segunda-feira, 10 de setembro de 2018

DIA DE TERAPIA

1h17. O subterfúgio. Nem muito nem tão pouco. Sabe qual o álbum duplo eu colocaria como melhor depois do Álbum Branco? Mellon Collie & The Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins. Talvez para parecer descolado eu colocasse em terceiro o London Calling do The Clash, mas tenho que admitir minha pobreza musical e meu gosto pessoal e colocar Rattle & Hum do U2, antes até do Álbum Branco. Certamente foi um dos discos que mais ouvi na vida, em vinil ainda, na minha primeira adolescência, época mais marcante da minha formação musical, onde mantive o que gostava do que meu pai colocava e buscava novos sons. Os meus sons. O Rattle & Hum é uma pedra basilar dessa formação, toda a ideia que o encarte me passava da banda, com suas fotos em preto e branco, toda a experiência que o vinil me proporcionava, além de ser um filme que assisti no cinema e no cartaz dizia “a maior banda do planeta”. Eu pensava que a banda maior do mundo era o A-Ha à época. A experiência de assistir aquele filme no cinema foi marcante para mim, tanto que até hoje assisto, tive em VHS, em DVD e agora tenho em Blu-Ray e acho que nunca vou passar à definição posterior ou posteriores. Quero que a minha TV dure a vida toda. Por sinal fiquei de botar Mellon Collie para ouvir. Vou fazê-lo. 

1h32. Porra, botei o último disco deles para escutar e a primeira música é invocada. Ouxe, a segunda parece a primeira, pesadona, deu uma acalmada, estou gostando. Devo ser um dos poucos. Estou achando bom. Como experiência musical nova. Muito válido. Vou fumar um cigarro. A terceira é fraca.

1h49. Estou de volta, pensava sobre o post de bonecos que publiquei agora à noite. Não vai ter muitas visualizações, eu assumo. Ah e enquanto fumava me deu vontade de jogar Call of Juarez. Acho que vou fazer isso.

-x-x-x-x-

13h42. Novo dia com Ju, o que sempre é bom. Não sei se vou aceitar o convite de ir ao restaurante nessa quarta. Descobri que estou sem superlikes no Tinder, acabou-se o meu poder. Pelo menos dei para as garotas mais belas que encontrei. Ainda está passando o mesmo disco de Smashing Pumpkins desde ontem. Ainda bem que tenho algum tempo para preparar o meu espírito para mais um encontro com Ju. Há bastante café, a irmã da fantástica faxineira está aqui hoje a ajudá-la. Não se parece em nada com ela. Suponho que seja uma irmã mais velha. O anjo do Tinder não deu match em mim. Espero que dê.

14h07. Dentro em breve tenho que estar pronto para Ju. Às 15h vou tomar banho. Ainda há tempo. Acho que a diferença de idade irá assustar o meu anjo. Que seja. A vida é assim. Existe o preconceito de idade, como eu tenho preconceito de idade em relação a garotas. Me arrependo apenas de não ter lido o seu perfil.

14h28. Fui fumar mais um cigarro. Vou dar um tempo maior entre este e o próximo, não me desceu bem. O café também não está descendo de forma pacífica, gerando certo desconforto. Nada comparado ao que me causou no dia da sensação de morte, mas acho que vou dar uma desacelerada também. Estou com a minha cabeça feita de que não irei ao restaurante com Ju essa semana. Não me sinto disposto ou preparado para isso. Odeio quando me falta assunto, me bate um pequeno desespero. Um “o que é que eu vou fazer agora da minha vida?” que não me agrada de forma alguma. Tal sentimento tem me assolado cada vez mais frequentemente. Meu alento nesse momento é que dei os superlikes para as pessoas certas, pelo menos esteticamente. Alento bobo de uma empreitada sem sentido. Acabou o café. Estou relutante em pegar mais. Acho que talvez apele para um copo de Coca com muito gelo e mais um cigarro. Como disse em algum momento, nalgum post, depois de um longo hiato eu publiquei no blog de bonecos e o post está com mais de 500 visualizações. Dificilmente alcançará mil. Mas sigamos torcendo. O dono da XM, a empresa sobre a qual escrevi, elogiou o meu post e achou que foi positivo para ele (para a XM) isso talvez alavanque as visualizações um pouco. Acho que vou pegar essa Coca com cigarro. 14h43. Dezessete minutos para me aprontar. E o teclado insiste em colocar espaçamentos duplos. Que irritante.

14h51. Um copo de Coca e nove minutos até a entrada no banho. É interessante que, à medida que a hora se aproxima, uma resistência em mim vai crescendo como uma onda. Mas sei que estarei lá em Ju às 16h. Lá é um espaço para ser eu mesmo. Eu tenho que introjetar que eu posso ser eu mesmo em qualquer lugar. Mas nenhum me é tão acolhedor, compreensível e amigável quanto diante de Ju. É certo que ela vê o mundo de um modo um tanto mais espiritualizado, por assim dizer, que eu, mas isso é o de menos. Ela valoriza demais a conexão corpo espírito e eu sou bruto demais para tais sensibilidades. Três minutos me separam do banho. A Coca já se foi. O que mais queria? Que a última que dei superlike me curtisse de volta e pudéssemos nos amar. Malditos espaçamentos duplos. Não sei como escrevi tanto desde que acordei. E não disse nada. Hahaha. É o meu espaço, é a minha vida, o meu ofício, que seja assim.  Também não achei o texto do blog de bonecos legal, mas estão lendo. É curto e cheio de imagens. 15h. Hora de tomar banho, enfrentar o mundão e Ju.

-x-x-x-x-

PÓS-TERAPIA

Ju me deu um dever de casa. Ela disse que eu o fizesse independentemente do blog, mas a desobedecerei nesse quesito, pois em nada mudará o que quero dizer se escrever aqui ou numa folha em branco. Não me incomoda que minha mãe ou quem quer que seja leia. Não busco causar impressão, apenas deixar as minhas a respeito de mim e da existência que me cerca. A tarefa consiste em elucubrar a respeito de dois postais que montei durante a sessão, respondendo a três perguntas. Por mais que não esteja com a mínima disposição de fazer isso, o farei. Acho que estou com uma resistência sobrecomum em relação ao que me é imposto de fora, o que não parte de mim. Mas vamos lá.





Quando olho a imagem

Eu vejo... Um autorretrato, uma pessoa que não consegue enxergar o óbvio, que a existência é bela e está aí para ser aproveitada o mais plenamente possível, não para ser desperdiçada trancado dentro de um quarto escrevendo caraminholas. Os braços de metal, mostram com a eloquência de mil palavras a dificuldade que tenho para enxergar a vida de forma positiva. A boca com musculatura constrita é similar à minha própria nos meus piores momentos.

Eu sinto... um profundo dissabor, uma desesperança, sinto que a minha situação é insolúvel e isso dói, pois não sei quanto tempo suportarei isso. Sinto que sou eu que estou fazendo isso comigo e que não sei parar de fazer. Sinto que estou condicionado demais para que qualquer mudança seja possível. Me sinto mal, fracassado, tendo tudo e fracassando de posse disso. Sinto que sou um covarde que se apieda de si mesmo e não consegue sair desse papel de coitadinho. Otário. Burro. Ser odioso e mesquinho e débil.

A imagem me aconselha a...  me matar, pois não há solução para o meu caso. Mas não vou seguir o seu conselho. Não quero e não consigo. Há algo que ainda me prende à existência, há eventos por vir que mantém o interesse em enfrentar esse infortúnio que é ser eu. Por exemplo, ter o meu quarto remodelado com todas as minhas figuras expostas. Ela também me diz que eu não tenho força para retirar as traves diante dos meus olhos e que isso não é possível, não para mim que não possuo força para dobrar canos de ferro. Se fosse me dar um conselho construtivo seria o de que eu estou olhando para a direção errada.





Quando olho a imagem

Eu vejo... o buraco negro e insólito em que me meti e que talvez só consiga sair dele quando for tarde demais, quando estiver velho demais, quando muito pouco me restar, quando a minha qualidade de vida já estiver comprometida. Pelo menos ainda me resta a esperança de sair. Hahaha. Mas tenho a sensação que só conseguirei fazer isso aos 45 do segundo tempo, desperdiçando um bocado de vida boa para ser vivida. Eu vejo que estou perdido, completamente perdido na floresta escura em que me meti, não sei mais sair dela. Desacreditei quase que completamente que saia. Deposito minhas esperanças em coisas absurdas como ayahuasca e uma namorada.

Eu sinto... que sou um merda, que alcançou tudo o que buscou e não se contenta com isso, alguém que reclama de barriga cheia, um ingrato com a existência, um ser deprimente com uma existência inútil. Sinto que me odeio. Sinto um profundo desânimo em relação ao futuro, em relação ao dia de amanhã. Eu sinto que tudo me agride e machuca como se tivesse me tornado hiperfrágil ou hipersensível. Tudo que não seja estar no meu quarto protegido e comigo mesmo me causa desconforto. Sinto que estar no meu quarto muitas vezes me causa desconforto também, mas mais suportável. Sinto que me fechei para o novo. Que o mundo está morto para mim, pois nada nele, a não ser jovens e belas mulheres, me interessa. Sinto que escolhi sofrer, mas não sei por que optei por essa escolha. Não sei por que me punir. Acho que por acreditar que tenho mais do que mereço e isso não me parecer justo, me martirizo e me apego ao que me prometi fazer, que foi escrever. Sinto a necessidade urgente de me dizer e de onde vem essa necessidade me é misterioso. Se não me disser, melhor desistir de tudo. Me sinto mal, perdido, pesado, velho, gordo, alienado, sinto que a hora de me abandonar já chegou há muito tempo, mas me agarro a essas palavras para me manter vivo.

A imagem me aconselha... a desistir pois nunca vou sair das brenhas em que me meti. Ou, sendo mais otimista, me aconselha a ter paciência e respeitar o meu ritmo. O meu ritmo me incomoda, a inércia é enorme, colossal. Me sinto burro por não conseguir progredir e sair da porra da floresta. Antes tarde do que nunca, a imagem me consola. Bem, assim espero, imagem.

18h59. Pronto. Dever de casa cumprido, com o máximo de sinceridade de que sou capaz, agora vou fumar um providencial cigarro com Coca bem cheia de gelo que eu mereço esse agrado depois de um desabafo tão indigesto.


19h09. Interessante. Depois que botei tudo para fora me sinto melhor. E a terceira página acabou. Vou escanear as imagens para postar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário