quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

BARROS OU DECK NA PISCINA

De vovó Denise para titio. Hahahaha.




Eu sou tão pequeno, tão miúdo, insignificante, cercado de gente com mais significado que eu, que significam mais para o mundo pois operam nele transformações mais profundas e definitivas que as minhas palavras. Fui comprar Coca na pizzaria, um dos bróderes de lá pediu o endereço do meu blog e disse que leria, foi o ápice do meu dia, embora duvide que encare o texto todo. Pelo menos teve o sincero interesse que os meus amigos mais queridos não têm. Curioso o acaso-destino como se dá. Hoje estou particularmente mal, nada que me incomode muito, mal comparando é como ter uma farpa fincada na planta do pé. Só que no pé da alma que não cessa de caminhar enquanto pensamentos afluem. A própria afluência de pensamentos é a manifestação mais inconteste da alma, ou qualquer nome que se dê, como consciência, ego, eu, essa coisa que pensa ser dona desse corpo e que admira o belo, essa ilusão dos átomos que é a grande maravilha da existência, misteriosa e inexplicavelmente real. Que por falta ou excesso de neuroquímicos me faz me sentir desgostoso comigo. Porra, esqueci de botar o horário em que comecei a escrever isso. São 23h33. Penso em esticar as ideias quando a noite for minha. Mamãe e minha cunhada assistem seriado na sala. Na piscina, onde tradicionalmente fumo um cigarro com a Coca recém-comprada, jovens garotas se reuniam, tentei traçar uma comparação com as garotas da minha época e as únicas diferenças que pude auferir foi que as de hoje falam mais palavrão e ouvem uma música que me é desagradável. Prova de que estou ficando velho. Mais uma prova, todo dia algo me alerta para este triste e inevitável fato. Esqueci de mencionar sobre a encomenda que tentaram entregar na casa do meu irmão. Em verdade não quis aperreá-lo com mais do que a enormidade de preocupações que já carrega no lombo.

0h12. Naveguei no encantador e surreal site de artesãos independentes chineses, a criatividade e, ao mesmo tempo o apego pela cultura e mitologia do país são fantásticos. Adoraria poder colecionar tais peças. Diante da total impossibilidade disso, vou fumar.






0h53. Aproveitei para jantar. Aproveitarei agora a letargia que a saciedade traz para tentar dormir.

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16h08. Acho que funcionou ter publicado o meu blog na “Linha do Tempo”, 42 visualizações so far.

18h49. Um inesperado passeio à Praça de Casa Forte com mamãe, minha cunhadinha e filharada se revelou uma aventura maravilhosa, com direito a vitórias-régias, tartarugas, pastel sorvete, mãos dadas, risadas, conversas, algo de muito humano, de me sentir parte da família, de me sentir querido e importante, significativo, útil socialmente. Fez um bem danado à alma e revelou uma parte de mim que não me era acessível anteriormente. Acho que os meninos estão numa idade ótima, com a qual me sinto confortável para interagir, pois o diálogo se faz possível, acredito que de agora até os próximos três anos seja a fase áurea da infância, quando será mais divertido e prazeroso exercer o papel de tio.

19h09. A infância tem algo de mágico. É como se aqueles serezinhos vissem o mundo por uma lupa fantástica e muito pura, uma lupa que transforma tudo, ou quase tudo, em brincadeira e diversão. Compartilhar desse olhar é rejuvenescedor, revigorante e interessante. O mundo é um imenso playground repleto de descobertas e primeiras vezes que são percebidas como tal. Acho que na minha vida, aos 41, as primeiras vezes não escassearam, mas elas raramente me saltam aos olhos cansados de tanto ver. Depois dessa tarde na Praça me sinto até mais bem preparado para encarar Blanka, pois me sinto mais seguro para me socializar. De todo minha alma está feliz e o que posso dizer é nada como um dia depois do outro e ter a coragem de me permitir coisas novas. Britney Spears toca no som relativamente alto que preenche o quarto-ilha. Me causa certo pesar saber que foi um momento que demorará pelo menos mais um ano para acontecer novamente. Mas que continua acontecendo dentro de mim.

19h52. Botei Infected Mushroom para tocar dizendo que era uma música esquisita e meus dois sobrinhos menores surtaram e começaram a dançar freneticamente, pensei que faria o mesmo na idade deles, como fazia com meu irmão com coisas bem menos “intensas” como Beatles, ainda quando morávamos na casa da Cidade Universitária. Bons tempos. Estou aprendendo a apreciar a alegria de ter uma casa com crianças. Ouvi-las já me traz um sorriso interior. Parece que sentirei saudade deles. Não imaginava. É um vínculo que se forma à minha revelia, mas não reclamo, não consigo imaginar pessoas mais indicadas para criar ligações de afeto.

20h04. Olhei para a Rei Ayanami agora e pensei sobre o tal restaurador que a fantástica faxineira mencionou e se ele conseguirá consertar as minhas bonecas. O sonho de ter o meu quarto como imagino está mais perto que longe. Como está perto a partida do meu irmão e, antes disso, talvez, a saída com Blanka. Se bem que ela está programada para o dia do aniversário do sogro do meu irmão, o que me parece ser um impedimento, pois acho que tenho o dever “diplomático”, digamos, de comparecer.

20h23. Fui me informar com minha cunhada e o aniversário é no dia posterior ao encontro com minha querida. Dá tempo. Não sei se minha mãe e meu padrasto comparecerão, mas acharia de bom tom que o fizessem. Senão, vou eu somente.

20h50. Acho que vou dar um tempo na escrita até ter a noite só para mim. Não estou com grandes ideias agora. Passei um tempo vagando pela internet e vi que o Switch vai ganhar uns jogos legais. Mas não jogo e minha TV deu pau. Ou ela ou o controle. Sei que não liga.

21h09. O que eu posso dizer da vida? Nada no momento.

22h24. Tenho que falar de tecnocracia, mas antes há uma mensagem que gostaria de mandar para o grupo dos Barros. Eu poderia mandar o link desse post. Seria uma forma de mostrar à família paterna o meu trabalho, o meu ofício de fé, a coisa que mais me dá prazer na vida, que foi o que vim fazer aqui na Terra, eu sinto isso do fundo do meu ser, que essa é a minha vocação, não que eu tenha talento para isso, mas sinto que é o que oferece um sentido à minha vida, um passatempo, um hobby, um ato pelo qual sou apaixonado e que exerço produzindo conteúdo inútil para a rede social de computadores, para a humanidade conectada ver, achando falsamente que isso é uma forma de expressão literária e, se literária, arte, pois se escrever é uma arte, eu escrevo. Mal comparando com outra arte, eu não sei se minha pintura é bonita ou agradável, sei que é única, pois cada pessoa tem o seu próprio traço, mesmo os que não praticam e os sem talento, todos são únicos. A minha narrativa é única, pois só eu sou capaz de narrá-la, ninguém no mundo pode narrar o que eu vivo e penso a respeito da existência.

22h40. Voltando à mensagem que eu queria mandar para os Barros por WhatsApp, seria:

“Desejo um ano novo que supere as expectativas de vocês. E tenho mais um desejo: que haja mais encontros familiares na casa de titio e principalmente que a nova geração enxergue tais encontros como a oportunidade de se encontrar e trocar boas experiências, mantendo os vínculos do próprio seio, do seu sangue, da sua família que é tão belo na geração que nos gerou. Falo para todos, é muito bom, é algo de primal, do primórdio das sociedades, pode até parecer old school, pré-histórico, do tempo das tribos, mas em nosso sangue rola sangue indígena. Ou, da maneira mais curta, desejo que os primos e primas e irmãos compareçam às festas familiares, ou reuniões, sempre festivas, pelo menos para a geração que nos gerou. Acho que seria uma experiência de troca rica e positiva, inclusive se os grupos e misturassem mais; sim, pois há o grupo dos que moraram naquele prédio onde era a casa de titio e há os mais velhos ou o resto.

FICÇÃO. Tirado do post “Como fazer o máximo para tornar um encontro interessante”, instaura-se no encontro dos Barros o seguinte jogo: cada um pega um número que é sorteado em pares e cada um passaria quinze minutos conversando com aquela pessoa sorteada em conjunto, quem quer que fosse, até o próximo sorteio e assim sucessivamente, inevitavelmente eu cairia com Clementine. Eu só terias duas perguntas e diria: “Me responda com total sinceridade: eu já lhe fiz algum mal de alguma natureza... emocional, sei lá?”. E depois perguntaria: “Em algum momento da sua existência você foi apaixonada por mim?”. Acho que finalizaria dizendo, “Me desculpe por tudo mas saiba que doeu mais em mim”. Cada um sabe a dor que carrega. Entretanto acho que entre constrangimento e asco da pessoa que mais se ama no mundo, a segunda opção é mais dolorosa. Obviamente não perguntaria a ela tais coisas, está muito mais comunicativa desde que arrumei Blanka, parece leve e aliviada. Quem passou constrangimento fui eu bêbado me declarando em frente à toda família no encontro para um jogo da Copa na casa da minha tia-vizinha, certamente um dos momentos mais constrangedores da minha vida, tanto quanto as duas vezes que fui pego roubando. Peguei a mania de roubar com um amigo de São Paulo, ou já a tinha incubada, sim, já tinha incubada, é um desejo que eu reprimo, no meu segundo livro, “Eu Sou Assim E Ninguém Tem Nada Com Isso”, que ninguém vai ler porque nunca ninguém vai se interessar e nem vou me dar ao trabalho de revisá-lo, me comprometo a parar de furtar. Me comprometo agora a não comprar nada no cartão sem comunicar à minha mãe. Vou ter que vender a Captain Marvel, meu único grail, para pagar o que não posso deixar de pagar. E que quero muito. Mais do que a pobre Captain Marvel. Vou fumar e pegar Coca. Ah, e tomar os remédios.

23h45. FICÇÃO. A Sony lança a TV PS5, uma TV 4k que a fabricante diz que é otimizada em todos os sentidos, especialmente para rodar games de PS5 e capaz de se conectar sem fios ao console. Além disso lançaria o kit PS5 Plus, com 25% de desconto venderia um PS5, a TV, o sistema de som 7.1, um microfone, tudo seria comandado a voz, um fone de ouvido com microfone (afinal há preferências), quatro controles, o Sony VR set, três jogos e três Blu-rays ( lançamentos de filmes da Sony), tudo isso customizado com os padrões do PS5 exclusivo, revestido de aço escovado. O kit seria lançado simultaneamente com o console. A tendência dos videogames é desaparecer. Não os jogos mas os consoles devido ao streaming direto dos games para a TV, sem consoles. Cada marca terá o seu canal de streaming, indo convergir finalmente tudo para o Steam que será uma das empresas mais ricas do mundo. A não ser que a Google compre o Steam. CONTINUA.

Fui fumar um cigarro e uma coisa me ocorreu fotografar a foto da camisa dos “suspeitos” para ilustrar esse blog, mas não consegui encontrar. Vou botar uma que vovó, mãe de mamãe fez. É o jeito.

0h22. Acabei de mexer na foto da camisa, deixar a imagem mais diferente. Embora seja uma imagem diferente por si só. Só podia ter sido concebida pela minha avó. Me deu uma leve titubeada de astral. Será que publico esse post nos grupo da minha família paterna? Eu penso: “e por que não?”. Um forno de micro-ondas seria uma ótima aquisição para Areias.

CONTINUAÇÃO SONY. Todo mundo sabe que a divisão de eletrônicos da Sony anda mal das pernas, o que dá mais dinheiro é a linha de entretenimento, especialmente videogames, por isso agregar uma marca Playstation à de eletrônicos é uma estratégia que vejo como bastante pertinente. Se eu fosse a Google, eu comprava o Steam, ou lançaria a plataforma de streaming de game de alta performance, oferecendo todas as opções de jogos para PC na assinatura, dos mais antigos aos mais novos. Todos os possíveis. Com qualidade máxima. Só é preciso comprar o controle assinar, depois que o mês grátis da compra do controle acabasse. FIM. Vou comer. Bateu a larica dos remédios.

1h19. Meu plano é me masturbar para me preparar para Blanka, tomar um bom banho e lona. Ou escrever aqui e lona. Por enquanto estou bem aqui. E julgar tais sandices como meritórias. Ridícula ideia de um homem ridículo. Ah, não falei da tecnocracia, o vizinho que encontrei na piscina, disse que o regime que vivemos é tecnocrático, quem tem mais e melhor tecnologia tem mais poder. Não é mais econômico para ele. Eu acho que dinheiro ainda seja o que move o mundo. Acho que os impostos são necessários porque acho o estado uma instituição necessária e cara, que poderia ser otimizada, a supraconsciência terrestre vai emergir e dar um jeito no estado. Vai dar um jeito em tudo. Bateu o bode. A comida pesou, vou dormir. Amanhã decido se reparto com os Barros ou não. Certas grandes distâncias diminuem com o passar dos anos, abismos gigantescos podem ser cruzados com um passo. Eu acredito no poder do amor. Vou comer o resto das tortinhas de limão, encher meu último copo de Coca, fumar o meu último cigarro e vou dormir.  

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

ESVAZIAMENTO




17h50. Sinto que estou morrendo. Sei que a cada dia morro 24 horas, mas não falo disso, tampouco dos dentes que caem ou das dores do corpo, falo da morte de quem sou, da minha identidade, do esvaziamento do eu. Cada dia há mais nada em mim, fico mais oco, mais insensível, as vontades vão rareando e se tornando murchas, é como se o processo de demência começasse e o percebesse claramente por estar sempre tão atento a mim. Talvez seja isso, a demência avançando lenta e incessante, chegando mais cedo do que supunha, pois supunha viver coisas que ainda estão por vir com a alma plena. Alma me falta e com ela os sentimentos se embotam e isso me frustra, me assusta. Pode ser um sentimento ilusório que crio para me enganar ou mascarar coisa mais profunda e mais feia que a cara feia e velha da demência. Não sei, foi esse pensamento de que cada dia o que eu sou diminui que trouxe da terapia e que me trouxe até esse momento de pô-lo no papel eletrônico. Já pus. Preciso fumar e tomar Coca gelada. Talvez esteja apenas subnutrido e isso me traga apatia. Apatia: esse é o maior sintoma do que eu sinto. Por mais que tenha tido um momento intensamente luminoso quando senti por um lampejo o que julgo ser o sentimento de amor paternal pelo meu sobrinho mais velho. Foi muito forte e intenso, um empatia superior, uma admiração e um orgulho singulares, um afeto gigantesco e diferente de todos os afetos que já senti. Tão forte que assustador.

18h15. Não queria, entretanto, ter uma alma tão agitada e irrequieta quanto a da minha cunhada. Um eterno desassossego um perene desejo de estar em movimento, se ocupando. Não tenho essa urgência de viver, ou de viver em urgência, fujo disso, quero paz e mais do que paz quero amar. Prefiro a calmaria, mas odeio o tédio tanto quanto o estresse, minha sanidade está toda nas palavras, feitas mais de luz do que vento, como diria o poeta. Se pudesse agradeceria ao meu sobrinho por tudo o que me ensinou. Pensando bem, acho que não faz mal agradecê-lo por isso. Vamos ver para onde a minha (pouca) alma se inclina. Estou com medo de Blanka, desejo sua nudez logo no começo do encontro, pois acho convidativa e encorajante. Talvez ela fique desconfortável com o fato a priori, mas espero que se acostume rapidamente com a condição. Talvez se me fizer nu e mostrar a mediocridade do meu pênis pequenino e murcho, ela se sinta mais à vontade. É justo que exija a minha nudez em troca da sua, me verei sem alternativa senão aderir. Talvez não faça exigência alguma apenas se faça nua. Queria que ela sentisse necessidade de mim, que eu conseguisse criar essa necessidade nela. A verdade é que tudo me assusta, me tornei uma criança de 41 anos encolhida em seu quarto de brinquedos que escreve para se sentir válido. O que não deixa de ser irônico pois o que eu escrevo não vale nada para outro(a) além de mim. Minha mãe disse ontem que meu irmão é uma pessoa melhor do que eu. Tal colocação, por mais que concorde com ela, assim posta com todas as letras pela minha mãe, me fere. O que posso fazer senão aceitar e seguir sendo o pior dos três? A resposta é nada. Esse nada que me invade e me preenche e me domina. Esse nada que é como a noite chegando e engolindo o dia dos meus dias.

18h54. Voltei um pouco mais otimista levado pela felicidade da minha mãe e de Maria por terem meu irmão e família aqui. Felicidade que compartilho, mas que, me isolando aqui, desperdiço a oportunidade de usufruir. Mas por ora sinto a necessidade de estar aqui.

19h32. Fui convocado a chamar um Uber para a fantástica faxineira. Acho que vou tirar um cochilo para ver se ao despertar volto uma pessoa diferente da que foi dormir.

22h40. Acordei e todos já se retiraram. Tomei meus remédios e não sei se eles me darão sono ou fome, pois comi o restinho das linguiças toscanas fritas que deixaram para mim em cima do fogão. Não vi nada dentro da geladeira que parecesse comida para mim. Estou bebendo guaraná, a Coca acabou. Faith No More não está agradando, vou tentar minha sorte na roleta do modo aleatório do Spotify. The Cure, muito melhor. Vou zanzar pela internet enquanto há atividade no maravilhoso mundo dos bonecos.

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10h34. Acordei há algum tempo, mas só agora me sinto suficientemente desperto para escrever aqui. Minha alma continua meio desalinhada de mim e nesse desencontro não me sinto num todo bem. Alguma coisa me falta ou está em excesso. Acordei tendo em mente a comparação que mamãe fez entre eu e meu irmão, me marcou como ferro quente no gado, indelével. Se tivesse que fazer a escolha de Sofia mamãe não teria muita dúvida. Ou dúvida sequer. Não importa, eu mesmo já o sabia, meu irmão é uma pessoa iluminada, eu tenho meu lado negro, nigérrimo e um passado da mesma cor ou ausência completa desta. Ultimamente eu cometi alguns deslizes, meu irmão é antiderrapante, então não há nem como querer alcançá-lo, nem é do meu intento. Já foi, mas desisti. Cansei de me comparar a meu irmão, pois não há comparação. Ele é limpo, puro, eu sou sujo e impuro. E cada um que se aceite do jeito que é. E tente ser aceito do jeito que é.

11h43. Estou meio intrigado/chateado com o meu irmão, pois ele disse que não faz diferença para ele se eu for com ele deixar Maria em Natal ou não. Se a minha presença é indiferente para ele, que seja, vá sozinho. Hoje não estou de muito bom humor. Ademais, Maria disse uma coisa que faz sentido, eu me sentiria cansado para sair com Blanka na sexta. Acho que vou deixar de frescura e passar um tempo com a minha família na sala. Antes, entretanto, café e cigarro.

11h59. Não consegui. Olhei para a cena e não vi lugar para mim. Estava completa com a minha ausência. Não sei o que quero da vida hoje, tenho a alma agoniada. Talvez seja café em demasia. A pizzaria abriu, tenho que esperar minha mãe dar uma pausa na curtição com os sobrinhos para pedir-lhe o dinheiro para as Cocas. Terei que ir consertar o meu dente quebrado na dentista às 16h, preciso preparar a minha alma isso. Minha alma está amplamente desamparada, desmotivada e agoniada, estou desconfortável em ser nesse estado e nessas condições. Vou tentar me aproximar da família uma vez mais, não posso ficar aqui alimentando e remoendo angústias existenciais.

12h29. Fui à sala e deixei-me ficar observando aqueles seres existirem ocupados com o que se ocupavam e minha presença pouca diferença fez ou eu não quis me intrometer no que faziam, pois nada me interessava de fato. Peguei o dinheiro com a minha mãe para as Cocas. Falta-me ânimo para ir. Mas vou. Agora.

13h09. Cruzei com a minha tia-vizinha duas vezes nessa minha ida à pizzaria, achei que meu irmão me tratou com desdém, a verdade é que estou muito sensível a tudo o que tange o meu irmão depois do comentário da minha mãe. Mas acho que ele foi meio rude comigo. Por duas vezes já. O melhor é ficar aqui no quarto se sou tão dispensável para ele. Em todos os âmbitos da minha vida eu sou dispensável. Quase inconveniente. Ou deveras inconveniente. Sei lá e pouco se me dá. Aliás fere para caralho, mas eu suporto, se foi isso que escolhi e se é assim que encaram as minhas escolhas. Não quero conflito.

13h21. Respirei fundo e fui questionar se o meu irmão estava com raiva de mim, ou cansado de mim. Ele disse que não e que meu complexo de inferioridade estava ozzy. Me sinto melhor. Talvez a rudeza venha da sua exaustão, não de um enfado com a minha pessoa. De toda sorte não estou em paz comigo mesmo e não sei por que isso se dá. Pensei em dormir, mas lembrei que tenho a dentista logo mais. Eu estou com medo de encontrar com Blanka, me sinto muito distante dela, sem intimidade suficiente. Hoje estou trancado dentro de mim, avesso ao mundo e às pessoas. Estou como já disse agoniado, perturbado por algo que não tem, nome ou definição, ou causa que eu reconheça.

13h55. Hoje só estou dando bola fora, ofereci o meu quarto para a família do meu irmão dormir no ar condicionado e sem marteladas e minha oferta foi amplamente rejeitada. Que seja. E é. Sigo em frente, pois não há outra direção a seguir. O melhor é permanecer recluso aqui no quarto e não atrapalhar ninguém, pois a mim me parece que é a única utilidade que possuo. Não gosto de me sentir inútil, mas é exatamente o que sou. Acho que preciso de um filho para me sentir útil e verdadeiramente importante para alguém. Para sentir o que senti pelo meu sobrinho, no lapso supracitado, indefinidamente. Tenho medo. Já estou acostumado a ser inútil. É um sentimento forte demais o amor por um filho, assusta, intimida, me rouba de mim. Deixa para lá. Minha própria mãe rejeita a ideia de eu ser pai. Me acha incapaz disso. Sou realmente visto e posto como inútil. Dói, mas é muito mais fácil viver assim. Prefiro a vida fácil e a dor eu tiro no papel, já sofri dores colossalmente maiores, essa de não prestar para nada é café pequeno. Deveria estar celebrando, mas estou triste. Meu amado irmão está aqui com a sua amada família, vou ver Blanka provavelmente na sexta. O problema não está fora, mas dentro de mim. Acho que vou comer para ver se melhora. Sinto que meus sentimentos estão muito ligados ao que se passa no meu estômago e há dias não me alimento bem.

14h58. Comi e isso me deu vontade de dormir, mas está quase na hora de ir ao dentista. Saco. Vou tomar mais Coca e fumar mais um cigarro. Depois banho e dentista.

17h03. Voltei do dentista onde encontrei uma colega de CAPS e de internamento no Manicômio, altamente lentificada (ou dopada) de remédios. Vendo o estado dela, relembrando de todos os adultos com dificuldade de adequação à realidade tal como se dá, refleti sobre a minha atual situação e me vi muito bem. Meu problema era (e ainda é) que não gosto de ser adulto, das responsabilidades e obrigações e burocracias e hierarquias e estresses e pressões e cobranças que a vida adulta implica ou implicou para mim. Entretanto, precisava arrumar alguma forma de ganhar dinheiro sem me submeter a nada disso. Após tentar fugir da vida adulta e da depressão profunda me afundando na cola e tentativas de suicídio, depois de vários internamentos criei um histórico clínico que me permitiu pleitear e conseguir ser considerado civilmente incapaz, ou seja, me livrar de tudo que odiava em ser adulto e ainda ter direito a parte pensão do meu pai através da curatela. Com renda garantida e a certeza de que nunca mais me verei só no mundo, fiz do meu quarto o meu mundo e das palavras a minha ocupação. Tomo várias medicações, é verdade e também é verdade que elas têm os seus efeitos colaterais, mas não sofro mais, posso ser a eterna criança, com direito até a coleção de bonecos. Redescobri a felicidade de existir perdida na juventude. É claro que isso faz de mim uma pessoa esquisita que ocupa um lugar que não é facilmente compreensível para a sociedade, visto que é uma condição nova e singular para muitos, senão todos, essa de velha infância que vivo. E agora quero incluir na minha vida uma pessoa adorável e para lá de peculiar que minha mãe terá muita dificuldade, como demonstrou e demonstra, de aceitar que é Blanka. Minha psicóloga, Ju, quer tentar me fazer mais adulto respeitando as minhas limitações e fobias com essa condição, aliás, minto, acho que isso sou eu quem quer alcançar. Ela só quer que eu viva uma vida feliz da maneira que eu achar mais conveniente. O lado negativo é que carrego culpas enormes, que nem sempre são tão grandes e muitas vezes nem são verdadeiras. Ela quer acabar com esse autossadismo essa mania que eu tenho de me rebaixar e me ferir e me punir. Quando a noite é minha e todos dormem, as culpas dormem também. Por isso vou dormir agora para ter o máximo possível de madrugada para mim.

19h27. Me deparei com a minha limitada, pois a estou achando bastante limitada no momento, realidade e me veio misto de leve angústia e tédio. Vai ver que enquanto dormia sonhava com searas mais amplas. Pensei num microconto de ficção científica, mas estou com preguiça de transcrevê-lo. Tinha a ver com carros autônomos, viagem no tempo e choque de realidade. Vou contar. Vou não, não agora. Agora estou sem disposição de muita coisa. Só sei que não quero voltar a dormir. E agora que percebi que estou na quarta página. Não sei se a teoria da velha infância tem algum fundamento ou é só uma crença que tenho, de que aproveitei tudo de ruim que me aconteceu na vida e reverti a meu favor, toda a dor e sofrimento existencial transformados em liberdade do sistema em que estou inserido. Liberdade quase total, pois o sistema invade meu quarto-ilha pela internet, pela rede elétrica, pelos bonecos, pelas próprias paredes que me encerram do sistema, mas só entram as partes dele que me interessam. Só uso do sistema o que necessito e me apraz e raríssimas vezes o que outros necessitam que eu faça. Ninguém precisa de mim, à exceção da minha mãe, a manifestação inteligente do sistema que gerencia a minha vida. Criei um vínculo de dependência com ela. E ainda me dói ter ouvido que sou pior que o meu irmão. E sempre vou ser. Ou a parte do sempre em que eu existir organizado como esse ser que digita mazelas e amor para ninguém. Um idiota, tão idiota que ousa falar de sistema. Se falo preciso definir o que é sistema. Acho que sistema é o conjunto de ações, construções e invenções concretas e abstratas do formigueiro humano que chamamos de civilização. Inclusive dos ditos não-civilizados. Sei lá, entende?   

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

DE ALDEIA A AREIAS – PRIMEIRAS VIVÊNCIAS DE 2019


6h30. Uau. Encarar uma página em branco a esse horário do último dia do ano e aniversário do meu irmão é intimidante. Mais fácil revisar e postar o anterior, que é o que vou fazer.

7h16. Esperando uma foto fazer o upload para ilustrar o post que estou prestes a publicar. Não sinto a mínima inclinação para escrever e isso me incomoda. Não acredito que volte a dormir. Há um vestígio de sono, mas não há vontade de me deitar, pois sei que rolaria na cama, numa luta tediosa e desnecessária e voltaria a me levantar.

7h21. A foto aparece como “Queued” e não sai desse estado no Gmail do computador, vou postar uma do WhatsApp. Há várias.

7h44. Meu amado irmão acordou e está lendo jornal na cozinha. Eu não estou com a mínima disposição para a escrita.

8h54. Conversei com o meu irmão a respeito da existência e de alienígenas. Ele acha que só não acredita quem não quer ver, que as evidências estão todas aí, disponíveis e acessíveis. Acho a mesma coisa em relação ao que acredito, da emergência de uma inteligência artificial superior a qualquer coisa possível pelos cérebros humanos. Mas já são dois a um para os alienígenas, talvez três se contarmos o meu primo urbano.

9h13. Gostaria que a prática do português escrito se refletisse no meu português falado, mas não vejo isso se dando. É uma frustração minha. Estou realmente sem vontade ou conteúdo para colocar aqui. Meu irmão é contra eu fumar, a maioria é. Eu sou contra um bocado de coisas, mas não saio por aí desrespeitando as escolhas alheias, não as compreendo, mas não as julgo, aceito a diversidade. Faz mal? Tudo indica que sim, está comprovado cientificamente.

9h54. Ensaio uma volta à cama, afinal hoje é um dia que emenda no outro. A madrugada é especialmente aproveitada devido à tradição. Queria mais café, mas na falta de vou tomar Coca com gelo e um cigarro.

10h11. Aposto que meu irmão não comprou o que lhe pedi. Seus princípios não permitiram. Ou esqueceu. Não importa. O que importa é que não terei cigarros suficientes para a longa noite de hoje.

17h13. Acordei há cerca de uma hora e parece que minha mãe quer que eu vá de Uber para Aldeia. Não vou. Parece que entrarei 2019 aqui no quarto-ilha mesmo. Acho até que prefiro. A inércia, a inércia...

17h36. Blanka se comunicou comigo enfim, foi rápido e bom. Revigorou as esperanças. Nem tudo está perdido. Quem sabe 2019 não seja o ano da grande virada na minha vida?

18h22. Minha mãe e sua visão de vida negativa especialmente a respeito de mim me fazem mal. Se já não estava com o astral bom, agora é que não estou mesmo. Não digo que as suas queixas sejam infundadas. Mas doem do mesmo jeito. Não querer liberar o cartão para que eu possa usar o Uber é para mim ultrapassar um limite e invadir o meu direito de ir e vir. A segurança que me habituei a ter de, estivesse onde estivesse, ter a volta para casa sempre disponível, me parece hoje um direito fundamental.

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4h06. Estou no ano novo, 2019, na casa de campo e grande paixão do sogro do meu irmão. Todos se retiraram. Encontrei o grande Adiel Luna fora da sua persona artística, por mais que ela lhe grude cada vez mais à alma. Vou botar Landlady uma vez mais depois de tê-la colocado várias vezes durante a noite e estava ouvindo repetidas vezes até Adiel aportar aqui na mesa muito engenhosa da varanda do quintal, uma churrasqueira e uma caixa da JBL que eu não imaginava existir estão atrás de mim. Vou botar a música e tirar algumas fotos para postar aqui.





4h23. Acho o lugar e o som fantásticos. Mas vou botar a lista 6, eu acho.

4h26. Botei. Caiu exatamente na que eu queria, Poses, de Rufus Wainwright. Vou fumar e pegar uma cerveja, embora o que tomaria fosse uma Coca.

Antes que eu pudesse tomar alguma atitude, vovó rata apareceu e permaneceu até 4h44.


A mesa é sui generis o local é fantástico.



4h45. Acho que vou pedir à vovó rata que...

4h54. Ela disse que tinha refrigerante na mesa de jantar, onde peguei uma garrafa de guaraná e me deliciei com duas fartas fatia de pudim.

5h02. Acho que guaraná faz bolhas maiores que Coca. Se tivesse coragem, eu diria: "por mim, a senhora pode tirar tudo da mesa, menos o pudim...”

5h07. A sogra do meu irmão veio dar as últimas coordenadas. Agora estou só, mas com sono. Um momento.

5h15.

5h22. Pensei em Chamar um Uber e vazar daqui, mas depois de uma fatia de pudim, penso em dormir.

5h30. Quero dormir o dia todo.

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21h11. Estou de volta ao quarto-ilha, finalmente. Amanhã partiremos para Areias eu e meu irmão. Confesso no momento não ter disposição nenhuma para a empreitada, mas estou cansado por mais que tenha dormido o dia todo, visto que virei a noite de ontem e tive dificuldade de dormir a priori. Foi bom ter ido a Aldeia. Conversei com o meu sobrinho mais velho e essa foi a parte que mais me marcou. Me marcou também a parte que contei a meu irmão e minha cunhada o imenso significado que Landlady do U2 tem para mim, como ela representa liberdade, a liberdade que encontro longe das drogas e internamentos e como me veio com clareza que o lugar e a forma que me sinto mais livre é aqui no quarto-ilha construindo textos para ninguém. A liberdade está em viver e moldar a vida o máximo que consigo à maneira que me agrada, não está na fuga pelas drogas, não está dentro de uma lata de cola, como já esteve. Eu construí com o auxílio da minha mãe (mais que os demais que contribuíram e contribuem) uma vida que consigo e sei viver, que me agrada ser vivida. Preciso resolver o negócio do cartão a respeito da Sideshow hoje e, quando cheguei de Aldeia, recebi a cobrança dos tributos de importação do crânio-coração, que também preciso pagar. Definitivamente preciso conversar com a minha mãe e definitivamente espero que seja uma conversa pacífica. Vou fumar.

22h13. Mamãe concordou que eu pagasse os Correios com o cartão e disse que resolveria o caso do cartão amanhã de manhã cedo, que me acordaria para isso. Espero que dê tempo. Acho que dará.

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3h22. Acordei com fome. Comi um pacote pequeno de cereal. Acho que vou dar umas bisbilhotadas na rede antes de voltar para dormir.

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5h13. Estou biritado em Areias. Estou muito feliz, nossa prima de Natal veio e biritamos e conversamos demais, o papo fluiu fácil, falamos de Blanka e mandei uma ousada mensagem para ela.

5h20. Minha prima saiu do quarto para uma boquinha. Botei Biophilia remix, conhecido como Bastards, para rolar no computador. Também tinha abandonado o teclado USB, mas percebi que estou mais acostumado com ele que com o do computador.

5h34. Tirando a dificuldade em digitar a vida está uma maravilha. Estou em Areias, o mar secando e revelando a sua outra identidade, que muito me agrada e define esse lugar como único, somado às memórias das minhas melhores férias da infância, absolutamente e inegavelmente. Está dof[ícol escrevet, mas seguitei tentando, esse é um momento únuicio ns minhs vida. <erece ser descrito, mas acho que vou comer e dormir.

6h37. Fiquei a cismar com a paisagem, a “antimetamorfose” do mar.


Maré seca - onde o mar e a aridez se encontram



6h39. Estou ouvindo Caetano. É genial. Gosto mais da obra dele como um todo, mas as canções específicas de Chico estão à frente de tudo que é CQAetqano. Caetano pode ser genial, mas Chico pode ser mais sublime, belo. E sou um devotob fiel da beleza, eola guia quase tudo na minha pouca vida, essa coisa pequena em que existo. Esse é um momento sublime escrever em Areias enquanto todo9s dormem embora biritsfo r vp, iddp lrtrwas difícweis de acertar. Vou fumar olhando a transfornmaç~son da paiedasgem.

6h58. Estava a fumar e observar o comportamento coletivo das cabras e vabritos, Nç=ão tirei nenhuma conclusão comprovável, sei que uqando correm , tpspa aegue,m a cprrer juntos. Acho que não trouxe os remédios. Só se meu irmão souber.

7h06. Acho que não consigo ter sono por conta da falta de Dalmadorm.

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21h15. Completamente recuperado do porre de ontem, depois de ter dormido o dia praticamente todo, volto mais centrado às palavras. Sei que elucubrei sobre bodes e pouco mais me lembro do que escrevi ontem. Ouvi Caetano, foi a trilha principal da noite. Conversamos bastante, minha prima e eu, é bom fazer umas extravagâncias dessas de vez em quando. Os demais já se retiraram. Tenho a noite só para mim. Estar em Areias mesmo sem sair da casa, é bom, me faz bem, me sinto mais à vontade e feliz que o habitual. A visão do mar de cima do morro é fascinante e nunca cessa de me encantar. O vento forte, porém agradável é outra qualidade daqui. O silêncio, só os sons da natureza e agora das teclas traz uma paz dificilmente reproduzida na cidade, sinto-me num lugar em larga parte selvagem onde a civilização humana não deitou ainda sua mão pesada e bruta. Acho que estar imerso nessa natureza não explorada e estuprada pelo homem o principal diferencial de Areias, além da sua beleza muito própria. Há também o vínculo afetivo de uma vida toda, de felizes férias, que agrega uma familiaridade e acolhimento ímpares ao lugar.

21h40. Estava pensando eroticamente sobre a minha prima. Estou a pensar diversas coisas, mas todas me passam muito antes de apreendê-las no papel eletrônico. Minha prima levantou. Vou lhe fazer companhia.

21h54. Discorri sobre o porquê de minha irmã desgostar e não ter lembranças favoráveis em relação a Areias. Em uma palavra: insetos. Acreditasse ela que há muito menos deles, como há, isso a faria cogitar uma visita a Areias junto com meu irmão e família? Acho que não. Queria muito, muito colocar um som para ouvir, mas prometi a meu irmão que não o faria, perturba o seu levíssimo sono. Quem vai se retirar dentro em breve, ao que tudo indica, sou eu.

22h06. Sempre desejei a minha prima, não é a mais bela, mas possui um conjunto harmônico, uma das fantasias infantis gerada nas férias em Barreiras ou em Macau que não querem evanescer.

22h14. Tomei o remédio da noite já, parece que eu chego aqui e só quero descansar naquela varanda, fumando, tomando Coca e olhando para o mar.

22h18. O computador daqui a pouco chia a bateria.

22h28. Fui fazer as conexões para ligar o computador à tomada aproveitei e fumei um cigarro olhando para a noite escura como só os lugares distantes podem ter. Em breve olharei para o céu, o mais estrelado que já tive o prazer de observar. Enquanto fumava, entretanto, pensei que os índios daqui viviam numa fartura de alimentos, em especial frutas e peixes, única no mundo. O homem branco não tinha a mesma percepção dos nossos recursos, embotados que estavam de sua própria cultura. Sua sabedoria é do mesmo tamanho da sua ignorância da sabedoria, modo de ser e estar no mundo, dos índios. Por terem tecnologia mais avançada, muito mais avançada mesmo, subjugaram os donos das terras. E praticamente erradicaram a cultura de viver em paz e harmonia com a Natureza, respeitando-a e sendo grato por ela. Pensei em Lampião e na aspereza da alma do nordestino do interior, especialmente do sertão. Dos que moram nos confins do Brasil, aonde o Estado não consegue chegar de forma transformadora.

23h12. Comi pão com pasta de amendoim salgada, não é ruim. Pensei em Blanka e no meu pote de recordações, um frasco onde guardarei lixo que tem valor sentimental para mim, como o pedaço de embalagem de Halls que peguei no nosso primeiro encontro. Penso em me deitar. Vou fumar um cigarro com Coca na varanda e ruminar sobre o assunto.

23h35. Ainda não me dei por vencido, continuarei mais um pouco aqui. Estava a observar a complexa e infinita coreografia das folhas de coqueiros anãos ao sabor do caótico vento. Acho que prefiro ficar na varanda que aqui escrevendo no computador.

1h55. Acordei com minha fome madrigal.

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5h14. Acho que acordei de vez agora. Vamos a Macau hoje, fazer o ritual das cinzas de papai. Acredito que meu irmão e minha prima levantar-se-ão em breve. Eu ainda estou com um pouco de sono, mas não acho que vou conseguir dormir mais no momento. Talvez quando voltar da nossa expedição, sei lá, o que sei é que a internet faz uma tremenda falta como passatempo. Acho que vou fumar um cigarro com Coca e deitar de novo.

5h41. Não consegui, estou bem mais desperto agora e não sinto traço de sono quase nenhum. Quase. Mas quase nesse caso não é suficiente para tentar dormir em lugar outro que não minha cama no quarto-ilha, se fosse para ela, até consideraria me deitar, na rede, não. Estou apreensivo com o ritual das cinzas de papai, não sei que botões emocionais irão ser apertados. Espero que poucos ou nenhum. Não sei nem se a sensação de dever cumprido, de missão completa, de promessa respeitada irá emergir. Na atual letargia mental em que me encontro, e que espero que não permaneça no decorrer do dia, não sentiria muita coisa. Sinto uma leve vontade de me deitar. O sono vem e vai.

6h08. O sono se dissipa a cada minuto que passa, precisava só que alguém acordasse para me fazer companhia. Ou não. Me basto aqui e estou achando esse momento salutar. Percebo que escrever me deixa com mais sono.

8h20. Dormi mais uma vez e acho que agora acordo em definitivo. Meu irmão já está de pé, ou melhor, sentado a digitar ao meu lado. Sinto saudades da minha mãe, estranho vínculo. Por falar em estranho vínculo, me lembrei de Blanka com carinho e receio de viver e oferecer tudo o que desejo a ela. De não ser capaz de fazê-lo mesmo que ela se faça disponível. O tempo dirá. Minha prima ainda dorme.

8h55. Estava conversando como meu irmão sobre user interfaces, acho que é um papo que ele pode levar com poucas pessoas fora do trabalho e eu com poucos amigos. Se bem que com qualquer um que jogue videogames ou tenha certa expertise em computador têm opinião a respeito do tópico. É incrível como os meus amigos, bem alguns deles, têm opinião sobre tudo e estão dispostos a reparti-la. Eu tenho várias opiniões, mas não tenho a convicção sobre elas e me sinto constrangido de expô-las fora do âmbito desse blog. Aqui opino muito, mesmo sem ter embasamento ou o arcabouço referencial para respaldar o que penso, o que penso vem de mim e minhas vivências essencialmente e passa ao largo de qualquer leitura mais aprofundada acerca dos temas. Não entendo bem que mecanismo se dá que aqui não tenho o mesmo pudor de me humilhar como ocorre nas discussões presenciais. A mim me parece que todos entendem de tudo e eu sou um completo ignorante. Falam com certeza impressionante sobre os mais variados assuntos, o que me espanta, pois de nada sei ao certo. Penso em tomar um banho de chuveirão hoje e escovar os meus dentes. Vou deixar essas ideias ganharem firmeza em mim. Gosto delas. Gostaria também de comer hoje uma posta de cavala frita com batata frita na orla de Macau, para onde iremos dentro em breve, creio.

9h45. Um pedaço de outro dente caiu enquanto escovava. Quantos mais hão de cair? Será efeito de uma descalcificação por conta da Coca? Ou a idade mesmo mostrando outra de suas facetas? Não sei, só sei que é um evento que demonstra um desgaste dos meus dentes, segundo pedaço em menos de seis meses, um estranho padrão. Enquanto não dói e é reparável não me incomoda como deveria. Como incomodaria ao meu padrasto se se desse com ele.

11h10. Estamos prestes a ir a Macau. Tirei mais uma foto da maré seca que me encanta muito mais que a maré cheia, se chegarmos antes do anoitecer, pretendo descer para catar conchinhas. Ou não. Não encontro disposição em mim para tanto.

O ícone de Macau e o ícone da minha vida, meu irmão.