domingo, 28 de outubro de 2018

BEBEDEIRA?

18h49. Nada me é mais aprazível que uma folha de Word em branco. Penso que ela guarda todas as possibilidades do universo, mas sei que em verdade, quando a tomo, ela se limita somente ao que há em mim e ao que estou disposto a oferecer. Mesmo assim, constrita dessa forma, me agrada muito. Estou ouvindo In Utero, do Nirvana. É um disco que gosto bastante, é meio desgovernado, desesperado, sombrio. Estava dando uma navegada na internet. Vou fumar e pegar Coca.

19h16. Mamãe me comunicou que vai deixar a fantástica faxineira em casa e que irei acompanhá-la. Saíram duas pesquisas, uma indicando empate entre os presidenciáveis e outra com larga vantagem para Bolsonaro. Acredito mais na segunda, não acho que tenha jeito.

21h16. Finalmente, depois de pegar os filhos e deixar a fantástica faxineira em casa, passar no Bompreço para comprar Cocas e uns poucos outros pertences e minha mãe botar alguns vídeos de Sandy para eu ver, sento aqui culpado. Ela queria que eu a fizesse mais companhia. Mas faz tanto tempo que não escrevo, escrevi pouco hoje por causa da faxina. Estou ouvindo Sandy e pensando no Azure Dragon. Foi só falar e o anjo do Tinder me surgiu na cabeça porque lembrei das eleições e que lhe disse que voltaria a me comunicar após tal evento, ou seja, amanhã. Penso em beber bebidas alcoólicas amanhã. Tomar um porre. Extravasar toda a tensão desse período conturbado da história nacional. Não sei se faça isso mesmo, mas é uma ideia que vem ganhando força ao longo dos dias. Não terei dinheiro, nem sei onde vende crack por aqui, não acredito que buscaria a droga, que é a razão pela qual parei de beber. Se me bater fissura, é realmente um sinal de que não devo beber.  

21h32. Não sei o que fui fazer além de fumar outro cigarro, mas a ideia de beber amanhã pulsa em mim. Veremos. Como já chegarei em casa bêbado, mamãe não poderá fazer nada a não ser encarar os fatos. Talvez vá querer me proibir de ir à Vila Edna, alguma maneira de me punir há de inventar. Mas um porre na vida não vai me matar. Porra, é a minha vida e só vou passar por ela uma vez! Nada vai acontecer comigo além da possível e provável ressaca. E da retaliação da minha mãe. Vale a pena. Eu acho. Nem lembro mais como é estar embriagado. Mas não quero mais falar disso. Talvez nem o faça. Comentei com o meu primo-irmão e ele questionou se eu estou podendo beber. Escrevi mais ou menos o que disse aqui.

22h24. Fiz uma coisa que não fazia há semanas: fechei o Chrome. Confesso que me sinto meio órfão. Vamos ver quanto tempo resistirei. É um hábito já bastante consolidado, alternar entre as palavras e a internet. Ainda mais com o Tinder acessível pelo navegador. Peguei o tique de olhar de tempos em tempos se surge alguém. Ainda estou decepcionado com o fato de não ter conseguido a atenção da balconista. Não há nada que eu possa fazer. É seguir dando os meus superlikes e confesso que estou cada vez menos exigente em relação às garotas que o merecem, mesmo assim os que dei não resultaram em nenhum match. Peguei no mouse para olhar o Tinder motivado pela frase anterior, mas me lembrei que havia fechado o Chrome. Não sei porque me privo. Acho que vou fazer uma limpeza do HD. Momento.

22h55. Em vez de abrir o aplicativo de limpeza de disco eu, sem pensar, reabri o Chrome e, uma vez aberto, não resisti e fui navegar. Tem jeito não. Botei para baixar o filme que mamãe queria ver, sugestão da fantástica faxineira, e Ant-Man and Wasp.

23h05. Fui fumar um cigarro. Estou ansioso por amanhã. Acho que mais pela possibilidade de beber. É bom trelar, quebrar barreiras, embora não esteja certo de que realmente farei isso. Escrevendo a frase anterior me desanimei. Não sei, não sei. Não quero ir muito tarde para lá, mas também ignoro que horas vou acordar. Ter fechado o Chrome, mesmo que o tenha reaberto, parece que deixou o computador mais rápido, curioso. Vou pedir ao pai da Vila Edna que guarde o conteúdo do livro só para si. E, se preferir, nem leia. Não sei. Estou cheio de dúvidas hoje. Coloquei o novo disco do U2 para ouvir, ele tem um significado especial na minha vida. Significa liberdade, em particular da cola e do manicômio. Indo além, a liberdade que experimento na minha vida, limitada como é. Minha liberdade é de um tipo diferente, pouco correlato com a liberdade de ir e vir, que é identificada, creio, como a liberdade mais primordial. Eu raramente saio do meu quarto e, quando saio, não tardo a sentir falta de estar nele. O meu isolamento eu julgo já ser algo meio patológico. Tal isolamento acho que é reflexo da condição – e decorrente condicionamento – experimentada no período que passei praticamente em prisão domiciliar quando morava com meu pai. Foi a medida encontrada por ele para me impedir de usar cola. Não guardo ressentimentos de sua decisão, morando em Boa Viagem, longe da minha turma, não havia muitos lugares para onde quisesse ir. Sofro também privação financeira, por mais que receba pensão, só posso utilizar dinheiro quando outorgado pela minha mãe. Isso também não me incomoda (muito), não fora pelas bonecas e pelos cigarros. Nossa, queria muito que mamãe passasse a me dar uma carteira por dia. Acho que vou pedir isso de Natal a ela. Por falar nisso, preciso ir ao banco desbloquear o meu celular para poder efetuar saques da poupança. Não agora no final do mês, mas no começo do mês que vem. Vou fumar. Não sei. Talvez acabe tentando ir na terça, visto que segunda tenho Ju.

0h18. Já é dia da eleição. Daqui a 7h41 minutos, começará. Tomei os meus remédios, me despedi de mamãe e agora tenho a noite só para mim. Meu amigo cineasta me mandou uma música de Caetano para ouvir: Amanhã. Ouvirei agora. Momento.

0h48. Era uma música linda e positiva de Guilherme Arantes, interpretada por Caê. Resolvi botar o disco todo para ouvir. Saudade danada me bateu do meu amigo cineasta. Amo-o muito. Me dei conta do imenso após ouvir a música. Dei um crush para uma garota muito interessante do Badoo. Pois, é estou apelando para dois aplicativos de paquera. Tentando o que não me invade. Já dei superlikes e crushes para várias garotas e nada. Aliás, houve o anjo do Tinder e a garota do Instagram, mas não sei se são/eram perfis reais. Estou com saudade do meu anjo, apesar da insegurança em relação à sua identidade. Findada a apuração ou confirmada a vitória, mandarei mensagem para ela. Talvez ébrio, talvez não. A vontade que tenho tenho que calar dentro de mim. O tempo virá, é só ter paciência. Acho que vou comer.

1h36. Devidamente alimentado. Foi um jantar digno, gostei. Primeira coisa que me veio? O anjo. Não que haja esperança em algo que não sei nem da veracidade. Gostaria que a garota que curti no Badoo me desse bola, é bastante interessante e possui um piercing argola no nariz como o anjo e é loira como o anjo e é apetitosa como o anjo. E fuma, o que, para mim, é um plus. Bom, dei várias curtidas, pode ser que alguma vingue apesar da minha idade e do meu bucho.

1h48. Acho que vou me retirar dentro em breve...

-x-x-x-x-

13h28. Acordei há algum tempo. Recebi um match no Badoo, mas estou sem coragem de começar uma interação, acho que porque não é alguém que me encante de verdade. Dentro em breve me arrumarei para ir à Vila Edna, mas confesso que não estou muito disposto para birita hoje, agora. Botei meu celular para carregar mesmo não tendo descarregado, pois quero ter bateria para mandar a mensagem para o anjo do Tinder quando o resultado da eleição se der. Sei que é contraditório querer falar com alguém que talvez seja fake e que não me dá a mínima e não querer falar com uma garota que revelou um interesse sincero pela minha pessoa. Façamos o seguinte: quando o meu celular carregar, eu vou me aprontar para ir à Vila Edna. Uma vez lá, inicio o papo com a garota que me deu o match no Badoo.

14h22. Acho que vou para a Vila Edna às 16h. Um bom horário eu creio. Nem muito cedo, nem muito tarde, bem, talvez só um pouquinho tarde. Em verdade, acho adequado. Sobre beber lá, confesso que não me decidi. Acho que só chegando lá. A antecipação já me causa desconforto, as vésperas sempre me dão vontade de desistir, sei bem como sou. Coloquei uma Coca para gelar no congelador para levar para a Vila. Estou com mil pensamentos na cabeça como formigas de asa em volta da luz em dia de chuva. Vontade de fumar tomando uma Coca bem gelada. Resistirei um pouco mais. Confesso que estou puto com um amigo de infância meu que mora no Canadá e defende Bolsonaro. Mas não deixarei o antagonismo político macular a nossa relação. Essa raiva passará. Vou fumar, não há por que esperar. A vida é muito curta para ser desperdiçada com esperas sem sentido. Isso deveria se aplicar ao anjo, mas em relação a ela guardo uma terna esperança.

14h53. Não estou muito inspirado para a escrita. Estou curioso para escrever embriagado, se isso se der. Minha mãe vai pirar na batatinha. Vai dar um escândalo. Ameaçar, internação inclusive, sei tudo o que me espera. Não acho que seja um ato irresponsável. Estou plenamente consciente. Não quero me prejudicar. Não acho que vá me bater fissura de crack embora não tenha certeza disso. Descobrirei. Ou não. Não decidi sobre a bebedeira, mas como é um pensamento dominante, acho que levarei o meu projeto a cabo. Não sei também se haverá resistência por parte dos habitantes da Vila Edna à minha ideia. Creio que não, mas nunca se sabe.

15h07. Creio que ébrio eu não conseguirei resistir ao impulso, visto que o id vai estar sem rédeas, e não encomendar uma das duas últimas estátuas que quero. A Harley Quinn. Espero que me controle. Pretendo beber seis long necks. Mas sei que quando começo é difícil parar. Esse é um dia sui generis em muitos aspectos. Confesso que estou com um pouco de medo de beber e ser inapropriado. Pedirei que me sinalizem se eu agir dessa forma. E que me coajam a manter as estribeiras. Vixe, que fixação chata. Ainda bem que já estou na terceira página e que daqui a pouco em vez de projetar o futuro, estarei efetivamente vivendo esse futuro que projeto. O Brasil, meu amado Brasil, fazendo uma escolha odiosa. E eu entendo, o povo cansou do PT, o povo é conservador e violento. Se vão haver casualidades na guerra contra o tráfico, isso não incomoda o eleitor porque eles creem que não será com eles. Ansiosos por “segurança”, anseiam por armas. Sei bem que tipos vão querer ter armas em casa. São os piores tipos. Vou fumar.


15h26. Está quase na hora de me aprontar. Está quase no final da terceira página. Quando ela acabar, vou me preparar. Colocarei o meu melhor perfume, colarei o adesivo de Haddad e vou para o ninho de resistência e de amor que é a Vila Edna. Me dói um pouco deixar a minha mãe sozinha, mas ela concordou. Ademais tem que preparar aula e prova. Não teria tempo para companhia, companhia essa que poderia estar oferendo agora, em vez de estar aqui a escrever e não ofereço. Então é hipocrisia da minha parte o que acabo de falar. Ainda acho que Bolsonaro, na coletiva que dará após a apuração dos votos dirá algo como “petralhada, agora vocês vão ter que me engolir!”. Bom, acabou a terceira página. Vou revisar, postar, tomar banho e ir.

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