Talvez venha a acrescentar mais coisa aqui quando da revisão. Queimei minha língua e agora pago com vergonha pela minha ignorância. Mais uma vez peço desculpas.

DILEMA MORAL E FEZES


Eu não sei o que quero fazer, apenas o que tenho que fazer, por isso abri esta página em branco para ver se a minha alma assenta e se acalma. O que tenho que fazer? Complementar o post novo do Profeta e acabar de revisar o post do meu blog mais secreto. Tomei muito café e quando passei de volta para a Coca meu organismo e meu eu estranharam e ficaram em rebuliço. Fumei também. Uma difícil escolha moral apresentada pela existência ontem me deixou ainda mais perturbado porque a escolha que fiz foi a menos “cristã” possível. Essa moral judaico-cristã que permeia as sociedades ocidentais, sei não, viu? Acho válidas e tudo o mais, mas machucam às vezes. Fato é que fui comprar um remédio ontem de noite na farmácia a pedido de mamãe. Ela me outorgou o cartão de crédito e me disse que comprasse só e tão somente o remédio designado, nenhum centavo a mais. Quando estou prestes a entrar na farmácia uma miserável com uma miserável criança me pede uma lata de leite pequena para o infante. O pior que a forma que falei com ela lhe deu alguma esperança, pois o pedido me tocou e por um momento me decidi a ajudá-la. Porém ao cruzar a porta da farmácia e encerrar a triste figura do lado de fora do ambiente climatizado, limpo e brilhante onde vi que o leite era muito mais caro do que julgava, a obrigação de cumprir o combinado com a minha mãe se fez mais forte que a caridade e comprei somente a medicação. Pedi desculpas a miserável, expliquei-lhe toda a história e ela foi bastante compreensiva, disse que não havia problema. Nossa, tal desafio moral me doeu e dói profundamente e realmente não sei se fiz a escolha certa. Reconquistar a confiança da minha mãe é fundamental para a nossa relação e para futuros pleitos financeiros para com ela e sinceramente me sentiria mal quebrando o nosso pacto, faltando-lhe com o respeito, mas a criança sem leite não me sai da cabeça, me assombra desde ontem. Eu tinha os meios só que eles não me pertenciam e a decisão que tomei foi deixar outro ser humano com fome. Um pequeno ser humano vítima da sociedade que não educa. Pronto, desabafei. Vou voltar à revisão, quero postar no blog secreto hoje. E depois, se me restar disposição, complementar o post do Profeta, que mais parece um mosaico, com fragmentos de informação uns emendados nos outros. 21h58. Esqueci de botar a hora no início, atarantado que estava.

0h27. Revisei o imensamente redundante texto, desnecessariamente caudaloso, e o postei no blog secreto. Não vou fazer os acréscimos ao post de Blanka, acho insignificantes e depois de ter mergulhado no outro texto as memórias do que tinha a acrescentar se perderam nalgum recanto de mim que não tenho acesso. Talvez ao revisar o dito texto eu relembre, agora vou dar uma olhada no maravilhoso mundo dos bonecos.

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Estamos prestes a partir para Gravatá. O namorado da minha irmã PE irá conosco (minha mãe, meu padrasto e eu). É gostoso mergulhar no maravilhoso mundo dos bonecos mesmo que não tenha mais nenhuma peça a adquirir e não possa fazê-lo.






0h05. Foi bom, mas minha alma se encontra desassossegada, pode ser cansaço, pode ser um caroço mais profundo. Não encontro palavras e nem quero procurar, me abstrai mais o maravilhoso mundo dos bonecos, onde voltei a ser mais atuante. Sonho com a minha boneca chinesa, uma obra de arte de uma sensibilidade única na minha opinião. Impossível de ser concebida por um ocidental ou por alguém que não tenha crescido imerso no universo cultural e folclore chineses for that matter. Escrever me incomoda no momento.

0h22. Escrevi um pequeno adendo no meu projeto paralelo do blog secreto. Vou fumar e pegar Coca.

0h37. Algo me pede para deitar e dormir, a parte mais sensata de mim; no entanto, uma parte maior e predominante insiste em permanecer, talvez porque tenha passado tempo demais longe do meu porto seguro, do meu quarto-ilha, das palavras. Percebo, especialmente logo que acordo, que me falta fôlego para enunciar as sentenças, as últimas palavras saem com esforço e falta de ar tornando-se quase inaudíveis. Isso ficou claro para mim na conversa que travei com o namorado da minha irmã PE quando este chegou à nossa casa e eu havia acordado há pouco e fumado um bom bocado já, como sempre faço ao despertar. É um alívio pensar que dificilmente me faltará fôlego para digitar as tais das palavras. Conversamos sobre religião e sobre o incômodo que me causou a frase em sua camisa: “Be more”. Me pareceu uma cobrança de uma suposta insuficiência de quem a está vestindo, uma ordem para mudar quem se é. Ju acha que estou em um momento de transformação. Eu sinto que esse processo empacou, eu, mula, empaquei, não quero avançar nem retroceder. Sei que Ju vai respeitar o meu ritmo e isso me acalenta. Nada forçado funciona comigo. Nem com ninguém, faz-se mas não com a alma, pois a alma está tomada por rebeldia e repulsa por fazer o que não é a sua vontade íntima e verdadeira. Sei que a idade vem me roubando os meus medos e isso é gracioso. Isso não quer dizer que me ponha disposto e aventureiro no mundo, só mais tranquilo comigo mesmo. Tenho medo de ter um filho e de sentir o medo do que o mundo poderia fazer com ele. O mundo quase me engoliu, roubou a minha vida, devorou a minha alma, senti a escuridão fria e desesperada de seu estômago. Que alívio, que felicidade estar seguro no meu quarto-ilha com as minhas palavras, imprestáveis palavras, visto que não lidas. De que servem palavras que não são lidas? Palavras são escritas para serem lidas ou essa é a fantasia de quem escreve. O desejo maior meu, pelo menos. Empatado com um amor recíproco. Ou melhor, uma paixão recíproca, deixa o amor para mais tarde, ele vem quando as almas recolhem suas penas. E vale a pena. Desculpe o jogo de palavras esdrúxulo, mas significativo. Parece que me aclimatei e esquentei na escrita... pronto, foi só pensar isso e todas as palavras fugiram de mim. Fugirei delas e me refestelarei no maravilhoso dos bonecos.

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14h15. Três copos de Coca e duas xícaras de café depois, a dor de cabeça com a qual despertei começa a ceder. Mas não muito. Nada de interessante aconteceu na minha vida. A fantástica faxineira adentrou meu quarto para me avisar que intenta limpá-lo, mais cigarros e café para esperar.





15h14. Presenciei o que a fantástica faxineira considerou uma intervenção divina. Entendo o seu ponto de vista, embora não acredite. Fato é que parou de arrumar o meu quarto e foi atender a filha na sala por causa do som que estava rolando aqui. Nesse ínterim, vim pegar cigarros, pois os havia esquecido. Quando tentei abrir a porta do meu quarto, algo a bloqueava, não importava quanta força eu pusesse o que quer que estivesse impedindo a porta de abrir não cedia. A fantástica faxineira tentou também, sem sucesso, e decidiu ir pelo lado de fora do apartamento, através da jardineira, para entrar pela janela que havia deixado aberta. Infelizmente, como se vê na foto, há a máquina do meu Split bloqueando a passagem. Ela pensou e ensaiou contornar o obstáculo umas três vezes e acho que foi aí que rogou a Deus que a ajudasse. Voltou por onde veio e retornou à frente da porta que nós pensávamos estar sendo bloqueada pelo rodo tombado. Eis que Deus se manifestou e o que impedia a entrada no quarto-ilha se revelou ser a chave que havia caída bem ao alcance de suas mãos. Tal fato foi visto como uma bênção do Criador pela fantástica faxineira, eu fiquei aliviado, pois não sei se a tela de proteção suportaria o seu peso caso despencasse ao contornar o ar, mas não acreditei ser obra de nada a solução tão simples e segura para o problema da porta, se muito do acaso-destino. Ela, que viveu o milagre, deve estar contente com o bom e amoroso Pai. Deve ser reconfortante tal sentimento. Meu pai são cinzas no fundo da maré de Macau, um livro de Quimiometria e as lembranças e fotos que guardamos dele. O criador do universo, pois também acho que um universo tão organizado como o nosso tenha sido fruto de uma ação inteligente, ainda está por vir e será proveniente da evolução tecnológica ou de complexidade do universo. Preciso revisar o post anterior, talvez complementá-lo, mas me falta disposição. Prefiro escrever isso peidando por causa do café. O dia está particularmente e mais quente se me afigura por estar bebendo algo quente, liguei o ar e botei o volume do som no 25, coisa rara. Já me acostumei à altura. Vou fumar e pegar mais café. Não ainda. Marteladas querem concorrer com o som, posso aumentar o volume, são marteladas bastante sonoras. O café já frio da xícara acabou. É hora de repor a cafeína e a nicotina do meu incrivelmente resistente organismo. As marteladas estão mais ferozes e constantes.





15h59. Como é de praxe, o café me deu uma caganeira, a minha teoria é que ele age como um lubrificante/desinfetante do intestino, soltando e liquefazendo o que nele está contido, facilitando ou praticamente obrigando a expulsão do seu conteúdo. Foi a última xícara, tenho pouca Coca e acho que a despensa está trancada. Posso pedir à fantástica faxineira que faça mais café, porém meu estômago tem um limite de tolerância que uma vez ultrapassado, o que quase se dá no momento, torna tomar o líquido uma experiência desagradável e nauseante. Não quero vomitar, como uma vez já se deu. Outra teoria é que o café irrite o meu sistema digestivo e por isso os peidos, a caganeira e o enjoo. Sei lá e não faz diferença para os efeitos do café sobre mim tais hipóteses. Sei que antes de pedir mais uma carrada de café, tomarei uma Coca bem gelada com cigarro para “limpar” e ver se a porta da despensa está destrancada, o que me faria migrar definitivamente para a Coca por hoje. Água não me apraz, prefiro café com todos os seus colaterais. Preferiria, entretanto, ter Coca. Essa não me faz mal que eu perceba, afora o bucho bastante dilatado. Nunca estive tão gordo. E isso nunca me importou menos. Tenho um pequeno pedaço da vida de Blanka, sou um pequeno pedaço de sua existência e de seus pensamentos, não ouso dizer de seus sentimentos. Ela ocupa fatia maior do meu ser e isso é evidente. E sim, nutro sentimentos por ela, mas nada que configure ainda uma paixão. O pernoite no motel será um momento decisivo para ambos, eu creio. Em verdade, em relação a Blanka não sei em que crer. Nossa, preciso escrever um adendo no post anterior! Um que me deixa muito feliz! Em relação a Blanka! Momento.

16h26. Pronto. Acho que adicionarei mais coisa ao post anterior quando tomar coragem para revisá-lo. Este está quase acabando, tenho que ter um pouco de disciplina e cumprir o que me comprometi a fazer e que venho protelando por alguma razão que me escapa. É hora de enfrentar. Talvez decida que nada deva acrescentar. É a saída mais fácil, mas não é a desejada. Ou a ideal, na minha opinião. Vou fumar. Antes que comece Björk na lista 6.

16h40. “Nail in my head, from my Creator, You gave me life, now show me how to live”. Comentei com a fantástica faxineira que Deus a havia ajudado hoje. Ela respondeu, “Com certeza. Em tudo”. Tal resposta me deixou atarantado, fui tomado por uma preguiça de existir, uma vontade de tombar morto ali. Não sei se foi porque migrei para a Coca ou pela inesperada resposta. Nunca saberei. Acabou-se o post. Vou tirar uma foto da privada. E vou tomar mais Coca com cigarro. A despensa está aberta. Sem mais café por hoje, acho eu. Algo em mim pede mais, para alternar com a Coca. Acho que é o que vou fazer.

17h00. Foi o que fiz. Vou revisar e postar logo esse antes de partir para o que realmente deveria fazer.

sábado, 19 de janeiro de 2019

RESTAURADOR E BLANKA


6h09. Despertei antes da hora. É um momento agradável para se despertar, principalmente porque raro. O dia que se inicia é belo e ensolarado como só dias tropicais podem ser. Meu irmão retornou aos Estados Unidos. Meu primo historiador, que veio tomar conta de Maria ontem (não a delegam a mim com justa razão), elaborou 20 perguntas para eu responder no postanterior (LINK).

15h59. Hoje dormirei cheio de fios, farei um polissonografia do meu sono. Já não posso beber mais Coca ou café ou qualquer coisa estimulante. O restaurador ligou hoje, um tanto chateado pela nossa falta de contato. Eu só acordei agora, pois levantei às 5h e só voltei a dormir perto das 11h, com o telefonema dele, ou melhor, com a minha mãe que coincidentemente chegou ao quarto quando o meu celular estava tocando. Não sei se ele ligou mais vezes, eu estava apagado. Mas isso tudo é papo muito chato. Entretanto são variações da rotina, dão um contexto onde me insiro. Blanka nunca mais deu notícias.

16h17. Mandei um Instagram para Blanka, ela disse que fala comigo à noite. Meu coração esquenta e derrete. Ai, ai, sou bobo mesmo.

16h35. Pedi a mamãe um café, ela concordou e fez uma xícara de expresso. Delícia. Depois disso, só água, saco. Talvez o suco de morango que ela abriu. Vou acender a luz e botar um som. The Cure. Maria não fez a cirurgia para a retirada dos caroços hoje, mas ela e titia não estavam em casa para me dar mais informações. Várias esperas se acumularam desde que acordei: o restaurador, Blanka, Maria, fora o exame do sono que já me esperava desde antes de eu me deitar. Minha prima aparentemente não viu a mensagem que a mandei ainda ou viu e configurou o WhatsApp para não mostrar quando as mensagens são visualizadas. Acho que isso é possível de se configurar no aplicativo. De toda sorte, o não está embutido no post que compartilhei e, por conseguinte, na mensagem enviada. Incrível como os Barros têm muito mais desenvolvido o hábito da leitura que os Gonçalves. Inclusive entre os da minha geração. Já li, pero non mucho, hoje me apetece escrever e escrever somente, me falta paciência e interesse para textos alheios. Tentei ler O Mundo de Sofia, um carinhoso presente de uma pessoa querida, mas empaquei. Coloquei o som no volume 10, o padrão para mim e sinto que minha qualidade de vida aumentou com o volume. A familiaridade, por vezes tediosa, no mais das vezes, querida. Tive uma ideia para um jogo de implementação fácil e focado em VR que queria passar para o meu irmão. Chamar-se-ia Kaleidoscope 3D ou VR.  E seria exatamente isso: um caleidoscópio onde pedrinhas da mesma cor e tamanho teriam profundidades diferentes, algumas saltariam muito da tela outras menos e assim sucessivamente, quando o usuário mexesse a cabeça, as pedras se misturariam de acordo, formando novas figuras e seria possível tirar fotografias 3D das imagens formadas. Simples, belo e que faz bom uso dos recursos dos capacetes de realidade virtual. Ou assim quero crer. Pode ser que seja uma ideia idiota, sei lá. Vou postar esse trecho da conversa no WhatsApp do meu irmão e ligar para ele dizendo que o fiz. Quem sabe ele não enxergue potencial e desenvolva o jogo.  

17h30. Está feito, entregue às mãos do meu irmão, do acaso-destino. Cutuquei a existência, gosto quando faço isso, meus textos são cutucadas muito irrelevantes, inexpressivas, embora sejam a minha forma de expressão maior. Minha mãe deu uma ideia para o projeto, quando o reparti com ela, que achei muito pertinente, desenvolver conjuntos de “pedrinhas” diferentes, temáticas para o caleidoscópio, o exemplo que ela deu foram flores. Sugeri a meu irmão que adquirir os demais conjuntos ou versão “full” do jogo fosse uma experiência paga, para tornar a empreitada lucrativa para ele.

17h46. Sem inspiração. Vou ao cigarro.

18h46. Fui ver Maria e saber porque não arrancou os caroços hoje. Descobri, mas a razão é demasiado enfadonha para explicá-la aqui. Estava contente com o sapato que ganhou da minha tia-vizinha, embora tenha ficado com um preto, que não lhe cabia, na cabeça.

 “Não sei quanto a ideia do jogo... tenho que pensar a respeito”. Foi a resposta do meu irmão. Tenho uma sensação estranha de que está se distanciando de mim. Espero que seja ilusória. Mas sinto – e novamente podem ser só caraminholas da minha cabeça – um ranço, um repúdio dele em relação à minha pessoa. Isso me fere, essa impressão que talvez nada tenha de real. Talvez seja mais uma forma que meu sádico ego arrumou de me maltratar. Estou com sono e calor. Nada posso fazer em relação ao sono até os fios chegarem, o calor é facilmente solucionável basta apertar o botão azul do controle branco.

19h23. Vou me deitar. Tentar um último cigarro antes de ir.

19h33. Mamãe foi redondamente contra a ideia de eu me deitar. Tentarei não sucumbir ao sono. Vou para o maravilhoso mundo dos bonecos.

22h22. Acordei para ir no banheiro, comer e fumar. Não estou conseguindo dormir direito, menos pelo aparelho e mais pela hora em que me deitei, muito mais cedo que o habitual.

22h41. Volto a tentar dormir.

1h44. Acordei por biscoitos e porque o sono me fugiu de novo.

6h06. Acordei para comer e fumar

11h51. Acordei definitivamente.

13h07. Fiquei conversando com a empregada da minha tia-vizinha e Maria. São primas. Maria volta amanhã para Natal. Estou ainda pela metade, não despertei propriamente e meu despertar é pleno de desgosto por existir. Tomo café recém-feito e fumo.

“[15:18, 1/17/2019] Mário Barros: Não vai rolar tirar os caroços de Maria agora, pois, devido à idade, o procedimento tem que ser feito num hospital e, para isso, é necessária a permissão do plano. Ela voltará a Natal amanhã com titio, que vai a uma missa de sétimo dia lá.
[15:21, 1/17/2019] Mário Barros: Estou à espera do restaurador. Ele disse que chegaria por volta das 15h. As bonecas já estão todas dispostas na mesa da sala, nem o machado, nem as flechas, nem a espada foram danificados, pude averiguar agora. Mais uma vez obrigado, amado irmão.”





15h27. Passei um bom tempo conversando com Maria e a prima na casa da minha tia-vizinha. Voltei porque o restaurador está prestes a chegar. Preciso ficar atento ao interfone.

16h23. Nada do restaurador. Mamãe – e eu concordo – acha que a reparação tem que ser realizada aqui em casa.

16h26. Acabei de ligar para o restaurador que disse que está chegando. Blanka criou uma conta do Instagram para falar comigo. Disse que está ausente porque está cuidando de si, está enfrentando uma crise depressiva e a compreendo. Mamãe vai achar que é mentira, mas ela havia mencionado sobre a questão na grande conversa que foi o nosso último encontro.

18h34. O restaurador cobrou um preço super em conta para reparar as três peças danificadas, seriam muito mais caros tais serviços no exterior. Blanka me respondeu e disse que tinha o dia todo para falar comigo.

20h46. Fui comprar Coca na pizzaria e um bróder de lá me perguntou sobre Blanka. O que significava. Expliquei que era a minha paquera de 19 anos. Por sinal, vamos nos encontrar amanhã, ao que tudo indica, para assistir Glass no Plaza, comer pastel na Praça e tomar um sorvete para conversar sobre o filme. Queria tanto poder beijá-la, no entanto não sei se será possível, pois está com um furúnculo ou coisa que o valha estourado no rosto e está dolorido. Bem, veremos. Descobrirei.

21h37. Já estou com os ingressos para o filme comprados e impressos. O desejo que surgiu da conversa com a minha tia caçula está próximo da realidade. A realidade é que não sei como me aproximar de Blanka, como alcançar o seu afeto. Mamãe acredita que nunca conseguirei, eu sou um pouco mais otimista e persistente. Blanka foi jantar e arrumar a casa, quando for deitar volta a falar comigo.

22h08. Comi e isso geralmente me dá sono, não sei aguentarei esperar por Blanka.

3h56. Disse a Blanka que ia me deitar e acabei vagando pelo maravilhoso mundo dos bonecos até agora. Vou dormir, senão posso melar tudo amanhã.

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23h19. Eu tive um dia diferente e especial. Comecei acordando atrasado. Fui ao Manicômio pegar receitas para as minhas medicações, depois fui tosar os pelos da cabeça. Me aprontei e enfim o momento mais esperado, o encontro com Blanka. Apresentei-a ao pessoal da pizzaria, alimentamos os peixes e tartarugas da Praça de Casa Forte, andamos de mãos dadas até o shopping, um deleite há muito desejado por mim que adoro andar de mãos dadas com a razão dos meus afetos. Conversamos e surpreendentemente ela falou mais, outro deleite, adoro saber dela. Assistimos Vidro (recomendo vivamente a quem for assistir que veja antes Corpo Fechado e especialmente Fragmentado, que acho o melhor dos três e que perde muito do seu elã se Vidro for visto primeiro). Fiquei com pena de Blanka, que não havia visto os predecessores e ficou a ver navios na primeira meia-hora de filme. Saí do cinema me urinando e louco para fumar, vontades do corpo empatadas, mas como Blanka também queria ir ao banheiro, acabamos fazendo a escolha certa. Ainda comemos pastel na Praça e depois sentamos num banco do bucólico local para conversar, outro sonho meu, que sempre via os casais se curtindo lá e me indagava quando a minha vez chegaria. Bem, chegou, foi rápida, mas foi outro deleite. No final roubei um selinho de Blanka que, fechada como é estranhou o gesto e entrou no Uber. Voltei para casa contente de ter vivido a vida em grande amplitude de situações num dia para mim diferente do senta-fuma-bebe-algo-negro-escreve. Ela é uma pessoa que se diz de difícil socialização e de fato é, mas estamos seguindo sei lá para onde ou o quê. Queria muito poder levá-la para Gravatá nesse domingo, mas sei que não é o momento nem a ocasião, ademais está com um furúnculo nas partes íntimas, dificilmente poderia desfrutar da piscina aquecida, onde pretendo passar a maior parte do meu tempo. Em verdade, tenho monte de carinho represado para dedicar a ela, mas fico acanhado porque ela parece um bicho do mato em relação a isso. Espero que, aos poucos, se o tempo me for concedido e as oportunidades acontecerem, eu consiga habituá-la a receber os meus afagos. O tempo dirá. Eita, entrei na quarta página. Uma última frase. Blanka me faz bem, quero fazer o mesmo por ela. Somos muito parecidos no isolamento do mundo e nas relações cada vez mais pontuais e curtas com os demais e somos diferentes em tudo o que tange amar e num monte de outras coisas. Descobrimos mais diferenças que semelhanças a cada novo encontro, mas isso não me desestimula ou me faz descrente, tudo é possível. Escolhi a trilha mais difícil, para muitos, um espinhoso caminho, mas dizem que os caminhos mais difíceis levam aos lugares mais belos. Veremos.