sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Diários de um Manicômio I



18 de agosto de 2011

Hoje foi um dia único que talvez eu queira que se repita. Em verdade, quero. Saí de uma loucura de cola para um manicômio (clínica psiquiátrica, mas prefiro o primeiro termo, posto que há aqui o que costumeiramente categoriza-se por loucos). Estranhamente não me senti tão estranho no ninho. Me identifiquei com os mais loucos/puros que com os mais espertos/sãos. O ambiente é pegajoso e cacofônico, paredes de azulejo, grades; o perfeito estereótipo. A princípio a cacofonia me incomodou bastante. Menos pela balbúrdia dos pacientes – nós – e mais pelo portão rugindo em enervantes intervalos ao deixar entrar e sair continuamente sei lá o quê/quem.

As alas femininas e masculina ficam uma ao lado da outra, num grande vão dividido ao meio por uma grade branca que gera uma interessante tensão sexual. Há uma paciente, em específico, Anelise, que, segundo entendi, tem algum problema de regressão/infantilização. Ela tem lindos olhos, a voz embaralhada de criança e despertou em mim um tipo de sentimento paternal que desconhecia; uma vontade de cuidá-la, de curá-la. Anelise é, de longe, o acontecimento mais interessante de estar na casa.

Além dela, tive outra sorte, pois, pouco após o meu internamento, chegou um rapaz para o evento semanal de cantoria e violão. Neste momento, não sei se o único ao longo da rotina semanal do hospício, as portas que dividem as alas são abertas e os hóspedes masculinos podem entrar no terraço feminino, onde o cantor estava, para participar da atividade. Meu tesão por palco me levou a cantar primeiro Sandy & Junior,  por sugestão de Anelise, e depois Legião e Djavan. Foi bom. Acho que para todos, mas, sem dúvida e especialmente para mim. A platéia de loucos minimizou minha vergonha inicial, mas não a exterminou (acho que não há público que não me seja intimidante [ainda!! :D]). De qualquer, foi divertido.

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Alguns hóspedes são agressivos. Inesperadamente agressivos. Muitos absorvem apenas parcelas da realidade. Alguns parecem contentes em seu alheamento.

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A viagem de cola é como um mergulho na minha loucura e como gosto desta loucura, gosto daqui. Vejo uma beleza única na loucura. Vejo algo especial e mágico onde muitos vêem feiúra. Vejo mais poesia aqui que lá fora. Eu me identifico de uma forma profunda e inexplicável com essas pessoas (como me identifico com a viagem de cola).

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Os funcionários, que têm fama de truculentos e grosseiros, têm, em verdade (adoro este termo – “em verdade” – pelo seu tom sacro/místico/poderoso), muita paciência. O interno que me deu estas folhas de papel, por exemplo, está gritando aqui no meu pé do ouvido por causa de um desentendimento com outro que danificou a espiral do seu caderno, enquanto a psicóloga e o enfermeiro tentam pacientemente enfiar algum bom senso onde não cabe nenhum. É uma vivência única. Não a teria de outra forma.

Conheci também um interno que parece um profeta. Carrega várias bíblias, veste-se todo de branco, com terços e outros penduricalhos de temática cristã no pescoço, tem uma barba “jesuítica” e fala palavras, para mim, até agora, incompreensíveis. Ele me fez pensar que todo profeta – inclusive eu (ou futuro eu) – tem que ter algo de louco, algo de partido da realidade, para ver além.

A cola me permite esta quebra/ruptura momentânea (que muitas vezes durante a viagem desejo ser definitiva). Acredito ainda que o fato de ter esses acessos de “loucura induzida” me permite ver o mundo dos loucos de outra forma. Em verdade (olha aí o bendito termo novamente), me sinto um louco em pele de cordeiro (talvez sejamos todos?). Me sinto em casa aqui. Mas este é só o primeiro dia. Os dias não me incomodam, desde que eu tenha algum aditivo para dormir à noite (e terei – já negociei com o doutor). A fome me levará a comer a comida de aspecto duvidoso no seu devido tempo, então isto também não me incomoda.

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Cheirando cola em frente ao albergue para drogados (de onde fui transferido aqui para o manicômio), tive várias alucinações em relação às falhas no tratamento de loucos e drogados. Pena que não as lembre, nem saiba por que pensei em loucos se até aquele momento não imaginava que em breve estaria entre eles. Lembro de que a atendente e a coordenadora vieram tentar me convencer a entrar no albergue e de eu negar o convite por querer continuar cheirando minha colinha até o final. Lembro do carro da minha mãe, reluzente e imóvel em frente da clínica. Tudo o que eu queria era que ele sumisse dali. Lembro das alucinações como se, ao cheirar, realizasse uma terapia, um tratamento na instituição e, mais até, no próprio Dr. Edward, fundador da instituição, pois ela é filha, emana dele, herda suas neuroses. Lembro de sentir que as pessoas novas (profissionais) que chegaram e chegarão, transformam a instituição positivamente e que podem e vão, ao longo do tempo, esculpir e afilar as feições brutas de Dr. Edward impressas na fachada, nas entranhas do albergue.

É como se, olhando a entrada da instituição (onde estava cheirando), de diversos ângulos e em diversos níveis de embriaguez da cola eu visse as diversas, múltiplas razões, as dezenas de pontos de vista que cada um dos drogados têm para não desejar entrar ao chegar ali na entrada, conhecendo tão pouco das promessas e possibilidades do tratamento, do que os aguarda e do que esperam de si e de lá. A viagem foi uma variação da velha crença num futuro melhor que sempre me vem nos meus “Norsonhos”.

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Aqui no manicômio, o doidinho que pega pipoca do chão para comer e copo do lixo para beber água acaba de pegar minha xícara de café e beber o resto frio. Queria ter esta despreocupação higiênico-gustativa.
Vou lá fora ver Anelise. Fumar. Apre(e)nder. Me enturmar. Viver. O inferno não são os outros. Somos nós mesmos. E me sinto no paraíso.

FIM DO DIA 1

P.S.: Como não tenho obrigação ética como psicólogo ou psiquiatra posso falar o que quiser com eles. Tentar ajudar do meu jeito. 

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