sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

ROTINA




Algo em mim está descontente com a existência, desgostoso com a minha vida, por mim, poderia morrer agora. Não há mais nada a ser visto, nada mais a ser feito que desperte algum interesse. Nem as minhas amadas bonecas porvir, nem Blanka, nem a reforma do meu quarto. Talvez um copo de Coca gelada. Vou tomar um banho, às vezes me faz bem. São 16h19, sou eu em leve estado depressivo. É chato, incômodo, sofrido, sem razão aparente. Ao banho.

17h04. Se não volto o mesmo, não volto muito diferente. Pelo menos estou mais conformado com a minha realidade dentro do quarto-ilha com as minhas palavras. Me deu vontade de mandar um alô para toda a galera da pizzaria onde compro as Cocas que se dispuseram a ler o meu blog, me sinto honrado, prestigiado e contente com o interesse pela minha medíocre pessoa. Espero passar aí assim que mamãe acordar para comprar mais duas Cocas. Rapaz, realmente não estou num dia bom. Não consigo entender, pois não consigo achar a causa. Olho para a base da estátua da Red Sonja, que também foi danificada na vinda dos Estados Unidos, e a acho horrível, uma das piores, mais feias e menos inspiradas bases de todos os tempos. A Red Sonja compensa imensamente esse pecado e acho que vou acabar apelando para a minha tia-vizinha para consertar, visto que o restaurador que encontrei pelo Google não me responde.

17h22. A internet está dando pau. Especialmente os serviços da Google. Curioso e irritante.

17h43. A internet voltou a pegar pela rede de mamãe, que aparenta ser lenta. Não canso de olhar para a base danificada da Red Sonja e pensar na oferta da minha tia. Acho que é a ânsia que tenho de resolver as coisas o mais rápido possível. Talvez o restaurador seja a opção mais acertada e esperar o seu contato o mais sensato. De um dos dois para os quais mandei mensagem.

19h48. Apelei para a minha tia-vizinha, apostei nos seus dotes de restauradora de arte, mesmo que pop art. Não aguentei esperar por resposta que não vinha dos profissionais. Ela ficou de arrumar Superbonder para seguir na reparação, mas já colocou uma das falanges da mão da Pequena Sereia. Nossa, muito bom estar na companhia dela, tem um astral muito positivo. Por falar em astral, o meu está bem melhor. Acho que era a solidão que me oprimia e onde volto a mergulhar, um pouco mais confortável com a condição.

20h41. Meu irmão chegou com a turma toda e minha cunhada me convidou para acompanhar dois casais – ela e meu irmão e sua irmã e o marido – ao sushi. Embora tenha encarado a ideia com acanhamentos e estranheza, acho que vou ceder ao convite.

0h07. A noite foi bem mais agradável que o restante do dia, a começar pela convivência com a minha tia-vizinha, depois o sushi, onde soube dos incríveis investimentos imobiliários do pai da minha cunhada, finalizando com mensagens de Blanka, que se importou comigo mais do que poderia imaginar. Tudo corroborou para um dia que valeu a pena ser vivido, apesar do desconforto emocional que me acometeu em sua maior parte. Não estou com saco de escrever. Blanka está menstruada e sentindo as fortes cólicas que a acometem nesses períodos, como havia me contado anteriormente. Amanhã disse que conversa melhor comigo. Não quero sair com ela sentindo cólicas, não me incomoda a menstruação, mas a dor rouba parte de Blanka, que não estará por inteiro se estiver sofrendo por dentro.

-x-x-x-x-

11h50. Há algo de deprimente em acordar e vir sentar diante desta máquina, algo que me faz questionar se isso não seria muito pouco. Vou fumar um cigarro. Com café frio de ontem.

12h19. A turma subiu da piscina, eu me isolo. Acordei pensando em Blanka. Nossa, como é difícil para mim, bicho antissocial que me tornei. Ainda bem que o desejo de a encontrar prevalece.

12h45. Meu irmão e família estão indo para Aldeia. Detesto despedidas. Tomara que mamãe faça realmente café.

13h09. Eles já foram. Mamãe fez café da máquina de expresso, portanto apenas uma xícara. Não sei como escreve “expresso” na grafia italiana, acho que é diferente.

13h21. Pronto. Acho que agora não serei mais incomodado. A não ser pela lentidão da internet. E preciso da internet para me comunicar com Blanka. Tive outra crise de sonambulismo ontem. Não sei se o termo é esse, pois estou metade acordado, metade dormindo, oscilando entre a consciência e inconsciência dos meus atos.

13h33. Olho para a tela e não me vem nada para dizer, é uma situação diferente para mim que sempre tenho algo a dizer, visto que não deixo de pensar e escrevo o que penso. Me deixei prestar atenção na música, Pretend We're Dead do L7. Penso em Blanka e na internet, penso em fumar um cigarro também. É o que vou fazer. Talvez botar café para fazer.

14h03. Planejo cortar o cabelo e fazer a barba hoje. Esperar a minha mãe acordar. A vontade que tenho é dormir também. Não posso depender de situações exteriores para estar bem comigo mesmo. Fato é que esse tem sido o caso nos últimos dias. Tenho que me conscientizar que pelo menos por 300 dos 365 dias desse ano, serei eu só com as minhas palavras e que isso tem que me bastar. Não é um pensamento agradável, mas já tive piores, já cortejei a morte e mais de uma vez quase caí em seus braços fatais. Nossa, o meu quarto foi invadido por um barulho advindo de alguma máquina de alguma das reformas que estão se dando no prédio, em andares próximos ao nosso, além da troca da cerâmica que reveste o edifício, que gera marteladas ao longo de todo o dia. Aos que se perturbam com barulho isso se mostrou um impedimento para o sono. A mim, pouco se me dá o barulho. Vou fumar um cigarro com Coca bem gelada e me deitar.

14h37. Coloquei mais um copo de Coca. Vou reiniciar a máquina, o Chrome está com algum bug. Já bebi o copo de Coca todo. Vou reiniciar e me deitar. Bem, antes acho que vou fumar mais um cigarro com Coca.

15h05. Ao me deitar, senti que dormir era uma atitude inútil e deprimente, de entrega, não era a minha vontade. Ao ir fumar o supracitado cigarro dei de cara com a empregada da casa do meu amigo cineasta que veio me entregar o livro do meu amigo escritor que o cineasta havia levado por engano. Acredito que lerei. Há poucos minutos recebi a ligação do restaurador, que disse que poderia vir no domingo aqui para ver as peças. Terei que falar com mamãe a respeito disso. Blanka disse-me ontem que poderia entrar à tarde ou à noite para conversar comigo. Se mamãe topar o restaurador e Blanka falar comigo o resto do dia promete ser bom.

15h35. Fui fumar e mamãe acordou (temporariamente), falei com ela a respeito do restaurador e ela já ficou preocupada com o preço. Disse-lhe que faria tudo com ela e só aceitaria o serviço caso ela estivesse de acordo. Combinei também de fazer a barba e o cabelo e comprar Coca, que acabou. Vamos ver o que o acaso-destino me trará. Enquanto isso projeto.

16h01. Falei com o meu amigo cineasta pelo WhatsApp Web, mas a internet está um bosta. Que saco.

16h14. Este seria o horário ideal para ir cortar o cabelo e comprar as Cocas, mas mamãe dorme e não quero perturbá-la. Quanto à internet, melhor esquecê-la por ora. Meu padrasto está ocupado, não vai comprar briga com o provedor por minha causa agora.

[15:46, 1/11/2019] Amigo cineasta: vcs foram para areias?
[15:47, 1/11/2019] Mário Barros: Fomos. Foi massa, mas fomos com uma prima que gosta de beber, então não aproveitei muito a companhia dele, do que me arrependo.
[15:48, 1/11/2019] Amigo cineasta: saquei. mas aproveitaram o passeio ao menos
[15:48, 1/11/2019] Mário Barros: Sim, sim. E o lugar maravilhoso, palco de tantas memórias. E trouxemos Maria conosco. Foi bom.
[15:49, 1/11/2019] Amigo cineasta: que massa
[16:17, 1/11/2019] Mário Barros: Interagi melhor com meus sobrinhos, isso também foi bom. Não esperava isso de mim, mas eles me cativaram de alguma inexplicável maneira.
[16:21, 1/11/2019] Amigo cineasta: crianças têm esse dom
[16:22, 1/11/2019] Mário Barros: Acho que eles atingiram uma idade com a qual consigo lidar. Especialmente o mais velho, que é uma pessoa de um otimismo incomum.
[16:23, 1/11/2019] Amigo cineasta: foi o que estava mais discreto no dia da piscina
[16:25, 1/11/2019] Mário Barros: Confesso que no dia da piscina a mágica ainda não havia se dado. :P

20h27. Dormi. Acordei me sentindo meio febril, mas acho que é ilusório, excesso de cama. Nada de Blanka até agora. Talvez Dande ainda esteja com ela. Quem saberá? Estou curioso a respeito do restaurador. O pessoal da pizzaria onde compro as Cocas é sempre muito gentil e afetuoso comigo, é bom ir lá, me faz bem. Não consigo imaginar quantos leram o meu blog ou se algum continuará lendo. Não importa, foi a recepção mais calorosa que meu texto já recebeu. Houve quem dissesse, por falta de adjetivo melhor, que o texto era “interessante”. Blanka disse que lia, mas isso foi no começo, duvido que o faça hoje em dia. Nossa, tomar Coca já gelada com gelo é uma delícia. Acordei com um astral melhor, mas queria ter feito a barba e o cabelo hoje. Faço na segunda. Estou mais gordo do que jamais fui e nunca comi menos, aliás, já: quando da minha dieta somaliana leve no período do CAPS. Consegui perder entre dez e doze quilos. A maioria das minhas roupas não cabe mais em mim. Há camisas que adoraria usar e que simplesmente tornaram-se insuportavelmente apertadas de vestir. Ou, melhor dizendo, eu me tornei demasiado rotundo para entrar nelas. Lembro-me, quando dessa perda de peso, que olhava para os mais gordos com desdém, tomado de superioridade por perder o peso que eles não conseguiam, apenas comendo pouco, muito pouco, uma refeição dia sim, dia não, ou algo do gênero. Hoje me acostumei a comer uma vez ao dia, mas comer muito, tarde da noite, movido pela fome que os remédios me dão. Vou fumar e acabou-se a terceira página.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

BARROS OU DECK NA PISCINA

De vovó Denise para titio. Hahahaha.




Eu sou tão pequeno, tão miúdo, insignificante, cercado de gente com mais significado que eu, que significam mais para o mundo pois operam nele transformações mais profundas e definitivas que as minhas palavras. Fui comprar Coca na pizzaria, um dos bróderes de lá pediu o endereço do meu blog e disse que leria, foi o ápice do meu dia, embora duvide que encare o texto todo. Pelo menos teve o sincero interesse que os meus amigos mais queridos não têm. Curioso o acaso-destino como se dá. Hoje estou particularmente mal, nada que me incomode muito, mal comparando é como ter uma farpa fincada na planta do pé. Só que no pé da alma que não cessa de caminhar enquanto pensamentos afluem. A própria afluência de pensamentos é a manifestação mais inconteste da alma, ou qualquer nome que se dê, como consciência, ego, eu, essa coisa que pensa ser dona desse corpo e que admira o belo, essa ilusão dos átomos que é a grande maravilha da existência, misteriosa e inexplicavelmente real. Que por falta ou excesso de neuroquímicos me faz me sentir desgostoso comigo. Porra, esqueci de botar o horário em que comecei a escrever isso. São 23h33. Penso em esticar as ideias quando a noite for minha. Mamãe e minha cunhada assistem seriado na sala. Na piscina, onde tradicionalmente fumo um cigarro com a Coca recém-comprada, jovens garotas se reuniam, tentei traçar uma comparação com as garotas da minha época e as únicas diferenças que pude auferir foi que as de hoje falam mais palavrão e ouvem uma música que me é desagradável. Prova de que estou ficando velho. Mais uma prova, todo dia algo me alerta para este triste e inevitável fato. Esqueci de mencionar sobre a encomenda que tentaram entregar na casa do meu irmão. Em verdade não quis aperreá-lo com mais do que a enormidade de preocupações que já carrega no lombo.

0h12. Naveguei no encantador e surreal site de artesãos independentes chineses, a criatividade e, ao mesmo tempo o apego pela cultura e mitologia do país são fantásticos. Adoraria poder colecionar tais peças. Diante da total impossibilidade disso, vou fumar.






0h53. Aproveitei para jantar. Aproveitarei agora a letargia que a saciedade traz para tentar dormir.

-x-x-x-x-

16h08. Acho que funcionou ter publicado o meu blog na “Linha do Tempo”, 42 visualizações so far.

18h49. Um inesperado passeio à Praça de Casa Forte com mamãe, minha cunhadinha e filharada se revelou uma aventura maravilhosa, com direito a vitórias-régias, tartarugas, pastel sorvete, mãos dadas, risadas, conversas, algo de muito humano, de me sentir parte da família, de me sentir querido e importante, significativo, útil socialmente. Fez um bem danado à alma e revelou uma parte de mim que não me era acessível anteriormente. Acho que os meninos estão numa idade ótima, com a qual me sinto confortável para interagir, pois o diálogo se faz possível, acredito que de agora até os próximos três anos seja a fase áurea da infância, quando será mais divertido e prazeroso exercer o papel de tio.

19h09. A infância tem algo de mágico. É como se aqueles serezinhos vissem o mundo por uma lupa fantástica e muito pura, uma lupa que transforma tudo, ou quase tudo, em brincadeira e diversão. Compartilhar desse olhar é rejuvenescedor, revigorante e interessante. O mundo é um imenso playground repleto de descobertas e primeiras vezes que são percebidas como tal. Acho que na minha vida, aos 41, as primeiras vezes não escassearam, mas elas raramente me saltam aos olhos cansados de tanto ver. Depois dessa tarde na Praça me sinto até mais bem preparado para encarar Blanka, pois me sinto mais seguro para me socializar. De todo minha alma está feliz e o que posso dizer é nada como um dia depois do outro e ter a coragem de me permitir coisas novas. Britney Spears toca no som relativamente alto que preenche o quarto-ilha. Me causa certo pesar saber que foi um momento que demorará pelo menos mais um ano para acontecer novamente. Mas que continua acontecendo dentro de mim.

19h52. Botei Infected Mushroom para tocar dizendo que era uma música esquisita e meus dois sobrinhos menores surtaram e começaram a dançar freneticamente, pensei que faria o mesmo na idade deles, como fazia com meu irmão com coisas bem menos “intensas” como Beatles, ainda quando morávamos na casa da Cidade Universitária. Bons tempos. Estou aprendendo a apreciar a alegria de ter uma casa com crianças. Ouvi-las já me traz um sorriso interior. Parece que sentirei saudade deles. Não imaginava. É um vínculo que se forma à minha revelia, mas não reclamo, não consigo imaginar pessoas mais indicadas para criar ligações de afeto.

20h04. Olhei para a Rei Ayanami agora e pensei sobre o tal restaurador que a fantástica faxineira mencionou e se ele conseguirá consertar as minhas bonecas. O sonho de ter o meu quarto como imagino está mais perto que longe. Como está perto a partida do meu irmão e, antes disso, talvez, a saída com Blanka. Se bem que ela está programada para o dia do aniversário do sogro do meu irmão, o que me parece ser um impedimento, pois acho que tenho o dever “diplomático”, digamos, de comparecer.

20h23. Fui me informar com minha cunhada e o aniversário é no dia posterior ao encontro com minha querida. Dá tempo. Não sei se minha mãe e meu padrasto comparecerão, mas acharia de bom tom que o fizessem. Senão, vou eu somente.

20h50. Acho que vou dar um tempo na escrita até ter a noite só para mim. Não estou com grandes ideias agora. Passei um tempo vagando pela internet e vi que o Switch vai ganhar uns jogos legais. Mas não jogo e minha TV deu pau. Ou ela ou o controle. Sei que não liga.

21h09. O que eu posso dizer da vida? Nada no momento.

22h24. Tenho que falar de tecnocracia, mas antes há uma mensagem que gostaria de mandar para o grupo dos Barros. Eu poderia mandar o link desse post. Seria uma forma de mostrar à família paterna o meu trabalho, o meu ofício de fé, a coisa que mais me dá prazer na vida, que foi o que vim fazer aqui na Terra, eu sinto isso do fundo do meu ser, que essa é a minha vocação, não que eu tenha talento para isso, mas sinto que é o que oferece um sentido à minha vida, um passatempo, um hobby, um ato pelo qual sou apaixonado e que exerço produzindo conteúdo inútil para a rede social de computadores, para a humanidade conectada ver, achando falsamente que isso é uma forma de expressão literária e, se literária, arte, pois se escrever é uma arte, eu escrevo. Mal comparando com outra arte, eu não sei se minha pintura é bonita ou agradável, sei que é única, pois cada pessoa tem o seu próprio traço, mesmo os que não praticam e os sem talento, todos são únicos. A minha narrativa é única, pois só eu sou capaz de narrá-la, ninguém no mundo pode narrar o que eu vivo e penso a respeito da existência.

22h40. Voltando à mensagem que eu queria mandar para os Barros por WhatsApp, seria:

“Desejo um ano novo que supere as expectativas de vocês. E tenho mais um desejo: que haja mais encontros familiares na casa de titio e principalmente que a nova geração enxergue tais encontros como a oportunidade de se encontrar e trocar boas experiências, mantendo os vínculos do próprio seio, do seu sangue, da sua família que é tão belo na geração que nos gerou. Falo para todos, é muito bom, é algo de primal, do primórdio das sociedades, pode até parecer old school, pré-histórico, do tempo das tribos, mas em nosso sangue rola sangue indígena. Ou, da maneira mais curta, desejo que os primos e primas e irmãos compareçam às festas familiares, ou reuniões, sempre festivas, pelo menos para a geração que nos gerou. Acho que seria uma experiência de troca rica e positiva, inclusive se os grupos e misturassem mais; sim, pois há o grupo dos que moraram naquele prédio onde era a casa de titio e há os mais velhos ou o resto.

FICÇÃO. Tirado do post “Como fazer o máximo para tornar um encontro interessante”, instaura-se no encontro dos Barros o seguinte jogo: cada um pega um número que é sorteado em pares e cada um passaria quinze minutos conversando com aquela pessoa sorteada em conjunto, quem quer que fosse, até o próximo sorteio e assim sucessivamente, inevitavelmente eu cairia com Clementine. Eu só terias duas perguntas e diria: “Me responda com total sinceridade: eu já lhe fiz algum mal de alguma natureza... emocional, sei lá?”. E depois perguntaria: “Em algum momento da sua existência você foi apaixonada por mim?”. Acho que finalizaria dizendo, “Me desculpe por tudo mas saiba que doeu mais em mim”. Cada um sabe a dor que carrega. Entretanto acho que entre constrangimento e asco da pessoa que mais se ama no mundo, a segunda opção é mais dolorosa. Obviamente não perguntaria a ela tais coisas, está muito mais comunicativa desde que arrumei Blanka, parece leve e aliviada. Quem passou constrangimento fui eu bêbado me declarando em frente à toda família no encontro para um jogo da Copa na casa da minha tia-vizinha, certamente um dos momentos mais constrangedores da minha vida, tanto quanto as duas vezes que fui pego roubando. Peguei a mania de roubar com um amigo de São Paulo, ou já a tinha incubada, sim, já tinha incubada, é um desejo que eu reprimo, no meu segundo livro, “Eu Sou Assim E Ninguém Tem Nada Com Isso”, que ninguém vai ler porque nunca ninguém vai se interessar e nem vou me dar ao trabalho de revisá-lo, me comprometo a parar de furtar. Me comprometo agora a não comprar nada no cartão sem comunicar à minha mãe. Vou ter que vender a Captain Marvel, meu único grail, para pagar o que não posso deixar de pagar. E que quero muito. Mais do que a pobre Captain Marvel. Vou fumar e pegar Coca. Ah, e tomar os remédios.

23h45. FICÇÃO. A Sony lança a TV PS5, uma TV 4k que a fabricante diz que é otimizada em todos os sentidos, especialmente para rodar games de PS5 e capaz de se conectar sem fios ao console. Além disso lançaria o kit PS5 Plus, com 25% de desconto venderia um PS5, a TV, o sistema de som 7.1, um microfone, tudo seria comandado a voz, um fone de ouvido com microfone (afinal há preferências), quatro controles, o Sony VR set, três jogos e três Blu-rays ( lançamentos de filmes da Sony), tudo isso customizado com os padrões do PS5 exclusivo, revestido de aço escovado. O kit seria lançado simultaneamente com o console. A tendência dos videogames é desaparecer. Não os jogos mas os consoles devido ao streaming direto dos games para a TV, sem consoles. Cada marca terá o seu canal de streaming, indo convergir finalmente tudo para o Steam que será uma das empresas mais ricas do mundo. A não ser que a Google compre o Steam. CONTINUA.

Fui fumar um cigarro e uma coisa me ocorreu fotografar a foto da camisa dos “suspeitos” para ilustrar esse blog, mas não consegui encontrar. Vou botar uma que vovó, mãe de mamãe fez. É o jeito.

0h22. Acabei de mexer na foto da camisa, deixar a imagem mais diferente. Embora seja uma imagem diferente por si só. Só podia ter sido concebida pela minha avó. Me deu uma leve titubeada de astral. Será que publico esse post nos grupo da minha família paterna? Eu penso: “e por que não?”. Um forno de micro-ondas seria uma ótima aquisição para Areias.

CONTINUAÇÃO SONY. Todo mundo sabe que a divisão de eletrônicos da Sony anda mal das pernas, o que dá mais dinheiro é a linha de entretenimento, especialmente videogames, por isso agregar uma marca Playstation à de eletrônicos é uma estratégia que vejo como bastante pertinente. Se eu fosse a Google, eu comprava o Steam, ou lançaria a plataforma de streaming de game de alta performance, oferecendo todas as opções de jogos para PC na assinatura, dos mais antigos aos mais novos. Todos os possíveis. Com qualidade máxima. Só é preciso comprar o controle assinar, depois que o mês grátis da compra do controle acabasse. FIM. Vou comer. Bateu a larica dos remédios.

1h19. Meu plano é me masturbar para me preparar para Blanka, tomar um bom banho e lona. Ou escrever aqui e lona. Por enquanto estou bem aqui. E julgar tais sandices como meritórias. Ridícula ideia de um homem ridículo. Ah, não falei da tecnocracia, o vizinho que encontrei na piscina, disse que o regime que vivemos é tecnocrático, quem tem mais e melhor tecnologia tem mais poder. Não é mais econômico para ele. Eu acho que dinheiro ainda seja o que move o mundo. Acho que os impostos são necessários porque acho o estado uma instituição necessária e cara, que poderia ser otimizada, a supraconsciência terrestre vai emergir e dar um jeito no estado. Vai dar um jeito em tudo. Bateu o bode. A comida pesou, vou dormir. Amanhã decido se reparto com os Barros ou não. Certas grandes distâncias diminuem com o passar dos anos, abismos gigantescos podem ser cruzados com um passo. Eu acredito no poder do amor. Vou comer o resto das tortinhas de limão, encher meu último copo de Coca, fumar o meu último cigarro e vou dormir.  

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

ESVAZIAMENTO




17h50. Sinto que estou morrendo. Sei que a cada dia morro 24 horas, mas não falo disso, tampouco dos dentes que caem ou das dores do corpo, falo da morte de quem sou, da minha identidade, do esvaziamento do eu. Cada dia há mais nada em mim, fico mais oco, mais insensível, as vontades vão rareando e se tornando murchas, é como se o processo de demência começasse e o percebesse claramente por estar sempre tão atento a mim. Talvez seja isso, a demência avançando lenta e incessante, chegando mais cedo do que supunha, pois supunha viver coisas que ainda estão por vir com a alma plena. Alma me falta e com ela os sentimentos se embotam e isso me frustra, me assusta. Pode ser um sentimento ilusório que crio para me enganar ou mascarar coisa mais profunda e mais feia que a cara feia e velha da demência. Não sei, foi esse pensamento de que cada dia o que eu sou diminui que trouxe da terapia e que me trouxe até esse momento de pô-lo no papel eletrônico. Já pus. Preciso fumar e tomar Coca gelada. Talvez esteja apenas subnutrido e isso me traga apatia. Apatia: esse é o maior sintoma do que eu sinto. Por mais que tenha tido um momento intensamente luminoso quando senti por um lampejo o que julgo ser o sentimento de amor paternal pelo meu sobrinho mais velho. Foi muito forte e intenso, um empatia superior, uma admiração e um orgulho singulares, um afeto gigantesco e diferente de todos os afetos que já senti. Tão forte que assustador.

18h15. Não queria, entretanto, ter uma alma tão agitada e irrequieta quanto a da minha cunhada. Um eterno desassossego um perene desejo de estar em movimento, se ocupando. Não tenho essa urgência de viver, ou de viver em urgência, fujo disso, quero paz e mais do que paz quero amar. Prefiro a calmaria, mas odeio o tédio tanto quanto o estresse, minha sanidade está toda nas palavras, feitas mais de luz do que vento, como diria o poeta. Se pudesse agradeceria ao meu sobrinho por tudo o que me ensinou. Pensando bem, acho que não faz mal agradecê-lo por isso. Vamos ver para onde a minha (pouca) alma se inclina. Estou com medo de Blanka, desejo sua nudez logo no começo do encontro, pois acho convidativa e encorajante. Talvez ela fique desconfortável com o fato a priori, mas espero que se acostume rapidamente com a condição. Talvez se me fizer nu e mostrar a mediocridade do meu pênis pequenino e murcho, ela se sinta mais à vontade. É justo que exija a minha nudez em troca da sua, me verei sem alternativa senão aderir. Talvez não faça exigência alguma apenas se faça nua. Queria que ela sentisse necessidade de mim, que eu conseguisse criar essa necessidade nela. A verdade é que tudo me assusta, me tornei uma criança de 41 anos encolhida em seu quarto de brinquedos que escreve para se sentir válido. O que não deixa de ser irônico pois o que eu escrevo não vale nada para outro(a) além de mim. Minha mãe disse ontem que meu irmão é uma pessoa melhor do que eu. Tal colocação, por mais que concorde com ela, assim posta com todas as letras pela minha mãe, me fere. O que posso fazer senão aceitar e seguir sendo o pior dos três? A resposta é nada. Esse nada que me invade e me preenche e me domina. Esse nada que é como a noite chegando e engolindo o dia dos meus dias.

18h54. Voltei um pouco mais otimista levado pela felicidade da minha mãe e de Maria por terem meu irmão e família aqui. Felicidade que compartilho, mas que, me isolando aqui, desperdiço a oportunidade de usufruir. Mas por ora sinto a necessidade de estar aqui.

19h32. Fui convocado a chamar um Uber para a fantástica faxineira. Acho que vou tirar um cochilo para ver se ao despertar volto uma pessoa diferente da que foi dormir.

22h40. Acordei e todos já se retiraram. Tomei meus remédios e não sei se eles me darão sono ou fome, pois comi o restinho das linguiças toscanas fritas que deixaram para mim em cima do fogão. Não vi nada dentro da geladeira que parecesse comida para mim. Estou bebendo guaraná, a Coca acabou. Faith No More não está agradando, vou tentar minha sorte na roleta do modo aleatório do Spotify. The Cure, muito melhor. Vou zanzar pela internet enquanto há atividade no maravilhoso mundo dos bonecos.

-x-x-x-x-

10h34. Acordei há algum tempo, mas só agora me sinto suficientemente desperto para escrever aqui. Minha alma continua meio desalinhada de mim e nesse desencontro não me sinto num todo bem. Alguma coisa me falta ou está em excesso. Acordei tendo em mente a comparação que mamãe fez entre eu e meu irmão, me marcou como ferro quente no gado, indelével. Se tivesse que fazer a escolha de Sofia mamãe não teria muita dúvida. Ou dúvida sequer. Não importa, eu mesmo já o sabia, meu irmão é uma pessoa iluminada, eu tenho meu lado negro, nigérrimo e um passado da mesma cor ou ausência completa desta. Ultimamente eu cometi alguns deslizes, meu irmão é antiderrapante, então não há nem como querer alcançá-lo, nem é do meu intento. Já foi, mas desisti. Cansei de me comparar a meu irmão, pois não há comparação. Ele é limpo, puro, eu sou sujo e impuro. E cada um que se aceite do jeito que é. E tente ser aceito do jeito que é.

11h43. Estou meio intrigado/chateado com o meu irmão, pois ele disse que não faz diferença para ele se eu for com ele deixar Maria em Natal ou não. Se a minha presença é indiferente para ele, que seja, vá sozinho. Hoje não estou de muito bom humor. Ademais, Maria disse uma coisa que faz sentido, eu me sentiria cansado para sair com Blanka na sexta. Acho que vou deixar de frescura e passar um tempo com a minha família na sala. Antes, entretanto, café e cigarro.

11h59. Não consegui. Olhei para a cena e não vi lugar para mim. Estava completa com a minha ausência. Não sei o que quero da vida hoje, tenho a alma agoniada. Talvez seja café em demasia. A pizzaria abriu, tenho que esperar minha mãe dar uma pausa na curtição com os sobrinhos para pedir-lhe o dinheiro para as Cocas. Terei que ir consertar o meu dente quebrado na dentista às 16h, preciso preparar a minha alma isso. Minha alma está amplamente desamparada, desmotivada e agoniada, estou desconfortável em ser nesse estado e nessas condições. Vou tentar me aproximar da família uma vez mais, não posso ficar aqui alimentando e remoendo angústias existenciais.

12h29. Fui à sala e deixei-me ficar observando aqueles seres existirem ocupados com o que se ocupavam e minha presença pouca diferença fez ou eu não quis me intrometer no que faziam, pois nada me interessava de fato. Peguei o dinheiro com a minha mãe para as Cocas. Falta-me ânimo para ir. Mas vou. Agora.

13h09. Cruzei com a minha tia-vizinha duas vezes nessa minha ida à pizzaria, achei que meu irmão me tratou com desdém, a verdade é que estou muito sensível a tudo o que tange o meu irmão depois do comentário da minha mãe. Mas acho que ele foi meio rude comigo. Por duas vezes já. O melhor é ficar aqui no quarto se sou tão dispensável para ele. Em todos os âmbitos da minha vida eu sou dispensável. Quase inconveniente. Ou deveras inconveniente. Sei lá e pouco se me dá. Aliás fere para caralho, mas eu suporto, se foi isso que escolhi e se é assim que encaram as minhas escolhas. Não quero conflito.

13h21. Respirei fundo e fui questionar se o meu irmão estava com raiva de mim, ou cansado de mim. Ele disse que não e que meu complexo de inferioridade estava ozzy. Me sinto melhor. Talvez a rudeza venha da sua exaustão, não de um enfado com a minha pessoa. De toda sorte não estou em paz comigo mesmo e não sei por que isso se dá. Pensei em dormir, mas lembrei que tenho a dentista logo mais. Eu estou com medo de encontrar com Blanka, me sinto muito distante dela, sem intimidade suficiente. Hoje estou trancado dentro de mim, avesso ao mundo e às pessoas. Estou como já disse agoniado, perturbado por algo que não tem, nome ou definição, ou causa que eu reconheça.

13h55. Hoje só estou dando bola fora, ofereci o meu quarto para a família do meu irmão dormir no ar condicionado e sem marteladas e minha oferta foi amplamente rejeitada. Que seja. E é. Sigo em frente, pois não há outra direção a seguir. O melhor é permanecer recluso aqui no quarto e não atrapalhar ninguém, pois a mim me parece que é a única utilidade que possuo. Não gosto de me sentir inútil, mas é exatamente o que sou. Acho que preciso de um filho para me sentir útil e verdadeiramente importante para alguém. Para sentir o que senti pelo meu sobrinho, no lapso supracitado, indefinidamente. Tenho medo. Já estou acostumado a ser inútil. É um sentimento forte demais o amor por um filho, assusta, intimida, me rouba de mim. Deixa para lá. Minha própria mãe rejeita a ideia de eu ser pai. Me acha incapaz disso. Sou realmente visto e posto como inútil. Dói, mas é muito mais fácil viver assim. Prefiro a vida fácil e a dor eu tiro no papel, já sofri dores colossalmente maiores, essa de não prestar para nada é café pequeno. Deveria estar celebrando, mas estou triste. Meu amado irmão está aqui com a sua amada família, vou ver Blanka provavelmente na sexta. O problema não está fora, mas dentro de mim. Acho que vou comer para ver se melhora. Sinto que meus sentimentos estão muito ligados ao que se passa no meu estômago e há dias não me alimento bem.

14h58. Comi e isso me deu vontade de dormir, mas está quase na hora de ir ao dentista. Saco. Vou tomar mais Coca e fumar mais um cigarro. Depois banho e dentista.

17h03. Voltei do dentista onde encontrei uma colega de CAPS e de internamento no Manicômio, altamente lentificada (ou dopada) de remédios. Vendo o estado dela, relembrando de todos os adultos com dificuldade de adequação à realidade tal como se dá, refleti sobre a minha atual situação e me vi muito bem. Meu problema era (e ainda é) que não gosto de ser adulto, das responsabilidades e obrigações e burocracias e hierarquias e estresses e pressões e cobranças que a vida adulta implica ou implicou para mim. Entretanto, precisava arrumar alguma forma de ganhar dinheiro sem me submeter a nada disso. Após tentar fugir da vida adulta e da depressão profunda me afundando na cola e tentativas de suicídio, depois de vários internamentos criei um histórico clínico que me permitiu pleitear e conseguir ser considerado civilmente incapaz, ou seja, me livrar de tudo que odiava em ser adulto e ainda ter direito a parte pensão do meu pai através da curatela. Com renda garantida e a certeza de que nunca mais me verei só no mundo, fiz do meu quarto o meu mundo e das palavras a minha ocupação. Tomo várias medicações, é verdade e também é verdade que elas têm os seus efeitos colaterais, mas não sofro mais, posso ser a eterna criança, com direito até a coleção de bonecos. Redescobri a felicidade de existir perdida na juventude. É claro que isso faz de mim uma pessoa esquisita que ocupa um lugar que não é facilmente compreensível para a sociedade, visto que é uma condição nova e singular para muitos, senão todos, essa de velha infância que vivo. E agora quero incluir na minha vida uma pessoa adorável e para lá de peculiar que minha mãe terá muita dificuldade, como demonstrou e demonstra, de aceitar que é Blanka. Minha psicóloga, Ju, quer tentar me fazer mais adulto respeitando as minhas limitações e fobias com essa condição, aliás, minto, acho que isso sou eu quem quer alcançar. Ela só quer que eu viva uma vida feliz da maneira que eu achar mais conveniente. O lado negativo é que carrego culpas enormes, que nem sempre são tão grandes e muitas vezes nem são verdadeiras. Ela quer acabar com esse autossadismo essa mania que eu tenho de me rebaixar e me ferir e me punir. Quando a noite é minha e todos dormem, as culpas dormem também. Por isso vou dormir agora para ter o máximo possível de madrugada para mim.

19h27. Me deparei com a minha limitada, pois a estou achando bastante limitada no momento, realidade e me veio misto de leve angústia e tédio. Vai ver que enquanto dormia sonhava com searas mais amplas. Pensei num microconto de ficção científica, mas estou com preguiça de transcrevê-lo. Tinha a ver com carros autônomos, viagem no tempo e choque de realidade. Vou contar. Vou não, não agora. Agora estou sem disposição de muita coisa. Só sei que não quero voltar a dormir. E agora que percebi que estou na quarta página. Não sei se a teoria da velha infância tem algum fundamento ou é só uma crença que tenho, de que aproveitei tudo de ruim que me aconteceu na vida e reverti a meu favor, toda a dor e sofrimento existencial transformados em liberdade do sistema em que estou inserido. Liberdade quase total, pois o sistema invade meu quarto-ilha pela internet, pela rede elétrica, pelos bonecos, pelas próprias paredes que me encerram do sistema, mas só entram as partes dele que me interessam. Só uso do sistema o que necessito e me apraz e raríssimas vezes o que outros necessitam que eu faça. Ninguém precisa de mim, à exceção da minha mãe, a manifestação inteligente do sistema que gerencia a minha vida. Criei um vínculo de dependência com ela. E ainda me dói ter ouvido que sou pior que o meu irmão. E sempre vou ser. Ou a parte do sempre em que eu existir organizado como esse ser que digita mazelas e amor para ninguém. Um idiota, tão idiota que ousa falar de sistema. Se falo preciso definir o que é sistema. Acho que sistema é o conjunto de ações, construções e invenções concretas e abstratas do formigueiro humano que chamamos de civilização. Inclusive dos ditos não-civilizados. Sei lá, entende?