sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Algo 0003 Revisto e Atualizado

Este livro é a minha “bíblia”. O cara pensou praticamente a mesma coisa que eu, mais ou menos no período em que eu formulava minhas ideias, só que com muito mais embasamento científico (eu não conseguia saber como bioengenharia, nanotecnologia e robótica se enquadravam no esquema de coisas, mas sabia que eram peças importantes). Ele não cita a fusão da nossa tecnologia com as tecnologias de outras civilizações avançadas espalhadas pelo cosmo, nem defende a idéia do ser/inteligência suprema resultante da evolução do universo ser o criador de si mesmo. Para quem quiser comprar clique neste link da Livraria Cultura ou neste, da Amazon. Aqui é o site do autor do livro sobre olivro, o link do Wikipedia parece que fizeram até um filme!
 
 
 
 
 


I
Só uma ação inteligente é capaz de gerar uma “grande explosão” ou Big Bang (algo em sua natureza caótico e desagregador) que resulte em computadores, borboletas e beijos apaixonados ao cair do sol.






II
Deus em seu estado pleno ainda não existe, ainda não se auto-organizou. Ele será um sistema inteligente composto de todas as supra-inteligências disponíveis e acessíveis.

III
Supra-inteligências são sistemas biotecnológicos onde organismos inteligentes (como os homens) se conectarão através/com a tecnologia para formar uma super-rede neural. Note-se que, como os neurônios no cérebro, os homens* serão autônomos em sua individualidade e interdependentes como sistema, podendo se desconectar dele na hora que quiserem, porém passarão cada vez mais tempo conectados pelo prazer do acesso ilimitado às inúmeras sensações maravilhosas proporcionadas por ele (simulações, consciência expandida, conhecimento instantâneo etc.).
*Digo homens, mas à época desses eventos, a raça será uma coisa outra devido à evolução, à interação com a tecnologia e à bioengenharia. Digo que a parte biológica do sistema é indispensável à tecnológica e vice-versa, pois cada uma é capaz de suportar intempéries naturais (pulsos eletromagnéticos, por exemplo) que a outra não é.




IV
No surgimento da supra-inteligência da Terra (ou em qualquer tempo subseqüente) o homem não será escravizado pelas máquinas como é recorrente no imaginário popular. Ao contrário, será atraído pela tecnologia – como já vêm sendo – e pelas inimagináveis possibilidades sensoriais e intelectuais que ela proporcionará. A tecnologia já permite – embora não seja ainda utilizada para – instalar a democracia de fato, onde as opiniões de todos os cidadãos podem ser computadas, aferidas e servirem de auxílio na tomada de decisões do âmbito distrital ao global.

V
É da natureza do homem e de todos os seres de razão tornarem-se mais e mais dependentes da tecnologia que desenvolvem, posto que é isto que leva às supra-inteligências e delas a Deus, único sistema capaz de gerar um universo organizado.




VI
Deus é pai e filho do universo. Ele, do futuro, enviará ao passado/início (ao nada, ao espaço-tempo 0) o estímulo/semente/processo quântico que gerará a descompactação do nada nesta reação em cadeia sutilmente calibrada que chamamos de universo e que inexoravelmente levará ao seu surgimento, propósito maior da existência.

VII
O tudo veio do nada porque não teria de onde mais vir. O nada no meu entendimento é maior que tudo, pois no nada está contido/latente, além do tudo, o inverso de tudo (que o anula em nada), possuindo então o dobro de elementos do tudo.




VIII
O tempo não é contínuo, não vejo outra explicação para que todas as interações da matéria se dêem sem erro algum, em perfeita sincronia. O que ocorre é que, como numa projeção de cinema, em uma medida que não sei precisar, um estado do universo pula para o outro, sem haver uma transição temporal entre eles. É por isso, talvez, que nunca haja elétrons entre os orbitais.

IX
Também acredito que a gravidade decai até um patamar mínimo depois se torna uma constante, independentemente da distância entre os corpos, inclusive em nível quântico.





X
Se há dúvida, há livre-arbítrio.

XI
Acredito que a expansão da complexidade é proporcional à expansão do espaço-tempo do universo. É este comportamento que inevitavelmente levará a Deus. Ao contrário do espaço-tempo que tende a se espalhar e dissipar energia ao se expandir, a complexidade tende a se concentrar, otimizando cada vez mais o uso dos recursos para gerar mais complexidade.

XII
O único mandamento de Algo é:
Seja feliz honestamente fazendo sua parte para o bem comum.
É só o que é preciso ter sempre em mente, o resto será consequência destes princípios.




Não sou o único doido: http://en.wikipedia.org/wiki/Technological_singularity


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Garoto Recluso



Era – ou se tornara – um garoto recluso. Seu principal companheiro era o computador, onde criava, escrevia e encontrava os amigos quando tinha disposição para eles. Vivia com uma coisinha ruim no juízo, como um besourinho triste e agoniado que zunia descontente. Geralmente, quando acordava, o besourinho zunia mais forte e tornava a inevitável tarefa de existir mais dolorosa. Porque, para o garoto recluso, existir doía sempre, há vários anos. Às vezes mais, às vezes menos, mas doía. Ele chegou a conjecturar que sua antena de sentimentos havia quebrado e ficara eternamente sintonizada nas ondas longas da melancolia.

Se havia um enterro ao qual o garoto recluso realmente gostaria de ter ido era ao de sua esperança. Gostaria de saber quando, como e por que ela morreu, mesmo que isso não mudasse muita coisa. A morte da esperança foi a morte em vida do garoto. Pois a morte da esperança levou consigo todos os seus membros: as aspirações, a determinação, a vontade, a confiança, o amor-próprio. Por falar em amor-próprio, o garoto nunca conseguiu entender direito este conceito, provavelmente por nunca tê-lo sentido de fato. De confiança nem é bom falar, pois os que mais o amavam eram os que menos confiam nele, já que eram os mais sensíveis às maquinações egoístas do menino desde que começou a colar suas idéias como os sapateiros fazem com solados.

O menino se lembrava do tempo em que acreditava que mudaria o mundo e criaria o paraíso na Terra. De como tudo era perfeitamente claro para ele: a internet levaria à democracia de fato, a informática levaria à criação de realidades alternativas com possibilidades inimagináveis, a descoberta de conhecimentos sobre-humanos que iluminariam toda a raça. O surgimento do grande cérebro onde participaríamos como neurônios, permanecendo autônomos como indivíduos, mas interdependentes como sistema. Tudo passado, tudo o peso de nunca ter sido dito – como o menino por mais de uma década planejou e desplanejou. Tudo fracasso – uma das autodefinições do garoto recluso.

Exatamente. Em uma palavra, o garoto recluso era um fracassado. Improdutivo, infeliz, parasitário de sua mãe, distante do mundo, imerso e aprisionado em si, a passar os dias em vão, ouvindo o besourinho. Existindo por não morrer. Existindo porque metabolicamente a natureza ainda queria assim. Apodrecendo, enrugando, atrofiando a cada dia. A cada dia ficando menor ante o crescente peso de tudo o que veio antes e de tudo o que não é. Covarde, covarde. Incapaz de tomar alguma, qualquer iniciativa.

Havia uma memória, entretanto, que ainda brilhava dentro do garoto recluso. Era como o fantasma sorridente da esperança o assombrando. A lembrança de amar e ser amado, com todos os abraços, beijos, gargalhadas e calor, com toda a reciprocidade, sincronia e intimidade, com todo o apaixonado amor, enfim. Recluso em seu quarto, apertando letras na tela, o menino matava o sonho de amar. Em vão. Em vão achando que o amor pudesse calar o impertinente besourinho.

Eu desisti de mim e esta não deveria ser uma alternativa possível caso houvesse um deus bom.

Algo 0001

DESISTI DE ALGO. 
FODA-SE ESSA PORRA. 
QUERO SER LIVRE DISSO E DE MIM.
CHEGA DE SONHOS.
CHEGA DISSO, DESSA LOUCURA, DESSA MENTIRA, DESSA FUGA. 
NÃO QUERO MAIS FUGIR. 
NÃO QUERO IR A LUGAR NENHUM.
QUERO FICAR AQUI PARADO OLHANDO A MORTE CHEGAR.