sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

ROTINA




Algo em mim está descontente com a existência, desgostoso com a minha vida, por mim, poderia morrer agora. Não há mais nada a ser visto, nada mais a ser feito que desperte algum interesse. Nem as minhas amadas bonecas porvir, nem Blanka, nem a reforma do meu quarto. Talvez um copo de Coca gelada. Vou tomar um banho, às vezes me faz bem. São 16h19, sou eu em leve estado depressivo. É chato, incômodo, sofrido, sem razão aparente. Ao banho.

17h04. Se não volto o mesmo, não volto muito diferente. Pelo menos estou mais conformado com a minha realidade dentro do quarto-ilha com as minhas palavras. Me deu vontade de mandar um alô para toda a galera da pizzaria onde compro as Cocas que se dispuseram a ler o meu blog, me sinto honrado, prestigiado e contente com o interesse pela minha medíocre pessoa. Espero passar aí assim que mamãe acordar para comprar mais duas Cocas. Rapaz, realmente não estou num dia bom. Não consigo entender, pois não consigo achar a causa. Olho para a base da estátua da Red Sonja, que também foi danificada na vinda dos Estados Unidos, e a acho horrível, uma das piores, mais feias e menos inspiradas bases de todos os tempos. A Red Sonja compensa imensamente esse pecado e acho que vou acabar apelando para a minha tia-vizinha para consertar, visto que o restaurador que encontrei pelo Google não me responde.

17h22. A internet está dando pau. Especialmente os serviços da Google. Curioso e irritante.

17h43. A internet voltou a pegar pela rede de mamãe, que aparenta ser lenta. Não canso de olhar para a base danificada da Red Sonja e pensar na oferta da minha tia. Acho que é a ânsia que tenho de resolver as coisas o mais rápido possível. Talvez o restaurador seja a opção mais acertada e esperar o seu contato o mais sensato. De um dos dois para os quais mandei mensagem.

19h48. Apelei para a minha tia-vizinha, apostei nos seus dotes de restauradora de arte, mesmo que pop art. Não aguentei esperar por resposta que não vinha dos profissionais. Ela ficou de arrumar Superbonder para seguir na reparação, mas já colocou uma das falanges da mão da Pequena Sereia. Nossa, muito bom estar na companhia dela, tem um astral muito positivo. Por falar em astral, o meu está bem melhor. Acho que era a solidão que me oprimia e onde volto a mergulhar, um pouco mais confortável com a condição.

20h41. Meu irmão chegou com a turma toda e minha cunhada me convidou para acompanhar dois casais – ela e meu irmão e sua irmã e o marido – ao sushi. Embora tenha encarado a ideia com acanhamentos e estranheza, acho que vou ceder ao convite.

0h07. A noite foi bem mais agradável que o restante do dia, a começar pela convivência com a minha tia-vizinha, depois o sushi, onde soube dos incríveis investimentos imobiliários do pai da minha cunhada, finalizando com mensagens de Blanka, que se importou comigo mais do que poderia imaginar. Tudo corroborou para um dia que valeu a pena ser vivido, apesar do desconforto emocional que me acometeu em sua maior parte. Não estou com saco de escrever. Blanka está menstruada e sentindo as fortes cólicas que a acometem nesses períodos, como havia me contado anteriormente. Amanhã disse que conversa melhor comigo. Não quero sair com ela sentindo cólicas, não me incomoda a menstruação, mas a dor rouba parte de Blanka, que não estará por inteiro se estiver sofrendo por dentro.

-x-x-x-x-

11h50. Há algo de deprimente em acordar e vir sentar diante desta máquina, algo que me faz questionar se isso não seria muito pouco. Vou fumar um cigarro. Com café frio de ontem.

12h19. A turma subiu da piscina, eu me isolo. Acordei pensando em Blanka. Nossa, como é difícil para mim, bicho antissocial que me tornei. Ainda bem que o desejo de a encontrar prevalece.

12h45. Meu irmão e família estão indo para Aldeia. Detesto despedidas. Tomara que mamãe faça realmente café.

13h09. Eles já foram. Mamãe fez café da máquina de expresso, portanto apenas uma xícara. Não sei como escreve “expresso” na grafia italiana, acho que é diferente.

13h21. Pronto. Acho que agora não serei mais incomodado. A não ser pela lentidão da internet. E preciso da internet para me comunicar com Blanka. Tive outra crise de sonambulismo ontem. Não sei se o termo é esse, pois estou metade acordado, metade dormindo, oscilando entre a consciência e inconsciência dos meus atos.

13h33. Olho para a tela e não me vem nada para dizer, é uma situação diferente para mim que sempre tenho algo a dizer, visto que não deixo de pensar e escrevo o que penso. Me deixei prestar atenção na música, Pretend We're Dead do L7. Penso em Blanka e na internet, penso em fumar um cigarro também. É o que vou fazer. Talvez botar café para fazer.

14h03. Planejo cortar o cabelo e fazer a barba hoje. Esperar a minha mãe acordar. A vontade que tenho é dormir também. Não posso depender de situações exteriores para estar bem comigo mesmo. Fato é que esse tem sido o caso nos últimos dias. Tenho que me conscientizar que pelo menos por 300 dos 365 dias desse ano, serei eu só com as minhas palavras e que isso tem que me bastar. Não é um pensamento agradável, mas já tive piores, já cortejei a morte e mais de uma vez quase caí em seus braços fatais. Nossa, o meu quarto foi invadido por um barulho advindo de alguma máquina de alguma das reformas que estão se dando no prédio, em andares próximos ao nosso, além da troca da cerâmica que reveste o edifício, que gera marteladas ao longo de todo o dia. Aos que se perturbam com barulho isso se mostrou um impedimento para o sono. A mim, pouco se me dá o barulho. Vou fumar um cigarro com Coca bem gelada e me deitar.

14h37. Coloquei mais um copo de Coca. Vou reiniciar a máquina, o Chrome está com algum bug. Já bebi o copo de Coca todo. Vou reiniciar e me deitar. Bem, antes acho que vou fumar mais um cigarro com Coca.

15h05. Ao me deitar, senti que dormir era uma atitude inútil e deprimente, de entrega, não era a minha vontade. Ao ir fumar o supracitado cigarro dei de cara com a empregada da casa do meu amigo cineasta que veio me entregar o livro do meu amigo escritor que o cineasta havia levado por engano. Acredito que lerei. Há poucos minutos recebi a ligação do restaurador, que disse que poderia vir no domingo aqui para ver as peças. Terei que falar com mamãe a respeito disso. Blanka disse-me ontem que poderia entrar à tarde ou à noite para conversar comigo. Se mamãe topar o restaurador e Blanka falar comigo o resto do dia promete ser bom.

15h35. Fui fumar e mamãe acordou (temporariamente), falei com ela a respeito do restaurador e ela já ficou preocupada com o preço. Disse-lhe que faria tudo com ela e só aceitaria o serviço caso ela estivesse de acordo. Combinei também de fazer a barba e o cabelo e comprar Coca, que acabou. Vamos ver o que o acaso-destino me trará. Enquanto isso projeto.

16h01. Falei com o meu amigo cineasta pelo WhatsApp Web, mas a internet está um bosta. Que saco.

16h14. Este seria o horário ideal para ir cortar o cabelo e comprar as Cocas, mas mamãe dorme e não quero perturbá-la. Quanto à internet, melhor esquecê-la por ora. Meu padrasto está ocupado, não vai comprar briga com o provedor por minha causa agora.

[15:46, 1/11/2019] Amigo cineasta: vcs foram para areias?
[15:47, 1/11/2019] Mário Barros: Fomos. Foi massa, mas fomos com uma prima que gosta de beber, então não aproveitei muito a companhia dele, do que me arrependo.
[15:48, 1/11/2019] Amigo cineasta: saquei. mas aproveitaram o passeio ao menos
[15:48, 1/11/2019] Mário Barros: Sim, sim. E o lugar maravilhoso, palco de tantas memórias. E trouxemos Maria conosco. Foi bom.
[15:49, 1/11/2019] Amigo cineasta: que massa
[16:17, 1/11/2019] Mário Barros: Interagi melhor com meus sobrinhos, isso também foi bom. Não esperava isso de mim, mas eles me cativaram de alguma inexplicável maneira.
[16:21, 1/11/2019] Amigo cineasta: crianças têm esse dom
[16:22, 1/11/2019] Mário Barros: Acho que eles atingiram uma idade com a qual consigo lidar. Especialmente o mais velho, que é uma pessoa de um otimismo incomum.
[16:23, 1/11/2019] Amigo cineasta: foi o que estava mais discreto no dia da piscina
[16:25, 1/11/2019] Mário Barros: Confesso que no dia da piscina a mágica ainda não havia se dado. :P

20h27. Dormi. Acordei me sentindo meio febril, mas acho que é ilusório, excesso de cama. Nada de Blanka até agora. Talvez Dande ainda esteja com ela. Quem saberá? Estou curioso a respeito do restaurador. O pessoal da pizzaria onde compro as Cocas é sempre muito gentil e afetuoso comigo, é bom ir lá, me faz bem. Não consigo imaginar quantos leram o meu blog ou se algum continuará lendo. Não importa, foi a recepção mais calorosa que meu texto já recebeu. Houve quem dissesse, por falta de adjetivo melhor, que o texto era “interessante”. Blanka disse que lia, mas isso foi no começo, duvido que o faça hoje em dia. Nossa, tomar Coca já gelada com gelo é uma delícia. Acordei com um astral melhor, mas queria ter feito a barba e o cabelo hoje. Faço na segunda. Estou mais gordo do que jamais fui e nunca comi menos, aliás, já: quando da minha dieta somaliana leve no período do CAPS. Consegui perder entre dez e doze quilos. A maioria das minhas roupas não cabe mais em mim. Há camisas que adoraria usar e que simplesmente tornaram-se insuportavelmente apertadas de vestir. Ou, melhor dizendo, eu me tornei demasiado rotundo para entrar nelas. Lembro-me, quando dessa perda de peso, que olhava para os mais gordos com desdém, tomado de superioridade por perder o peso que eles não conseguiam, apenas comendo pouco, muito pouco, uma refeição dia sim, dia não, ou algo do gênero. Hoje me acostumei a comer uma vez ao dia, mas comer muito, tarde da noite, movido pela fome que os remédios me dão. Vou fumar e acabou-se a terceira página.

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