sábado, 3 de dezembro de 2011

Olhinhos Borbulhantes

(Continuação de Fumaça.)



Um ser absurdamente enormedálico com longas barbas rosas, boca de escaravelho e coração de mentira de pescador conversa, através de bolhas de sabão – também rosas – com o menor dos habitantes do planeta; ironicamente o de maior coração:

- E então, pequenino, o que andas borbulhando?
- Borbulhei uma juaneta encarnadíssima nesta última lua. Meu coração ficou azul chocolate e agora não consigo bater asas sem que minhas células acendam seus olhinhos.
- Uma juaneta?! Como se digna a isso? Logo você que é um ser de porte tão ridículo e honra tão insignificante! Merecia coisa melhor...
- Ah, mas essas borbulhas não escolhem que calos estourar, elas calabriam sem que a gente possa fazer qualquer supino. Quando me dei conta de subtração, a juaneta já tinha me multiplicado inteiro e me lambuzado de cheiro de mel. Ai, meus olhinhos! Ai, ai! Não consigo nem dormir.
- Que insereno, ser infinitesimal. Eu, por outro lado, engoli meu caleidoscópio de esmeraldas ao mergulhar naquele oceano de pétalas onde eu caibo. Estava tentando amassar elefantes para marfinizar o caleidoscópio e pronto! Engoli aquele transatlântico cilíndrico. Agora tenho que arrancar meus olhos e engoli-los para poder ver as pedrinhas girar. O chato é ter que lavá-los depois que saem.
- Ó, gigantesca aberração, não queres que te ajude a resolver tua esverdeada e descomunal problemática?
- Como farás isso tu que quase não tens tamanho?
- Por isso mesmo, monstruosidade monstruosa. Eu entrarei pelo teu sangue e, ao chegar na enormidade pulsante que habita a tua peitorra, resolverei o teu alarde com espirros dos meus olhinhos.
- Idéia péssima não me parece. Vem, miudúnculo, podes entrar. Mas cuida que não quero borbulhas de juaneta dominando meus sonhos.
- Pode deixar.

Sem que a besta de barbas rosa se apercebesse, o ser medíocre de grande coração puxou a juaneta detrás de uma vulconinho e entrou com ela pelo buraco de lágrimas-lágrimas do monstro. De lá pegou um desvio para a estrada de lágrimas vermelhas e chegou ao pulsador da besta. Viu lá o caleidoscópio e, em vez de expeli-lo com espirros como havia prometido, resolveu fazer daquele enorme vazio de carne viva seu lar, onde podia, com a juaneta, passar as eternidades olhando o caleidoscópio e cantar. E, ao ritmo do tum-tum-tum ensurdecedor, criaram divinais canções sobre todos os desenhos de esmeralda que se formavam naquele retumbar. Canções que se espalharam embeviçantes por cada fibra do corpo colossal e por cada fio da barba quilo-homérica do dono do caleidoscópio. Canções mais olhinhos-borbulhantes que qualquer coisa que o dono do gigantesco oco percussivo jamais havia borbulhado.

E vivem os três juntos até hoje, esmeraldados, embevecidos e repletos do que, aqui no nosso mundo, chama-se de felicidade. E assim o mel escorreu.

XXXXX

Pareceu-me forçado esse texto. Apenas uma alegoria usando palavras inventadas e outras misturadas para gerar um nonsense com senso. Não era bem o que imaginava, não foi nada disso que os meus colegas escritores alcançaram por resultado. Vou tentar de novo. Vamos ver:

Fios de luz. É como se fios de luz irradiassem de mim, do meu peito e ainda mais dentro, da alma para iluminar o universo que meus olhos enxergam e meus sonhos alcançam. Fios como os do violão que toca uma nova canção, uma canção alegre, iluminada pelo sorridente luar de uma noite alegre e pacífica. Tudo isso porque algo mudou em mim. Surgiu uma nova cor, um novo acorde, um novo brilho.

Não, não é nada disso! De novo!


Tirei um ás de ouros. Na vida sempre há um ás a ser tirado. Não há desgraça que sempre dure, nem morte que não espere até um às de ouros chegar. Eu busquei a morte e cultivei meu azar, mas tudo isso foi em vão. Tenho agora um às de ouros nas mãos. E uma vida toda para ganhar. O tempo perdido, perdido está. Não importa, os sonhos acordaram, a lua sorriu, meu amor está ali depois daquela curva e eu me tenho uma vez mais. Larguei mão das desgraças, sou novo de novo, tirei um ás.

Acho que agora ficou mais o que eu queria. Tá bom. Fico eu por aqui.


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